quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Continuação. 152 de n.

O ano de 1995 chegou como uma maré que enche, carregando todos os minuto de minha vida na direção das provas, cada nova edição do Jornal dos Concursos – JC para os concurseiros – estampava uma manchete alarmante: “Edital da Receita Federal em Fevereiro”. Aproveitei o carnaval para estudar.
Veio março: “Receita Federal – Edital pronto”. Eu estudava de sábado a sábado, domingo descansava, lia o jornal, às vezes saia para passear com S e D, quando não estava chovendo, assistia a um joguinho de futebol à tarde e ao Manhattan Connection à noite. Segunda-feira começava tudo de novo. Não se esqueçam que eu continuava trabalhando no Banco Central.
Abril, enfim, e com ele a notícia previsível: “Fontes do Ministério da Fazenda asseguram: Edital da Receita em maio”. Passei os feriados das páscoa católica estudando.
Para encurtar a história, não houve concurso no ano de 1995, mas eu não sabia disso, claro e continuava estudando as muitas matérias das provas do concurso para Auditor-Fiscal: Direitos Tributário, Civil, Penal, Comercial, Constitucional e Administrativo, Contabilidade, Português, Inglês, Matemática Financeira,  Estatística e Economia.
Não havia bons cursinhos em Curitiba naquela época,  resolvemos, meus colegas e eu, beber na fonte, trazer material da cidade que tinha tradição em aprovar candidatos: o Rio de Janeiro. Isso era um fato, inquestionável, acho que se devia ao passado de capital do Império e da República, muitas pessoas tinha parentes no serviço público e cogitavam ingressar nas carreiras típicas de estado que eram as normalmente mais bem remuneradas.
Pedíamos as apostilas pelo correio, recebíamos por Sedex, fazíamos cópias (sim, preciso confessar esse pecado), repartíamos entre nós e estudávamos por conta própria, mantendo uma lista de emails, onde compartilhávamos dúvidas e dicas. O grupo foi crescendo durante o ano e chegou a ter uma dezena de colegas.
Meu dia passava cronometrado:
-         7h00 – Acordar, tomar banho, tomar café
-         7h30-11h00 – Estudar
-         11h00-12h00 – Almoçar, levar D para a Roda do Tempo, ir para o Bacen
-         12h00-18h00 – Expediente no Banco (saco!).
-         18h00-18h30 – Pegar D na Roda (as tias reclamavam se eu me atrasasse)
-         18h30-19h30 – Jantar
-         19h30-20h30 – Exígua pausa para jantar e curtir a família
-         20h30-23h00 – Estudar, principalmente fazer questões de provas anteriores.
-         23h00-07h00 – Dormir, quando não tinha insônia...

O problema é que a cabeça estava cansada, mas o corpo não, porque eu levava uma vida muito sedentária, naquela época. Para não incomodar S, eu me levantava e ia, pé ante pé, para a sala, ligava a TV e ficava vendo documentários.

Assisti a coisas do arco da velha, de jacarés da Flórida ao vulcão Krakatoa, lembro do conteúdo de alguns deles até hoje.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Continuação. 151 de n.

Em dezembro de 1994, eu e mais dois colegas do Bacen decidimos estudar para o concurso da Receita Federal. Nossos salários no banco eram ainda muito menores que os dos “sauros”, apesar de fazermos as mesmas coisas, às vezes com mais qualidade. As negociações do sindicato com a direção da autarquia para eliminar o fosso, porém, não avançavam, ao contrário, as propostas que vazavam aumentavam ainda mais distância entre os antigos e os novos.

Decidimos reunir material: apostilas, livros, vídeos, fitas, o que houvesse no mercado; fazer um cronograma de estudos; e criar uma rede de troca de informações.

- O Jornal dos concursos diz que o edital vai sair em Janeiro. – insistia o sempre afobado L.
- Então a prova deve ser em fevereiro. – concluía E calmamente.

E tinha motivos para não se estressar, fora o primeiro colocado no nosso concurso e já havia estudado para aquele concurso anteriormente, pode-se dizer até que ele passara, quer dizer, fizera uma pontuação acima da mínima necessária, mas não o suficiente para ser nomeado Auditor-Fiscal.

Eu estava preocupado.
- Tenho dois problemas: vou ter que começar praticamente do zero e ainda terei que fazer minha mudança agora em dezembro.

Combinamos então começar devagar naquele fim de ano, parar para as festas e começar com carga máxima em janeiro de 1995.

- Se precisar de ajuda para a mudança pode ligar para mim. – prontificou-se L.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014



Continuação. 150 de n.

A pior coisa que pode acontecer a quem mora em imóvel alugado é o proprietário recusar-se a renovar o contrato de aluguel quando ele chega ao fim.S e eu passamos por isso 3 vezes. A primeira delas 30 meses depois de nossa chegada a Curitiba, àquela altura já estávamos com nossa vida organizada no bairro da Água Verde e precisamos sair correndo à procura de um novo apartamento.
S, meu ex-sócio, com quem mantive um relacionamento cordial mesmo depois do fim do empreendimento, fez a seguinte proposta para nós: substituí-lo como inquilino no apartamento em que morava na Praça Alfredo Andersen no Champagnat, mas estava para receber as chaves de outro apartamento que comprara na planta; a entrega estava prevista para dali a dois meses, o que nos deixava com alguma folga para fazer a mudança. Falamos com o proprietário que concordou em alterar o contrato e dispensar o fiador. 
Eu já estava trabalhando no Banco Central, aproveitei para procurar uma escola para D nas imediações do apartamento de S e achei uma muito boa: Roda do Tempo. Sem perder tempo, corri e fiz a matrícula.
O leitor já deve estar adivinhando, o que aconteceu depois...
Não deu certo. 
A construtora atrasou a entrega do apartamento de S, ele não pode se mudar e nós ficamos na chuva, metaforicamente falando. A menos de um mês do fim do nosso contrato, em um domingo, fui até uma imobiliária pegar as chaves de um apartamento anunciado no jornal que ficava no Edifício N. Sra. Auxiliadora, na Rua Desembargador Otávio do Amaral.
Era um apartamento menor do que o nosso na Água Verde, mas estava muito bem decorado e conservado: armários em todos os cômodos, pintura nova e a localização era muito mais chic. A primeira impressão foi tão boa que D não queria voltar para o apartamento velho. 
O proprietário era funcionário do Banco do Brasil, ele morara ali alguns anos até ter-se mudado para o interior do Paraná.
Apesar de ser um pouco mais caro e menor do que aquele em que estávamos, por conta da Roda do Tempo, fechamos o contrato. Um colega do Banco foi meu fiador, fizemos a mudança perto do natal de 1994. Naquele ano, passamos as festas de fim de ano na casa de M, no bairro das mercês que ficava pertinho de onde nós passamos a morar.
E assim D foi estudar na escola cujo lema era: “Sou da Roda e sou feliz, sou dono do meu nariz”.

domingo, 17 de agosto de 2014

Continuação. 149 de n.

