segunda-feira, 28 de abril de 2014

Continuação. 81 de n.

E agora voltemos a S, a secretária do Sarah Kubitschek. 
S, como eu disse, era presbiteriana, assim que cheguei ao Laboratório de Movimento, ela me perguntou qual era minha religião, quando respondi:  Espírita, sem esconder o desapontamento, ela murmurou algo como: “Ah...eu sou cristã...”
Tentei explicar que o Espiritismo é uma religião cristã, porém, balançando a cabeça, ela disse: “na minha igreja não tem essa coisa de despacho, não”.
A confusão que ela fazia era compreensível; para fugir de discriminações e perseguições, os praticantes de religiões animistas de origem africa, no Brasil, se diziam espíritas e continuam se identifcando assim ainda hoje.
Curiosamente, o termo Espiritismo foi cunhado por Allan Kardec, conhecido pelos espíritas como o codificador, com o preciso propósito de distinguir a sua doutrina de outras religiões, e do termo mais geral “espiritualismo". O professor Rivail - nome de batismo de Kardec - era um homem metódico, não ficaria nem um pouco satisfeito com o imbroglio brasileiro.
O fato é que, até quase o fim do século passado, o Brasil era muito mais acentuadamente católico do que nesse início de século XXI. A Igreja exercia sua influência para dificultar o exercício das outras religiões. As dificuldades variavam da doutrinação pouco tolerante vinda dos púlpitos, até o estímulo à perseguição policial no caso da umbanda e do candomblé.
A situação do Espiritismo era privilegiada naquela época, apesar de não ser católica, era uma religião tolerada por dois motivos: em primeiro lugar, porque era praticada principalmente por pessoas de classe média, para ser explícito, por brancos; e em segundo, porque havia, entre seus adeptos, muitos militares -  possivelmente por conta de uma certa semelhança com o positivismo muito influente nos quartéis. De fato, os revoltosos que derrubaram D. Pedro II e proclamaram a república até gravaram um lema de Auguste Comte na nossa bandeira.
O resultado é que em busca da mesma tolerância, muitos terreiros de umbanda passaram a se auto-denominar centros espíritas, o que levou à criação de novoas terminologias por essasbandas como "espiritismo kardecista" ou de "mesa branca".
Inutilmente, expliquei toda essa história para S, a secretária. Ela tinha uma resposta na ponta da língua, provavelmente ensinada por seu pastor: “Mas a Bíblia proíbe comunicações com os mortos”.
Tive então que explicar que, no espiritismo “kardecista” sério, reuniões mediúnicas são a exceção, nunca a regra.
“Veja meu caso, por exemplo, sou espírita há uns 6 anos já, e nunca participei de uma única sessão mediúnica; nesse tempo todo, apenas ia toda semana à Federação Espírita em Pernambuco, e assistia a palestras edificantes de doutrina eminentemente cristã”.
Não convencida, ela disse que isso não importava, o Espiritismo era produto de comunicações mediúnicas o que é proibido pelas Escrituras e pôs-se a citar passagens bíblicas.
Lembro, em especial, da história de Saul, o primeiro rei de Israel.
De acordo com o primeiro livro de Samuel, na véspera de uma batalha decisiva contra os filisteus*, o monarca procurou uma médium e lhe pediu que invocasse o espírito de Samuel, o último dos juizes. Samuel, de fato, se manifesta, mas repreende asperamente o rei por ter profanado a incomunicabilidade que deve ser preservada entre o mundo dos mortos e o dos viventes. Como castigo, Samuel adverte,  Saul seria completamente derrotado no dia seguinte e sua casa substituída pela de Davi no trono de Israel.
“Você nunca leu a Bíblia, não?” S, pergunta.
Percebi naquele dia que, nem nos meu tempos de católico, nem tampouco como espírita, eu jamais lera a Bíblia.
Algo precisava ser feito.
--
* Filisteus ou philistin, povos de origem indo-européia que invadiram Eretz Israel pelo Mar Mediterrâneo e deram o nome da Palestina aos seus domínios, mais de um milênio antes da expansão militar árabe-muçulmana. Foram derrotados por Davi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário