No seu excelente livro "Sobre as origens da guerra e a preservação da paz", o Professor Kagan escreve:
É uma característica especial do mundo ocidental moderno, em oposição a outras civilizações e ao mundo ocidental pre-moderno acreditar que os seres humanos podem mudar e controlar o ambiente físico e social e até mesmo a natureza humana para melhorar as condições de vida. A revolução em ciência e tecnologia ocorrida a partir do século dezesseis encorajou a ideia que a sociedade humana e o comportamento dos indivíduos similarmente podem ser manipulados para produzir progresso, paz e prosperidade. Como os elementos da natureza, os povos e suas instituições têm sido vistos como infinitamente maleáveis, requerendo apenas inteligência, boa vontade e determinação para aprimorá-los e aperfeiçoá-los(*). Não surpreende que tais expectativas acorram aos homens da Ilustração e a seus herdeiros intelectuais.
Porém, no mesmo ano em que Paine assegurou a si mesmo que princípios republicanos trariam paz e prosperidade, a novel república francesa estava em guerra com seus vizinhos, e a França, a Grã-Bretanha e a Europa ingressaram em mais de duas décadas de uma devastadora guerra geral. O Congresso de Viena estabeleceu uma paz notável e duradoura, mas as esperanças de Mill, Bright e Cobden foram frustradas por volta da metade do século. Democracia e guerra provaram-se compatíveis quando os britânicos entusiasticamente apoiaram a participação de seu país na Guerra da Crimeia. Quando a primeira guerra mundial eclodiu em 1914, ela também, foi saudada com grande entusiasmo popular nos países democráticos, não menos que nos demais.
A primeira guerra mundial foi ainda mais horrenda e destrutiva do que Bloch e seus contemporâneos imaginaram. A experiência amedrontadora, contudo, não evitou o advento de outra guerra ainda mais desastrosa apenas duas décadas mais tarde. Descendentes dos esperançosos defensores do livre mercado e da democracia no século XIX depositaram sua fé na Liga das Nações, a aparente realização dos sonhos de governo mundial que remontam a Kant no século dezoito. A nova organização, contudo, não trouxe a paz, mesmo em um instante de maior entendimento e reflexão sobre segurança coletiva. Apreensivos sucessores de Angell e Bloch destacaram os novos perigos impostos por bombardeios aéreos, acreditavam que poderia significar o fim da civilização em caso de advento de uma nova guerra e esperavam que a ameaça impediria sua deflagração. Porém o resultado desse terror não bastou para impedir a segunda guerra mundial.
Nos últimos dois séculos otimistas e pessimistas, cada um prevendo o fim das guerras por diferentes razões, provaram-se errados. Acreditando no e esperando pelo progresso, eles esquecem que a guerra tem sido uma parte persistente da experiência humana desde antes do nascimento da civilização. Em 1968, Will e Ariel Durante calcularam ter havido apenas 268 anos livres de guerras nos últimos 3.421 anos. Desde a idade da pedra, pelo menos 10 mil anos atrás, exércitos organizados em formação lutam uns contra outros e constroem fortificações para proteger a si mesmos e a seus povos de ataques de outros exércitos. As mais antigas civilizações, no Egito e na Mesopotâmia, adicionaram poderosos elementos novos à arte bélica e foram os primeiro a se ocupar com a guerra, como foram mais tarde culturas da era do bronze e do ferro ao redor do mundo. A mais antiga obra literária na tradição ocidental, a Ilíada de Homero, conta a história de uma longa e cruenta guerra e dos homens que a lutaram. O hinos védicos das antigas culturas da Índia falam de um deus guerreiro, Indra, que esmagou as fortificações de seus inimigos. As primeiras civilizações da China foram estabelecidas por exércitos munidos de lanças, arcos compostos e carros de guerra. No sexto século A.C. o filósofo grego Heráclito observou que
polemos pater pantom, "a guerra é o pai de todas as coisas". Filósofos da antiguidade como Platão e Aristóteles assumiam a existência de uma natureza humana permanente, na qual a persistência da guerra era um dado. Eles acreditavam que o homem era naturalmente interesseiro e agressivo. Como não imaginavam nenhum governo mais abrangente que os de cada cidade-estado pressupunham que a guerra era inevitável para a humanidade.
Os antigos gregos enredados como estavam por guerras perpétuas investigaram suas causas com avidez. O "pai da História" começa seu relato assim: "O que Heródoto de Halicarnasso descobriu por meio de investigação está publicado aqui, para que os feitos grandes e maravilhosos de gregos e bárbaros não sejam apagados da memória humana pelo tempo, e
especialmente as razões pelas quais eles lutaram uns com os outros. [destacado pelo Prof. Kagan].
O estudo cuidadoso das origens da guerra declinou nos muitos séculos que se se seguiram, talvez porque era uma ocorrência tão comum, parecendo ao mesmo tempo inevitável e para alguns até mesmo desejável. No nosso tempo, o impacto e as consequências destrutivas da primeira guerra mundial levaram a um novo interesse pela matéria e, com sobras, os estudos mais completos e profundos sobre as causas e origens da guerra recomeçaram desde então. Naturalmente, nesta era moderna eruditos e curiosos buscam entender as causas da guerra não por mera curiosidade como Heródoto. Eles têm razão em acreditar que a catástrofe prenunciada pela guerra moderna torna uma compreensão mais ampla sobre suas origens uma atribuição inescapável, para que políticas apropriadas possam ser buscadas com o intento de preveni-la.
