Um breve comentário sobre o presente.
Subi no elevador com um sujeito de maus bofes que costuma prender a porta enquanto carrega suas compras.
Reclamei.
O sujeito ficou furioso, ė um gradalhão que aparentemente costuma resolver as suas questões no braço. Quase chegamos às vias de fato. Se tivesse acontecido uma briga, certamente eu teria levado a pior, ainda mais dentro de um elevador. Mas o pior mesmo é que ficaria por isso mesmo.
Ainda que eu o levasse à justiça, o processo seria demorado e possivelmente inócuo. Sem contar que nada o impediria de me tocaiar e fazer algo pior e permanecer primário e impune.
Vivemos em uma situação hobbesiana, a ausência de repressão - aos criminosos perigosos e também aos valentões da esquina - deixa o homem de bem desprotegido. Eis, meus netos, o retrato do Brasil em 30 de abril de 2014.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
Continuação. 82 de n.
B’H
D e S dizem que sou
um fóssil, e estão certos! Sou mesmo antiquado e já era assim aos 25 anos, do
contrário, como explicar que sozinho, solteiro e com um bom emprego, em
Brasília, eu estivesse, em 1990, preocupado em estudar a Bíblia? Soa incompreensível para muitas pessoas em 2014.
Isso foi antes
de conhecer S, claro, mas não vamos atropelar a história.
Comprei uma
Bíblia Católica nas Edições Paulinas, que ficava do lado do Sarah.
As versões católicas
contêm os livros apócrifos dos Macabeus, Judite e Tobias, que não se encontram nas
edições protestantes, era, portanto, do que eu precisava para começar a
estudar.
A narrativa
monumental da criação do mundo em seis dias e da consagração do Shabat não era
novidade para mim; dali para frente, porém, a leitura foi se tornando cada vez
mais árida, até ficar insuportável.
Falando como
engenheiro, eu estava acostumado com textos difíceis; naquela época, meu trabalho
exigia operações matemáticas complicadas como a filtragem de séries discretas
de coordenadas espaciais (i de n) em que cada ponto representava a posição de uma
articulação do paciente em movimento – depois explico do que se trata com um
pouco mais de clareza –, eu precisava, pois, estudar
muito porque era uma área inteiramente nova para mim e os textos técnicos não eram simples, a Bíblia, porém, mostrou-se
mais difícil: Como entender um D’us que se arrepende? Qual a origem do mal na
criação?
E eu ainda nem tinha
chegado no Êxodo...
Por que D’us decidiu
castigar todo povo egípcio pela conduta cruel de seu rei?
Que D’us era
aquele?!
Não podia
continuar sozinho. Precisava de ajuda, Voltei às Paulinas, dei uma olhada nas estantes e fiz um achado: o livro “Assim se formou a
Bíblia” do frei dominicano alemão Diego Arenhoevel*, especialista em análise
literária das escrituras.
Amanhã falo mais
sobre ele.
*Lê-se arenrêfel,
o que, para ser franco, não ajuda muito a pronunciar o nome do frei em
português....
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Continuação. 81 de n.
E agora voltemos a S, a secretária do Sarah Kubitschek.
S, como eu disse, era presbiteriana, assim que cheguei ao Laboratório de Movimento, ela me perguntou qual era minha religião, quando respondi: Espírita, sem esconder o desapontamento, ela murmurou algo como: “Ah...eu sou cristã...”
Tentei explicar que o Espiritismo é uma religião cristã, porém, balançando a cabeça, ela disse: “na minha igreja não tem essa coisa de despacho, não”.
A confusão que ela fazia era compreensível; para fugir de discriminações e perseguições, os praticantes de religiões animistas de origem africa, no Brasil, se diziam espíritas e continuam se identifcando assim ainda hoje.
Curiosamente, o termo Espiritismo foi cunhado por Allan Kardec, conhecido pelos espíritas como o codificador, com o preciso propósito de distinguir a sua doutrina de outras religiões, e do termo mais geral “espiritualismo". O professor Rivail - nome de batismo de Kardec - era um homem metódico, não ficaria nem um pouco satisfeito com o imbroglio brasileiro.
O fato é que, até quase o fim do século passado, o Brasil era muito mais acentuadamente católico do que nesse início de século XXI. A Igreja exercia sua influência para dificultar o exercício das outras religiões. As dificuldades variavam da doutrinação pouco tolerante vinda dos púlpitos, até o estímulo à perseguição policial no caso da umbanda e do candomblé.
A situação do Espiritismo era privilegiada naquela época, apesar de não ser católica, era uma religião tolerada por dois motivos: em primeiro lugar, porque era praticada principalmente por pessoas de classe média, para ser explícito, por brancos; e em segundo, porque havia, entre seus adeptos, muitos militares - possivelmente por conta de uma certa semelhança com o positivismo muito influente nos quartéis. De fato, os revoltosos que derrubaram D. Pedro II e proclamaram a república até gravaram um lema de Auguste Comte na nossa bandeira.
O resultado é que em busca da mesma tolerância, muitos terreiros de umbanda passaram a se auto-denominar centros espíritas, o que levou à criação de novoas terminologias por essasbandas como "espiritismo kardecista" ou de "mesa branca".
Inutilmente, expliquei toda essa história para S, a secretária. Ela tinha uma resposta na ponta da língua, provavelmente ensinada por seu pastor: “Mas a Bíblia proíbe comunicações com os mortos”.
Tive então que explicar que, no espiritismo “kardecista” sério, reuniões mediúnicas são a exceção, nunca a regra.
“Veja meu caso, por exemplo, sou espírita há uns 6 anos já, e nunca participei de uma única sessão mediúnica; nesse tempo todo, apenas ia toda semana à Federação Espírita em Pernambuco, e assistia a palestras edificantes de doutrina eminentemente cristã”.
Não convencida, ela disse que isso não importava, o Espiritismo era produto de comunicações mediúnicas o que é proibido pelas Escrituras e pôs-se a citar passagens bíblicas.
Lembro, em especial, da história de Saul, o primeiro rei de Israel.
De acordo com o primeiro livro de Samuel, na véspera de uma batalha decisiva contra os filisteus*, o monarca procurou uma médium e lhe pediu que invocasse o espírito de Samuel, o último dos juizes. Samuel, de fato, se manifesta, mas repreende asperamente o rei por ter profanado a incomunicabilidade que deve ser preservada entre o mundo dos mortos e o dos viventes. Como castigo, Samuel adverte, Saul seria completamente derrotado no dia seguinte e sua casa substituída pela de Davi no trono de Israel.
“Você nunca leu a Bíblia, não?” S, pergunta.
Percebi naquele dia que, nem nos meu tempos de católico, nem tampouco como espírita, eu jamais lera a Bíblia.
Algo precisava ser feito.
--
* Filisteus ou philistin, povos de origem indo-européia que invadiram Eretz Israel pelo Mar Mediterrâneo e deram o nome da Palestina aos seus domínios, mais de um milênio antes da expansão militar árabe-muçulmana. Foram derrotados por Davi.
domingo, 27 de abril de 2014
Continuação. 80 de n.
Não vou contar o
que foram – ou como foram – os fenômenos espíritas a que me referi, eu mesmo não
os entendo até hoje, mas posso falar de seus desdobramentos. Procurei a
Federação Espírita no Recife e fiz o que se pode chamar de consulta; eles foram
muito corretos, não pediram dinheiro, nem que eu me tornasse um membro
da “igreja”, disseram apenas que estudasse a doutrina espírita e aguardasse o
momento oportuno.
Esse momento
nunca chegou, mas segui as orientações; li toda a obra de Allan Kardec: O livro
dos espíritos, O livro dos médiuns, A Gênese, O céu e o inferno e O evangelho
segundo o espiritismo. Aproveitei que estava estudando francês e li esse último
também no original. Não satisfeito, devorei os livros de Jean Baptiste
Roustaing – os espíritas, e só eles, conhecem esse autor – e praticamente toda
a obra psicografada por Chico Xavier.
Para completar,
li com atenção um número razoável de obras históricas e outras avulsas, que, mais
tarde, me ajudaram a deixar o mundo espírita.
Isso eu posso
explicar desde já. Muitos desses textos apresentam um defeito insuperável se admitimos
terem sido ditados por entidades livres das limitações do
mundo material: eles abrigam erros historiográficos e – o que é pior - preconceitos
de época. São, portanto, datáveis, e desprovidos da atemporalidade exigida de uma
obra religiosa. Alguns, lamento dizer, são francamente antissemitas.
Essa mudança de
rumos, porém, aconteceu mais tarde, durante muitos anos ainda eu seria um bom
espírita.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Continuação. 79 de n.
Algumas vezes, pessoas com as quais tivemos muito pouco contato influenciam de modo decisivo nossas vidas. Recordado agora, tanto tempo depois, vejo que esse foi o caso de S, a secretária do Laboratório de Movimento, a respeito de quem falei no episódio sobre a posse de Fernando Collor de Mello.
S era presbiteriana, i. e., calvinista como os invasores de Pernambuco no século XVII, mas isso é só uma coincidência. Antes de contar a história de S, preciso falar um pouco de minhas próprias convicções religiosas.
S era presbiteriana, i. e., calvinista como os invasores de Pernambuco no século XVII, mas isso é só uma coincidência. Antes de contar a história de S, preciso falar um pouco de minhas próprias convicções religiosas.
Como disse antes, acredito que há pessoas dotadas de um estrito sentido religioso transcendente - eu me incluo nesse grupo - e há as que depositam sua fé em coisas mundanas como o proletariado, a ecologia, ássanas etc.
Logo que entrei na faculdade, passei da primeira para a segunda categoria, tornei-me, em parte por pressão do meio, ateu e socialista; transferi minha fé de criança para a ciência e para a classe trabalhadora. Era muito difícil no Recife dos anos 80, para alguém com meu temperamento, não ser reacionário ou comunista.
Não me sentia confortável como socialista, contudo.
Não me agradavam diversos comportamentos de meus correligionários, prefiro não mencioná-los agora, e também a ausência de explicações plausíveis para a situação precária em que viviam os povos sujeitos à engenharia social marxista no leste da Europa, China – então paupérrima – e Cuba. Não posso dizer que fosse bem visto por isso; minha falta de fé se assemelhava a de um católico que questionasse a concepção virginal de Jesus.
Terminei me tornando um apóstata, dois fenômenos espíritas contribuíram para me trazer de volta para o lado das religiões transcendentes.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Continuação. 78 de n.
Duas lembranças extras sobre minha nova vida em Brasília.
Entrei em exercício no Hospital Sara Kubitschek no dia 01 de março de 1990, uma quinta feira. Fernando Collor de Mello tomaria posse na presidência da república dali a duas semanas. Logo nos primeiros dias no hospital, lembro de estar conversando com a secretária do Laboratório de Movimento no restaurante dos funcionários durante o almoço, quando, do nada, ela disse:
- No dia quinze vai ser feriado, vou aproveitar para...
Interrompi e perguntei: - Feriado por quê?
- A posse do collorido, ora.
- Já está confirmado?
- Ainda não, mas vai ser.
Eu ainda raciocinava como um brasileiro comum, a secretária, S,, como brasiliense.
Claro que ela estava certa, No dia 15 de março de 1990, Brasília parou para assistir ao coroamento do homem que dois anos mais tarde, por bons e maus motivos, seria enxotado do palácio do planalto em um inédito processo de impeachment.
Por que claro? Porque a cidade, foi construída para concentrar o poder, exaltá-lo e oferecer-lhe meios de ação. Despojadas de máscaras e adereços, as posses de cada novo presidente, de acordo com a liturgia pagã do estado, correspondem ao nascimento do Messias.
Ainda iria me deparar com essa peculiaridade de Brasília em outras ocasiões.
Por enquanto, vamos ao Segundo episódio. Devo confessar, antes de tudo, que se trata de uma história que ouvi contar e que não me dei ao trabalho de confirmar, mas, como vocês verão, para ela cabe com perfeição o ditado: "se non è vero, è ben trovato".
Pensem no aeroporto de Brasília - hoje chamado Juscelino Kubitschek - na hora da chegada de um voo internacional. Na mesma hora se forma uma fila enorme no lugar onde auditores-fiscais da Receita Federal selecionam os viajantes que terão suas bagagens inspecionadas.
Reza a lenda que um deputado aproximou-se do fiscal de plantão e pediu para ser o primeiro a passar pela vistoria, porque, afinal, era deputado.
O auditor lhe respondeu:
- Perfeitamente, excelência, pode ficar do meu lado aqui na frente.
Em seguida, virando-se para os demais passageiros, disse em voz alta:
- Pessoal, pessoal! Atenção! O deputado aqui está pedindo para passar na frente de todos, o que vocês acham?
Dias depois, o Inspetor, chefe da aduana do aeroporto (ou teria sido o próprio secretário), recebeu uma carta da câmara dos deputados protestando com a atitude da autoridade fiscal e exigindo que fossem tomadas as medidas disciplinares cabíveis.
Consta que, depois disso, o fiscal foi deslocado da bancada do aeroporto, para um serviço burocrático interno...
Entrei em exercício no Hospital Sara Kubitschek no dia 01 de março de 1990, uma quinta feira. Fernando Collor de Mello tomaria posse na presidência da república dali a duas semanas. Logo nos primeiros dias no hospital, lembro de estar conversando com a secretária do Laboratório de Movimento no restaurante dos funcionários durante o almoço, quando, do nada, ela disse:
- No dia quinze vai ser feriado, vou aproveitar para...
Interrompi e perguntei: - Feriado por quê?
- A posse do collorido, ora.
- Já está confirmado?
- Ainda não, mas vai ser.
Eu ainda raciocinava como um brasileiro comum, a secretária, S,, como brasiliense.
Claro que ela estava certa, No dia 15 de março de 1990, Brasília parou para assistir ao coroamento do homem que dois anos mais tarde, por bons e maus motivos, seria enxotado do palácio do planalto em um inédito processo de impeachment.
Por que claro? Porque a cidade, foi construída para concentrar o poder, exaltá-lo e oferecer-lhe meios de ação. Despojadas de máscaras e adereços, as posses de cada novo presidente, de acordo com a liturgia pagã do estado, correspondem ao nascimento do Messias.
Ainda iria me deparar com essa peculiaridade de Brasília em outras ocasiões.
Por enquanto, vamos ao Segundo episódio. Devo confessar, antes de tudo, que se trata de uma história que ouvi contar e que não me dei ao trabalho de confirmar, mas, como vocês verão, para ela cabe com perfeição o ditado: "se non è vero, è ben trovato".
Pensem no aeroporto de Brasília - hoje chamado Juscelino Kubitschek - na hora da chegada de um voo internacional. Na mesma hora se forma uma fila enorme no lugar onde auditores-fiscais da Receita Federal selecionam os viajantes que terão suas bagagens inspecionadas.
Reza a lenda que um deputado aproximou-se do fiscal de plantão e pediu para ser o primeiro a passar pela vistoria, porque, afinal, era deputado.
O auditor lhe respondeu:
- Perfeitamente, excelência, pode ficar do meu lado aqui na frente.
Em seguida, virando-se para os demais passageiros, disse em voz alta:
- Pessoal, pessoal! Atenção! O deputado aqui está pedindo para passar na frente de todos, o que vocês acham?
Dias depois, o Inspetor, chefe da aduana do aeroporto (ou teria sido o próprio secretário), recebeu uma carta da câmara dos deputados protestando com a atitude da autoridade fiscal e exigindo que fossem tomadas as medidas disciplinares cabíveis.
Consta que, depois disso, o fiscal foi deslocado da bancada do aeroporto, para um serviço burocrático interno...
terça-feira, 22 de abril de 2014
Continuação. 77 de n.
Além da chuva de granizo, outra experiência marcante do meu início de Brasília foi uma discussão que tive com um desconhecido em uma agência de correios perto do Sarah.
Lembro de ter caminhado no sol do meio-dia para enviar umas cartas e uns postais para o Recife, quando cheguei na agência havia uma fila grande e uns poucos guichês abertos. Mal tinha acabado de entrar e de escolher o guichê com a fila menor - na época não havia “fila única” -, quando uma nova caixa foi aberta bem do meu lado e o funcionário fez sinal para que eu me aproximasse.
Distraído, cheguei no balcão.
Pra quê?
Um sujeito que estava em outra fila, pôs-se a esbravejar, dizendo eu tinha desrespeitado a ordem de chegada, blá blá blá...
Tentei explicar que não tinha tido essa intenção, mas naquela altura o balconista já tinha pegado as minhas cartas e não era mais possível voltar atrás. O sujeito continuou a gritar, devo ter respondido qualquer coisa, ele foi finalmente atendido na sua própria fila e tudo ficou por isso mesmo.
Somente alguns meses depois percebi porque o sujeito ficou tão revoltado. A verdade é que Brasília é uma cidade nobiliárquica. Os figurões – parlamentares, juízes e promotores, principalmente, mas também ministros, secretários e outros burocratas de alto escalão do poder executivo – ordinariamente furam filas e usufruem de privilégios derivados do mero exercício do cargo.
Isso é um fato comum principalmente em aeroportos e restaurantes. A plebe rude se sente lesada, mas em uma cidade que existe pelo e para o poder, não há muito o que fazer, sem ouvir o clássico: "Sá cum quem?"*
Na agência dos correios, o que o esquentadinho não suportou foi que eu, um comum, passasse na sua frente.
Isso não!
Automaticamente, passei para outra categoria a dos que merecem a interpelação: “Quem esse cara pensa que é?"
Passaríamos por um grande progresso civilizacional se fizéssemos a segunda pergunta não apenas a cidadãos do mesmo rank social, mas principalmente aos nobiliarcas da república.
Recentemente, no governo Lula da Silva, foi criado um Conselho de notáveis, denominado Conselho de Desenvolvimento Enconômico e Social. O órgão foi apelidado Conselhão pela imprensa. Poucos notaram que a melhor designação para o estrupício seria ConDES, no Brasil, esses "nobres" nunca se destacaram por qualquer capacidade especial, exceto sugar o erário.
A meu favor, no caso dos Correios, devo dizer que não furei a fila por mal, ou por pretensão, mas porque sou um cabeça de vento mesmo
Quem sabe, no futuro, meus netos, para quem agora escrevo estas memórias, perguntem:
- O que são estas tais de cartas de que o vovô Alfredo vive falando?
Pacientes, D ou S talvez respondam:
- Eram umas mensagens que as pessoas do século passado mandavam umas para as outras quando queriam dar notícias.
Depois de alguns segundos de silêncio, uma vozinha replicará:
- E por que elas não mandavam e-mails?
Dias desses recebi uma mensagem de minha nora, que ainda esta Austrália, sobre algumas obras literárias que não teriam existido se, na época, houvesse telefone celular – foi isso ou algo do gênero.
Nem cheguei a ler a postagem, pensei logo em Romeu e Julieta.
A tecnologia pode facilitar muito nossas visas, mas também pode destruir nossa cultura.
-----------------
* Sabe com quem [está falando]? Em mineirês, variante do português muito usada no Planalto Central.
Lembro de ter caminhado no sol do meio-dia para enviar umas cartas e uns postais para o Recife, quando cheguei na agência havia uma fila grande e uns poucos guichês abertos. Mal tinha acabado de entrar e de escolher o guichê com a fila menor - na época não havia “fila única” -, quando uma nova caixa foi aberta bem do meu lado e o funcionário fez sinal para que eu me aproximasse.
Distraído, cheguei no balcão.
Pra quê?
Um sujeito que estava em outra fila, pôs-se a esbravejar, dizendo eu tinha desrespeitado a ordem de chegada, blá blá blá...
Tentei explicar que não tinha tido essa intenção, mas naquela altura o balconista já tinha pegado as minhas cartas e não era mais possível voltar atrás. O sujeito continuou a gritar, devo ter respondido qualquer coisa, ele foi finalmente atendido na sua própria fila e tudo ficou por isso mesmo.
Somente alguns meses depois percebi porque o sujeito ficou tão revoltado. A verdade é que Brasília é uma cidade nobiliárquica. Os figurões – parlamentares, juízes e promotores, principalmente, mas também ministros, secretários e outros burocratas de alto escalão do poder executivo – ordinariamente furam filas e usufruem de privilégios derivados do mero exercício do cargo.
Isso é um fato comum principalmente em aeroportos e restaurantes. A plebe rude se sente lesada, mas em uma cidade que existe pelo e para o poder, não há muito o que fazer, sem ouvir o clássico: "Sá cum quem?"*
Na agência dos correios, o que o esquentadinho não suportou foi que eu, um comum, passasse na sua frente.
Isso não!
Automaticamente, passei para outra categoria a dos que merecem a interpelação: “Quem esse cara pensa que é?"
Passaríamos por um grande progresso civilizacional se fizéssemos a segunda pergunta não apenas a cidadãos do mesmo rank social, mas principalmente aos nobiliarcas da república.
Recentemente, no governo Lula da Silva, foi criado um Conselho de notáveis, denominado Conselho de Desenvolvimento Enconômico e Social. O órgão foi apelidado Conselhão pela imprensa. Poucos notaram que a melhor designação para o estrupício seria ConDES, no Brasil, esses "nobres" nunca se destacaram por qualquer capacidade especial, exceto sugar o erário.
A meu favor, no caso dos Correios, devo dizer que não furei a fila por mal, ou por pretensão, mas porque sou um cabeça de vento mesmo
Quem sabe, no futuro, meus netos, para quem agora escrevo estas memórias, perguntem:
- O que são estas tais de cartas de que o vovô Alfredo vive falando?
Pacientes, D ou S talvez respondam:
- Eram umas mensagens que as pessoas do século passado mandavam umas para as outras quando queriam dar notícias.
Depois de alguns segundos de silêncio, uma vozinha replicará:
- E por que elas não mandavam e-mails?
Dias desses recebi uma mensagem de minha nora, que ainda esta Austrália, sobre algumas obras literárias que não teriam existido se, na época, houvesse telefone celular – foi isso ou algo do gênero.
Nem cheguei a ler a postagem, pensei logo em Romeu e Julieta.
A tecnologia pode facilitar muito nossas visas, mas também pode destruir nossa cultura.
-----------------
* Sabe com quem [está falando]? Em mineirês, variante do português muito usada no Planalto Central.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Continuação. 76 de n.
Ao contrário das obras de Niemeyer, o projeto do Sarah é bonito e funcional. Os vãos entre os andares são terraços onde os pacie tes podem tomar banho de sol.
Continuação. 75 de n.
A chegada a Brasília foi mágica. A cidade, o local de trabalho, o laboratório de movimento, tudo estava revestido do encanto da primeira vez.Teve até chuva de granizo.
Fiquei hospedado por algumas semanas na casa de uma amiga de infância do Recife, V. Ela morava em um confortável apartamento quarto-e-sala a poucas quadras do Hospital. Não, não aconteceu nada entre nós, ela tinha namorado, e, na verdade, mal nos víamos porque ela passava os dias na UNB, onde fazia um mestrado, e trabalhava à noite na compensação de cheques do Banco do Brasil. Mesmo assim eu me sentia desconfortável. Acho que a molecada de hoje nem mesmo entenderia a situação como problemática, mas, para mim, em 1990, era embaraçoso.
Tentar alugar um apartamento no Distrito Federal quinze dias antes da posse do novo presidente da república foi o meu primeiro choque de realidade na capital. Os aluguéis eram absurdamente caros!
É assim até hoje, diga-se. Brasília é, de longe, a cidade mais cara do país. O salário, tentador, quando visto do Recife, não me permitiu alugar um apartamento, nem mesmo de 1 quarto, no Plano Piloto.
A maioria dos concursados do Sarah era de mulheres: psicólogas, enfermeiras e fisioterapeutas; elas se organizarqm em "repúblicas" e assim conseguiram dividir apartamentos de 2 ou 3 quartos, que saía mais em conta, quanto a mim, tive que me contentar com o Guará...
Diferente de muitos, mais afortunados do que eu, foi bem midesto, meu início na capital.
Antes de continuar, uma história engraçada.
Por causa do clima seco de Brasília, logo que cheguei, tive uma inflamação na garganta e perdi a voz. Era um sábado, eu estava sozinho no apartamento, minha amiga tinha viajado com o namorado, e precisava ir a uma farmácia comprar uma pastilha, mas não sabia andar por ali.
Desci, não encontrei o porteiro. Fui até a alçada, era feriado, a cidade estava vazia, quase ninguém na rua. Finalmente passou uma pessoa, perguntei do jeito que conseguia falar:
- Por favor, onde encontro uma farmácia?
Solícito, o sujeito me respondeu:
- Vo-vo-cê se-se-gue por a-a-a-li vi-vi-vi-ra a-a-a di-di-reita e...
Fiquei hospedado por algumas semanas na casa de uma amiga de infância do Recife, V. Ela morava em um confortável apartamento quarto-e-sala a poucas quadras do Hospital. Não, não aconteceu nada entre nós, ela tinha namorado, e, na verdade, mal nos víamos porque ela passava os dias na UNB, onde fazia um mestrado, e trabalhava à noite na compensação de cheques do Banco do Brasil. Mesmo assim eu me sentia desconfortável. Acho que a molecada de hoje nem mesmo entenderia a situação como problemática, mas, para mim, em 1990, era embaraçoso.
Tentar alugar um apartamento no Distrito Federal quinze dias antes da posse do novo presidente da república foi o meu primeiro choque de realidade na capital. Os aluguéis eram absurdamente caros!
É assim até hoje, diga-se. Brasília é, de longe, a cidade mais cara do país. O salário, tentador, quando visto do Recife, não me permitiu alugar um apartamento, nem mesmo de 1 quarto, no Plano Piloto.
A maioria dos concursados do Sarah era de mulheres: psicólogas, enfermeiras e fisioterapeutas; elas se organizarqm em "repúblicas" e assim conseguiram dividir apartamentos de 2 ou 3 quartos, que saía mais em conta, quanto a mim, tive que me contentar com o Guará...
Diferente de muitos, mais afortunados do que eu, foi bem midesto, meu início na capital.
Antes de continuar, uma história engraçada.
Por causa do clima seco de Brasília, logo que cheguei, tive uma inflamação na garganta e perdi a voz. Era um sábado, eu estava sozinho no apartamento, minha amiga tinha viajado com o namorado, e precisava ir a uma farmácia comprar uma pastilha, mas não sabia andar por ali.
Desci, não encontrei o porteiro. Fui até a alçada, era feriado, a cidade estava vazia, quase ninguém na rua. Finalmente passou uma pessoa, perguntei do jeito que conseguia falar:
- Por favor, onde encontro uma farmácia?
Solícito, o sujeito me respondeu:
- Vo-vo-cê se-se-gue por a-a-a-li vi-vi-vi-ra a-a-a di-di-reita e...
domingo, 20 de abril de 2014
Continuação. 74 de n.
Quando saí da Açonorte, tive que contar a mesma história várias vezes para um monte de gente: "Fiz um concurso dois anos atrás e só agora me chamaram..."
Em primeiro lugar para o meu chefe, depois pro chefe da Engenharia, para os técnicos que trabalhavam comigo na Automação, para os colegas do programa de trainees, conforme os encontrava, e, por fim, para o RH da empresa. Contei também para alguns amigos de fora do trabalho, mas esses foram poucos.
Já aconteceu com todo mundo, depois das primeiras vezes, eu já tinha um enredo decorado. Paul McCartney deve se sentir assim quando pedem para ele cantar Hey, Jude.
Antes de sair, a Açonorte fez uma entrevista de desligamento, fui avaliado como "apto a retornar", fiquei feliz de ter deixado as portas abertas.
Agora Brasília me aguardava.
A remota capital construída, há pouco mais de meio século, por motivos desconhecidos, no meio do nada, tem o condão de receber igualmente a todos os brasileiros: ninguém pode, de início, dizer-se familiarizado com a cidade, ela é democraticamente exótica para todos.
Em primeiro lugar para o meu chefe, depois pro chefe da Engenharia, para os técnicos que trabalhavam comigo na Automação, para os colegas do programa de trainees, conforme os encontrava, e, por fim, para o RH da empresa. Contei também para alguns amigos de fora do trabalho, mas esses foram poucos.
Já aconteceu com todo mundo, depois das primeiras vezes, eu já tinha um enredo decorado. Paul McCartney deve se sentir assim quando pedem para ele cantar Hey, Jude.
Antes de sair, a Açonorte fez uma entrevista de desligamento, fui avaliado como "apto a retornar", fiquei feliz de ter deixado as portas abertas.
Agora Brasília me aguardava.
A remota capital construída, há pouco mais de meio século, por motivos desconhecidos, no meio do nada, tem o condão de receber igualmente a todos os brasileiros: ninguém pode, de início, dizer-se familiarizado com a cidade, ela é democraticamente exótica para todos.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Continuação. 73 de n.
A produção de aço em uma usina como a Açonorte começa com o derretimento de sucata de ferro em uma panela de tijolos refratários. Para fundir o metal, um par de eletrodos (imagine dois cotonetes gigantes feitos de grafite) é enfiado no meio do ferro-velho; um interruptor, então, é acionado, e uma corrente elétrica monstruosa passa pela sucata mudando o estado físico do metal de sólido para líquido.
