terça-feira, 15 de abril de 2014

Continuação. 57 de n.

Quando descobri meu parentesco com a família Brainer, perguntei ao Rabino, o que significava a palavra “brainer”. Ele me respondeu que possivelmente era uma variação de “braun”, marrom em iídiche e alemão, o mesmo que “brown” em inglês.

Não tenho qualquer informação sobre a trajetória da família Brainer, na Europa, apenas a referência à origem austríaca de Dona Theresa, mas é possível imaginar que também eles fossem provenientes de Sefarad, que tenham se refugiado em Salônica, de onde mais tarde chegaram a terras sob o domínio do Império Austro-Húngaro. De Salônica até Sarajevo são 800 Km.

Teriam sido chamados assim por causa de cor da pele ou dos cabelos; castanhos, no meio de gente loura? Nesse caso, teria acontecido com eles – com o sinal trocado – o mesmo que com os Francs, assim, designados, talvez, por conta da pele clara em terras de gente morena.

Impossível saber, mas o que parece indiscutível é a necessidade arraigada de distinguir e de ser distinguido. Acho mesmo que entre os jovens das sociedades contemporâneas de consumo de massa, tornar-se diferente virou uma compulsão irresistível. Pode parecer mera impressão de quem está ficando velho – o que é verdade – mas isso, para mim, explica a profusão de “piercings”, tatuagens e mutilações voluntárias que se vê por aí, e que, no fim das contas, termina deixando todos muito parecidos. A massa converge para a mediocridade, é da ordem natural das coisas...

Carlos Drummond de Andrade costumava ir de ônibus para o trabalho; fisicamente, era o protótipo do burocrata, terno simples, chapéu, olhar esquecido; quem não o conhecesse, e por acaso se sentasse a seu lado em um coletivo, nunca imaginaria estar na presença de um grande poeta. Hoje, ao contrário, se em um avião aparecer um sujeito com muitos trejeitos e apetrechos espetados no corpo, pode-se desconfiar que se trate de um artista, e com mais razão ainda, de seu talento.

Voltando ao ponto de início, dado que discriminar é um traço incontornável da personalidade humana, a pergunta é: quando a discriminação se torna odiosa? Quem pensa em afirmar: “nunca”, talvez não tenha apreciado com profundidade a questão: um exemplo, quem sabe, pode ser esclarecedor: deveria ser dado direito a estrangeiros, enquanto tal, a ingressar, permanecer, trabalhar e participar da política de outro país? No caso dos Brainers, e no dos Francs, se discriminações houve, elas acabaram se incorporando aos próprios nomes das famílias, o que pode indicar que não implicaram prejuízos para o seus membros.

No livro: O leopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, põe as seguintes palavras na boca do Padre Pirrone:

“O senhor, don Pietrino, se neste momento não estivesse dormindo diria logo que os senhores* estão errados desprezando os outros desse jeito e que todos nós, igualmente sujeitos à dupla servidão do amor e da morte, somos iguais diante do Criador, e eu só poderia lhe dar razão. Porém acrescentaria que não é justo culpa somente os ‘senhores’pelo desprezo, visto que se trata de um vício universal. Quem ensina na Universidade despreza o professorzinho das escolas paroquiais mesmo se não o demonstra, e já que o senhor está dormindo posso lhe dizer sem reservas que nós eclesiásticos nos consideramos superiores aos leigos, nós Jesuítas superiores ao restante do clero, assim coo vocês herboristas desprezam os dentistas, que por sua vez vos desprezam; os médicos, por outro lado, debocham dos dentistas e dos herboristas, e são eles próprios chamados de burros pelos doentes que pretendem continuar vivendo com o coração ou o fígado em frangalhos. Para os juízes os advogados são apenas uns chatos que tentam dilatar o funcionamento das leis e, por outro lado, a literatura está cheia de sátiras à pompa, à indolência e às vezes até a coisas piores desses mesmos juízas. Restam só os camponeses, que são desprezados até por si mesmos, quando tiverem a debochar dos outros o ciclo estar’’a fechado e será preciso recomeçar de novo.”

Esse é também o espírito da celebre piada judaica, que tento recontar abaixo:

Robinson Crusoe era judeu, enquanto esteve sozinho na ilha, ergueu, com as matérias primas que tinha à mão uma porção de benfeitorias. Quando, mais tarde, encontrou Sexta-feira, Crusoe mostrou ao nativo as suas construções: “Aqui fica a sinagoga” – disse mostrando a construção improvisada – “E ali daquele lado”- apontando com o queixo – “fica a outra sinagoga”.
Intrigado Sexta-feira pergunta: “Mas se você está sozinho nesta ilha, por que duas sinagogas?”.
Crusoe reponde na lata: “Essa aqui eu frequento, naquela lá, eu não ponho nem os pés”...


*Os nobres.

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