segunda-feira, 31 de março de 2014

Continuação. 49 de n.

Pode-se perguntar: Philomena e a jovem francesa teriam direito a reivindicar reparações patrimoniais ou participação em heranças das famílias dos adotantes ou das instituições envolvidas com as adoções? Talvez. Esse fato, porém, justificaria que os envolvidos sonegassem informações aos interessados? Na minha opinião, a resposta é um categórico não.
Antes de continuar, devo deixar claro que considero a escolha das mães, e demais intervenientes, a melhor possível na época, nem por isso, contudo, pode-se relevar as falsidades perpetradas posteriormente. Sob os religiosos católicos, pesa, ademais, uma agravante, inscrita no mandamento: "Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo".
O sumiço do livro de registro referente ao batismo e casamento de Theresa Brayner, eventos desprovidos de quaisquer interesses pecuniários, torna-se, assim, ainda mais inexplicável, tão obscuro e desprezível, quanto é inverossímil a possibilidade de se tratar de mera coincidência. 
Estaria a explicação relacionada ao receio sentido pelos que esconderam  - ou eliminaram - o livro de que alguns fieis viessem a questionar a origem de sua fé? Só posso especular...e lastimar.

domingo, 30 de março de 2014

Continuação. 48 de n.

2 histórias curtas e uma nota sobre um filme.

Começo pelo filme. Um dos melhores a que assisti nos últimos tempos foi Philomena, com a grande Judi Dench, impecável, seja como Elisabeth I, como M, ou como a protagonista dessa história verídica e comovente.
Não, não vou estragar o programa de ninguém, paro logo depois da sinopse.
A trama pode ser resumida assim: na Irlanda dos anos 50, a jovem Philomena Lee engravida sem ser casada, é posta para fora de casa pelo pai e busca refúgio em um convento, onde trabalha para se sustentar. Com o auxílio das freiras, dá à luz um menino e autoriza que a criança seja encaminhada para adoção. Precisa, então, se conformar com o sofrimento, quando o bebê é entregue a uma família de magnatas americanos. Muitos anos mais tarde, Philomena, com o auxílio de um jornalista inglês, tenta reencontrar o filho.
Fim da sinopse.
Um detalhe merece ser destacado aqui, adiante ficará claro o porquê. Durante toda a busca de Philomena, as freiras do convento onde trabalhou alegaram não poder ajudá-la porque os arquivos da época tinham sido perdidos em um incêndio.
Quando saímos do cinema, eu e S lembramos na mesma hora de outra história, notavelmente semelhante, acontecida no Brasil, por volta, pelas nossas contas, dos anos 70.
Uma conhecida, do Hospital Sarah Kubitschek, onde trabalhamos, contou que, em certa ocasião, quando morava em uma cidade que não precisa ser mencionada aqui, foi chamada a atuar como intérprete de uma estrangeira que tentava descobrir as próprias origens.
A visitante era francesa e também fora dada em adoção, mas descobriu com os pais na França que tinha nascido naquela maternidade 30 anos antes. Feita a tradução, as assistentes sociais encarregadas de atender a estrangeira lhe explicaram que, de fato, naquele período, havia um setor da maternidade que atendia às mães solteiras e entregava as crianças ali nascidas para casais, brasileiros ou estrangeiros, interessados em adotá-las. Infelizmente, porém, todos os registros do período tinham se perdido em um incêndio.
Desolada, a jovem disse que iria continuar tentando encontrar os pais e a intérprete não soube como a história terminou.
Há, porém, una cosita más, a ala da maternidade que executava esses procedimentos era administrada, na época, por irmãs de caridade católicas. A intérprete acrescentou que uma das assistentes sociais lhe contou em outra ocasião, que as freiras hospedavam em uma fazenda moças de boas famílias, que tinham dado um mau passo, lá elas podiam permanecer durante a gestação sem que a barriga lhes causasse constrangimentos. No momento apropriado, as futuras mães eram trazidas para a maternidade e, imediatamente após o parto, os recém-nascidos eram entregues aos pais adotivos.
Essas duas histórias se assemelham, em parte, com a da minha trisavó Theresa Brayner.
No dia 06 de agosto de 1867, Dona Theresa converteu-se ao catolicismo romano e adotou o nome cristão de Honorata Acelina de Jesus. No dia seguinte, casou-se com José Gomes dos Santos e anos mais tarde deu à luz, minha bisavó Joana Amélia.
Eu e outros interessados tentamos encontrar os registros do casamento e do batismo na cidade de São Caetano-PE, mais uma vez, porém, os registros daquele período, e apenas os dele, se extraviaram.

sábado, 29 de março de 2014

Continuação. 47 de n.

Reconstituição da Sinagoga, com a Torah na face leste.

Continuação. 46 de n.

Más lembranças.

Continuação. 45 de n.

Reprodução de um quadro retratando a grande sinagoga de Amsterdã. Nos Países Baixos, durante muito tempo, português era sinônimo de judeu.

Continuação. 44 de n.

Mikvê. Banheira com água corrente usada para a realização de abluções rituais. Quando foi encontrada comprovou a exata localização da Sinagoga Kahal Zur Israel.

Continuação. 43 de n.

Continuação. 42 de n.

Manuel Franc.


Continuação. 41 de n.

Continuação. 40 de n.

Reconstituição da primeira sinagoga das Américas, hoje um museu.

Continuação. 39 de n.

Mauritiopolis de Franz Post, ca. de 1645.

Continuação. 38 de n.

Vista do Recife, na qual aparece o Edifício Iran, onde morei até os quatro anos.





Continuação. 37 de n.






Orbis Universalis, de 1512. Primeira carta em que aparece o nome Brasil. Três detalhes: 1- não está de cabeça para baixo, 2- notem que, em Israel, o autor, o veneziano Jerônimo Marini, colocou um presépio e 3- lá está o centro do mundo.

Continuação. 36 de n.

Photo: Sem data.

Continuação. 35 de n.

Hoje, 23 de março de 2014, escrevi um soneto. 

Com a parede nua, veio a morte,
Impregnar-se nas tuas caixas de mudança,
Em cada objeto, cada lembrança,
Que fugia da inescapável sorte.

Lembro, minha mãe, de muita andança,
Quando eras, para mim, o sul e o norte,
Estou agora preparado e forte,
Preservar tua memória não me cansa.

Teu lento apagar me torna cego,
Mas à escuridão guarida eu nego,
Eis a razão deste precoce luto;

Ainda que em teu redor se confundam os ares,
E assim da lucidez tu te separes,
Ouve, minha querida, por teu nome, eu luto.

Continuação. 34 de n.

Quando tinha 16 anos, compus uma quadrinha e a encontrei agora entre os papéis de minha mãe, era assim:

Nunca nada é sempre,
Tudo sempre é quase,
Nada no mundo é tudo,
Tudo, no fundo, é fase.

Continuação. 33 de n.

O mote "E a terra cai no chão" é desafiador. Durante muitos anos, ouvi o início do improviso - "com muito jeito, calma e cautela" - e sabia do arremate, mas não o conhecia por inteiro. Na trista tarefa de arrumar as coisas de minha mãe, tive algumas gratas surpresas.

Photo

quinta-feira, 13 de março de 2014

Pausa

Vou ficar 2 semanas fora de Curitiba, ocupado com algo muito triste: esvaziar o apartamento de minha mãe no Recife e colocá-lo para alugar.
Não terei acesso a internet enquanto estiver por lá.
Até a volta.

Continuação. 32 de n.