O aço se deposita no fundo, enquanto as impurezas, chamadas escória, flutuam no líquido fervente. A energia consumida nesse processo é tão grande que a CELPE – Companhia de Eletricidade de Pernambuco – não conseguia, no horário de pico de consumo das residências, por volta das 18h00, atender ao mesmo tempo a fábrica e a cidade do Recife. A aciaria aproveitava o intervalo forçado para realizar a manutenção dos equipamentos.
O líquido que sai da panela é, então, moldado na forma de grandes paralelepípedos – chamados tarugos –, resfriado e, depois submetidos a novos processos de aquecimento e modelagem até se converterem em vergalhões, arames e pregos.
Assim que cheguei na automação, um dos técnicos mais experientes que iriam trabalhar comigo veio com um descritivo do circuito de uma das placas do Gerdautec*, dizendo que estava tendo um problema assim assado e queria que eu o ajudasse a resolver.
Era um teste.
Alguns meses depois, enquanto tomávamos umas cervejas, B me disse: “a gente gosta de ver qual é a desses engenheirinhos de m.” Passei nesse teste também, apesar de, naquela época, ser desprovido de qualquer experiência prática. Não sei qual é a situação hoje, mas, na segunda metade dos anos 80, os engenheiros da UFPE saiam da escola só com teoria na cabeça e vontade de mudar o mundo...
Minha principal realização profissional naqueles dois anos foi a automação do forno de bica excêntrica da aciaria. Dizendo assim parece complicado, mas no fundo é simples, os engenheiros, ao contrário dos juristas, primam por simplificar o mundo em que vivem.
Imaginem um bule cheio de café fervendo. Pensem, agora, em um cego tendo que servir uma xícara. Meu papel era dizer para o cego: levante o bule, pare, incline o bule 5 graus, agora mais 10 graus, espere 10 segundos, pare, levante o bule e retorne à posição original e pare.
Meus próprios olhos eram sensores de temperatura e de posição espalhados no equipamento instalado por uma grande corporação multinacional belga. Meus braços eram motores espalhados pela planta. Meu intérprete era um PLC, mas não um Gerdautec, e sim um Siemens que, em virtude da lei de reserva de mercado de informática recebia uma plaquinha na qual se lia WEG, uma empresa de Jaraguá do Sul-SC.
A farsa patrocinada pela lei esdrúxula era tão evidente que os comandos do aparelho nacionalizado ainda eram em alemão: UND (para “e”) e ODER (para “ou”). O resto era lógica. Deu tudo certo, graças a D’us. Os operários tiveram sua vida facilitada, a empresa pode aumentar a vida útil dos tijolos refratários, quanto a mim, posso dizer cumpri o desígnio de ser engenheiro nessa vida.
Alguns meses depois, enquanto tomávamos umas cervejas, B me disse: “a gente gosta de ver qual é a desses engenheirinhos de m.” Passei nesse teste também, apesar de, naquela época, ser desprovido de qualquer experiência prática. Não sei qual é a situação hoje, mas, na segunda metade dos anos 80, os engenheiros da UFPE saiam da escola só com teoria na cabeça e vontade de mudar o mundo...
Minha principal realização profissional naqueles dois anos foi a automação do forno de bica excêntrica da aciaria. Dizendo assim parece complicado, mas no fundo é simples, os engenheiros, ao contrário dos juristas, primam por simplificar o mundo em que vivem.
Imaginem um bule cheio de café fervendo. Pensem, agora, em um cego tendo que servir uma xícara. Meu papel era dizer para o cego: levante o bule, pare, incline o bule 5 graus, agora mais 10 graus, espere 10 segundos, pare, levante o bule e retorne à posição original e pare.
Meus próprios olhos eram sensores de temperatura e de posição espalhados no equipamento instalado por uma grande corporação multinacional belga. Meus braços eram motores espalhados pela planta. Meu intérprete era um PLC, mas não um Gerdautec, e sim um Siemens que, em virtude da lei de reserva de mercado de informática recebia uma plaquinha na qual se lia WEG, uma empresa de Jaraguá do Sul-SC.
A farsa patrocinada pela lei esdrúxula era tão evidente que os comandos do aparelho nacionalizado ainda eram em alemão: UND (para “e”) e ODER (para “ou”). O resto era lógica. Deu tudo certo, graças a D’us. Os operários tiveram sua vida facilitada, a empresa pode aumentar a vida útil dos tijolos refratários, quanto a mim, posso dizer cumpri o desígnio de ser engenheiro nessa vida.
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* Controlador Lógico Programável – PLC em inglês - desenvolvido pelo Grupo Gerdau em virtude da lei de reserva de mercado de informática.
* Controlador Lógico Programável – PLC em inglês - desenvolvido pelo Grupo Gerdau em virtude da lei de reserva de mercado de informática.
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quinta-feira, 17 de abril de 2014
Continuação. 72 de n.
B`H
Retomando o fio da história, minha temporada na Açonorte pode ser dividida em dois períodos: programa de "trainee" e automação.
Na primeira fase, ouvi, em mais de uma ocasião, os executivos do Grupo Gerdau se queixarem da dificuldade de recrutar profissionais capacitados na Região Nordeste. Lembro de me sentir pessoalmente ofendido com os comentários; com o tempo, infelizmente, fui descobrindo a justiça das reclamações. Se em 2014, o "apagão" de mão de obra, provocado pela situação de pleno-emprego, obriga as empresas a contratar a raspa do tacho no mercado de trabalho; em 1988, a dificuldade de seleção de quadros enfrentada pela Açonorte, em meio ao grande desemprego reinante, depõe a favor do padrão de qualidade dos gaúchos.
Posso dizer que fiz um MBA de primeira dez anos antes do boom desse mercado no Brasil.
Participei de simulações de reuniões negociais gravadas (em áudio e vídeo) seguidas da análise do desempenho dos negociadores. Descobri que minha inclinação natural é por soluções do tipo "ganha-ganha", pode parecer politicamente correto, mas as corporações, na vera, dão mais valor a executivos com traços de Átila, o huno. De fato, uma das minhas colegas de programa revelou esse perfil, na sua vez de negociar, ela ficou até com as calças da outra parte; não por acaso, foi a primeira da turma a ser promovida....
De todos os cursos do programa, porém, o meu preferido foi o de Marketing, ministrado pelo Prof. Celso Grisi da Universidade de São Paulo.
Aprendi, pela primeira vez, a perceber a mercadoria embutida em cada coisa do dia a dia, do Bombril a Roberto Carlos e Chico Buarque de Holanda. É engraçado como muitas vezes aspectos evidentes da realidade permanecem invisíveis às nossas retinas; a propaganda se encarrega dessa mágica quando necessária.
Grisi analisou entre outros o produto "Roberto Carlos", disse que não falaria nada a respeito do concorrente - "Chico Buarque" - para não induzir no público, nós!, o interesse de experimentar uma dose.
"Tudo", ele disse, "roupas, linguagem, comportamento e até as cores de cada produto são estudados e testados antes de ele chegar aos consumidores".
"Prestem atenção" - acrescenta - "nas primeiras letras das músicas de Roberto Carlos", E cantarola escandindo os versos: "eu-só-que-ro-que-vo-cê-mea-que-ça-nes-sin-ver-no,
e-que-tu-do-mais-vá-pro-in-fer-no!"
"Só palavra curtas, rebeldia, imagens simples. O público alvo é jovem com hormônios saindo pelas orelhas. Quando esses jovens se transformam nos tiozões e balzaquianas de classe média, o produto se adapta para satisfazê-los com coisas como:" - cantarola de novo -
"Vou cavalgar por toda noite em uma estrada colorida,
usar meus beijos como açoite e a minha mão mais atrevida".
"Sutil? Para quê? Esse mercado não precisa de sutilezas".
E ia por aí a fora.
Eram tempos em que, sendo jovem, tudo parecia ao alcance das mãos, meu lado Quixote tinha como certo que eu me tornaria um grande CEO...
Retomando o fio da história, minha temporada na Açonorte pode ser dividida em dois períodos: programa de "trainee" e automação.
Na primeira fase, ouvi, em mais de uma ocasião, os executivos do Grupo Gerdau se queixarem da dificuldade de recrutar profissionais capacitados na Região Nordeste. Lembro de me sentir pessoalmente ofendido com os comentários; com o tempo, infelizmente, fui descobrindo a justiça das reclamações. Se em 2014, o "apagão" de mão de obra, provocado pela situação de pleno-emprego, obriga as empresas a contratar a raspa do tacho no mercado de trabalho; em 1988, a dificuldade de seleção de quadros enfrentada pela Açonorte, em meio ao grande desemprego reinante, depõe a favor do padrão de qualidade dos gaúchos.
Posso dizer que fiz um MBA de primeira dez anos antes do boom desse mercado no Brasil.
Participei de simulações de reuniões negociais gravadas (em áudio e vídeo) seguidas da análise do desempenho dos negociadores. Descobri que minha inclinação natural é por soluções do tipo "ganha-ganha", pode parecer politicamente correto, mas as corporações, na vera, dão mais valor a executivos com traços de Átila, o huno. De fato, uma das minhas colegas de programa revelou esse perfil, na sua vez de negociar, ela ficou até com as calças da outra parte; não por acaso, foi a primeira da turma a ser promovida....
De todos os cursos do programa, porém, o meu preferido foi o de Marketing, ministrado pelo Prof. Celso Grisi da Universidade de São Paulo.
Aprendi, pela primeira vez, a perceber a mercadoria embutida em cada coisa do dia a dia, do Bombril a Roberto Carlos e Chico Buarque de Holanda. É engraçado como muitas vezes aspectos evidentes da realidade permanecem invisíveis às nossas retinas; a propaganda se encarrega dessa mágica quando necessária.