Meu encanto com o Banco Central durou três meses, foi o tempo necessário para que eu conhecesse o estado das coisas na instituição. Em 1994, o Banco estava há 15 anos sem promover concursos e usando artifícios para corrigir o salário dos empregados. O truque era mexer na tabela de cargos e salários de modo a aumentar os valores para quem estava no topo e diminuir na mesma medida na base, de tal modo que o ponto médio permanecesse inalterado  – com um detalhe: não havia ninguém na base.

Quando a autarquia finalmente percebeu que precisava reforçar seus quadros, tinha sido criado um fosso salarial a separar antigos e novatos, mais ou menos do mesmo tamanho que o da Receita Federal. Os colegas antigos eram legais e solidários, mas não tinham poder para modificar a situação que dependia de negociações difíceis entre o nosso sindicato e o governo, para piorar as coisas, aquele era um momento de ajuste das contas públicas. De brincadeira, eles nos chamaram de “fraldinhas” enquanto nós os chamávamos de “sauros”, no momento em que escrevo, muitos daqueles fraldinhas já têm mais tempo de Banco que os antigos sauros.

Antes porém de eu decidir voltar a estudar para concursos, o Delegado do Banco Central em Curitiba, Jackson Pitombo,  convidou todos os "fraldinhas" para uma conversa em seu gabinete; ele queria saber o que nós estávamos achando da casa, sugestões, críticas, essas coisas. Peguei carona na cola de uma colega, AR*, que ficara lotada em uma área que não era do seu interesse e, com muito tato, para não contrariar os colegas do meu setor, disse que eu também gostaria de mudar, porque, afinal, fizera concurso para o Banco Central para trabalhar em alguma de suas áreas fim e não na manutenção predial, com todo respeito. O Delegado tomou nota de tudo, dali a uma semana eu seria lotado no NUODI.

Não, não é núcleo do ódio, como as más línguas falavam nos corredores, mas Núcleo de Operações Bancárias e da Dívida Pública.

Esse foi o lugar onde passei a maior parte do meu tempo no Banco e posso dizer que fui feliz.

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* AR ela fazia questão de ser chamada pelos dois nomes....

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Continuação. 148 de n.

Não sou socialista e estou preocupado com os avanços da esquerda gramsciana* Brasil,  mas fiquei muito triste com a morte de Eduardo Campos. Não o conhecia direito, descobri que era um homem de família e que tinha senso de humor, sinais de integridade e inteligência, qualidades raras em políticos e ausentes nos demais postulantes ao cargo de presidente da república.

Fiquei espantado também com o fato de que, há  bem pouco tempo eu escrevi sobre a relação entre a História e a vida da multidão de anônimos, a morte trágica de Eduardo Campos é, claramente, um desses momentos de perplexidade, dor e reflexão. Sela.

O neto de Miguel Arraes tinha a minha idade, como disse, nunca o encontrei pessoalmente, pelo menos não que eu me lembre, talvez tenhamos frequentado os mesmos lugares, afinal nos anos oitenta eu era um ativo militante de esquerda.
Em 1986, participei da campanha de seu avô ao governo do estado de Pernambuco, foi uma luta épica! Duas décadas antes, o ex-governador havia sido apeado do poder pelo movimento militar de 1964; em vez de aderir à nova ordem ou fugir, permaneceu no Palácio do Campo das Princesas onde foi preso e depois exilado para a Argélia. Fazê-lo retornar ao cargo ungido pelo voto era uma questão de honra para os homens de boa vontade, pelo menos era assim que eu pensava e penso ainda hoje.
Simbolicamente,  seu adversário era um usineiro, José Múcio Monteiro**, o que tornava a vitória de Arraes, mais necessária e por isso mesmo mais histórica.
As primeiras pesquisas de opinião indicavam um embate difícil, como era costumeiro em Pernambuco. Arraes ganhava no Recife e na Zona da Mata, Múcio, no Agreste e no Sertão. Faltava pouco mais de um ano para eu me formar em Engenharia e a UFPE era uma arena de lutas, debatia ferozmente contra quem quer que anunciasse o voto no usineiro.
Um belo dia, perdi aula para, junto com A, um colega de curso, fazer “porta-a-porta” na região metropolitana. No horário combinado, um ônibus foi colocado à disposição dos militantes, que recebiam adesivos e santinhos, eram levados até alguma localidade próxima do Recife – no nosso caso Moreno – e faziam campanha em cada casa, porta por porta. O trabalho não foi difícil, a maior parte das pessoas, de imediato, declarava o voto em Arraes e permitia que nós pregássemos os adesivos ou estendêssemos as faixas com os dizeres: “Ele está voltando”.
Alguns poucos as recusavam. Exaltado, contrariando as instruções que tinha sido dadas no ônibus, eu quase discuti com uma eleitora do candidato adversário...
Não ganhei um centavo pelo meu empenho, nem um sanduíche, tudo que fiz foi por convicção, fiz Política, portanto, e fui bem sucedido: Miguel Arraes ganhou aquela eleição com uma folga inédita de 300.000 votos!
Seu segundo governo, porém, foi muito ruim, por muitos fatores que não caberia aqui explicar. Quando me mudei do Recife para Brasília estava muito decepcionado com os resultados de minha ação direta.

Não sei se votaria em Eduardo Campos, não tenho a mínima simpatia pelo autoritarismo verde da candidata a vice-presidente de sua chapa e provável substituta, mas lastimo sinceramente a morte do politico e do pai de família. Eduardo Campos tinha a minha idade.

 -/-

*Relativo a António Gramsci, político e escritor comunista italiano que, depois de ver fracassar uma tentativa de tomar o poder pelo PCI e de ter sido preso pelo regime de Benito Mussolini, pôs-se a especular sobre o porquê de a revolução ter sido bem sucedida na Rússia czarista e fracassado na  Itália. Em uma brevíssima síntese chegou a seguinte conclusão: a sociedade russa era uma sociedade fechada, na qual havia apenas uma fonte de poder – o Kremlin – que, uma vez conquistado pelos revolucionários em uma guerra de movimento, deixava o país à mercê dos vitoriosos. A Itália – e as outras democracias ocidentais – eram sociedades abertas, em que há diversas fontes de poder: o estado, a Igreja, a imprensa etc. Para empalmar o poder nessas circunstâncias, entende Gramsci, é preciso empreender uma guerra de posições, na qual postos chaves precisam ser ocupados paulatinamente e usados para modificar as crenças mais arraigadas da sociedade, até que, no fim das contas, todos passem a se agir e pensar do modo determinado pelo partido revolucionário que, assim, colherá a vitória sem fazer nenhum esforço.