Certa ocasião, fui indicado a contragosto para participar de um curso gerencial, ministrado por uma empresa de São Paulo chamada Amana-Key.  Nada poderia me interessava menos, por experiência própria, achava que a grande maioria desses cursos  se resume à apresentações, mais ou menos bem elaboradas, de obviedades. Daquela vez, porém, recebi alguns sinais de que poderia existir algo diferente no universo das consultorias: dois chefes, igualmente descrentes, voltaram do curso dizendo que gostaram.
E estavam certos.
O núcleo do curso era composto por depoimentos gravados em vídeo de pessoas que exerciam liderança em seus respectivos campos de atividades. As tomadas eram em "close-up", assim, era perfeitamente possível perceber as expressões de ânimo, receio, dúvida ou satisfação dos palestrantes.
No primeiro dia, falou Luíza Trajano, dona dos Magazines Luísa. Ela contou, com brilho nos olhos, como transformou a pequena loja de sua família no interior de São Paulo, em uma grande rede espalhada por todos os cantos do país. Como incentivava a aplicação de boas ideias e como procurava antecipar as necessidades de seu público. Tudo que ela dizia podia ser encontrado em manuais de administração, mas isso era o de menos, o que havia de especial na sua história era o entusiasmo com que ela a contava.
Naquela noite, a turma, toda formada por servidores públicos,  voltou para os quartos do hotel em Embu das Artes-SP com uma desculpa autocomplacente na ponta da língua: "ah, no caso dela é fácil, pode contratar a hora que quiser, pode mandar embora quem não trabalha direito, queria ver se ela estivesse na Administração Pública".
No dia seguinte foi a vez de um ex-diretor do setor pediátrico do Hospital das Clínicas de São Paulo. A história dele parecia um jogo de xadrez: precisava construir uma nova unidade para atender crianças com problemas cardíacos, mas o Estado, ao qual está vinculado o hospital, não se entendia com a Prefeitura que precisava conceder alvarás de funcionamento. Na época, o governador de São Paulo era Mario Covas e o Prefeito da capital, Paulo Maluf, inimigos figadais desde os tempos da faculdade de engenharia. Nenhum acordo parecia possível. O que fez o doutor? Recorreu aos poderes maiores,  às primeiras-damas. Conversou com Dona Lila Covas e com Dona Sílvia Maluf  e, claro, conseguiu construir a nova unidade pediátrica.
Dessa vez, não foi tão fácil, encontrar escusas para as nossas dificuldades, o diretor do HC também era um servidor público... Todos foram dormir, analisando seus próprios limites e crenças.
O pior dia, porém, foi o terceiro. A Amana-Key escalou para falar uma menina de Pindamonhangaba-SP, de classe média baixa, que contou (e mostrou)  como fez para montar uma escola improvisada no quintal de sua casa e ali ensinar às crianças mais pobres do que ela, a cada dia, o que tinha aprendido na escola.
Não sei quanto aos demais, mas eu saí da sala me sentindo um verme, um inútil.
Para compensar, no dia seguinte, a palestrante  foi Dona Zilda Arns - que D'us a tenha. Ela nos falou como, depois de se aposentar, aos 50 anos, passou a trabalhar na Pastoral da Criança e o tipo de trabalho que realizou por lá.
Pensei: "Ufa! Ainda tenho algum tempo...", bem menos agora...

Administrar, liderar, governar, fazer, realizar.  Saí do evento animadíssimo, estava pronto a mudar o mundo, como um D. Quixote perdido nas araucárias. S precisou me trazer de volta à terra. Minha cunhada, que também fizera o mesmo curso anteriormente me avisou: "essa empolgação passa com a volta à rotina". Não sei se ela imaginava o quanto estava sendo profética. Alguns anos depois disso, tive a oportunidade de exercer uma chefia administrativa aquinhoada com um parcela minúscula de poder. Ainda não elaborei a experiência o suficiente para descrevê-la, mas posso adiantar que meu período como chefe foi breve, pessoalmente desagradável e, em larga medida, insatisfatório para superiores e subordinados...

A razão atribuo a mim mesmo, não estava, naquele momento, motivado, como podia pretender inspirar uma equipe? Fiquei na posição de um Maestro que não conhece a partitura, exposto, de pé diante da orquestra, balançando os braços ao acaso, sem produzir nenhuma harmonia.

Se eu tivesse, talvez, no momento em que fui nomeado chefe, 10% da gana com que saí do curso, dez anos antes, as coisas poderiam ter sido diferentes, mas assim não foi.

Para concluir, vale a pena contar a história curiosa do nome da Amana-Key.

A empresa é resultado da fusão de duas outras: Amana e Key.
O nome da segunda empresa, homenageia a filha de seu dono: Key. Não, não significa "chave" em inglês, mas "Felicidade" em  japonês, lê-se "quêi".
A história da Amana é um pouco mais comprida. A fundadora da empresa, e como ela toda uma geração de administradores, era fã de uma indústria americana que começou a adotar métodos de gestão participativa, distribuição de lucros, essa empresa se chamava Amana e foi a primeira a produzir fornos de microondas.
Mas por que a Amana se chamava assim? O nome se referia à cidade onde a fábrica estava instalada, que, por sua vez, o leitor já adivinhou, também tem uma explicação muito peculiar para ele.
A cidade de Amana foi fundada por imigrantes alemães muito religiosos que quiseram batizá-la com uma  expressão retirada de um salmo, porém, como costuma acontecer com o idioma alemão, o termo apresentado às autoridades americanas era impronunciável para falantes de outras línguas. Foi-lhes solicitado, então, que escolhessem um outro. Os imigrantes decidiram procurar o original, em  hebraico, daquela expressão e chegaram a "amaná", que significa: "aquele que crê".
Amana-Key, portanto, significa "aquele que crê na felicidade".




quarta-feira, 12 de março de 2014

Continuação. 31 de n.

Muito já se escreveu sobre o trágico fim do Arquiduque Francisco Ferdinando e sobre a sua pessoa também. Tudo indica que ele era um reformista, possivelmente transformaria o Império em uma monarquia constitucional moderna. Nada tenho a acrescentar a esse capítulo da história, exceto uma porção de "e ses?"
E se Francisco Ferdinando não visitasse a Bósnia-Herzegóvina? E se ele sucedesse a seu tio e instituísse a igualde de todos os súditos do Império perante a lei? Teria ocorrido a grande guerra mesmo assim, ou, nasceria uma precoce União Européia sob a coordenação da Casa de Habsburgo?
E se houvesse guerra durante o seu reinado? Sua presença no trono teria feito alguma diferença?
Tomando a guerra como um fato consumado, teria sido possível às potências centrais vencê-la?
Neste ponto, cabem algumas especulações. Um amigo, profundo conhecedor da história alemã do período, me assegura que o veneno da guerra já tomara conta do Reich e, assim, na opinião dele, a guerra era inevitável. Faz uma ressalva: "talvez não tivéssemos os fornos crematórios, mas a guerra era só uma questão de tempo".
"Não é pouca coisa, ora bolas!", pensei no ato.
O professor Kagan explica que, no fim do século XIX, o deliberado desmantelamento do sistema de alianças concebido e implantado por Bismarck após a unificação da Alemanha, e a sua substituição por uma ambiciosa "weltpolitik" (política mundial) de atrito permanente contestação do equilíbrio de poder vigente, terminaria por levar à catástrofe.
Aos olhos da Alemanha, o país estava cercado, para as demais potências,  ao contrário, frente a evidente superioridade econômica e militar alemã, o país precisa ser contido. Nada de bom poderia advir de semelhante choque de paranoias.
Kagan compara Bismarck a Péricles, ambos adotaram políticas de autocontenção. Não queriam parecer ameaçadores aos olhos de seus vizinhos menores e mais fracos. Em ambos os casos, porém, a geração de políticos mais jovens que os sucedeu, tomada pelo orgulho, resolveu exercitar os músculos com nefasto resultado.
Mas e se a Alemanha e a Áustria-Hungria ganhassem a guerra? Kagan comenta que essa simples hipótese era  o maior pesadelo dos britânicos. Uma Europa continental controlada por uma única potência ainda mais poderosa que a Espanha de Filipe II ou a França de Napoleão I, era uma ameaça plausível e insuportável para os ilhéus. E tudo indica que eles tinham razão para terem medo, essa seira, possivelmente, a conjuntura mundial nos anos 20, em caso de vitória dos Impérios Centrais.
E depois? Bom, já estiquei demasiadamente a conversa até aqui, não consigo ir além.
Talvez o "putsch" bolchevique na Rússia não prosperasse, isso também teria sido bom... 

terça-feira, 11 de março de 2014

Continuação. 30 de n.

Quando me lembro da figura trágica do Imperador Francisco José, penso que o salmista se referia a ele ao escrever:

(...) Os que se fiam em sua força e de suas riquezas imensas se vangloriam, nem mesmo a seu irmão podem eles remir, nem ao Eterno oferecer resgate por sua morte, pois tão alto é o preço da vida que jamais poderá ser alcançado pelo homem para viver eternamente e não chegar ao sepulcro. Pois se vê que morre o sábio assim como perecem os tolos e insensatos deixando a outros suas riquezas. (...) Não invejes nem temas ao homem que enriquece e alcança glórias, pois ao morrer nem sua glória nem nada mais levará consigo. Embora em vida pensasse “louvar-me-ão pelo sucesso que alcancei” sua alma se juntará a de seus antepassados e não mais retornará à luz. O homem que se engradece e não tem entendimento para seguir os caminhos traçados pelo Eterno, assemelha-se aos animais que perecem e não deixam sequer lembrança (1).

A vida de Francisco José de Habsburgo podia parecer incomparável aos olhos do mundo. Herdeiro de um império, aos 18 anos, ascende ao trono para governar com poderes absolutos 50 milhões de súditos, aos 24, casa-se com a mulher mais bonita de sua época: Elisabeth (Sissi) da Baviera. De início, sua coroação trouxe alguns anos de tranquilidade e progresso para o Império, as glórias do mundo, porém, não passam de “vaidade, pura vaidade” (2).
Francisco José viveu tempo bastante para assistir impotente à erosão e, por fim, ao esboroamento de cada verdade que parecia perpétua e autoevidente a um monarca europeu do século XIX.
No campo militar, começou por perder suas possessões italianas, em seguida, viu-se obrigado a abrir mão – em favor da Prússia dos Hohenzollern – da influência multissecular que a casa dos Habsburgos exercia nos principados alemães. Como prêmio de consolação conservou as demais províncias do império, mas, para manter viva a dignidade imperial, restou-lhe tão-somente disputar os espólios do Império Otomano nos Bálcãs com russos e britânicos. Em Sarajevo, por fim, em 28 de junho de 1914, um atentado terrorista, contra o herdeiro do Império desencadeou a primeira grande guerra mundial na qual Áustria foi derrotada.
A política, tampouco, foi generosa com Francisco José, adepto intransigente de uma concepção de monarquia, que, gradativamente era abandonada pelos povos e pela nobreza, viveu em permanente sobressalto, lutando para manter tradições que não eram respeitadas nem mesmo por seu sobrinho e sucessor, o arquiduque Francisco Ferdinando.
Também o casamento de Francisco José e Sissi foi um fracasso, a imperatriz nunca se deu com a sogra, nem se adaptou à vida na corte imperial, que lhe causava depressão. O filho do casal, herdeiro do trono, morreu (ou se suicidou) juntamente com uma amante, sem deixar descendentes. O irmão de Francisco José, Maximiliano, encorajado pelos franceses participou de uma aventura imperialista no México, onde foi vencido, capturado, julgado, condenado e executado. Sissi também morreu de modo violento, assinada por um anarquista italiano perto da virada do século.
Em 1918, dois anos depois da morte de Francisco José, as potências centrais eram derrotadas na grande guerra e como resultado o Império se esfacelou e a monarquia foi extinta na Áustria. Família, poder, prestígio, concepções políticas, tudo que se relaciona a Francisco José I de Habsburgo virou pó.
Em termos históricos, o tempo que nos separa desses episódios é insignificante, mas é muito difícil, para um homem do século XXI, compreender, por exemplo, a resistência de Francisco José à adoção de uma constituição para o Império. Ele sinceramente acreditava que a sua atuação pessoal, livre de amarras jurídicas, movida exclusivamente por uma inegável noção de honra somada à ética do dever, era mais eficaz, para garantir a felicidade de seus súditos, que um texto hipotético elaborado por pessoas comuns movidas por interesses mesquinhos.
Também parecem incompreensíveis nos dias hoje, as razões que levaram o Imperador a não estar presente à cerimônia de casamento de Francisco Ferdinando apenas porque este escolheu casar-se, por amor, com uma condessa, em vez de unir-se a uma princesa.
Francisco José era um homem bom, dedicado até o limite da abnegação aos negócios de estado, durante seu governo a comunidade judaica do Império foi protegida, a ponto de os judeus de Viena, com evidente exagero,  o proclamarem Rei de Jerusalém; a Providência Divina, contudo, parece tê-lo escolhido para exibir a fugacidade da glória terrena, selá (3).

A figura de Francisco José foi transportada por Walt Disney para o reino da fantasia. No desenha animado Cinderela, o imperador, na minha opinião, é retratado na maturidade com seu inconfundível bigode branco unido às costeletas, pelo rei da história; mas ele é também o príncipe que se casa com a mulher mais bonita de seu tempo: Cinderela (Sissi). No cinema ainda, o conto de fadas de Sissi - ou pelo menos, a parte bonita dele - nos legou dois filmes, nos quais a imperatriz é vivida por uma das mulheres mais bonitas de seu tempo: a atriz Romy Schneider, nascida em Viena.

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(1) Salmo 49.
(2) Eclesiastes (Cohelet) 1,2. Livro atribuído ao Rei Salomão, o mais sábio dos homens.
(3) Pare e ouça.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Continuação. 29 de n.

O império austro-húngaro era, pelo que sei, o lugar de nascimento de minha trisavó Teresa. Curiosamente, por um atavismo inexplicável sempre nutri uma espécie de fascínio por tudo que provinha da Áustria. Ainda pequeno, lembro bem, ouvi uma música que me deixou hipnotizado e da qual eu nem sabia o seu nome, apenas que era assim: "la-ra-la-la-ra-la, tam-tam tam-tam, la-ra-la-la-ra-la, tam-tam tam-tam". 
De tanto insistir, minha mãe me levou a uma loja de discos na Rua Nova e comprou um LP de valsas vienenses. A música era "O Danúbio Azul", que eu ouvia, e ouvia, e ouvia na radiola, curtia também "Vinho, Mulher e Canção", a versão oitocentista de "Drogas, sexo e rock 'n roll", mas, não pense o leitor nada de mais, eu tinha apenas 10 anos.
Espiritólica, minha mãe foi a uma reunião de mesa branca, na casa de uma senhora muito distinta que morava em um casarão na Avenida Boa Viagem - Dona Ariadne. Hoje, no lugar da casa, ergue-se um espigão a mais à beira-mar a fazer sombra sobre a praia. Às vezes, eu a acompanhava às sessões e terminava invariavelmente dormindo. É difícil para uma criança participar de rituais religiosos. Abro um parêntese para dizer que quando fiz a primeira comunhão, tive que me confessar também pela primeira vez;  lembro de ter sentido grande dificuldade para encontrar algum pecado a ser confessado, por fim, inventei um, e, assim, contei uma mentira. "Meno male" que o pecado tenha sido esse, ainda mais quando vejo a iniciação precoce dos adolescentes do século XXI nas mazelas da vida adulta. Voltando à história, mais tarde, minha mãe me contou que a medium recebera de seu guia duas informações: em outra encarnação, eu fora austríaco, e o meu guia era o espírito de um sábio. Não entendi direito o que aquilo tudo significava, mas me pareceu serem coisas boas. 

O império dos Habsburgos no século XIX era uma obra de engenharia política admirável, digno da reconhecida capacidade de articulação política da família, que mantinha laços até mesmo com a casa real brasileira por intermédio de Dona Leopoldina da Áustria, imperatriz-consorte do Brasil. Seus imperadores orgulhosamente ostentavam um emblema no qual se lia AEIOU - "Austriae Est Imperare Orbi Universo", ou "(o destino da) Áustria é governar o mundo inteiro".  Ao tempo em que Teresa Brayner emigrou para o Brasil, o Império era governado por Francisco José, o último Habsburgo a desempenhar um papel importante no cenário internacional. 

domingo, 9 de março de 2014

Continuação. 28 de n.

No seu excelente livro "Sobre as origens da guerra e a preservação da paz", o Professor Kagan escreve:

É uma característica especial do mundo ocidental moderno, em oposição a outras civilizações e ao mundo ocidental pre-moderno acreditar que os seres humanos podem mudar e controlar o ambiente físico e social e até mesmo a natureza humana para melhorar as condições de vida. A revolução em ciência e tecnologia ocorrida a partir do século dezesseis encorajou a ideia que a sociedade humana e o comportamento dos indivíduos similarmente podem ser manipulados para produzir progresso, paz e prosperidade. Como os elementos da natureza, os povos e suas instituições têm sido vistos como infinitamente maleáveis, requerendo apenas inteligência, boa vontade e determinação para aprimorá-los e aperfeiçoá-los(*). Não surpreende que tais expectativas acorram aos homens da Ilustração e a seus herdeiros intelectuais.
Porém, no mesmo ano em que Paine assegurou a si mesmo que princípios republicanos trariam paz e prosperidade, a novel república francesa estava em guerra com seus vizinhos, e a França, a Grã-Bretanha e a Europa ingressaram em  mais de duas décadas de uma devastadora guerra geral. O Congresso de Viena estabeleceu uma paz notável e duradoura, mas as esperanças de Mill, Bright e Cobden foram frustradas por volta da metade do século. Democracia e guerra provaram-se compatíveis quando os britânicos entusiasticamente apoiaram a participação de seu país na Guerra da Crimeia. Quando a primeira guerra mundial eclodiu em 1914, ela também, foi saudada com grande entusiasmo popular nos países democráticos,  não menos que nos demais.
A primeira guerra mundial foi ainda mais horrenda e destrutiva do que Bloch e seus contemporâneos imaginaram. A experiência amedrontadora, contudo, não evitou o advento de outra guerra ainda mais desastrosa apenas duas décadas mais tarde. Descendentes dos esperançosos defensores do livre mercado e da democracia no século XIX depositaram sua fé na Liga das Nações, a aparente realização dos sonhos de governo mundial que remontam a Kant no século dezoito. A nova organização, contudo, não trouxe a paz, mesmo em um  instante de maior entendimento e reflexão sobre segurança coletiva. Apreensivos sucessores de Angell e Bloch destacaram os novos perigos impostos por bombardeios aéreos, acreditavam que poderia significar o fim da civilização em caso de advento de uma nova guerra e esperavam que a ameaça impediria sua deflagração. Porém o resultado desse terror não bastou para impedir a segunda guerra mundial.
Nos últimos dois séculos otimistas e pessimistas, cada um prevendo o fim das guerras por diferentes razões, provaram-se errados. Acreditando no e esperando pelo progresso, eles esquecem que a guerra tem sido uma parte persistente da experiência humana desde antes do nascimento da civilização. Em 1968, Will e Ariel Durante calcularam ter havido apenas 268 anos livres de guerras nos últimos 3.421 anos. Desde a idade da pedra, pelo menos 10 mil anos atrás, exércitos organizados em formação lutam uns contra outros e constroem fortificações para proteger a si mesmos e a seus povos de ataques de outros exércitos. As mais antigas civilizações, no Egito e na Mesopotâmia, adicionaram poderosos elementos novos à arte bélica e foram os primeiro a se ocupar com a guerra, como foram mais tarde culturas da era do bronze e do ferro ao redor do mundo. A mais antiga obra literária na tradição ocidental, a Ilíada de Homero, conta a história de uma longa e cruenta guerra e dos homens que a lutaram. O hinos védicos das antigas culturas da Índia falam de um deus guerreiro, Indra, que esmagou as fortificações de seus inimigos. As primeiras civilizações da China foram estabelecidas por exércitos munidos de lanças, arcos compostos e carros de guerra. No sexto século A.C. o filósofo grego Heráclito observou que polemos pater pantom, "a guerra é o pai de todas as coisas". Filósofos da antiguidade como Platão e Aristóteles assumiam a existência de uma natureza humana permanente, na qual a persistência da guerra era um dado. Eles acreditavam que o homem era naturalmente interesseiro e agressivo. Como não imaginavam nenhum governo mais abrangente que os de cada cidade-estado pressupunham que a guerra era inevitável para a humanidade.
Os antigos gregos enredados como estavam por guerras perpétuas investigaram suas causas com avidez. O "pai da História" começa seu relato assim: "O que Heródoto de Halicarnasso descobriu por meio de investigação está publicado aqui, para que os feitos grandes e maravilhosos de gregos e bárbaros não sejam apagados da memória humana pelo tempo, e especialmente as razões pelas quais eles lutaram uns com os outros. [destacado pelo Prof. Kagan].
O estudo cuidadoso das origens da guerra declinou nos muitos séculos que se se seguiram, talvez porque era uma ocorrência tão comum, parecendo ao mesmo tempo inevitável e para alguns até mesmo desejável. No nosso tempo, o impacto e as consequências destrutivas da primeira guerra mundial levaram a um  novo interesse pela matéria e, com sobras, os estudos mais completos e profundos sobre as causas e origens da guerra recomeçaram desde então. Naturalmente, nesta era moderna eruditos e curiosos buscam entender as causas da guerra não por mera curiosidade como Heródoto. Eles têm razão em acreditar que a catástrofe prenunciada pela guerra moderna torna uma compreensão mais ampla sobre suas origens uma atribuição inescapável, para que políticas apropriadas possam ser buscadas com o intento de preveni-la.
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E como o mundo moderno pode ser avaliado quanto à sua compreensão sobre as causas da guerra? A resposta, eu acredito, é que nós não temos nos saído tão bem quanto os antigos gregos. É característico de nosso tempo buscar as origens da guerra em forças impessoais: monarquia, aristocracia e o ethos de uma era anterior que as rodeava; recaídas atávicas, na era moderna, a meios de luta superados; a luta de classes; o imperialismo; a corrida armamentista; sistemas de alianças etc.Contudo a queda da monarquia e da aristocracia na era moderna não trouxe fim à guerra. Lutas entre classes são pelo menos tão antigas quanto as cidades-estado, em poucas ocasiões elas estiveram envolvidas nas causas de guerras, mas normalmente não. O imperialismo é pelo menos tão antigo quanto os antigos Egito, Mesopotamia, China e Índia, além de Pérsia, Grécia e Roma, mas houve impérios sem guerras e guerras sem impérios. Sistemas de alianças são comuns na história, corridas armamentistas menos comuns. Às vezes eles contribuem para o início de uma guerra e mesmo de modo significativo para sua intensidade e duração, mas pelo menos  com  a mesma frequência, contribuem para sua prevenção. Tipicamente eles não são causas, mas sintomas, reflexos ou efeitos de outros elementos básicos.
Os mais preparados estudiosos da guerra concluíram que algo mais fundamental produz guerras: a competição pelor poder. Essa é a visão de um notável historiador da guerra moderna: "em 1914 muitos alemães, e em 1939 praticamente todos os britânicos, sentiram-se justificados a ir à guerra não por uma razão específica que podia ser resolvida por negociações, mas para manter o próprio poder, antes que ficassem eles mesmos tão isolados, tão impotentes que não lhes restasse qualquer poder a ser mantido e tivessem que aceitar uma posição subalterna em um sistema internacional dominado por seus adversários"(1).  Para muitos, no mundo moderno, a palavra poder soa desagradável. Parece implicar a capacidade de impor sua vontade a outrem, normalmente pelo uso da força. O poder é sentido como algo intrinsecamente mau. Essa, contudo, é uma compreensão indevidamente restrita. O poder em si é neutro. É a capacidade de alcançar fins desejados e estes podem ser bons ou maus. É também a capacidade de resistir às demandas e ordens de outros. Neste último sentido, o poder é essencial para a obtenção e a preservação da liberdade. No Reino dos Céus, somos levados a crer, os seres humanos não terão necessidade de poder, mas no mundo no qual nós todos vivemos, ele é essencial e a lutar por ele, inevitável. Esse ponto de vista é básico para duas escolas de pensamento entre os modernos cientistas políticos, os "realistas"e os "neorrealistas". "Realistas" acreditam que todos os estados e nações buscam tanto poder quanto consigam obter, trata-se de algo desejável não apenar pelo que ele permite fazer, mas por si mesmo. O desejo pelo poder é quase como o pecado original, desagradável, deplorável e lamentável, mas inevitável."Neorealistas"entendem o comportamento dos estados em suas relações internacionais de uma forma mais contida e menos censurável, como a busca não pelo poder em si mesmo, não por dominação, mas por segurança que, por sua vez, requer poder. A visão realista é sombria porque não contempla uma maneira de interromper a busca ilimitada de poder e o conflito que ela engendra, exceto a conquista de todos por um único poder ou a manutenção de uma paz inquieta por conta de medos recíprocos. A visão neorealista parece menos assustadora porque deixa esperança de que sistemas podem ser concebidos e pessoas educadas de modo tal que se organize e controle o poder para todos os interessados, sem uma luta interminável por ele, entretanto não se pode dizer que algum sistemas tenha conseguido alguma vez atender às essas esperanças.
O realismo diz pouco sobre os modos como estados pretendem dispor o poder que adquirem. Os neorrealistas deixam implícito que estados buscam o poder principalmente para manter os bens que já possuem em paz e segurança. Muitos estudiosos modernos do assunto assumem que os estados querem o poder para alcançar objetivos práticos e tangíveis tais como riqueza, prosperidade, segurança e liberdade de interferências externas. Mas o alcance de objetivos que movem povos a lutar guerras é mais amplo e nem sempre tão prático. Os objetivos de todas as guerras, diz outro estudioso das causas da guerra:
"são apenas variedades de poder. A vaidade do nacionalismo, o desejo de disseminar uma ideologia, a proteção de seus irmãos de sangue em terras vizinhas, o desejo por mais território ou comércio, a vingança de uma derrota ou insulto, o estabelecimento de mais força ou independência nacional, o desejo de celebrar ou sedimentar alianças - tudo isso representa poder em diferentes embalagens. Os objetivos conflitantes de nações rivais são sempre conflitos de poder(2).
A lista, contudo, não é de variedades de poder somente, mas também inclui propósitos para os quais o poder é almejado.
No quinto século A.C, acredito, Tucídides concebeu uma explicação mais profunda, elegante e abrangente sobre porque povos organizados em estados são levados a lutar guerras. Ele, também, compreendia guerra como uma competição armada por poder. Ele certamente antecipou os modernos realistas no famoso discurso meliano, no qual ele apresenta um orador ateniense tentando persuadir os melianos sitiados a se render ao poder de Atenas, sem um debate moralista, com fundamento em que tanto no céu quanto na terra a busca de poder ilimitado é natural: "por uma necessidade de sua natureza [o ser humano] manda até onde o seu poder permite" e ele também explicou porque eles buscam isso. Na luta pelo poder, seja por uma necessidade racional, seja por uma fixação insaciável por todo poder que exista, Tucídides conclui que as pessoas vão à guerra por "honra, medo ou interesse".
Eu acho esse trio de motivos mais esclarecedor na compreensão das origens de guerras por toda história e a eles farei referência frequentemente neste trabalho. Que o medo e o interesse levem estados a guerras não surpreende o leitor moderno. Se tomarmos honra como sendo fama, glória, reconhecimento ou esplendor, pode parecer aplicável somente a tempos pretéritos. Se, contudo, entendermos seu significado como deferência, estima, reconhecimento do justo, atenção, respeito ou prestígio a encontraremos igualmente como motivação para as nações modernas. Honra neste sentido é desejável por si mesma, mas possui também importância prática na competição pelo poder. Quando ela está em declínio, o mesmo se pode dizer do estado que a perde, e o contrário também é verdadeiro. Poder e honra têm uma relação recíproca. É óbvio que quando o poder de um estado cresce, a deferência e o respeito com que é tratado também cresce. Mas o oposto também é verdade, mesmo quando o poder material de um estado aparenta ser o mesmo, ele de fato diminui se, de alguma maneira, essas atitudes em relação a ele se modificam. Isso acontece com mais frequência quando um estado é percebido como tendo perdido a vontade de usar seu poder material.
(...)
Resta explicar minha escolha de temas dentro da miríade de guerras na História humana. Elas são todas parte da experiência do mundo ocidental, em parte porque este é o mundo que eu mais conheço e onde eu posso ler a maior parte das fontes e estudar as linguagens originais. Em parte, contudo, porque estou interessado na conflagração de guerras entre estados em um sistema internacional, tal como nós encontramos no mundo hoje. Os gregos e os romanos da era republicana viveram em um mundo assim, e, do mesmo modo o Ocidente desde a Renascença. Muitos outros povos viveram seja em um mundo sem estados ou em grandes impérios onde os únicos conflitos armados eram guerras civis ou tentativas de defender o reino contra bandos de invasores.
(...)
No momento em que esta página está sendo escrita, uma guerra civil assola a ex-Iugoslávia e já envolveu as forças armadas da OTAN, uma intervenção publicamente objetada pela Rússia. Os próprios russos estão envolvidos em conflitos de fronteira com povos que anteriormente faziam parte da União Soviética. Polônia, Tchecoslováquia e Hungria se sentem suficientemente ameaçadas pelo possível renascimento do poder russo para requerer adesão urgente à OTAN, um curso de ação que enfrenta forte oposição da Rússia. A Coréia do Norte possivelmente de posse de armas nucleares, ou ao menos da capacidade contruí-las, dispõe de grande número de forças armadas concentradas na fronteira da Coréia do Sul, ameaçando a guerra se os Estados Unidos persistirem em demandar a inspeção de suas instalações nucleares e a proibição de armas nucleares. Nenhuma grande crise, felizmente, levou à guerra. Todos esses problemas podem ser resolvidos pacificamente ao tempo em que este trabalho estiver no prelo, mas ainda assim eles serão substituídos por outros não menos sérios e desafiadores. Deve ficar claro que ameaças à paz semelhantes no passado persistem até agora e continuarão a existir no futuro. A necessidade de lidar com elas com sabedoria, em uma era de armas nucleares é maior do que nunca.
(...)
"Epidamnus é uma cidade a suladireita se você navega no golfo iônico. Os taulâncios um povo bárbaro da raça ilíria vive ali por perto". É assim que Tucídides começa sua narrativa sobre os eventos que levaram à guerra. Ele precisava fazer isso porque poucos de seus conterrâneos gregos sabiam onde a cidade ficava ou alguma coisa a respeito dela, como poucos europeus sabiam algo sobre Sarajevo quando o herdeiro do império austro-húngaro foi assinado lá em junho de 1914. Era um daqueles remotos lugares, sem importância em si mesmos, onde ocasionalmente um evento acontece desencadeando uma sequência de eventos que levam à catástrofe.

