Quase cinco décadas permaneci afastado de minha
família. Na minha casa era assunto tabu. Havia exceções tão inexplicáveis
quanto os motivos do estranhamento e da desunião, mas de resto permaneci tão
isolado e me acostumei a ter uma família tão nuclear que me tornei um
misantropo. Gostava de dizer que meu ideal na vida era me mudar para as Ilhas
Falklands - desde que continuassem britânicas, claro.
Há cerca de dois
anos, porém, recebi um telefonema de uma das minhas tias; para não expor nomes,
deixem-me chamá-la Emília - como a boneca de Monteiro Lobato - com quem se
parece em espírito e jeito; ela, então, me disse:
- Eu sou sua tia, apesar de vivermos distantes,
sempre pensamos em sua mãe e em você e queríamos conhecê-lo e reunir outra vez a família.
Mil reflexões em um segundo. Não saberia
exprimir a todas. Decidi pela união e pela harmonia, como ensina o Rei Salomão:
"Há astúcia no coração de quem trama o mal, mas para os conselheiros da
paz há sempre alegria" (Provérbios, 12,20).
E foi exatamente isso que encontrei.
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