** José Múcio Monteiro bem mais tarde aderiu ao PT, foi ministro do governo Lula da Silva e indicado pelo ex-presidente para o Tribunal de Contas da União, onde se empenha, no momento, para acobertar escândalos envolvendo a Petrobrás e a direção do partido do governo. Apesar de tudo, votei certo em 1986.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Continuação. 147 de n.

- Ah! V. é engenheiro? Então acho que ficará mais bem localizado no setor que cuida de manutenção predial...

Foi com essas palavras nada animadoras que comecei a trabalhar no Banco Central do Brasil. Que engenheiro sou eu? Então foi para isso que saí da pesquisa médica no Sarah, para cuidar de lâmpadas queimadas em um edifício velho na Rua Marechal Deodoro? E o salário... Bom, o salário, apesar de todo charme do novo emprego, permaneceu praticamente o mesmo, baixo.

Mas eu era um otimista inveterado, achava que o salário iria subir, afinal o Banco Central era um órgão de elite, acreditava também que o tipo de trabalho no Banco iria, como não?, tornar-se interessante. Logo na primeira semana, conheci um colega de trabalho, L, que tentou me convencer a fazer o já anunciado concurso da Receita Federal, o segundo daquele ano.

Declinei.
– Acho que posso fazer carreira aqui no Bacen – respondi – e não acho que conseguiria me preparar para um concurso tão difícil em tão pouco tempo.

A diferença de salário entre a Receita e o Banco Central era realmente tentadora: 4 para 1; mas eu tinha relaxado depois da prova de maio e, realmente, achava que valia a pena tentar fazer carreira no Banco.
– Quem sabe adiante eu não faço um mestrado em economia?

Na segunda feira depois das provas, L chega ao trabalho todo abatido:
– Que naba!

Aquele concurso, em setembro de 1994, é considerado por muitos o mais difícil de todos os tempos da Receita Federal, tanto assim que sobraram vagas não preenchidas. Vagas essas que seriam dois anos mais tarde oferecidas no meu concurso. Quis o Eterno que eu fosse poupado da decepção de vir a ser reprovado pela segunda vez em um concurso para fiscal.

Conheci também, nesse começo de Banco, um colega, engenheiro veterano, P, que queria ver o mar pegar fogo para comer peixe frito. Ficava o dia inteiro batendo papo, era um desses cariocas que se exilam em Curitiba mas continuam com a alma no calçadão da avenida Atlântica.  O papo era legal, mas eu me sentia incomodado por não estar fazendo nada. A verdade é que não havia muito o que fazer por ali. Decepcionante para quem acreditava que iria participar de decisões macroeconômicas que ajudariam a melhorar o país...

Muitos perfeitos idiotas latino-americanos compartilham a crença em manivelas mágicas, operadas por agentes públicos. O Banco Central é a sala de controle, uma delas, onde estão os manches das taxas de juros, das taxas de câmbio, etc. Colocá-las nas posições corretas produziriam crescimento econômico e justiça social, essas palavras encantadas.

sábado, 9 de agosto de 2014

Onde hoje funciona uma agência dos Correios era a sede do Banco Central em Curitiba.
Do outro lado da rua fica o Shopping Itália.


Continuação. 146 de n.

Depois de anotar as respostas, corri para uma lanchonete no shopping Itália que fica na outra esquina e avidamente comecei a conferir o resultado matéria por matéria. Acertei aproximadamente 71% das questões, nada mal para um mês de estudo, mas...seria suficiente para passar?

Sendo um nerd em estado de completa ansiedade, pus-me a fazer simulações estatísticas sobre quais teriam sido os possíveis resultados de meus concorrentes. Devo dizer que repeti esse comportamento muitas vezes no futuro.

Terminei de tomar meu guaraná e fui para casa para contar a S como tinha ido, na época não tínhamos celular. Ficamos, então, esperando a publicação do resultado, durante as próximas semanas voltei a incomodar regularmente com a minha futura do RH.

Passei em 5º lugar! Na minha frente ficaram dois concurseiros experientes, um doutor e um mestre em Economia. Fiquei muito feliz. Saímos para jantar como sempre fazemos em circunstâncias assim. B’H.

No HC minha posição era difícil, cada dia eu tinha menos o que fazer e estava sendo visto com desdém pelos colegas, em particular por um rapazinho, C, recém-formado em informática, que gostava de se exibir deixando claro para todos que manjava mais do que eu as últimas novidades tecnológicas. E era verdade, eu sentia cada vez menos atração pelo lufa-lufa do desenvolvimento de máquinas e aplicativos e queria, na mesma proporção, tornar-me mero cliente e dedicar-me a estudar coisas mais perenes.  Depois que saiu o resultado, quando falei que ia sair do HC, o meu concorrente pode relaxar, agora ele ficava com o prêmio, espero que tenha feito bom proveito...

Continuação. 145 de n.

Liguei mais de uma vez para o Banco Central aqui em Curitiba para saber quando sairia o gabarito das provas ou o resultado do concurso; incomodei muitas vezes minha futura colega de RH, mais de uma vez por semana.

Um dia ele me disse: "amanhã o gabarito será afixado na entrado do Banco às 13h00".

 Mal consegui almoçar naquele dia. Como se diz aqui no Paraná, parecia que ia dar meia-noite, e não dava uma da tarde. Com um atraso de alguns minutos em relação ao horário marcado, meus futuros colegas de BACEN penduraram com durex o tão esperado gabarito na vidraça que ficava na entrada do prédio da Rua Mal. Deodoro. Uma dezena de ansiosos se acotovelava na frente da fachada tentando copiar o resultado. Alguém, então, avisou que, no saguão do prédio, havia cópias do caderno de perguntas à disposição dos interessados.

Corri lá para pegar um, É mais fácil conferir o resultado com o caderno de respostas na mão, até porque, naquele concurso, não tinha sido permitido ficar com as perguntas e leva-las para casa depois do exame.

Quando voltei à vitrina para terminar de anotar as respostas do gabarito, uma moça que provavelmente não ouvira o aviso, me viu e com uma cara de desconfiança  mortal e perguntou: “Onde v. conseguiu isso?!?” Implícita em seu tom de voz e expressão facial estava a acusação: “Teve xunxo* nesse concurso, como é que essa cara está com o caderno de respostas se era proibido sair com ele da prova?!?” Seu semblante somente desanuviou quando apontei com o queixo – pois estava com as duas mãos ocupadas – o lugar onde pegara a cópia das questões.

Esse é um traço triste do Brasil, um pais onde, não sem razão, há um clima de desconfiança permanente no ar. Acho que tem a ver com o fato de a malandragem ser socialmente aceita e até mesmo respeitada. Muitas vezes na vida, me deparei com olhares maliciosos como o daquela moça, ora insinuando satisfeitos terem auferido alguma vantagem graças à esperteza, ora, ao contraio, acusando o interlocutor de tê-lo feito. Somos maliciosos. Somos não, porque, no que me diz respeito, sou um crédulo contumaz, que se disfarça de esperto para não passar vergonha, mas devo dizer que isso não costuma funcionar, os malandros têm um sexto sentido que lhes permite identificar o otário e passar-lhe a perna.

Há um ditado carioca que reza: “É moralmente errado deixar o otário com o próprio dinheiro”. S não gosta quando eu faço essa piada, mas a verdade é que o carioca típico tem mais medo de ser chamado de otário, do que de fdp.

A propósito, a moça desconfiada não passou no concurso...

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* Gíria paranaense que significa tramoia, trapaça, velhacaria,

Continuação. 144 de n.

“Onde você estava quando...?”  Essa é a deixa para cada um de nós refletir sobre sua conexão com a História. O evento pode até nem ser tão importante assim, quer dizer, não vir a ter, no futuro, a dimensão histórica que os contemporâneos lhe atribuem e varia de lugar para lugar e de geração para geração.
“Onde você estava quando Neil Armstrong e Buzz (Lightyear) Aldrin pisaran na lua?”
“Onde você estava JFK foi assassinado?”
"Onde você estava no 11 de setembro?"
“Onde v. estava quando o muro de Berlim caiu?”
Para os católicos, cada sucessão papal é per se um divisor de águas. Às vezes, súbito como foi o caso do brevíssimo João Paulo I, às vezes leva um quarto de século como foi o caso do longo reinado de seu sucessor. Bento XVI surpreendeu o mundo e não menos espantosa foi a eleição do cardeal argentino Jorge Bergoglio.
No Brasil, a geração de minha mãe ficou chocada com o suicídio de Getúlio de Vargas. Na minha primeira juventude, os eventos mais lamentados foram a rejeição da emenda Dante de Oliveira que restabelecia as eleições diretas para presidente da república nos estertores do regime militar, seguido pela morte do presidente eleito Tancredo Neves alguns dias antes da posse.
Lembro de acompanhar a cerimônia fúnebre pela televisão e de ficar espantado com um jovem soldado  trajado com o uniforme de gala dos dragões da independência que chorava convulsivamente durante o cortejo.
“Por quê?”, pensei. 
Tancredo, político de gabinete, avô do candidato tucano na eleição deste ano, nunca foi um político carismático e popular, seu principal talento sempre foi o de articular alianças,  que, afinal, lhe renderam a presidência arrancada pela foice do destino.
“Por que chorava o soldado?” Lembrando, agora, acho que sei a resposta: aquele soldado era maranhense e conhecia melhor do que todos o sucessor de Tancredo.
Outro fato marcante para minha geração, foi a morte do piloto Ayrton Senna na corrida de Ímola em 01/05/1994. Eu gosto de fórmula 1, mas detesto a idolatria, ainda   mais quando o sucesso do ídolo se deve a fatores conjunturais evidentes que os fãs, hipnotizados, não conseguem discernir. Nas corridas de automóveis, as vitórias, que “traziam alegrias às manhãs de domingo”, dependiam muito mais do carro  do que do condutor; os verdadeiros heróis eram (e continuam sendo) os engenheiros e os mecânicos. 
Provavelmente, um “nerd” gordo e estrábico, ao inventar um parafuso mais leve, pode ter sido mais decisivo para as equipes do que os glamourosos homens de macacão. Para mim, isso é cristalino, basta ver o que aconteceu recentemente quando um bom piloto,  com um carro excepcional, sagrou-se tetracampeão, apesar do unânime reconhecimento de que o melhor volante nas pistas na última década estava nas mãos de Fernando Alonso.
Mas me desviei do assunto. 
Onde eu estava no dia 01/05/1994, quase vinte anos atrás? 
Voltando de ônibus de uma aula no cursinho Diapar, onde eu me preparava para o concurso do Banco Central.
Naquele domingo, eu resolvera ir de ônibus até o Centro para ver se valia a pena deixar o carro na garagem em um dia de pouco movimento. A aula, se não me engano, foi de Direito Comercial, com o prof. Leal, um curitibano “bon vivant” apaixonado pelo Rio de Janeiro. Quando peguei o ônibus de volta, a consternação estava estampada na cara das pessoas, alguns cochichavam, outros olhavam perdidos para o horizonte. Perguntei a um passageiro: “o que aconteceu?”

Assim que cheguei em casa, liguei a televisão, S não gosta de corridas, Senna já tinha sido levado para o hospital, a morte ainda não tinha sido confirmada.
Fiquei triste com a morte do jovem piloto, mas não mortificado. Nos dias seguintes, enquanto cenas de dor e fr desespero popular eram exibidas o tempo todo na televisão, nos jornais e nas revistas, eu iniciei o “sprint” para o meu segundo concurso jurídico-econômico.

domingo, 3 de agosto de 2014

Continuação. 143 de n.

Nesses dias sagrentos é difícil falar sobre a Guerra entre Israel e o Hamas sem ferir suscetibilidades ou parecer preconceituoso, qualquer que seja a causa que se defenda.
No Brasil, por ignorância genuína ou antissemitismo envergonhado, o mais fácil é dizer-se indiferente aos lados e manifestar preocupação apenas com os pobres civis mortos, tantas crianças, mas sempre concluindo com o chavão tão solene, quanto vazio de sentido: “Israel usa de força desproporcional”.
Quando se retorque perguntando o que seria, então, “proporcional”, o que recebe em troca é um balançar de cabeça desarticulado, um honesto “não sei” ou, o que é mais frequente, o silêncio.
Mesmo que discute de modo articulado a favor dos palestinos, sempre salta o fato incontornável de que o Hamas é um agrupamento terrorista, de fanáticos que mentalmente vivem nos tempos de Maomé e que sonham com a restauração do califado da Andaluzia à Índia.
De outro lado, da parte que eu julgo moralmente superior no conflito, deixo isso claro desde já, não consegui uma explicação convincente, até hoje, de como seria possível construir, antes da chegada do Messias, um estado que fosse, ao mesmo tempo, único – nas terras que a Judéia e a Galileia -, judaico e democrático. Só há lugar para duas de três alternativas.
No que diz respeito ao Brasil, preocupo-me com o que diz o Gênese 12-3.


Continuação. 142 de n.

Comprei o JC, Jornal dos Concursos, fui direto à matéria que orientava como fazer a inscrição para o BACEN, para minha surpresa, o salário inicial era aproximadamente o mesmo que eu recebia como engenheiro do Hospital de Clínicas.
Otimista, como os sapos costumam ser, eu pensava: “esse é só o inicial, deve estar defasado e deve subir mais rapidamente que o das multidão de servidores dos quadros técnicos da União”, S concordou comigo.
Na mesma adição do jornal, havia um reclame...
Propaganda, anúncio, “ad”, tá bom?
De um cursinho preparatório para aquele concurso específico. Cursinho você sabe o que é, não sabe?
Ok.
Agora, eu preciso fazer um esclarecimento, ao contrário do Rio de Janeiro, não havia em Curitiba naquela época bons cursinhos e o único que havia se especializara em preparar os candidatos para o concurso da Receita. Desdenhava-se o  Banco Central porque a diferença de salário entre os dois órgão do Ministério da Fazenda era muito grande: 1 para 4, a favor do  fisco.
Não tinha importância, para quem estava começando como eu era até bom tentar a sorte em um concurso menos concorrido, decidimos, S e eu, que valia a penar ver como funcionava aquilo.
Fiz a matrícula, a secretária que me atendeu, lembro até hoje, tinha um ar enfastiado que parecia dizer: “V. acha mesmo que vai passar?”. Se fosse hoje (2014) seria o compadre Washington dizendo: “sabe de nada, inocente”...
As aulas eram à noite, de segunda a sexta, aos sábados, pela manhã e tarde, e nos domingos pela manhã. A razão de tanta pressa é que o concurso seria dali a um mês e pouco, em meados de maio.
Na época, S atendia pacientes em um consultório e não tínhamos com quem deixar D. Para complicar as coisas, ela não dirigia, então o pimpolho ia comigo para o curso, com um touca verde, e ficava desenhando, muito bem–comportado.
Foi ali, no Diapar, que  não existe mais, que tive minhas primeiras aulas de direito, nas quais aprendi que dolo, se lê com a vogal aberta, como em Pernambuco, dólo e nunca dôlo...




Continuação. 141 de n.

A banca de revistas hoje está meio abandonada, acho que ninguém mais lê tanta revista, as que restam se converteram em pontos de venda de balas, chicletes e chocolates baratos e cigarros, algumas das drogas lícitas desse começo de século XXI.


Continuação. 140 de n.

Uma semana ou duas depois da prova da Receita Federal, fui até o banco pegar um talão de cheques.
O que é um cheque?!?
Bom, cheque era um título de crédito muito usado no século XX, que permitia fazer compras sem usar dinheiro em papel. Isso!,  Sem precisar daquelas notas de dinheiro que alguns velhos insistem em carregar ainda hoje para fazer seus pagamentos.
E pensar que o dinheiro já foi símbolo da nacionalidade... Na Europa os franceses se orgulhavam do “Franc”, assim como os alemães do “Deutschmark”... Possuir uma moeda forte era sinônimo de contar com uma entidade forte o bastante para emiti-la e, por extensão, com um estado nacional, algo a que se dava muita importância entre os séculos XVI e XX. Era tão importante quanto a bandeira ou o hino nacional.
Não, não se escreve com xis, xeque com ‘x’ é um título dado a alguns líderes árabes, acho que é algo como “dom” em Portugal ou “sir” na Inglaterra, mas não tenho certeza. Xeque, com xis é também o nome dado ao lance decisivo no xadrez, quando um dos jogadores ataca o rei do adversário. Xadrez era um jogo...deixa prá lá!
Voltando ao começo, eu precisava de cheques para pagar as compras no supermercado ou para comprar, em algumas lojas, produtos de valores mais elevados. Para outras despesas era preciso usar dinheiro mesmo, por exemplo, para pagar o salário da empregada ou uma corrida de táxi. Ainda hoje é assim...
Só para lembrar, eu estava em abril de 1994, alguns meses antes de ser lançado o Plano Real que finalmente debelou a hiperinflação que assolava Brasil havia duas décadas, não por acaso, chamadas de “perdidas”. Qualquer compra semanal em um supermercado custava naquele tempo centenas de milhares de...de...qual era mesmo a moeda da época?
Não importa, o que interessa é que estava indo para a Caixa Econômica – onde sua bisavó Z trabalhou por muitos anos, até se aposentar – pegar um talão de cheques. Talão era um caderninho com dez ou vinte folhas de cheques em branco, que o correntista preenchia dizendo ao banco o quanto devia pagar ao portador, tecnicamente é o que se chama de odem de pagamento à vista, apesar de no Brasil termos inventado o "cheque predatado", mas voltemos ao ponto.Quando atravessei a rua General Carneiro, onde fica o Hospital de Clínicas, vi em uma banca de revistas uma manchete na qual se lia:
BANCO CENTRAL – INSCRIÇÕES ABERTAS.
Em um país que sofrera sucessivas catástrofes econômicas, o Banco Central era um órgão público de elite, que vivia o tempo todo nos noticiários, parecia uma cabine de comando que podia controlar o país inteiro, e, de fato, essa era - e talvez ainda seja - uma de suas pretensões.
Eu já aprendera que hospital é lugar para médicos – e paramédicos – e também que eu não servia para fazer mestrado, nem mesmo de administração, então por que não tentar uma vaga na autoridade monetária?
Esse é o título que o Banco Central gosta de ostentar e que remete aos tempos, no começo da idade moderna, em que os rei absolutistas suprimiram as moedas regionais e locais e  obrigaram os súditos a aceitar apenas a moeda que eles próprios imprimiam. Hoje isso parece natural, mas nem sempre foi assim...
Estava prestes a dar meu segundo passo no mundo dos concursos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Continuação. 139 de n.

Eu não tinha a menor chance de passar no concurso da Receita de março de 1994. Se alguém disser que passou sem estudar, pode apostar que está mentindo, mas um mês e meio de estudo também não é suficiente quando nunca se estudou contabilidade e direito na vida. 

Mas...havia o que comemorar. Aquele concurso foi marcado por alguns problemas: muitas questões anuladas, suspeita de cola (fila) eletrônica na cidade de Santos, em São Paulo. No frigir dos ovos, meu desempenho foi razoável, um convite a dobrar a aposta.

Meu raciocínio foi seguinte: contabilidade – depois que as convenções são entendidas – não é difícil para quem fez cinco disciplinas de cálculo na faculdade de Engenharia Elétrica, o mesmo, pode ser dito para estatística e matemática financeira.
Português e inglês não eram problema tampouco, para um cdf que sempre se saíra bem nessas matérias desde os tempos do cursinho.

Uma ressalva, as provas de português da ESAF – órgão responsável pelos concursos da Receita Federal  - costumam ser bem difíceis. Vejamos uma questão clássica, de que me recordo.

Qual o sujeito da oração: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas, de um povo heróico, o brado retumbante”?

: - )

Colocando na ordem convencional, temos: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico. Assim fica mais fácil, não?

E quanto ao Direito? Bom, eu comecei pelo Direito Tributário, que é, como posso dizer?, na época, eu chamaria “lógico”, mas, hoje, não me parece um termo apropriado, fiquemos, então, com “prático”. Rapidamente, elaborei diagramas – engenheiros são bons nisso – que me ajudaram a memorizar todo o conteúdo da matéria.
Fiz o mesmo para as demais matérias. 
Constitucional? Rol de regras de estrutura do estado e de princípios humanistas bem-intencionados. Administrativo? É bom conhecer, atém mesmo para o dia a dia.
E fui por aí afora, racionalizando meu afastamento cada vez mais definitivo das ciências exatas e imersão, progressivamente mais profundo, no mundo da arte jurídica. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

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Continuação. 138 de n.