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(*) Nota do tradutor. No Brasil, essa crença atende pelo nome de "vontade política".
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(1) Nota do autor. Michael Howard, "As causas da guerra".
(2) Greofrey Blainey. "As causas da guerra".

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Até a semana passada, quantas pessoas no mundo já tinham ouvido falar da Criméia?


sábado, 8 de março de 2014

Continuação. 27 de n.

No dia 6 de agosto de 1914, o Reino Unido enviou uma força expedicionária à França e consumou o envolvimento de todas as grandes potências europeias na guerra que ficou conhecida por aquela geração como a "grande guerra". Faz apenas 100 anos, mas é difícil para nós hoje compreender o 14 do século XX, depois das transformações - maravilhosas e medonhas - pelas quais o mundo passou desde então.

Andei pensando: e se o atentado terrorista contra o arquiduque Francisco Ferdinando tivesse fracassado? Ou ainda, e se mesmo que a guerra tivesse sido deflagrada por outro motivo, o que teria acontecido se as potências centrais - Alemanha e Áustria-Hungria - tivessem se sagrado vitoriosas? Para entender melhor o assunto, recorri ao Professor Donald Kagan da Universidade de Yale em Connecticut - EUA.

Antes de continuar minhas divagações, preciso contar a minha relação pessoal com Yale. Há pouco mais de um ano, recebi de um colega de trabalho a dica do site de cursos abertos da universidade: http://oyc.yale.edu. Desde então tornei-me assíduo espectador de muitos deles, a ponto de S dizer: "só sendo muito nerd mesmo para ter como hobby cursos pela internet", de fato, nessa questão, declaro-me inapelavelmente culpado. Não satisfeito fiz propaganda de Yale para praticamente todo mundo com quem conversei (e continuo fazendo), poucos, porém, compartilharam o meu entusiasmo, alguns devem achar que ganho alguma tipo de comissão da universidade...

Neste momento, aproveito para dar dois testemunhos: 1) todos os cursos a que assisti, sem exceção, são ótimos e 2) o meu preferido entre eles continua sendo o que para mim foi o primeiro - "Introdução à história grega antiga", ministrado pelo Professor Kagan  - vide http://oyc.yale.edu/classics/clcv-205/lecture-1.

Uma confissão adicional. Sempre cultivei o desejo de estudar em uma universidade no exterior, porém, por muitas razões que não merecem ser mencionadas aqui, nunca tive oportunidade de concretizar tal sonho - acho que é isso que chamam de ferida narcísica. Muitas vezes, igual ao Tevye, de O violinista no telhado, lastimei: "If I were a rich man"... eu estudaria em Oxford, na Sorbonne ou em Yale.

Quis a Providência que a grande universidade viesse até mim, sem que eu precisasse desembolsar um centavo sequer, Baruch HaShem(1)!

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(1) Bendito (seja) o nome (do Eterno).



quinta-feira, 6 de março de 2014

Continuação. 26 de n.

E qual seria a vocação do semiárido? Qual a vocação de Monteiro? 
O solo rochoso contém água, mas ela é salobra; usada sem tratamento (que é caro) pode salgar a terra. O algodão de fibra longa que se produziu no Cariri paraibano na primeira metade do século XX era de excelente qualidade, atendia às exigências do mercado internacional, entretanto, economicamente, não era páreo para o que veio a ser cultivado em São Paulo, em lavouras mecanizadas. 
De novo, o solo pedregoso do sertão suprime a sua grande vantagem comparativa: o sol. 
Frutas, talvez, fossem uma opção. O melhor abacaxi que comi até hoje veio da Paraíba. 
A vocação que me pareceu mais saliente, contudo, foi a  mitopoética, ou como se diz por lá: "o Norte pensa, São Paulo trabalha,  o Rio se diverte". 
Não apenas pensa, o Norte, conta histórias. Todo sertanejo traz dentro de si o enredo de uma saga épica. Cada pedra, poço ou árvore está associado a uma lenda. Quanto mais seco o sertão, mais ele se assemelha a Eretz Israel, física e espiritualmente. 
HIstórias, leite e mel, nessa ordem, eis a vocação do sertão. 
Foi nessas coisas que fiquei pensando depois de minha visita ao Jatobá. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Continuação. 25 de n.

Durante o carnaval, para alegria de S, que sempre quis ter uma família grande, recebemos uma prima em Curitiba. A cidade se disfarçou para recebê-la, depois de uma semana de chuva e frio (para padrões nordestinos), fez sol e calor, tempo perfeito para passear pelos parques. Assim que M seguiu para Foz do Iguaçu, porém, Curitiba voltou ao normal, muita chuva e um pouco de frio em pleno verão...
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Aproveitamos o feriado para ver dois filmes não "block buster": "A grande beleza", de Paolo Sorrentino, e "Balada de um homem comum", excelente tradução para o português de "Inside Llewyn Davis" dos irmãos Coen.
Ambos tocam, em momentos diferentes (e com objetivos diferentes), na tormentosa questão: o que é arte? 
Recomendo aos que não assistiram aos filmes que deixem esta leitura para mais tarde, sob pena de eu estragar parte da graça dos dois, mas insisto: vale a pena sair de casa para vê-los
Em "A grande beleza", o personagem principal, Jep, é um grande artista que se deixa consumir pela vacuidade da vida social de uma grande cidade - Roma. Consciente das circunstâncias que o envolvem e modelam, o personagem vagueia, cínico e enfastiado, por festas e situações felinianas, conformado em gozar o que a vida pode lhe oferecer de bom. Às vezes, trabalha como repórter de cultura. Na cena que me interessa, é escalado para cobrir um espetáculo alternativo e entrevistar a artista performática. Durante a conversa, sucessivamente, a moça não consegue responder a nenhuma das perguntas formuladas por Jep,  exaspera-se ao ver desmascarada a farsa que representa, e passa a desqualificar o interlocutor, supostamente incapaz de perceber o seu talento. Um corte e Jep reaparece ao lado da editora - de quem é amigo - rindo da pretensão da "performer".
Já em "Balada de um homem comum", Llewyn Davis pensa que é um grande artista. Ele despreza todos que não cultuam a estética do sórdido. Desdenha especialmente de nós, os não-artistas. Seu habitat é um mundo particular onde viceja o orgulho de se saber artista, somado ao desejo  de ser reconhecido como tal,  e no qual fermenta o rancor pela demora desse reconhecimento.
Davis não tem a sorte de ser entrevistado por Jep, ele tropeça em suas limitações durante uma apresentação para um empresário de Chicago que, após ouvi-lo cantar, sepulta qualquer pretensão de sucesso (tão desprezado e tão desejado) com uma só frase: "não vejo como tirar dinheiro disso". 
Moral da história: é possível ganhar dinheiro com arte, e igualmente possível faturar em cima de pseudo-arte, para desgraça de Davis e da performer, porém,  o que não se consegue é transformar o nada em dinheiro...