Grisi analisou entre outros o produto "Roberto Carlos", disse que não falaria nada a respeito do concorrente - "Chico Buarque" - para não induzir no público, nós!, o interesse de experimentar uma dose.
"Tudo", ele disse, "roupas, linguagem, comportamento e até as cores de cada produto são estudados e testados antes de ele chegar aos consumidores".
"Prestem atenção" - acrescenta - "nas primeiras letras das músicas de Roberto Carlos", E cantarola escandindo os versos: "eu-só-que-ro-que-vo-cê-mea-que-ça-nes-sin-ver-no,
e-que-tu-do-mais-vá-pro-in-fer-no!"
"Só palavra curtas, rebeldia, imagens simples. O público alvo é jovem com hormônios saindo pelas orelhas. Quando esses jovens se transformam nos tiozões e balzaquianas de classe média, o produto se adapta para satisfazê-los com coisas como:" - cantarola de novo -
"Vou cavalgar por toda noite em uma estrada colorida,
usar meus beijos como açoite e a minha mão mais atrevida".
"Sutil? Para quê? Esse mercado não precisa de sutilezas".
E ia por aí a fora.
Eram tempos em que, sendo jovem, tudo parecia ao alcance das mãos, meu lado Quixote tinha como certo que eu me tornaria um grande CEO...
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Continuação. 71 de n.
Já notaram que a Páscoa cristã e Pessach, apesar de profundamente inter-relacionadas, não são bem compreendidas de parte a parte? Isto é, os judeus não conhecem a Páscoa e, para os cristãos, a Páscoa ofusca Pessach.
"E por que deveria ser diferente?" - sempre se pode perguntar. Ainda que mais não seja - respondo eu - pelo prazer de se conhecer as duas histórias.
Vejam o meu caso. Quando eu ainda estava no ginásio, com uns 12 ou 13 anos, tive uma aula de Educação Moral e Cívica sobre os feriados nacionais. Ao comentar sobre a Páscoa, a professora se estendeu um pouco mais sobre a Paixão de Cristo e fez uma breve referência à Páscoa Judaica. Eu conhecia a história de Moisés das aulas de catecismo e do filme de Charlton Heston, mas nunca, até aquele momento, tinha associado os dois eventos, curioso, perguntei: “Professora, por que os judeus estavam festejando a Páscoa se Jesus ainda não tinha sido crucificado e ressuscitado?”
Lembro de a professora ter titubeado um pouco antes de responder; no fim das contas, porém, ela deu a resposta certa: "os judeus festejam a liberdade por terem saído do Egito e atravessado o Mar Vermelho, enquanto os cristão comemoram a ressurreição de Jesus".
A sacralização do tempo
Muito tempo depois quando já morava em Brasília li, em um texto católico, a seguinte afirmação: os cristão aprenderam com os judeus a sacralizar o tempo.
O que é isso?
No Sinal, o Eterno determinou a Israel que apartasse (sagrasse) alguns dias todo ano e os dedicasse à contemplação do Infinito, assim são por exemplo o Shabat e as festas de Pessach, Shavuot, Sucot e o Yom Kippur.
Os mandamentos (Mitzvot) de sacralização do tempo permitiram aos judeus preservar e praticar sua religião (religare) independentemente de onde estivessem nem um mundo hostil, ficavam, assim, livres do espaço. Guardar o tempo bastava.
Notem que, apesar de Yerushalaim (Jerusalém) ser o centro indiscutível da fé judaica, nem sempre a Cidade Santa esteve ao alcance dos filhos de Israel. Com a sacralização do tempo era possível mantê-la no coração, por exemplo, ao se dizer com fé e esperança em Pessach: Le’shanah habah byerushalaim!” (O ano que vem em Jerusalém!”).
Pessach
A canção A Consagração de Moisés* narra, com concisão e precisão, a história do Êxodo.
Reproduzi abaixo na língua original, o ladino, para dar o gostinho de ver como era a fala dos judeus de Sefarad, e, em seguida, a tradução para o português:
Mosé salió de Misraim, huyendo del rey Paróh
se fue derecho a Midián y se encontró con Ytró.
Le dio a Sipora, su hija, porque era temiente a Dió,
Mosé paciendo el ganado que su suegro le entregó.
Mosé, paciendo el ganado, al monte Horeb entró,
viera ardir una zarza, la zarza no se quemó.
Mosé se cubrió sus ojos, temiendo ver a Dió,
oyó una voz que decia: -Mosé, Mosé, Mi siervo,
descálzate tus zapatos, que en lugar santo estás tú,
te irás derecho a Misraim y dirás al rey Paróh
que te entregue las llaves de Mi pueblo el hebreo
y si no te las entregare castigarle quiera Yo,
con diez plagas que le mande, pa' que sepa quién soy Yo.
Hodu l'A’onai ki tov, ki le'olam hasdó
alabado sea Su nombre, porque siempre bien nos dió
y en los cielos y en la tierra Su merced nunca falto.
Moisés saiu do Egito, fugindo do rei Faraó
Foi-se direto a Midiam e se encontrou com Jetro.
Lhe deu (Jetro) a Zípora, sua filha, porque era temente a D’us.
Moisés, apascentando o gado que seu sogro lhe entregou,
Moisés, apascentando o gado, no monte Horeb entrou.
Viu arder uma sarça, a sarça não se queimou,
Moisés cobriu os olhos, temendo ver a D’us.
Ouviu uma voz que dizia: Moisés, Moisés, meu servo,
Descalça teus sapatos, que em lugar santo estás tu.
Irás direto a Misraim (Egito) e dirás ao rei Faraó
Que te entregue as chaves do Meu povo, o Hebreu
E se não tas lhe entregar, castigar-lhe queira Eu
Com dez pragas que lhe mande para que saiba quem Eu sou.
Hodu l’A’onai ki tov, ki le’olam hasdó
Louvado seja Seu nome, porque sempre bem nos deu
E nos céus e na terra Sua mercê nunca faltou.
Há diversas sutilezas na letra da canção que eu talvez explore qualquer dia desses, por ora, quero me ater à essência do Pessach: a liberdade.
Nós, modernos, acreditamos que a abolição jurídica da escravatura corresponde à sua extinção da vida social, e que, nos lugares onde ela persiste, o flagelo se deve ao fato de que a lex (pensando, agora, nas convenções da ONU que tratam da matéria) ainda não se tornou eficaz.
Nenhuma ressalva a fazer sobre esse entendimento, exceto que ele é incompleto.
Já ouvi críticas a Aristóteles porque o filósofo imputava a determinados homens e mulheres uma tendência intrínseca à escravidão. Costumamos, nessas momentos, pensar apenas nos aspectos legal, político e étnico da questão e, assim agindo, julgamos mal o estagirita, atribuindo-lhe uma indevida estreiteza de pensamento.
Aristóteles, porém, era mais agudo do que parece à primeira vista. Esquecemos que há formas não políticas de escravidão, muitas delas resistentes a todas as evoluções civilizacionais.
Revendo a questão nesses termos, somos obrigados a conceder ao filósofo a possibilidade de ele estar fazendo referência ao fenômeno sob esse prisma, afinal, no exato momento em que escrevo, quanto homens e mulheres não estão escravizados a paixões, ao sexo, a drogas, à moda ou ao dinheiro?
Na festa de Pessach somos chamados a perceber o Egito como as limitações que nos escravizam, e a abertura do Mar Vermelho como a intervenção do Eterno na História; não apenas naquela época, mas por todo tempo.
Separemos um tempo para pensar a respeito.
--------------
* A ouvi pela primeira vez canta para cantora Fortuna.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Continuação. 70 de n.
Depois da prova no 13 de maio, não ouviria falar do Sarah Kubitschek de novo até o dia em que recebi a carta de convocação. A Açonorte, nos dois anos seguintes, seria meu emprego e minha escola.
Nos primeiros três meses foi uma escola stricto sensu, e muito boa, fizemos, eu e meus colegas contratados, um curso intensivo de administração, melhor - sou capaz de apostar, até porque não psso perder - queos cursos ordinários de graduação no Recife da época.
Amanhã falo mais dos cursos, hoje estou resfriado, vou tomar um chá quente - sem cafeína - e espero dormir mais do que a noite passada.
A propósito, já ia esquecendo de dizer: Chag Sameach!*
Amanhã falo também, se D'us assim o quiser, de Pessach.
-------
* Boa festa.
Nos primeiros três meses foi uma escola stricto sensu, e muito boa, fizemos, eu e meus colegas contratados, um curso intensivo de administração, melhor - sou capaz de apostar, até porque não psso perder - queos cursos ordinários de graduação no Recife da época.
Amanhã falo mais dos cursos, hoje estou resfriado, vou tomar um chá quente - sem cafeína - e espero dormir mais do que a noite passada.
A propósito, já ia esquecendo de dizer: Chag Sameach!*
Amanhã falo também, se D'us assim o quiser, de Pessach.
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* Boa festa.
Explicação
Eu havia esquecido de publicar a história 57 que permaneceu como rascunho até hoje. Quando a publiquei ficou fora de ordem, paciência.
Continuação. 57 de n.
Quando descobri meu
parentesco com a família Brainer, perguntei ao Rabino, o que significava a
palavra “brainer”. Ele me respondeu que possivelmente era uma variação de
“braun”, marrom em iídiche e alemão, o mesmo que “brown” em inglês.
Não tenho qualquer
informação sobre a trajetória da família Brainer, na Europa, apenas a referência
à origem austríaca de Dona Theresa, mas é possível imaginar que também eles
fossem provenientes de Sefarad, que tenham se refugiado em Salônica, de
onde mais tarde chegaram a terras sob o domínio do Império Austro-Húngaro.
De Salônica até Sarajevo são 800 Km.