Frei Luca Pacioli, que viveu na segunda metade do século XV e começo do século XVI, foi um bem-aventurado, afinal, quantos homens fundaram uma ciência –  a contabilidade – e, ao mesmo tempo, gozam do privilégio de uma de suas obras ter sido ilustrada por ninguém menos que Leonardo da Vinci? 
Pois bem, o método das partidas dobradas, inventado pelo franciscano Luca, permitiu aos empreendedores de sua época registrar com rigor e simplicidade o comportamento do patrimônio das sociedades comerciais, novidade que começava a florescer e prosperar na Itália da Renascença.
Em essência, as coisas não mudaram muito desde então, um novo interessado, porém, foi atraído pelos sinais de riqueza: o Fisco, representado no Brasil, como muito acerto por um leão. 
Assim como a abundância de caça atrai predadores, indícios de afluência chamam a atenção do estado. Não é por outro motivo que os concursos para fiscais exigem um sólido conhecimento de contabilidade; para mim, e para todos os iniciantes, porém, causa profunda estranheza aprender que, quando uma quantia ingressa na conta bancária de uma pessoa jurídica, ocorre um "débito" e, ao contrário, quando sai dinheiro dessa conta, tem-se um "crédito".
Não pretendo, aqui, ensinar contabilidade para você leitor assustado, registro apenas que se trata de mera convenção, semelhante a que, no mundo inteiro, engenheiros e eletricistas empregam em seus circuitos elétricos. Isso mesmo, para estabelecer o sentido da corrente elétrica, o  técnico “faz de conta” que os prótons estão se deslocando, quando sabe, há muito tempo, que se dá exatamente o contrário. Em ambos os casos, o resultado é obtido, a despeito da convenção.
Haveria explicações para os dois fenômenos e talvez coubesse uma discussão filosófica a respeito do tema, mas não agora. Por enquanto, digo que por um mês e meio, entre fevereiro e março de 1994, eu me preparei com apostilas e com o livro de Osni Moura Ribeiro para o concurso AFTN - MARÇO de 1994.
As provas ocorreram na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, no Prado Velho em Curitiba, próxima do lugar onde agora estou trabalhando, 20 anos depois.

domingo, 27 de julho de 2014

Continuação. 137 de n.

B`H
Acho que hesitei em contar essa história porque não queria parecer rancoroso ou melancólico, mas devo reconhecer, para ser inteiramente sincero, que fiquei com muita raiva depois de meu segundo fracasso em uma seleção de mestrado e, por  muito mais tempo ainda, remoí ilusões a respeito da vida, de como teria sido ela, caso aquele resultado tivesse sido diferente. Em resumo, neguei completamente o "Gam Zu le Tová.
Experiências bem mais recentes, porém, me convenceram que aquele foi, com certeza, o melhor desfecho, apesar de injusto.
A seleção para o curso de mestrado da faculdade administração da ufpr naquele ano era composta de duas fases: a primeira consistia em um exame escrito que envolvia soluções de situações fictícias, lógica e tradução; a segunda, uma entrevista.
Eram mais de 100 candidatos e 10 ou 12 vagas, não lembro exatamente agora. O certo é que fiquei em quinto lugar na primeira fase, sem ter feito nenhuma preparação e sem ser um "nativo" da área, o que me parecia (e parece ainda hoje)  um ponto favorável, mas que seria, na verdade, o meu calcanhar de Aquiles.
Estávamos no final de 1993, e eu me considerava pre-selecionado, afinal reunia todas as condições para fazer o curso: ficara em quinto lugar na primeira fase da seleção, tinha experiência administrativa prévia graças ao curso de formação que recebera da Açonorte, tinha um projeto razoável – algo como avaliar programas de qualidade na administração pública -, poderia garantir que faria o curso em regime de dedicação exclusiva, por não precisaria registrar o ponto no Hospital,  e, por fim, dispensaria uma bolsa de estudos, que poderia ser aproveitada por outro candidato. Acho que não havia bolsas para todos, naquele primeiro ano.
Com esse espírito, fui para a entrevista que aconteceu na semana antes do natal. Pela segunda vez, passei pela experiência de participar de uma formalidade, de uma pantomima. Os entrevistadores não demonstravam o menor interesse de ouvir o que eu estava dizendo, parecia um sketch do Monte Python: enquanto eu falava animadamente sobre meu projeto, um dos membros da banca  virava para o outro e começava a falar sobre o churrasco que pretendia fazer no quintal no fim de semana,
Não fui selecionado.
Pior, passei a semana entre o natal e o ano-novo esperando uma chamada que nunca aconteceu. Cheguei a me iludir pensando que, talvez, fosse por causa do recesso universitário, que eles me ligariam no começo de 1994...
No primeiro dia útil do ano novo, fui até a faculdade de administração que fica bem perto do HC e falei com a secretária do curso. Ela me atendeu muito solícita e solidária, pelo menos assim me pareceu. Sem consultar nenhum registro, disse que eu ficara como "suplente", quer dizer, que poderia ser chamado em caso de desistência.
Vendo meu abatimento, sem que eu lhe perguntasse, acrescentou: o critério de seleção adotado naquele ano, que era o primeiro, foi favorecer os candidatos que já eram professores de faculdades de administração, mas que ainda não eram nem mesmo pós-graduados.
Acho que ela imaginou que isso me consolaria, na verdade, fiquei ainda mais irritado, “Ora bolas! Se eu concorro e fico na frente dos caras, mesmo sem ser da área, eles deviam mais é ser demitidos a bem do serviço público, e não premiados com o mestrado”, desabafei.
O certo é que naquele início de 1994, minha situação era delicada. Fracassara na minha primeira atividade empresarial, fora recusado no mestrado, permanecia atolado no HC com um salário baixo – estávamos em plena confusão do governo Itamar antes do Plano Real – e tinha um filho pequeno para criar.
Parece que foi ontem, mas faz vinte anos.
Sucumbi então ao canto dos concursos. Em fevereiro, meu cunhado me mandou do Rio, pelo correio, o livro “Contabilidade Fácil”, de Osni Moura Ribeiro, e disse que havia um concurso aberto para fiscal da Receita Federal em março daquele ano. Passou então por telefone as dicas de como eu deveria me inscrever.
Eu me sentia emparedado, mas ou menos nessa época, me envolvi em um acidente com uma moto, graças a D’us nada de grave aconteceu, mas eu me recordo de chegar em casa naquela tarde, vencido, sem forças, fracassado e de S precisar de muita paciência e amor para me reanimar.
Foram tempos sombrios, por isso hesitei, acho, em dar continuidade à história.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Continuação. 136 de n.