Continuação. 24 de n.

Fomos a Monteiro para a festa de aniversário de tio G, marido de tia L, irmã temporã de minha mãe - um baile de carnaval. S vê minha tia como uma versão rejuvenescida e risonha de "Dona Zélia". É uma definição concisa e precisa. Os anfitriões assoberbados com os tantos detalhes do baile, apesar de sempre atenciosos,  não davam conta de nos apresentar aos amigos que acorriam de todas as partes para a festa: Recife, João Pessoa, Campina Grande, Sertânia, Sumé e, claro, Curitiba. Ficamos nas mãos gentis das 3 princesas, RC, R e ER, e da fadinha L - filha de RC. A quarta princesa, D, como sói acontecer no romanceiro armorial, não pode vir ao baile, mas, ao contrario da literatura, por um bom motivo: estava na Bahia, a poucos dias de dar à luz mais um membro do clã, J.
Conheci o marido da tia "Emília" e descobrimos um gosto comum: poesia. Repentes e Augusto dos Anjos, que ele é capaz de recitar de cabeça: "Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera, somente a ingratidão - esta pantera - foi tua companheira inseparável...".
Reencontrei minha tia ML sempre elegante, e fui apresentado a seu marido, o Doutor - stricto sensu - J. Hoje, dedicado a assuntos ambientais, ele me deu uma aula sobre geologia e hidrografia do semi-árido e me chamou atenção para a fatuidade dos que se gabam de seus açudes e barragens nunca secarem. O resultado, disse, é a salinização da terra, o pior resultado possível.
De fato, Roma costumava salgar algumas cidades conquistadas ou rebeladas: Cartago e Jerusalém entre elas. Perguntei-lhe: "diante de tantas dificuldades, qual a vocação do sertão?"
Antes que pudesse responder, contudo, fui levado a conhecer outros tios e primos.
Tio L, foi logo dizendo: "lembra de quando nós éramos meninos e brincávamos juntos neste  pátio?". Pestanejei, pensei que tivesse dito que brincara comigo quando eu era menino, mas ele insistiu: "não lembra?, nós temos a mesma idade." É verdade, temos a mesma idade e espero continuar sempre a tê-la, mas precisamos reconhecer somos, ambos, mais velhos que tio Bobô.
Bar do Pona - espaço cultural destacado no Google Maps - lá ficamos, tio Bobô, os primos G e D, eu e mais alguns amigos da família, no espaço reservado à diretoria: uma salinha ao ar livre, no fundo do bar, com uma mesa e um braseiro, onde cada um se empenhava em contar um caso mais inusitado do que outro. De todos naquela mesa, meu tio era, certamente, o mais jovem.
No baile, encontrei ainda mais primos, um deles, M, é a minha cara, e tia B, que S definiu como "fofa". Bem no iniciozinho da folia, encontrei com A, filho de tia ML, fantasiado de frei capuchinho; tomei-lhe a benção. Em seguida, outro folião metido em uma batina, repeti o gesto. Este, porém, era padre de verdade...
Muitos me perguntaram se estava gostando da festa, alguns, de modo mais explícito, indagavam o que achei da família. Com sinceridade respondia a todos que apenas lamentava não tê-los encontrado antes.
Aqui também cabe perguntar: e se?



terça-feira, 4 de março de 2014

Emília


Continuação. 23 de n.

Quase cinco décadas permaneci afastado de minha família. Na minha casa era assunto tabu. Havia exceções tão inexplicáveis quanto os motivos do estranhamento e da desunião, mas de resto permaneci tão isolado e me acostumei a ter uma família tão nuclear que me tornei um misantropo. Gostava de dizer que meu ideal na vida era me mudar para as Ilhas Falklands - desde que continuassem britânicas, claro.
Há cerca de dois anos, porém, recebi um telefonema de uma das minhas tias; para não expor nomes, deixem-me chamá-la Emília - como a boneca de Monteiro Lobato - com quem se parece em espírito e jeito; ela, então, me disse: 
- Eu sou sua tia, apesar de vivermos distantes, sempre pensamos em sua mãe e em você e queríamos conhecê-lo e reunir outra vez a família.
Mil reflexões em um segundo. Não saberia exprimir a todas. Decidi pela união e pela harmonia, como ensina o Rei Salomão: "Há astúcia no coração de quem trama o mal, mas para os conselheiros da paz há sempre alegria" (Provérbios, 12,20).
E foi exatamente isso que encontrei.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Continuação. 22 de n.

Tão profundo e duradouro foi o rancor que minha mãe devotou à sua família que ela retirou os sobrenomes - "Santa Cruz" e "Neves" - de seus documentos de identidade. Certa vez, ela me contou como conseguiu tal proeza apesar da desconfiança da burocracia em circunstâncias como essas.
Ao que parece, ela precisou de uma segunda-via do RG quando já morava no Recife; ao chegar na secretaria de segurança pública com sua certidão de nascimento, um funcionário chamou sua atenção para o fato de que, em vez de ter sido registrada corretamente, alguém, muitos anos antes, por engano, tinha escrito algo como:

"(...) Nesta cidade de Monteiro na Paraíba, aos 18 de junho de 1930, nasceu a criança do sexo feminino
MARIA ZÉLIA
filha de
OSCAR FEITOSA NEVES e
MARIA AUGUSTA SANTA CRUZ NEVES.
(...)"

Minha mãe não percebera o detalhe até aquele momento, fez questão, porem, de ser registrada com o nome que constava na certidão. E conseguiu. Desde aquele dia, seu nome é simplesmente Maria Zélia, o que sempre gerou para ela (e para mim) o embaraço de responder à pergunta: "Zélia de quê?".
Algumas vezes o interlocutor duvidava e pedia para ver algum documento de identidade, o que, para minha mãe - acho - era sempre um momento de satisfação. Quanto a mim, preferia dizer que era sobrenome de origem italiana, mais fácil do que explicar a história toda.
E qual seria a origem tanto ressentimento? Eu nunca soube e, agora, nunca mais saberei. Teria sido uma banalidade como a que levou Lilipute e Blefuscu à guerra? Só D'us sabe. Acrescento apenas ao aforismo da Aslam, um segundo, de natureza cabalística: "a ninguém é dado lembrar o que não está escrito".

domingo, 2 de março de 2014

Continuação. 21 de n.

Nos cem anos que se seguiram à restauração portuguesa no Brasil, a capitania da Paraíba, apesar de escassamente povoada, recebeu mais visitações da Inquisição que Pernambuco, ou a Bahia; a Igreja sabia onde encontrar aqueles que procurava.

Ao contrário do que pensava antes, precisarei avançar a história mais duzentos e cinquenta anos e fazê-la chegar aos eventos vividos recentemente, antes que eles me fujam da memória...

Fazenda Jatobá

Photo: Continuação. 25 de n.

Porteira da Fazenda Jatobá, aberta...

Photo: Continuação. 24 de n.

Porteira da Fazenda Jatobá, aberta...

Pátio da Fazenda Jatobá

Photo: Continuação. 23 de n.

Pátio da Fazenda Jatobá em Monteiro-PB.

Continuação. 20 de n.

BH

Os marranos estudaram seus novos deveres com afinco, depois de algum tempo, passavam-se por católicos exemplares. Surgiam, porém, novas dificuldades: como continuar cumprindo as Mitzvot? Como descobrir o início do Shabat? Como guardá-lo, sem levantar suspeitas? Como celebrar festas em datas irrelevantes para os cristãos? Como rezar do jeito certo? Como acender velas sem se denunciar? Como fazer o brit! (1)?
Muitos marranos, em busca de discrição e segurança, optaram por se embrenhar no sertão. As necessidades da nova vida, então, se impuseram, e moldaram o caráter do marrano; ele se tornou reservado, desconfiado, arredio, desagradável de trato, misantropo.
Fugiram primeiro para os engenhos, e de lá, para o agreste de Pernambuco, depois para o sertão, por onde alcançaram a Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará. Os costumes da Lei eram transmitidos verbalmente de pai para filho, de mãe para filha, e também os medos.
“Menino! Apontar para as estrelas faz nascer verruga na ponta do dedo!”.
“Meu filho, reze sempre voltado para o nascente e cubra a cabeça ao rezar. Quando chegar nessa parte, cubra os olhos”.
“Minha filha, no fim da tarde de sábado, tire tudo do armário e acenda duas velas lá dentro”.
Procuravam casar-se com conhecidos, o que nem sempre era possível. Quanto mais bem sucedido o marrano em sua arte, mais difícil se tornava identifica-lo. Exteriormente, continuavam a manifestar uma fé que não professavam, desconfiavam, todo tempo, de padres e principalmente de bispos.
Há registros de moças que, tendo-se acreditado boas católicas por toda a vida, descobrem na véspera do casamento – arranjado pelos pais com um rapaz marrano – que eram judias. Precisavam, então, em uma noite, aprender novas rezas e costumes para, no momento oportuno, transmiti-los à próxima geração de marranos.
Na minha casa não se comia carne de porco, nem carne mal passada. Minha mãe costumava acender velas e fazer orações em voz baixa pela manhã e à noite, porém, recebi uma ortodoxa educação católica: fui batizado, fiz primeira comunhão, ia à missa etc. Se for possível dizer que a propensão a fé se assemelhar a um gene, ou a um bit, acredito que, no meu caso, essa característica é dominante, quer dizer, esse bit esteve, no mais das vezes, ligado.

