A produção de aço em uma usina como a Açonorte começa com o derretimento de sucata de ferro em uma panela de tijolos refratários. Para fundir o metal, um par de eletrodos (imagine dois cotonetes gigantes feitos de grafite) é enfiado no meio do ferro-velho; um interruptor, então, é acionado, e uma corrente elétrica monstruosa passa pela sucata mudando o estado físico do metal de sólido para líquido.
O aço se deposita no fundo, enquanto as impurezas, chamadas escória, flutuam no líquido fervente. A energia consumida nesse processo é tão grande que a CELPE – Companhia de Eletricidade de Pernambuco – não conseguia, no horário de pico de consumo das residências, por volta das 18h00, atender ao mesmo tempo a fábrica e a cidade do Recife. A aciaria aproveitava o intervalo forçado para realizar a manutenção dos equipamentos.
O líquido que sai da panela é, então, moldado na forma de grandes paralelepípedos – chamados tarugos –, resfriado e, depois submetidos a novos processos de aquecimento e modelagem até se converterem em vergalhões, arames e pregos.
Assim que cheguei na automação, um dos técnicos mais experientes que iriam trabalhar comigo veio com um descritivo do circuito de uma das placas do Gerdautec*, dizendo que estava tendo um problema assim assado e queria que eu o ajudasse a resolver.
Era um teste.
Alguns meses depois, enquanto tomávamos umas cervejas, B me disse: “a gente gosta de ver qual é a desses engenheirinhos de m.” Passei nesse teste também, apesar de, naquela época, ser desprovido de qualquer experiência prática. Não sei qual é a situação hoje, mas, na segunda metade dos anos 80, os engenheiros da UFPE saiam da escola só com teoria na cabeça e vontade de mudar o mundo...
Minha principal realização profissional naqueles dois anos foi a automação do forno de bica excêntrica da aciaria. Dizendo assim parece complicado, mas no fundo é simples, os engenheiros, ao contrário dos juristas, primam por simplificar o mundo em que vivem.
Imaginem um bule cheio de café fervendo. Pensem, agora, em um cego tendo que servir uma xícara. Meu papel era dizer para o cego: levante o bule, pare, incline o bule 5 graus, agora mais 10 graus, espere 10 segundos, pare, levante o bule e retorne à posição original e pare.
Meus próprios olhos eram sensores de temperatura e de posição espalhados no equipamento instalado por uma grande corporação multinacional belga. Meus braços eram motores espalhados pela planta. Meu intérprete era um PLC, mas não um Gerdautec, e sim um Siemens que, em virtude da lei de reserva de mercado de informática recebia uma plaquinha na qual se lia WEG, uma empresa de Jaraguá do Sul-SC.
A farsa patrocinada pela lei esdrúxula era tão evidente que os comandos do aparelho nacionalizado ainda eram em alemão: UND (para “e”) e ODER (para “ou”). O resto era lógica. Deu tudo certo, graças a D’us. Os operários tiveram sua vida facilitada, a empresa pode aumentar a vida útil dos tijolos refratários, quanto a mim, posso dizer cumpri o desígnio de ser engenheiro nessa vida.
Alguns meses depois, enquanto tomávamos umas cervejas, B me disse: “a gente gosta de ver qual é a desses engenheirinhos de m.” Passei nesse teste também, apesar de, naquela época, ser desprovido de qualquer experiência prática. Não sei qual é a situação hoje, mas, na segunda metade dos anos 80, os engenheiros da UFPE saiam da escola só com teoria na cabeça e vontade de mudar o mundo...
Minha principal realização profissional naqueles dois anos foi a automação do forno de bica excêntrica da aciaria. Dizendo assim parece complicado, mas no fundo é simples, os engenheiros, ao contrário dos juristas, primam por simplificar o mundo em que vivem.
Imaginem um bule cheio de café fervendo. Pensem, agora, em um cego tendo que servir uma xícara. Meu papel era dizer para o cego: levante o bule, pare, incline o bule 5 graus, agora mais 10 graus, espere 10 segundos, pare, levante o bule e retorne à posição original e pare.
Meus próprios olhos eram sensores de temperatura e de posição espalhados no equipamento instalado por uma grande corporação multinacional belga. Meus braços eram motores espalhados pela planta. Meu intérprete era um PLC, mas não um Gerdautec, e sim um Siemens que, em virtude da lei de reserva de mercado de informática recebia uma plaquinha na qual se lia WEG, uma empresa de Jaraguá do Sul-SC.
A farsa patrocinada pela lei esdrúxula era tão evidente que os comandos do aparelho nacionalizado ainda eram em alemão: UND (para “e”) e ODER (para “ou”). O resto era lógica. Deu tudo certo, graças a D’us. Os operários tiveram sua vida facilitada, a empresa pode aumentar a vida útil dos tijolos refratários, quanto a mim, posso dizer cumpri o desígnio de ser engenheiro nessa vida.
------------------------
* Controlador Lógico Programável – PLC em inglês - desenvolvido pelo Grupo Gerdau em virtude da lei de reserva de mercado de informática.
* Controlador Lógico Programável – PLC em inglês - desenvolvido pelo Grupo Gerdau em virtude da lei de reserva de mercado de informática.
-
Nenhum comentário:
Postar um comentário