Teriam sido chamados
assim por causa de cor da pele ou dos cabelos; castanhos, no meio de gente loura?
Nesse caso, teria acontecido com eles – com o sinal trocado – o mesmo que com
os Francs, assim, designados, talvez, por conta da pele clara em terras de
gente morena.
Impossível saber, mas o
que parece indiscutível é a necessidade arraigada de distinguir e de ser distinguido. Acho mesmo que entre os jovens das
sociedades contemporâneas de consumo de massa, tornar-se diferente virou uma
compulsão irresistível. Pode parecer mera impressão de quem está
ficando velho – o que é verdade – mas isso, para mim, explica a profusão
de “piercings”, tatuagens e mutilações voluntárias que se vê por aí, e
que, no fim das contas, termina deixando todos muito parecidos. A massa converge
para a mediocridade, é da ordem natural das coisas...
Carlos Drummond de
Andrade costumava ir de ônibus para o trabalho; fisicamente, era o protótipo
do burocrata, terno simples, chapéu, olhar esquecido; quem não o
conhecesse, e por acaso se sentasse a seu lado em um coletivo, nunca
imaginaria estar na presença de um grande poeta. Hoje, ao contrário, se em
um avião aparecer um sujeito com muitos trejeitos e apetrechos espetados
no corpo, pode-se desconfiar que se trate de um artista, e com mais razão ainda,
de seu talento.
Voltando ao ponto de
início, dado que discriminar é um traço incontornável da personalidade
humana, a pergunta é: quando a discriminação se torna odiosa? Quem pensa
em afirmar: “nunca”, talvez não tenha apreciado com profundidade a questão: um
exemplo, quem sabe, pode ser esclarecedor: deveria ser dado direito a
estrangeiros, enquanto tal, a ingressar, permanecer, trabalhar e participar da
política de outro país? No caso dos Brainers, e no dos Francs, se discriminações
houve, elas acabaram se incorporando aos próprios nomes das famílias, o que
pode indicar que não implicaram prejuízos para o seus membros.
No livro: O leopardo, Giuseppe
Tomasi di Lampedusa, põe as seguintes palavras na boca do Padre Pirrone:
“O senhor, don Pietrino,
se neste momento não estivesse dormindo diria logo que os senhores* estão
errados desprezando os outros desse jeito e que todos nós, igualmente sujeitos
à dupla servidão do amor e da morte, somos iguais diante do Criador, e eu só
poderia lhe dar razão. Porém acrescentaria que não é justo culpa somente os ‘senhores’pelo
desprezo, visto que se trata de um vício universal. Quem ensina na Universidade
despreza o professorzinho das escolas paroquiais mesmo se não o demonstra, e já
que o senhor está dormindo posso lhe dizer sem reservas que nós eclesiásticos
nos consideramos superiores aos leigos, nós Jesuítas superiores ao restante do
clero, assim coo vocês herboristas desprezam os dentistas, que por sua vez vos
desprezam; os médicos, por outro lado, debocham dos dentistas e dos
herboristas, e são eles próprios chamados de burros pelos doentes que pretendem
continuar vivendo com o coração ou o fígado em frangalhos. Para os juízes os
advogados são apenas uns chatos que tentam dilatar o funcionamento das leis e,
por outro lado, a literatura está cheia de sátiras à pompa, à indolência e às
vezes até a coisas piores desses mesmos juízas. Restam só os camponeses, que
são desprezados até por si mesmos, quando tiverem a debochar dos outros o ciclo
estar’’a fechado e será preciso recomeçar de novo.”
Esse é também o espírito
da celebre piada judaica, que tento recontar abaixo:
Robinson Crusoe era
judeu, enquanto esteve sozinho na ilha, ergueu, com as matérias primas que
tinha à mão uma porção de benfeitorias. Quando, mais tarde, encontrou
Sexta-feira, Crusoe mostrou ao nativo as suas construções: “Aqui fica a
sinagoga” – disse mostrando a construção improvisada – “E ali daquele lado”-
apontando com o queixo – “fica a outra sinagoga”.
Intrigado Sexta-feira pergunta:
“Mas se você está sozinho nesta ilha, por que duas sinagogas?”.
Crusoe reponde na lata:
“Essa aqui eu frequento, naquela lá, eu não ponho nem os pés”...
*Os nobres.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Continuação. 69 de n.
O concurso para o Hospital Sarah Kubischek cobrava praticamente todo conteúdo do curso de engenharia, ou pelo menos da parte do curso que realmente importa, descontados os penduricalhos criados sob encomenda pelo Ministério da Educação para os sindicatos de professores, sem compromisso com as necessidades de formação dos alunos ou com a qualidade dos cursos.
Se não estivesse desempregado não teria conseguido vencer todo programa: circuitos elétricos, eletrônicas digital e analógica, sistemas de controle e telecomunicações, um mundo de coisas. Havia ainda um item inusitado: uma edição específica de uma revista técnica de informática, em inglês, sem indicação da matéria que interessava ao examinador.
O que fazer? Como ter acesso à danada da revista?
Agora não lembro como, mas descobri que o departamento de Física da UFPE – conhecido simplesmente como a Física – assinava a revista; corri, então, até a biblioteca deles e pedi para consultá-la ali mesmo.
Acho que não existe mais esse tipo de publicação em papel hoje em dia. A revista misturava uma quantidade imensa de propaganda, com matérias de interesse informativo ou científico, além de colunas de “experts-marqueteiros”.
Com o exemplar nas mãos, surgia um novo problema: que assunto teria interessado tanto ao hospital a ponto de ter sido incluído no edital do concurso? Folheei a revista de fio a pavio, passeando pelo labirinto de siglas que tentava impedir o meu avanço: RISC, CISC (que D’us o tenha), ASCII etc.
Passados alguns minutos: eureka! só podia ser aquela matéria. Era uma história sobre a corrida espacial e de como o desenvolvimento de ferramentas matemáticas de processamento digital de imagens permitiu aos EUA baterem a URSS e chegarem em primeiro lugar à lua.
Dois dias depois, estava em Salvador.
A prova foi cansativa, tive que escrever umas 20 páginas de cálculos, diagramas e..., claro, responder a uma questão sobre processamento de imagens na qual reproduzi quase literalmente o conteúdo da Byte – esse era o nome da revista. Fiquei até com medo que achassem que eu tinha "filado"*
Na saída da prova, G me deu carona de volta pra casa: “Como foi de prova?”, perguntou.
“Não sei dizer” – respondi – “só sei que escrevi muito...”
Dois anos mais tarde, estava trabalhando no laboratório de estudo do movimento [humano] do Hospital Sarah Kubitschek em Brasília-DF.
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* o mesmo que colado, nos demais estados do Brasil.
domingo, 13 de abril de 2014
Continuação. 68 de n.
Passei!
No concurso do Sarah e na seleção da Açonorte.
Depois de 4 meses desempregado, eu agora tinha um emprego garantido e a perspectiva de outro. Nada mal para um período sombrio da história da economia brasileira: o final do governo de José Sarney*, que coincidiu com o da elaboração da constituição em vigor.
Foi um período de descalabro: a corrupção e o despreparo técnico campeavam nas administrações federal e estaduais - o que mudou muito pouco, diga-se, desde então. A direita, ou melhor, os coronéis encastelados no poder desde a colônia, exercia o clientelismo cínica e, agora, democraticamente. Estranha direita esta nossa que depende do estado para sobreviver. À esquerda, em 1988, havia quem defendesse, com desassombro, o modelo de sociedade adotado na Albânia de Enver Roxha.
A insegurança jurídica era completa, muitos dispositivos propostos perante a assembleia nacional constituinte, aberta ou sub-repticiamente, implicavam a adoção de um regime socialista no Brasil. Os coronéis reagiram à hegemonia da esquerda nos meios culturais e formaram um bloco parlamentar - o Centrão - imediatamente execrado pela imprensa e pelos intelectuais orgânicos posicionados na academia e no show business. Aderir ao consenso esquerdista era praticamente inevitável para pessoas de classe média, inclusive eu mesmo, um autêntico idiota latino-americano. O Centrão, registre-se, logrou capinar as propostas "progressistas" mais radicais, as subliminares, porém, foram todas incorporadas ao novo ordenamento jurídico.
Naquele ambiente, não havia investimentos e sem eles, empregos para engenheiros. O Brasil, no fim do século passado, desperdiçou uma geração inteira de pessoas com formação técnica rigorosa. Nos 25 anos seguintes, encontrei muitos engenheiros sacrificados no altar de nosso caos político e espargidos em postos do Banco Central e da Receita Federal. Muitos colegas permaneceram na universidade, outros, mais felizes, emigraram. Nas chamadas décadas perdidas, os engenheiros deixaram de ser profissionais liberais e se tornaram assalariados, isso também não mudou nada**.
Comecei no novo emprego no dia 02 de maio de 1988, naquele momento minha maior preocupação era com uma infeliz coincidência de datas: calhou de o Sarah agendar uma entrevista, que consistia na segunda fase do concurso, para uma sexta-feira dali a duas semanas, ou seja, depois de eu já ter começado a trabalhar na Açonorte. Seria péssimo, naquelas circunstâncias, faltar ao trabalho já nos primeiros dias e, para piorar, naquela semana, e nas dez semanas seguintes, eu estava matriculado em um curso de formação, como disse, com o qual a companhia gastou muito dinheiro.
Por uma questão de consciência devo reconhecer que tenho uma dívida pessoal para com o presidente Sarney. Justamente naquele ano, a presidência da república decretou feriado na sexta-feira, 13 de maio de 1988, em homenagem ao centenário da abolição da escravatura no Brasil.