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E como o mundo moderno pode ser avaliado quanto à sua compreensão sobre as causas da guerra? A resposta, eu acredito, é que nós não temos nos saído tão bem quanto os antigos gregos. É característico de nosso tempo buscar as origens da guerra em forças impessoais: monarquia, aristocracia e o
ethos de uma era anterior que as rodeava; recaídas atávicas, na era moderna, a meios de luta superados; a luta de classes; o imperialismo; a corrida armamentista; sistemas de alianças etc.Contudo a queda da monarquia e da aristocracia na era moderna não trouxe fim à guerra. Lutas entre classes são pelo menos tão antigas quanto as cidades-estado, em poucas ocasiões elas estiveram envolvidas nas causas de guerras, mas normalmente não. O imperialismo é pelo menos tão antigo quanto os antigos Egito, Mesopotamia, China e Índia, além de Pérsia, Grécia e Roma, mas houve impérios sem guerras e guerras sem impérios. Sistemas de alianças são comuns na história, corridas armamentistas menos comuns. Às vezes eles contribuem para o início de uma guerra e mesmo de modo significativo para sua intensidade e duração, mas pelo menos com a mesma frequência, contribuem para sua prevenção. Tipicamente eles não são causas, mas sintomas, reflexos ou efeitos de outros elementos básicos.
Os mais preparados estudiosos da guerra concluíram que algo mais fundamental produz guerras: a competição pelor poder. Essa é a visão de um notável historiador da guerra moderna: "em 1914 muitos alemães, e em 1939 praticamente todos os britânicos, sentiram-se justificados a ir à guerra não por uma razão específica que podia ser resolvida por negociações, mas para manter o próprio poder, antes que ficassem eles mesmos tão isolados, tão impotentes que não lhes restasse qualquer poder a ser mantido e tivessem que aceitar uma posição subalterna em um sistema internacional dominado por seus adversários"(1). Para muitos, no mundo moderno, a palavra
poder soa desagradável. Parece implicar a capacidade de impor sua vontade a outrem, normalmente pelo uso da força. O poder é sentido como algo intrinsecamente mau. Essa, contudo, é uma compreensão indevidamente restrita. O poder em si é neutro. É a capacidade de alcançar fins desejados e estes podem ser bons ou maus. É também a capacidade de resistir às demandas e ordens de outros. Neste último sentido, o poder é essencial para a obtenção e a preservação da liberdade. No Reino dos Céus, somos levados a crer, os seres humanos não terão necessidade de poder, mas no mundo no qual nós todos vivemos, ele é essencial e a lutar por ele, inevitável. Esse ponto de vista é básico para duas escolas de pensamento entre os modernos cientistas políticos, os "realistas"e os "neorrealistas". "Realistas" acreditam que todos os estados e nações buscam tanto poder quanto consigam obter, trata-se de algo desejável não apenar pelo que ele permite fazer, mas por si mesmo. O desejo pelo poder é quase como o pecado original, desagradável, deplorável e lamentável, mas inevitável."Neorealistas"entendem o comportamento dos estados em suas relações internacionais de uma forma mais contida e menos censurável, como a busca não pelo poder em si mesmo, não por dominação, mas por segurança que, por sua vez, requer poder. A visão realista é sombria porque não contempla uma maneira de interromper a busca ilimitada de poder e o conflito que ela engendra, exceto a conquista de todos por um único poder ou a manutenção de uma paz inquieta por conta de medos recíprocos. A visão neorealista parece menos assustadora porque deixa esperança de que sistemas podem ser concebidos e pessoas educadas de modo tal que se organize e controle o poder para todos os interessados, sem uma luta interminável por ele, entretanto não se pode dizer que algum sistemas tenha conseguido alguma vez atender às essas esperanças.
O realismo diz pouco sobre os modos como estados pretendem dispor o poder que adquirem. Os neorrealistas deixam implícito que estados buscam o poder principalmente para manter os bens que já possuem em paz e segurança. Muitos estudiosos modernos do assunto assumem que os estados querem o poder para alcançar objetivos práticos e tangíveis tais como riqueza, prosperidade, segurança e liberdade de interferências externas. Mas o alcance de objetivos que movem povos a lutar guerras é mais amplo e nem sempre tão prático. Os objetivos de todas as guerras, diz outro estudioso das causas da guerra:
"são apenas variedades de poder. A vaidade do nacionalismo, o desejo de disseminar uma ideologia, a proteção de seus irmãos de sangue em terras vizinhas, o desejo por mais território ou comércio, a vingança de uma derrota ou insulto, o estabelecimento de mais força ou independência nacional, o desejo de celebrar ou sedimentar alianças - tudo isso representa poder em diferentes embalagens. Os objetivos conflitantes de nações rivais são sempre conflitos de poder(2).