Nos próximos dias vou a Monteiro na Paraíba, retomar uma história há muito interrompida, por isso, permiti-me escrever um pouco mais hoje. Não sei se poderei tão cedo contar o que vou ver pela primeira vez, com meus próprios olhos. Memórias levam séculos para amadurecer.


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(1) B'rit Milá, circuncisão a que todo varão da casa de Israel se submete.

Continuação. 19 de n.

BH

Alheio às aventuras de seus amigos e vizinhos que voltaram para Amsterdã, o marrano se acostuma a conviver com o medo, não com pessoas. 
Paradoxalmente, é capaz de enormes temeridades, o criptojudaísmo, naturalmente, é a maior delas. Como poderia passar pela cabeça de alguém, reconhecidamente judeu, a hipótese de que uma súbita mudança de crença, em momento de particular atribulação, pudesse vir a ser confundida pela Igreja Católica com uma conversão genuína? Como acreditar que conseguiria continuar a cumprir as Mitzvot (1), cumuladas agora com os sacramentos da nova fé? Como pensava identificar, doravante, os membros de casa de Israel?
A explicação a tais indagações é dada por outro sentimento que todo marrano carrega consigo: a autossuficiência, e, nos casos mais agudos, a prepotência.
De imediato, foi preciso aprender o catecismo: decorar as orações católicas (em latim), a ordem do rito canônico, os momentos de se levantar e de se sentar.
Demonstrar respeito, agora, exigia tirar o chapéu, em vez de colocar o solidéu.
A língua não era um grande transtorno, os marranos dominavam o ladino, que lhes permitia se comunicar em português, castelhano e catalão. Alguns conheciam um pouco da língua dos batavos, que se parece com a dos askenazim. Outros falavam francês, todos sabiam um pouco da Lashon Kodesh (2) – o hebraico.
Mais difícil era não se trair em público demonstrando desconhecimento a respeito dos sinais exteriores da nova religião. Como se benzer? Quando se persignar? Pior que tudo, sendo agora um gentio, como se relacionar com os demais gentios?


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(1) Mandamentos. Na Religião judaica há 613 mandamentos.
(2) Língua sagrada.

Continuação. 18 de n.

Ser casado com uma psicóloga me confere, entre outros privilégios, um certificado de "psicólogo de botequim", posso, por exemplo, referir-me a Freud e dizer que, sempre, em qualquer circunstância, e na maior extensão possível, tudo que acontece no universo psíquico de um indivíduo é culpa de sua mãe; quem me ouve, costuma me dar crédito, em primeiro lugar, porque faz sentido, mas, principalmente, porque pensa: “ele deve ter ouvido isso de S”, o que nem sempre é o caso.

Posso também, mesmo aqui, contar a célebre piada, sobre as mães que se desesperam com filhos que não querem comer.
A mãe italiana brada: “se não comer, eu mato você!”; enquanto a mãe judia suspira: “se você não comer, eu me mato...”;já a mãe árabe lamenta: “se você não comer, seu pai me mata!”. Mas insuperável mesmo é a mãe espanhola que explode: “se você não comer, eu mato seu pai, mato você e depois me mato!”.

Na minha casa, minha mãe sempre deixou claro que, ali, criança comia sem reclamar...Vê-la hoje com Alzheimer é muito triste Leva a muitas reflexões dolorosas, e a um luto alimentado constantemente por sua demência.

Continuação. 17 de n.

BH

E se?

Eis uma pergunta impossível de ser respondida por um historiador. O hipotético é domínio da literatura; sua matéria prima é a imaginação, nunca cartas, documentos ou inscrições. A arte cria seus próprios hieróglifos, entroniza seus heróis e pune seus vilões. Às vezes, faz o contrário também...
O grande escritor cristão C. S. Lewis reponde de maneira categórica ao “e se?”. 
Em uma das aventuras em Nárnia, Lúcia e seus irmãos são chamados por Aslam - o leão não-domesticado - para se encontrarem com ele, seguindo por um caminho que ladeava um despenhadeiro. Ao chegarem bem próximos de um precipício, perdem o leão de vista; decidem, então, voltar e procurar uma rota mais fácil
O fácil, porém, se revela árduo, muito mais do que poderiam supor. Quando, por fim, depois de algumas peripécias, encontram-se frente a frente com Aslam, Lúcia lhe pergunta: “como teria sido, se tivéssemos continuado no caminho do despenhadeiro?”.
Aslam responde (não exatamente com essas palavras): “a ninguém é dado saber como teria sido o que não foi.”
“E se o Brasil não tivesse expulsado os judeus de Pernambuco?”
Pessoalmente, acredito que Nova York estava fadada ao sucesso, por razões, que não precisam ser detalhadas aqui, mas é impossível não incluir a tolerância religiosa entre elas.
Pernambuco e o Brasil, ao contrário, como sabemos, mergulharam em 2 séculos de ignorância e preconceito – esses quase sinônimos.
Recife perdeu artesãos e comerciantes habilidosos, empreendedores e professores letrados em mais de um idioma. Quando mais esses talentos se tornavam indispensáveis no início da modernidade, o Brasil os entregou de graça para neerlandeses e britânicos. Nem mesmo foi capaz de compreender o erro que cometera.
Isso nos faz voltar ao Sultão Bayezid II; diz-se que duvidava da inteligência dos reis católicos Fernando e Isabel. “Que outra explicação poderia haver” – pensava – “para que empobreçam seu próprio reino e enriqueçam o meu?”

A rua da paliçada

Photo: Continuação. 19 de n.

Continuação. 16 de n.

BH

A paliçada de Nova Amsterdã era pouco mais que um muro construído com madeira e barro. Estendia-se do leste da ilha até um mangue no oeste, que, por sua extensão e profundidade, constituía por si só uma defesa mais eficaz que a própria amurada.
A alegria dos judeus por estarem juntos e livremente poderem praticar sua religião era indescritível – além de rara naquele mundo. Gostaram do lugar e por lá foram ficando; construíram suas casas, uma sinagoga, uma Mikvê (1) e, claro, uma escola.
Graças ao Eterno, nunca precisaram atuar como sentinelas ou escudos da cidade, alguns anos depois de sua chegada, os Países Baixos e a Inglaterra celebraram o Tratado de Breda por meio do qual a ilha de Manhattan se integrou às colônias britânicas da América do Norte, em troca, os neerlandeses ganhavam a soberania sobre algumas ilhas produtoras de especiarias no Oceano Índico.
A cidade passou, então, a se chamar New York e, dadas as suas qualidades naturais, rapidamente prosperou. Sob domínio britânico expandiu-se para o norte, muito além do muro, que, por fim, tornou-se desnecessário.
Em seu lugar foi traçada uma rua: a Rua do Muro, "Wall Street". 
Os refugiados de Mauritstadt compareceram à sua inauguração. "Gam zu LeTovah".

Toda esse história, naturalmente, leva a uma pergunta inescapável: "e se"?


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(1) Piscina de purificação ritual.

Continuação. 15 de n

BH

Novos percalços aguardavam os refugiados em Nova Amsterdã. O oficial encarregado de controlar a entrada da cidade recebera ordens de não permitir a ingresso de viajantes sem passaporte. Tentaram argumentar que não receberam passaportes quando se mudaram para Pernambuco, porque, no fim das contas, tratava-se de uma conquista. O homem, porém, permaneceu irredutível.
Graças ao Eterno, rapidamente, o impasse chegou ao conhecimento do governador colonial Petrus Stuyvesant – o que somente foi possível por conta do tamanho da acanhada burocracia colonial.
Calvinista fervoroso, assim que soube do pedido de refúgio formulado pelos judeus de Mauritstad, Stuyvesant teria dito:
– Raça de usurários! Se os deixar permanecer na vila, em breve, teremos por aqui luteranos, quakers e até papistas!
Foi convencido a mudar de ideia por alguns marinheiros neerlandeses que acompanharam os judeus na 2ª parte da viagem e relataram minunciosamente o que presenciaram em Trinidad; lembraram também que muitos judeus fizeram parte do exército dos Países Baixos em Pernambuco.
Decisiva, por fim, foi a intervenção dos homens da Companhia das Índias Ocidentais que lembraram ao governador, os bons laços de amizade e comércio que mantinham com a colônia judaica de Amsterdã.
– Pois está muito bem! Mas que se alberguem no limite extremo da cidade, eu os quero próximos à paliçada; que ao menos sirvam de sentinelas em caso de novos ataques de aborígenes ou ingleses.