Claro, o Sarah já sabia do feriado quando programou as entrevistas, mas eu não sabia! Tive que montar uma operação de guerra, que consumiu muito do meu primeiro salário, assim, na quinta-feira à noite, saí do trabalho, no distrito industrial do Curado, diretamente para o Aeroporto dos Guararapes de onde segui para Distrito Federal, lá chegando pernoitei no Hotel das Nações, fui entrevistado no Hospital na manhã seguinte e à tarde já estava voltando para o Recife.
No dia 02 de novembro de 2011 - dia de finados - o Hotel das Nações foi implodido como parte dos preparativos de Brasília para receber a copa do mundo fifa de 2014.
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*Os nomes de pessoas públicas, e.g. Sarney, serão expressos com todas as letras neste blog.
** Rigorosamente falando os engenheiros não são profissionais liberais, i. e., aqueles que são livres para trabalhar e cobrar quando e quanto quiserem pelo exercício de seus ofícios. Na Idade Média, a educação formal abrangia duas etapas fundamentais o Trivium (Lógica, Gramática e Retórica) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) e, para os que resolvessem e pudessem seguir adiante, havia apenas três cursos superiores disponíveis que formavam profissionais liberais: Medicina, Direito e Teologia, os quais conferiam aos graduados o título de doutor, por isso, médicos e advogados são tratados assim até hoje. Os engenheiros, diferentemente, eram formados nas corporações de ofício - a maçonaria é a mais conhecida delas - por isso nunca foram propriamente doutores. Em tempo, devo essa síntese, ao brilhante, e saudoso, professor José Monir Nasser, que D'us o tenha. Outra coisa pouco sabida é que as poucas pessoas formadas no Medievo não provinham dos estratos superiores da sociedade - que se dedicavam exclusivamente às armas - mas àqueles indivíduos que demonstravam aptidão - vocação talvez fosse mais apropriado - para o saber.
No concurso do Sarah e na seleção da Açonorte.
Depois de 4 meses desempregado, eu agora tinha um emprego garantido e a perspectiva de outro. Nada mal para um período sombrio da história da economia brasileira: o final do governo de José Sarney*, que coincidiu com o da elaboração da constituição em vigor.
Foi um período de descalabro: a corrupção e o despreparo técnico campeavam nas administrações federal e estaduais - o que mudou muito pouco, diga-se, desde então. A direita, ou melhor, os coronéis encastelados no poder desde a colônia, exercia o clientelismo cínica e, agora, democraticamente. Estranha direita esta nossa que depende do estado para sobreviver. À esquerda, em 1988, havia quem defendesse, com desassombro, o modelo de sociedade adotado na Albânia de Enver Roxha.
A insegurança jurídica era completa, muitos dispositivos propostos perante a assembleia nacional constituinte, aberta ou sub-repticiamente, implicavam a adoção de um regime socialista no Brasil. Os coronéis reagiram à hegemonia da esquerda nos meios culturais e formaram um bloco parlamentar - o Centrão - imediatamente execrado pela imprensa e pelos intelectuais orgânicos posicionados na academia e no show business. Aderir ao consenso esquerdista era praticamente inevitável para pessoas de classe média, inclusive eu mesmo, um autêntico idiota latino-americano. O Centrão, registre-se, logrou capinar as propostas "progressistas" mais radicais, as subliminares, porém, foram todas incorporadas ao novo ordenamento jurídico.
Naquele ambiente, não havia investimentos e sem eles, empregos para engenheiros. O Brasil, no fim do século passado, desperdiçou uma geração inteira de pessoas com formação técnica rigorosa. Nos 25 anos seguintes, encontrei muitos engenheiros sacrificados no altar de nosso caos político e espargidos em postos do Banco Central e da Receita Federal. Muitos colegas permaneceram na universidade, outros, mais felizes, emigraram. Nas chamadas décadas perdidas, os engenheiros deixaram de ser profissionais liberais e se tornaram assalariados, isso também não mudou nada**.
Comecei no novo emprego no dia 02 de maio de 1988, naquele momento minha maior preocupação era com uma infeliz coincidência de datas: calhou de o Sarah agendar uma entrevista, que consistia na segunda fase do concurso, para uma sexta-feira dali a duas semanas, ou seja, depois de eu já ter começado a trabalhar na Açonorte. Seria péssimo, naquelas circunstâncias, faltar ao trabalho já nos primeiros dias e, para piorar, naquela semana, e nas dez semanas seguintes, eu estava matriculado em um curso de formação, como disse, com o qual a companhia gastou muito dinheiro.
Por uma questão de consciência devo reconhecer que tenho uma dívida pessoal para com o presidente Sarney. Justamente naquele ano, a presidência da república decretou feriado na sexta-feira, 13 de maio de 1988, em homenagem ao centenário da abolição da escravatura no Brasil.
Claro, o Sarah já sabia do feriado quando programou as entrevistas, mas eu não sabia! Tive que montar uma operação de guerra, que consumiu muito do meu primeiro salário, assim, na quinta-feira à noite, saí do trabalho, no distrito industrial do Curado, diretamente para o Aeroporto dos Guararapes de onde segui para Distrito Federal, lá chegando pernoitei no Hotel das Nações, fui entrevistado no Hospital na manhã seguinte e à tarde já estava voltando para o Recife.
No dia 02 de novembro de 2011 - dia de finados - o Hotel das Nações foi implodido como parte dos preparativos de Brasília para receber a copa do mundo fifa de 2014.
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*Os nomes de pessoas públicas, e.g. Sarney, serão expressos com todas as letras neste blog.
** Rigorosamente falando os engenheiros não são profissionais liberais, i. e., aqueles que são livres para trabalhar e cobrar quando e quanto quiserem pelo exercício de seus ofícios. Na Idade Média, a educação formal abrangia duas etapas fundamentais o Trivium (Lógica, Gramática e Retórica) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) e, para os que resolvessem e pudessem seguir adiante, havia apenas três cursos superiores disponíveis que formavam profissionais liberais: Medicina, Direito e Teologia, os quais conferiam aos graduados o título de doutor, por isso, médicos e advogados são tratados assim até hoje. Os engenheiros, diferentemente, eram formados nas corporações de ofício - a maçonaria é a mais conhecida delas - por isso nunca foram propriamente doutores. Em tempo, devo essa síntese, ao brilhante, e saudoso, professor José Monir Nasser, que D'us o tenha. Outra coisa pouco sabida é que as poucas pessoas formadas no Medievo não provinham dos estratos superiores da sociedade - que se dedicavam exclusivamente às armas - mas àqueles indivíduos que demonstravam aptidão - vocação talvez fosse mais apropriado - para o saber.
sábado, 12 de abril de 2014
Continuação. 67 de n.
O concurso do Sarah Kubitschek
Tenho várias histórias marcantes ligadas ao concurso do Hospital Sarah Kubitschek, a começar pela própria ideia de participar dele. Trabalhar em um hospital? Que coisa mais estranha, nunca tinha me passado pela cabeça; sou daqueles que sentem náusea só de pensar em sangue, mas estava desempregado, querem motivação maior do que essa? É bem verdade que mais tarde na vida descobri outras ainda maiores.
Uma grande amiga de infância, A, que é fisioterapeuta, me mostrou o edital do concurso no Diário de Pernambuco. Aconteceria no início de 1988. Àquela altura eu já estava participando do processo seletivo da Açonorte, mas ainda não tinha sido contratado.
Sarah Kubstischek? Pourquoi pas? O campo de atuação - para minha surpresa - era bacana e o salário, como disse antes, tentador. A prova aconteceria em Salvador.
Preciso, agora, fazer uma pausa para contar minha peculiar relação com a Bahia.
Meu pai era soteropolitano, mas nunca tive contato com a sua família, por motivos que talvez eu conte em outra ocasião, Por ora preciso fazer o tempo retroceder ainda mais, alguns meses, não lembro ao certo quantos. Antes de estar na iminência de ir até Salvador, por causa da carta - parece enredo de "O direito de nascer", admito, mas não é -, recebi um telefonema da Bahia, de minha prima G, que quebrou um gelo de mais de duas décadas.
G é uma das pessoas mais generosas - e impetuosas - que eu conheço, só poderia descrevê-la valendo-me das palavras do grande Antonio Machado:
"Y al cabo, nada os debo; debéisme cuanto he escrito
A mi trabajo acudo, con mi dinero pago
el traje que me cubre y la mansión que habito
el pan que me alimenta y el lecho en donde yago."
Tenho várias histórias marcantes ligadas ao concurso do Hospital Sarah Kubitschek, a começar pela própria ideia de participar dele. Trabalhar em um hospital? Que coisa mais estranha, nunca tinha me passado pela cabeça; sou daqueles que sentem náusea só de pensar em sangue, mas estava desempregado, querem motivação maior do que essa? É bem verdade que mais tarde na vida descobri outras ainda maiores.
Uma grande amiga de infância, A, que é fisioterapeuta, me mostrou o edital do concurso no Diário de Pernambuco. Aconteceria no início de 1988. Àquela altura eu já estava participando do processo seletivo da Açonorte, mas ainda não tinha sido contratado.
Sarah Kubstischek? Pourquoi pas? O campo de atuação - para minha surpresa - era bacana e o salário, como disse antes, tentador. A prova aconteceria em Salvador.
Preciso, agora, fazer uma pausa para contar minha peculiar relação com a Bahia.
Meu pai era soteropolitano, mas nunca tive contato com a sua família, por motivos que talvez eu conte em outra ocasião, Por ora preciso fazer o tempo retroceder ainda mais, alguns meses, não lembro ao certo quantos. Antes de estar na iminência de ir até Salvador, por causa da carta - parece enredo de "O direito de nascer", admito, mas não é -, recebi um telefonema da Bahia, de minha prima G, que quebrou um gelo de mais de duas décadas.
