BH
Os marranos estudaram seus novos deveres com afinco, depois de algum tempo, passavam-se por católicos exemplares. Surgiam, porém, novas dificuldades: como continuar cumprindo as Mitzvot? Como descobrir o início do Shabat? Como guardá-lo, sem levantar suspeitas? Como celebrar festas em datas irrelevantes para os cristãos? Como rezar do jeito certo? Como acender velas sem se denunciar? Como fazer o brit! (1)?
Muitos marranos, em busca de discrição e segurança, optaram por se embrenhar no sertão. As necessidades da nova vida, então, se impuseram, e moldaram o caráter do marrano; ele se tornou reservado, desconfiado, arredio, desagradável de trato, misantropo.
Fugiram primeiro para os engenhos, e de lá, para o agreste de Pernambuco, depois para o sertão, por onde alcançaram a Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará. Os costumes da Lei eram transmitidos verbalmente de pai para filho, de mãe para filha, e também os medos.
“Menino! Apontar para as estrelas faz nascer verruga na ponta do dedo!”.
“Meu filho, reze sempre voltado para o nascente e cubra a cabeça ao rezar. Quando chegar nessa parte, cubra os olhos”.
“Minha filha, no fim da tarde de sábado, tire tudo do armário e acenda duas velas lá dentro”.
Procuravam casar-se com conhecidos, o que nem sempre era possível. Quanto mais bem sucedido o marrano em sua arte, mais difícil se tornava identifica-lo. Exteriormente, continuavam a manifestar uma fé que não professavam, desconfiavam, todo tempo, de padres e principalmente de bispos.
Há registros de moças que, tendo-se acreditado boas católicas por toda a vida, descobrem na véspera do casamento – arranjado pelos pais com um rapaz marrano – que eram judias. Precisavam, então, em uma noite, aprender novas rezas e costumes para, no momento oportuno, transmiti-los à próxima geração de marranos.
Na minha casa não se comia carne de porco, nem carne mal passada. Minha mãe costumava acender velas e fazer orações em voz baixa pela manhã e à noite, porém, recebi uma ortodoxa educação católica: fui batizado, fiz primeira comunhão, ia à missa etc. Se for possível dizer que a propensão a fé se assemelhar a um gene, ou a um bit, acredito que, no meu caso, essa característica é dominante, quer dizer, esse bit esteve, no mais das vezes, ligado.
Nos próximos dias vou a Monteiro na Paraíba, retomar uma história há muito interrompida, por isso, permiti-me escrever um pouco mais hoje. Não sei se poderei tão cedo contar o que vou ver pela primeira vez, com meus próprios olhos. Memórias levam séculos para amadurecer.
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(1) B'rit Milá, circuncisão a que todo varão da casa de Israel se submete.
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