Talvez não fique evidente, mas essas histórias todas são exercícios de recordação e de expressão.
Memorabilia para os netos, depuração para mim mesmo, que preciso,dia após dia, escolher os temas, o grau de exposição pessoal a ser impresso, o tamanho da continuação, o enfoque, a profundidade e o estilo,
Talvez, um dia eu as organize, complemente, corrija os erros, retire as redundâncias e, quem sabe?, publique um livro, por enquanto, vou apenas assentando uma ao lado da outra para levantar uma cidadela ao redor do passado e convertê-lo em tradição.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Continuação. 135 de n.

Fomos no fim de semana passado assistir a um filme intitulado "O palácio francês", uma comédia sobre o funcionamento do ministério de relação exteriores da França. Não recomendo a ninguém perder duas horas de entretenimento para assistir a exíguos quinze minutos de humor, fora o valor dos ingressos e da pipoca. Sinto-me, então, livre para falar um pouco mais sobre a história.
Tudo gira em torno da caricatura de um ministro de relações exteriores de um governo de direita na França (possivelmente Dominique de Villepin) e se passa em um magnífico palácio em Paris, possivelmente do tempo da Monarquia. O ator que faz o ministro ridículo entra em cena uma dezena de vezes sempre para repetir a mesma piada: atazanar a vida de sua equipe de assessores com caprichos e superficialidades. É uma espécie de Inspetor Clouseau da diplomacia.

Há mais alguns aspectos ridículos no filme, que não sei se era intenção da produção exibir. Em primeiro lugar, a quantidade de "aspones"*  que orbita em torno do fanfarrão às custas dos contribuintes franceses, para fazer parecer que o país ainda exerce algum protagonismo no mundo, quando na verdade é uma cultura à beira da extinção.
Em segundo lugar, a presença permanente de intelectuais amigos do poder que aproveitam a futilidade do personagem caricaturizado para viajar pelo mundo às custas do erário.
Por fim, e esse talvez seja o ponto mais irônico, a assessora de assuntos africanos do ministério é vivida por Julie Gayet, amante do Presidente socialista François Hollande, que arruinou o casamento dele a poderosa jornalista Valérie Trierweiller.


Devo dizer, que, em escala muito mais reduzida, claro, tive oportunidade mais tarde de participar de reuniões de executivos do serviço público, que, mesmo não sendo franceses, estavam mais preocupados com o corte dos paletós do que sobre a real necessidade de sua presença na folha do estado. Não que os franceses façam caso disso também...

--//--
* "Assessor de p* nenhuma".

Continuação. 134 de n.

Os símbolos são muito importantes nas relações internacionais, Tucídides conta que nos albores da Guerra do Peloponeso, Atenas celebrarou uma aliança defensiva com Corcira, inimiga de Corinto, aliada de Esparta.

Os atenienses não queriam afrontar Esparta, mas não podiam se dar ao luxo de ver Corcira derrotada por Corinto, correndo o risco de a esquadra dos vencidos se somar com a dos vencedores e sobrepujar, em número, a força naval de Atenas.

A Assembléia ateniense decidiu enviar um flotilha modesta comandada por um “strategos” chamado Lacedemônio*, algo como "Capitão Esparta", com o propósito de apaziguar os rivais. O símbolo, queria indicar o seguinte: não queremos atrito com vocês, estamos aqui apenas para desempatar o jogo em favor de Corcira, caso seja necessário.

A intervenção de Atenas contra os coríntios, foi decisiva, e como resultado provocou uma inimizade insuperável entre as duas cidades-estado que continuaria durante toda a guerra, mas parece ter sido interpretada corretamente pelos espartanos. Um dos reis de Esparta se opôs àquela guerra que, entendia, será deixada para nossos filhos.

Em outra ocasião, o exército de Esparta teve oportunidade de esmagar o de Argos, então aliada de Atenas, mas se conteve. Teria sido um sinal de que era necessário arrefecer a belicosidade do conflito?

As indumentárias vermelhas da chefe de Estado do Brasil nas reuniões de cúpula dos BRICS em Fortaleza não é um detalhe que possa passar despercebido, alardeia para os que querem ver o novo alinhamento do país, não mais membro da aliança ocidental, mas sim da nova liga recém articulada.

Toda mudança de lado dessa espécie, porém, é muito arriscada, e já era assim desde os tempos de Tucídides. Perder um estado representa um golpe duplo para uma aliança, porque ela se enfraquece, ao mesmo tempo em que a rival aumenta seu poder. No caso do Brasil, há ainda a agravante de geografia e demografia colocar a reboque do país todo a parte sul do continente americano com seus vastíssimos recursos naturais.

Acho que o céu não permanecerá azul no horizonte por muito tempo.

--//--
* Um referência à Lacedemônia, ou Lacônia, região do Peloponeso onde se erguia Esparta e de onde vem a expressão lacônico.Havia simpatizantes de Esparta em Atenas, assim como em todo mundo grego.

domingo, 20 de julho de 2014

Continuação. 133 de n.

Enfatiotada em uma bata vermelha, a president Dilma Roussef recebeu na semana passada em Brasília e Fortaleza os chefes de estado da China, Rússia, Índia e Africa do Sul, com os quais formamos os BRICS – termo cunhado por um economista do Goldman Sachs – e se mostrou muito a vontade e, na medida do que é consegue sua alma atormentada, feliz.

O livro de Eclesiastes – Cohelet – começa assim (tradução de Adolpho Wasserman):
“As palavras de Cohelet, filho de David, rei em Jerusalém. Futilidade das futilidades, disse Kohelet, futilidade das futilidades, tudo é fútil. Que ganho o homem tem de toda sua labuta, que ele labuta sob o sol? Geração vem e geração vai e a terra permanece para sempre. O sol nasce e o sol se põe e ele anseia pelo lugar onde ele nasce. Ele vai em direção ao sul e retorna em direção ao norte; o vento vai em círculo e círculo e em seu círculo o vento retorna. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não enche; para o lugar em que os rios vão, ali eles vão de novo. Todas coisas labutam até a fadiga, mas o homem não deve expressá-las. O olho não está satisfeito com o que vê nem o ouvido com o ouve.  O que foi será, e o que foi feito será feito; e não há nada de novo sob o sol. Há algo do qual se diz: ‘Veja, isso é novo!’ Ele já existiu em idades antes de nós.”

Gosto muito dessa passagem da Bíblia. Pura poesia. Qualquer dia desses, espero escrever sobre os versículos que falam sobre a permanente insatisfação de olhos e ouvidos, mas por enquanto fiquemos com a novidade representada pela aliança formada pelos países emergentes com, mais recursos e entrelaçados – eis a razão da presidente Dilma – por uma visão de mundo materialista e histórico-dialética.

Algo parecido já teria acontecido antes?

O general Tucídides, sem nunca ter tido contato com o rei Salomão, escreveu sobre os terríveis acontecimentos que varreram a Grécia no 5º século antes da era comum e profetiza:
“Muitas coisas terríveis aconteceram às polis por conta do facciosismo” e, acrescenta, “tal como aconteceram, voltarão a acontecer enquanto a natureza humana for a mesma”.