G é uma das pessoas mais generosas - e impetuosas - que eu conheço, só poderia descrevê-la valendo-me das palavras do grande Antonio Machado:
"Y al cabo, nada os debo; debéisme cuanto he escrito
A mi trabajo acudo, con mi dinero pago
el traje que me cubre y la mansión que habito
el pan que me alimenta y el lecho en donde yago."
Eis o retrato também de minha prima G. Superando o silêncio, espantosamente, uma bela noite, ela liga para minha casa no Recife e estabelece um contato comigo, e com minha mãe, que perdura até hoje. Na época, convidou-me a visitar a Bahia e a se hospedar em sua casa, no Tororó. Aquela parecia ser a hora!
A estada em Salvador, tal como aconteceu em Monteiro mais recentemente, foi muito acolhedora, conheci tios e primos, fiquei feliz, a estrada para o Recife, porém, mostrou-se interminável: "e se eu não passar no concurso?", pensava, "que vergonha!". Não dormi no ônibus. A meus olhos, pesava sobre meus ombros uma tremenda responsabilidade.
A estada em Salvador, tal como aconteceu em Monteiro mais recentemente, foi muito acolhedora, conheci tios e primos, fiquei feliz, a estrada para o Recife, porém, mostrou-se interminável: "e se eu não passar no concurso?", pensava, "que vergonha!". Não dormi no ônibus. A meus olhos, pesava sobre meus ombros uma tremenda responsabilidade.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Continuação. 66 de n.
A carta
Antes de voltar para o Brasil, eu tinha direito a uma parada em Paris e a uma esticada de alguns dias na cidade, mas naquele ano, por acaso, todos os voos Paris-Rio, durante os dias que me restavam de férias, estavam lotados, tive então que voltar para casa mais cedo partindo diretamente de Londres.
Gam zu le tová!
Quando cheguei ao Recife, encontrei uma carta esperando por mim - a carta! Era de Brasília, do Hospital Sarah Kubitschek, me convocado a tomar posse imediatamente no cargo de Engenheiro. Já nem me lembrava mais desse concurso, fazia tanto tempo, eu tinha prestado na mesma época em que participei do processo seletivo da Açonorte, a União levou dois anos para concluir o que a iniciativa privada fizera em 3 meses. Agora eu tinha que escolher: Açonorte ou Sarah? Recife ou Brasília? O conforto da casa da mamãe ou morar sozinho?
Não foi uma decisão fácil. Eu não era mais um moleque, tinha 25 anos e mal acabara de ser promovido na Açonorte. Deixaria para trás alguns projetos de automação industrial para os quais estava escalado. Ficava acanhado de deixar a empresa na mão; por outro lado, a vaga para a qual eu concorrera no Sarah Kubistchek era tentadora; lá, eu trabalharia com processamento de imagens, uma área absolutamente nova em 1990; além do mais, enquanto no Recife eu ganhava 20.000.000,00 de unidades monetárias por mês, em Brasília, passaria a receber a 40.000.000,00.
Chega a ser ridículo lembrar esses números. Não vale a pena fazer uma conta precisa, mas estimo que corresponderiam, hoje, a algo como R$ 2.500,00 e R$ 5.000 respectivamente.
Decidi ir. Comuniquei a meus chefes, dois gaúchos: S e B. Um deles me disse na lata: "Bá, mas tu tem que ir, tchê!". Foi uma das atitudes mais honestas que presenciei no campo profissional. Tenho muitas histórias a contar do Sarah, algumas delas sobre o próprio concurso, por hora, basta dizer que em Brasília conhei S, minha colega de concurso, e comecei a construir minha família.
Valeu a pena deixar de conhecer Paris.
Antes de voltar para o Brasil, eu tinha direito a uma parada em Paris e a uma esticada de alguns dias na cidade, mas naquele ano, por acaso, todos os voos Paris-Rio, durante os dias que me restavam de férias, estavam lotados, tive então que voltar para casa mais cedo partindo diretamente de Londres.
Gam zu le tová!
Quando cheguei ao Recife, encontrei uma carta esperando por mim - a carta! Era de Brasília, do Hospital Sarah Kubitschek, me convocado a tomar posse imediatamente no cargo de Engenheiro. Já nem me lembrava mais desse concurso, fazia tanto tempo, eu tinha prestado na mesma época em que participei do processo seletivo da Açonorte, a União levou dois anos para concluir o que a iniciativa privada fizera em 3 meses. Agora eu tinha que escolher: Açonorte ou Sarah? Recife ou Brasília? O conforto da casa da mamãe ou morar sozinho?
Não foi uma decisão fácil. Eu não era mais um moleque, tinha 25 anos e mal acabara de ser promovido na Açonorte. Deixaria para trás alguns projetos de automação industrial para os quais estava escalado. Ficava acanhado de deixar a empresa na mão; por outro lado, a vaga para a qual eu concorrera no Sarah Kubistchek era tentadora; lá, eu trabalharia com processamento de imagens, uma área absolutamente nova em 1990; além do mais, enquanto no Recife eu ganhava 20.000.000,00 de unidades monetárias por mês, em Brasília, passaria a receber a 40.000.000,00.
Chega a ser ridículo lembrar esses números. Não vale a pena fazer uma conta precisa, mas estimo que corresponderiam, hoje, a algo como R$ 2.500,00 e R$ 5.000 respectivamente.
Decidi ir. Comuniquei a meus chefes, dois gaúchos: S e B. Um deles me disse na lata: "Bá, mas tu tem que ir, tchê!". Foi uma das atitudes mais honestas que presenciei no campo profissional. Tenho muitas histórias a contar do Sarah, algumas delas sobre o próprio concurso, por hora, basta dizer que em Brasília conhei S, minha colega de concurso, e comecei a construir minha família.
Valeu a pena deixar de conhecer Paris.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Continuação. 65 de n.
Em 1989, o Brasil elegeu o ex-governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, presidente da república. Collor foi o primeiro civil a chegar ao Palácio do Planalto por eleições diretas desde os anos 60 e também (juntamente com Jânio Quadros) o político mais caricato a corporificar a profecia trágica de D. João VI. Consta que no cais do Porto do Rio de Janeiro, no momento em que retornava para Lisboa, o rei de Portugal teria dito ao príncipe herdeiro: "Pedro, o Brasil brevemente se separará de Portugal, se assim for, põe a coroa sobre tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela". Com raras exceções todos os nossos presidentes foram aventureiros ou carbonários. A atual presidente é as duas coisas.
Depois de trabalhar quase dois anos sem férias na Açonorte e de ter acumulado, como disse, uma pequena poupança, resolvi investi-la em um curso de inglês na Inglaterra. Como não havia libras esterlinas no Recife, tive que converter tudo que tinha em dólares dos EUA - falando assim até parece que era muito - e, depois, gastar um pouco mais para reconverter a moeda americana no Reino Unido, paciência.
Fui no inverno, entre janeiro e fevereiro de 1990, quando era mais barato e, pelo mesmo motivo, fiquei hospedado na casa de uma família britânica em Bournemouth na "Côte d'Azur" inglesa. A propósito, esse foi o meu primeiro contato com o "british sense of humour"; Bournemouth, de fato, tinha praias, mas compará-la à sua congênere francesa, exigia um razoável poder de imaginação.
O programa funcionava assim: pela manhã, eu tinha aulas regulares com professores graduados, e à tarde ficava livre para passear ou assistir a outras aulas com professores aprendizes. Claro que passei o dia inteiro na escola, mas tinha três boas razões para isso, em ordem de importância: 1) eu era fominha; 2) estava muito frio, pelo menos para um pernambucano; e "last but, by no means, least", 3) ficando na escola, eu gastava menos. Cada penny era contado, no fim da aventura, não restou quase nada, "gam zu le tová".
A família que me hospedou em Bournemouth pertencia à classe média baixa britânica, não era a primeira vez que recebiam um estrangeiro na baixa estação, ganhavam, assim, abatimentos nas prestações de seu financiamento imobiliário - "mortgage", hipoteca em inglês, significa, me explicou meu anfitrião, "amarrado até a morte". Em 1990, os A. moravam em um sobrado confortável e desfrutavam de serviços que, no Brasil, não existiam, nem mesmo para os ricos.
Mas...Tive outro insight enquanto estava morando com meus cordiais hospedeiros.
Como explicar? Em 1990, o mundo vivia a grande convulsão provocada pelo colapso da União Soviética. A Alemanha estava em processo de reunificação, os países que outrora compuseram o Império Austro-Húngaro, liberados do punho de ferro do exército vermelho, mais que depressa buscaram restabelecer seus antigos vínculos com a Mittleuropa". Estando tão perto do centro dos acontecimentos, eu queria acompanhar a cobertura dos fatos feita pelos excelentes jornais ingleses, os A., porém, assinavam um tabloide que dava mais destaque aos sapatos usados por Lady Di que às consequências da queda do muro de Berlim.
Percebi então que a estreiteza de de horizontes independe dos recursos materiais à disposição do indivíduo. No Brasil, prosperava - e ainda prospera - a crença, muito cara às esquerdas, de que é a pobreza material que impede a classe trabalhadora de apreciar e desfrutar dos bens da cultura. Em Bournemouth, verifiquei que essa hipótese pode ser falsa; os A. poderiam ler Milton, Chaucer ou Dostoievski, mas preferiam o "The Sun. Analogamente, o incremento de renda da classe C no Brasil não causou um revival de Pixinguinha, e sim a explosão do "funk".
Para concluir, por hoje, voltei ao Brasil quebrado e às vésperas de uma nova etapa na minha vida em Brasília. Desde 1990, o Recife tornou-se para mim apenas uma referência afetiva, nunca mais voltei a morar na minha cidade, a Veneza brasileira. Ainda bem que gastei todo meu dinheiro no Reino Unido, porque o primeiro ato do novo presidente, como sabem, foi sequestrar toda a poupança nacional. Comigo não violão! No meu dinheiro o safado não encostou um dedo Eu o convertera em vivências.
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