domingo, 2 de março de 2014

Continuação. 7 de n.

BH

Depois das batalhas de Guararapes, os dias dos batavos em Pernambuco estavam contados. Em 1654, a capitulação foi assinada, e estipularam-se as condições para a evacuação do invasor e de seus aliados – os judeus de Mauritstadt entre eles. Havia também nativos, índios de tribos aparentadas que participaram da guerra em campos opostos; há registros de discussões teológicas travadas entre caciques católicos e calvinistas.
As lideranças da comunidade judaica foram convocadas ao paço colonial, onde lhes foi comunicado o velho ultimato: conversão ou expulsão. O general-de-campo Francisco Barreto de Meneses, governador da autoridade lusitana restaurada, concedeu três meses aos judeus para resolverem seus negócios e deixarem o país – os espanhóis, sob Fernando e Isabel, foram mais generosos que os brasileiros...
Graças a D’us, bem antes da capitulação, a maioria dos sefaradim de Pernambuco voltara para a Europa, principalmente para os Países Baixos e de lá para a Bélgica, a Inglaterra e os principados da Baixa Alemanha.
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“Baruch Atá A’, E’ Melech HaOlam, Ashre” (1)...
Enquanto a oração prosseguia, mais pessoas chegavam à Sinagoga Tsur Israel, na Rua dos Judeus, em Mauritstadt.
Nuno Mendes, assim que entrou no Beit HaKnesset (2), sussurrou para José Saraiva:
– Quanto?
O outro, com os dedos, fez o sinal de três.
– Só!? Eu ainda tenho coisas para liquidar que vão levar mais do que isso...
– Devemos agradecer a HaShem podermos partir junto com os navios...
Sh!!!
Depois das orações, os lideres da comunidade abriram as discussões sobre os procedimentos da partida.
– Em primeiro lugar, a segurança das famílias. Façam provisões extras para as mulheres e crianças.
– Devemos contar para as mulheres?
– Por que não?
– Se elas falarem p'ras gentes, não vendemos nada! Das dez porções de fala que HaShem distribuiu pelo mundo, as mulheres ficaram com 9.
– Tranquilizem suas mulheres, não lhes digam nada, até o último dia, nesse ínterim, os que forem comerciantes liquidam seus estoques e aqueles que detêm créditos com os portugueses busquem executá-los; apesar de sabermos...que a outra parte não tem motivos para antecipar pagamentos mesmo com descontos...
– E os créditos para com um judeu? – perguntou Isaac Castro – Moshe me deve...
– É proibido reclamar a dívida quando se sabe que o devedor não pode pagá-la. É uma Mitzvah: “não serás um opressor sobre ele”.
– Mas eu preciso de todos os meus fundos para custear a viagem!
– Senhores! Senhores! Conversem com o rabino depois, vamos nos concentrar nas situações de interesse comum.
– E os bens de raiz?
– Recomendo que se desfaçam deles ao melhor preço que lograrem obter, caso seja vil, tranquem-nos, bem trancados, e guardem as chaves, quiçá um dia retornemos...
– Eu não vou deixar o Brasil! Não aguento mais! Minha mulher está grávida, não vou entrar em um navio com ela nesse estado!
– Ficou louco?
– Falo com o padre Bento, ele é bastante tolerante...
– É um convertido!
– Pois! Posso, muito bem, participar das missas e festas dos goym e depois fazer o Kidush (3) em casa...
– Perdeu o juízo! E quando começarem as visitações (4)? Vai oferecer chalá (5) para os inquisidores, vai?
– Vou para o sertão...
– Não seja insensato!
Seguiu-se um momento de consternação e silêncio.


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(1) Bendito seja Tu, ó Eterno, rei do universo, bem-aventurados...
(2) Sinagoga em hebraico.
(3) Orações sabáticas.
(4) Inquéritos do Tribunal do Santo Ofício.
(5) Pão comido no Shabat.

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