No primeiro Shabat, na rua da paliçada, em Nova Amsterdã, Manoel Franc celebrou:
– Quem não acredita em milagres, deveria conhecer a nossa história!

2a parte da viagem

Photo: Continuação. 16 de n.

BH

2a. parte da viagem.

Continuação. 14 de n.

BH

Quis o Eterno que a segunda parte da viagem se desse em paz. Os judeus aproveitaram o ensejo para rezar e agradecer a HaShem por estarem vivos.

Antes de continuar a saga, permitam-me uma breve divagação. Como sabem, não sou historiador ou especialista em assuntos militares, mas acho que tropecei em uma peculiaridade do início do período colonial, sobre a qual nunca li ou ouvi qualquer referência – certamente por preguiça de minha parte.
Notei que os portugueses, inspirados em Lisboa, escolhiam, de preferência, lugares elevados para fundar suas cidades, assim são, por exemplo, suas principais praças no Brasil nos séculos XVI e XVII: Olinda e Salvador.
Os batavos, ao contrário, preferiam manguezais, ilhas próximas a estuários ou deltas, locais que lembrassem a terra de onde vinham. Consta que gostam de dizer: “D’us criou o mundo, os neerlandeses criaram os Países Baixos”.
Mauritstadt e Nova Amsterdã compartilham a engenhosidade de seus fundadores: eram ilhas, cobertas de mangues, com fácil acesso a rios, por meio dos quais se ligavam ao continente, e também ao mar o que as mantinham em contato com a metrópole.
Quando os judeus de Pernambuco chegaram a Nova Amsterdã, porém, a colônia na América do Norte, em comparação com sua congênere do sul, era minúscula, feia, pobre, primitiva e insegura; era frequentemente atacada e, às vezes, saqueada por índios ou ingleses.

Continuação. 13 de n.

BH

– Muitas penas capitais me aguardam na Europa – Quebra o silêncio, por fim, o bucaneiro – precisariam de algo mais rápido que a forca para executar a todas – graceja. 
Novo silêncio interminável.
– Levo-vos até nossa colônia em Granada (1), onde podereis encontrar meios de alcançar um porto seguro. – Conclui secamente. 
– Sois um homem justo, meu capitão – Balbucia Manoel Franc.

A esperança abraçou os refugiados na continuação da viagem; em vez de inquisidores, comerciantes; Amsterdã era apenas uma questão de preço.
São inescrutáveis, porém, os desígnios do Eterno.
Em Granada não havia capitães dispostos a arriscar uma viagem transatlântica com passageiros tão indesejados em troca de uma mera promessa de pagamento no destino. O máximo que conseguiram, à custa dos poucos bens que trouxeram de Pernambuco, foi um traslado até a colônia neerlandesa de Nova Amsterdã, na América do Norte.


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(1) Então possessão francesa.

Continuação. 12 de n

BH

Um novo assovio e o cão corre em direção ao seu dono, abanando o rabo e buscando aprovação com olhos suplicantes, distraído o homem lhe faz uma carícia na cabeça, o animal treme de satisfação.
Voltando-se para os prisioneiros, pergunta-lhes,com algo parecido com um sorriso no rosto: 
– Sois crentes da fé reformada? 
– “Ja” (1). – Responde um holandês.
– Não, meu capitão, somos judeus das Províncias Unidas, íamos de Mauritstadt para Amsterdã quando fomos sequestrados pelos espanhóis. – Disse, em francês, Manoel Franc.
A simpatia inicial se dissipou, agora, com o sol mais alto, o bucaneiro põe-se a apurar o resultado da expedição: uma vintena de espanhóis mortos contra nenhum dos seus. Um galeão espanhol afundado. Dois navios neerlandeses severamente avariados. A vila fora saqueada na véspera, os poucos habitantes que escaparam da investida noturna, correram para se refugiar no mato. Essa era, para ele, a perfeita definição de “sucesso”.
Em seguida, dá ordens de embarque a seus homens, e, voltando-se para os libertos determina:
– Os fieis em Cristo são bem vindos a bordo, os demais permanecem em terra.
– Não cometais tamanha injustiça, meu capitão! – exclamou Franc – Se aqui permanecermos, quando os espanhóis retornarem darão cabo de todos nós, homens mulheres e crianças. Podemos pagar-vos, desde já, um sinal pelo deslocamento e pela estada, quando chegarmos a nosso destino, nossos patrícios saberão ser generosos para convosco.
O francês deu de ombros.
Tomado de grande aflição, Franc faz nova tentativa: – “Êtes vous um homme de foi, mon captaine?” (2)
O francês, ele mesmo um foragido, hesita por um segundo e, naquele instante, revela uma centelha de humanidade. Aproveitando o ensejo, Franc continua:
– Vede, meu senhor, tenho comigo um Saltério (3), nele, meu povo ora é exaltado, ora repreendido, escolhei uma página ao acaso e deixemos que a Palavra indique o Justo no nosso caso. 

A ideia lhe ocorrera subitamente, a expôs de um só fôlego, em seguida, acrescentou: – “Está em castelhano, posso traduzir-vos ou podeis requerer a alguém de vossa confiança que o faça.”
O francês fez um sinal com a cabeça indicando que não seria necessário.
Manoel Franc tira do bolso do casaco um livro miúdo e com uma mesura o entrega ao capitão, este sorteia uma página e o devolve.
E Franc, então, lê:
“Ao mestre do canto, sobre Machalat, um Maskil (4) de David.
Os insensatos dizem em seu coração: ‘Deus não existe”.
Eles se corromperam e desprezaram a Justiça.
Não há entre eles quem pratique o bem.
Dos céus, o Eterno perscruta os homens para verificar se alguém se preocupa em buscar a Deus.
Mas todos se contagiaram com a depravação e não há um sequer que pratique o bem.
Acaso não se apercebem de seus erros os iníquos que devoram meu povo como se fora pão e que, e que não invocam a Deus?
Serão atingidos por um terror como nunca houve antes, pois o Eterno espalhará os ossos dos que te sitiaram, ó Jerusalém.
Ele os humilhará e os tornará objeto de desprezo.
Que de Tsion venha logo a salvação de Israel.
Quando o Eterno fizer retornar Seu povo, Jacob exultará e Israel se rejubilará.(5)
A praia ficou em silêncio, homens e aves emudeceram, até o mar se aquietou e as ondas silenciaram.

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(1) Sim em holandês.
(2) Sois um homem de fé, meu capitão?

(3) Livro dos Salmos.
(4) Formas musicadas dos Salmos que, infelizmente, foram perdidas.
(5) Salmo 53.

1a parte da viagem

Photo: Continuação. 14 de n.

BH 

Eis a primeira parte da viagem.

Continuação. 11 de n.

BH

Os navios aportaram em Trinidad antes do nascer do sol, o vilarejo ainda dormia quando o desembarque começou, em poucos minutos, passageiros, tripulantes e homens de armas estavam em terra firme. Batavos e judeus eram mantidos agrupados por um cordão de isolamento formado por uma dezena de conquistadores. O comandante espanhol adiantou-se e partiu em direção à sede do governo local.
Eis que, juntamente com as primeiras luzes da manhã, salvas de mosquetes atingem, um a um, os soldados espanhóis, que caem mortos sem ter tempo, sequer, para uma oração. No mar, após contornar um promontório parecido com o Pão de Açúcar, um grande navio de guerra francês colhe o galeão espanhol em posição vulnerável e o põe a pique antes de esboçar qualquer reação.
O comandante espanhol é o único a compreender o que se passa. Em desabalada carreira, lança-se à busca de lugar seguro no forte; enquanto corre, pensa nas honrarias a que faria jus caso impedisse o êxito da emboscada francesa:  “Além da aduana” – divaga – “sagro-me cavaleiro”
Um agudo assovio corta o ar. Atendendo à ordem de seu dono, um gigantesco cão cinza, põe-se no encalço do fugitivo.
Enquanto continua a correr, o estremenho(1) sonha: “Caso-me com uma moça de boa família.” Escorrega, volta-se para trás, vê o mastim, começa a delirar: “Conquisto uma baronia”,  Cai de novo. Levanta-se, tenta sacar a espada. “Sou recebido pelo Rei...”
O animal salta no seu peito; lança o homem ao chão; abocanha seu braço, trava os dentes e balança a cabeça dilacerando carnes, veias e ossos. Jorros de sangue aspergem a areia.
Ao morrer, estocado no peito por um soldado francês, o capitão espanhol já era Vice-Rei do México.


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(1) Natural da região da Estremadura na Espanha.