A lista, contudo, não é de variedades de poder somente, mas também inclui propósitos para os quais o poder é almejado.
No quinto século A.C, acredito, Tucídides concebeu uma explicação mais profunda, elegante e abrangente sobre porque povos organizados em estados são levados a lutar guerras. Ele, também, compreendia guerra como uma competição armada por poder. Ele certamente antecipou os modernos realistas no famoso discurso meliano, no qual ele apresenta um orador ateniense tentando persuadir os melianos sitiados a se render ao poder de Atenas, sem um debate moralista, com fundamento em que tanto no céu quanto na terra a busca de poder ilimitado é natural: "por uma necessidade de sua natureza [o ser humano] manda até onde o seu poder permite" e ele também explicou porque eles buscam isso. Na luta pelo poder, seja por uma necessidade racional, seja por uma fixação insaciável por todo poder que exista, Tucídides conclui que as pessoas vão à guerra por "honra, medo ou interesse".
Eu acho esse trio de motivos mais esclarecedor na compreensão das origens de guerras por toda história e a eles farei referência frequentemente neste trabalho. Que o medo e o interesse levem estados a guerras não surpreende o leitor moderno. Se tomarmos honra como sendo fama, glória, reconhecimento ou esplendor, pode parecer aplicável somente a tempos pretéritos. Se, contudo, entendermos seu significado como deferência, estima, reconhecimento do justo, atenção, respeito ou prestígio a encontraremos igualmente como motivação para as nações modernas. Honra neste sentido é desejável por si mesma, mas possui também importância prática na competição pelo poder. Quando ela está em declínio, o mesmo se pode dizer do estado que a perde, e o contrário também é verdadeiro. Poder e honra têm uma relação recíproca. É óbvio que quando o poder de um estado cresce, a deferência e o respeito com que é tratado também cresce. Mas o oposto também é verdade, mesmo quando o poder material de um estado aparenta ser o mesmo, ele de fato diminui se, de alguma maneira, essas atitudes em relação a ele se modificam. Isso acontece com mais frequência quando um estado é percebido como tendo perdido a vontade de usar seu poder material.
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Resta explicar minha escolha de temas dentro da miríade de guerras na História humana. Elas são todas parte da experiência do mundo ocidental, em parte porque este é o mundo que eu mais conheço e onde eu posso ler a maior parte das fontes e estudar as linguagens originais. Em parte, contudo, porque estou interessado na conflagração de guerras entre estados em um sistema internacional, tal como nós encontramos no mundo hoje. Os gregos e os romanos da era republicana viveram em um mundo assim, e, do mesmo modo o Ocidente desde a Renascença. Muitos outros povos viveram seja em um mundo sem estados ou em grandes impérios onde os únicos conflitos armados eram guerras civis ou tentativas de defender o reino contra bandos de invasores.
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No momento em que esta página está sendo escrita, uma guerra civil assola a ex-Iugoslávia e já envolveu as forças armadas da OTAN, uma intervenção publicamente objetada pela Rússia. Os próprios russos estão envolvidos em conflitos de fronteira com povos que anteriormente faziam parte da União Soviética. Polônia, Tchecoslováquia e Hungria se sentem suficientemente ameaçadas pelo possível renascimento do poder russo para requerer adesão urgente à OTAN, um curso de ação que enfrenta forte oposição da Rússia. A Coréia do Norte possivelmente de posse de armas nucleares, ou ao menos da capacidade contruí-las, dispõe de grande número de forças armadas concentradas na fronteira da Coréia do Sul, ameaçando a guerra se os Estados Unidos persistirem em demandar a inspeção de suas instalações nucleares e a proibição de armas nucleares. Nenhuma grande crise, felizmente, levou à guerra. Todos esses problemas podem ser resolvidos pacificamente ao tempo em que este trabalho estiver no prelo, mas ainda assim eles serão substituídos por outros não menos sérios e desafiadores. Deve ficar claro que ameaças à paz semelhantes no passado persistem até agora e continuarão a existir no futuro. A necessidade de lidar com elas com sabedoria, em uma era de armas nucleares é maior do que nunca.
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"Epidamnus é uma cidade a suladireita se você navega no golfo iônico. Os taulâncios um povo bárbaro da raça ilíria vive ali por perto". É assim que Tucídides começa sua narrativa sobre os eventos que levaram à guerra. Ele precisava fazer isso porque poucos de seus conterrâneos gregos sabiam onde a cidade ficava ou alguma coisa a respeito dela, como poucos europeus sabiam algo sobre Sarajevo quando o herdeiro do império austro-húngaro foi assinado lá em junho de 1914. Era um daqueles remotos lugares, sem importância em si mesmos, onde ocasionalmente um evento acontece desencadeando uma sequência de eventos que levam à catástrofe.
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(*) Nota do tradutor. No Brasil, essa crença atende pelo nome de "vontade política".
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(1) Nota do autor. Michael Howard, "As causas da guerra".
(2) Greofrey Blainey. "As causas da guerra".
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Até a semana passada, quantas pessoas no mundo já tinham ouvido falar da Criméia?