BH
Os navios aportaram em Trinidad antes do nascer do sol, o vilarejo ainda dormia quando o desembarque começou, em poucos minutos, passageiros, tripulantes e homens de armas estavam em terra firme. Batavos e judeus eram mantidos agrupados por um cordão de isolamento formado por uma dezena de conquistadores. O comandante espanhol adiantou-se e partiu em direção à sede do governo local.
Eis que, juntamente com as primeiras luzes da manhã, salvas de mosquetes atingem, um a um, os soldados espanhóis, que caem mortos sem ter tempo, sequer, para uma oração. No mar, após contornar um promontório parecido com o Pão de Açúcar, um grande navio de guerra francês colhe o galeão espanhol em posição vulnerável e o põe a pique antes de esboçar qualquer reação.
O comandante espanhol é o único a compreender o que se passa. Em desabalada carreira, lança-se à busca de lugar seguro no forte; enquanto corre, pensa nas honrarias a que faria jus caso impedisse o êxito da emboscada francesa: “Além da aduana” – divaga – “sagro-me cavaleiro”
Um agudo assovio corta o ar. Atendendo à ordem de seu dono, um gigantesco cão cinza, põe-se no encalço do fugitivo.
Enquanto continua a correr, o estremenho(1) sonha: “Caso-me com uma moça de boa família.” Escorrega, volta-se para trás, vê o mastim, começa a delirar: “Conquisto uma baronia”, Cai de novo. Levanta-se, tenta sacar a espada. “Sou recebido pelo Rei...”
O animal salta no seu peito; lança o homem ao chão; abocanha seu braço, trava os dentes e balança a cabeça dilacerando carnes, veias e ossos. Jorros de sangue aspergem a areia.
Ao morrer, estocado no peito por um soldado francês, o capitão espanhol já era Vice-Rei do México.
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(1) Natural da região da Estremadura na Espanha.
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