Onde eu quero chegar?

A ostensiva movimentação diplomática da semana passada, que levou à criação de dois organismos financeiros, que pretendem, ao que parece, concorrer com os nascidos em Breton Woods, em muito se assemelha aos saracoteios das potências europeias antes da primeira guerra mundial, ou para ficar mais próximo de Tucídides dos fatos descritos por ele na guerra do Peloponeso.
Vou tentar sintetizar: depois de muitos anos de guerra, Esparta e Atenas celebraram a paz e formaram uma aliança para conservá-la. A aliança era problemática porque os modos de vida das duas cidades-estado eram muito diferentes e porque encontrava resistência dos parceiros das antigas alianças de cada uma delas: a liga do Peloponeso e a liga de Delos..
Convém me estender um pouco mais sobre a liga de Delos, denominada, com propriedade, por alguns historiadores de “Império Ateniense”. A liga nasceu da vitória sobre o imperador da Pérsia, começou como uma aliança defensiva na qual todos os estados membros forneciam homens e navios para compor uma frota que controlasse o mar Egeu e impedisse novos assaltos dos persas à Europa.
Tudo foi registrado em pedra, e a algumas delas foram lançadas ao mar a indicar a duração da aliança: enquanto as pedras não flutuassem, ou o mar secasse, a união daqueles estados seria inquebrantável.
Progressivamente as pólis foram optando por contribuir com recursos, em vez de homens e barcos, para a manutenção da marinha da liga; depois de alguns anos, das dezenas de estados que compunham a aliança, apenas Atenas e mais três outras ilhas possuíam marinhas próprias. Os tributos eram administrados por Atenas que, naturalmente, empregou parte deles em benefício próprio. Depois que mais água passou por baixo do moinho, os antigos aliados, agora tributários, de Atenas começaram a se rebelar e receberam apoio de Esparta e dos peloponésios incomodados que estavam com a ascensão de um poder rival no mundo grego.
A guerra estourou, durou muitos anos, mas foi interrompida pela paz a que me referi antes, conhecida como paz de Nícias, nome do líder ateniense que propugnava a interrupção do conflito, contra Alcibíades que queria aprofundá-lo. Hoje, os respectivos grupos  seriam designados  “pombas” e “falcões”.
Mas a trégua foi tumultuada, os parceiros das antigas alianças continuavam com suas agendas próprias que não coincidiam com a das pólis líderes de cada bloco – para não falar das facções extremistas que vimos existir dentro de Esparte e de Atenas.
A paz de Nícias converteu-se em um período de busca de novos parceiros que oferecessem a cada lado vantagens estratégicas quando o conflito, que se acreditava inevitável, recomeçasse. Esparta se aliou formalmente a Tebas e Atenas a Argos, rival histórica de Esparta, que se mantivera neutra até então. Não satisfeitas, Atenas e Argos pretenderam criar a sua própria liga do Peloponeso, atraindo Mantinea e Elea, cidades que pela posição geográfica, isolava Esparta de dois de seus principais aliados.

Tudo bem, tudo bem, tudo muito bonito, mas o que isso tem a ver com os Brics?

Depois que a guerra fria se exauriu, entramos em uma nova competição em que se formam, mais uma vez, dois blocos, à falta de nomes melhores, podemos chama-los de antiga aliança, formada por EUA, EU e Japão, e do outro lado temos os BRICS.
Tal como na Hélade de Tucídides, ambos os blocos estão longe de ser homogêneos, seus membros buscam agendas próprias, às vezes, conflitantes com as das potências líderes - no lado da antiga aliança, o papel de antagonista ridículo cabe à França - mas no que importa em termos econômicos e de segurança há uma afinidade que predomina entre os aliados.
Durante a era de paz, em que ainda vivemos, ambas as partes buscam amealhar recursos estratégicos e nisso reside a importância da América do Sul. Ao contrário do que alguns ingenuamente pensam, o BRICS não é uma aliança de iguais, como não era a liga de Delos, há um líder inquestionável sob quase todos os aspectos – exceto, por enquanto, o militar – esse líder é a República Popular da China. Nosso papel, nesse cenário, é o mesmo que desempenhamos desde que Pedro Álvares Cabral desembarcou nestas terras: fornecedores de  abundantes matérias primas. Selá.
No começo, tal como aconteceu no passado, quando, felizes, as aliadas de Atenas jogaram pedras ao mar, gravadas com os termos da aliança, tudo é promissor e belo, "amanhãs que cantam" nos esperam na próxima esquina.

Cuidado! Ensinam Salomão e Tucídides. O que aconteceu antes na história, não antecipa nada de bom no horizonte, não somos protagonistas nessa história, nossa posição é semelhante à de Mantinea no Peloponeso. Melhor nem falar sobre o que aconteceu em Mantinea...



quinta-feira, 17 de julho de 2014

Continuação. 132 de n.

Minha premissa era a seguinte: o que eu realmente sei fazer com excelência é estudar. A conclusão, então, me parecia óbvia: voltar à atividade acadêmica. Contrariando esse raciocínio, meu cunhado, I, me sugeria prestar concurso para fiscal, mas naquele inverno de 2003, apesar de atolado em um mar de dificuldade para exercer a profissão - leia-se salários baixos - e recém saído de uma experiência empresarial mal sucedida, eu ainda considerava estudar Direito e Contabilidade uma espécie de traição aos anos que passei suando a camisa na faculdade de Engenharia.
A UFPR se encarregou de resolver o meu dilema ao abrir naquele ano a primeira turma do curso de mestrado em Administração. Era, sob qualquer ponto de vista, uma boa solução intermediária. Aquele mestrado era, ao mesmo tempo, uma atividade acadêmica, técnica (cum granum salis) e com uma perspectiva profissional interessante para o futuro, pelo menos era assim que eu pensava..
Digo mais, eu atendia a todos os requisitos do edital de seleção: tinha experiência anterior, graças ao bom curso que fizera na Açonorte - na época não cheguei a mencioná-la, mas minha recente experiência empresarial, ainda que fracassada, poderia ser encarada como um elemento a meu favor. Além do mais eu não precisaria de bolsa de estudos, porque continuaria a receber meu salário durante todo curso  e, não menos importante, estaria dispensado do trabalho para me dedicar exclusivamente aos estudos, porque essa era, afinal, a política de gestão de pessoas da universidade em relação aos servidores matriculados em cursos de pós-graduação.
Restava fazer uma prova e uma entrevista.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Continuação. 131 de n.

-         Bom dia, senhora XXXX, aqui é da Massari, importadora de cosméticos, a senhora gostaria de ouvir as novidades sobre a nossa promoção de linha para a pele?

Em caso afirmativo

-         A Massari é uma empresa de importação que oferece produtos importados de excelente qualidade para a suas clientes. No momento nossa promoção de

         (Clique nos produtos que estão em promoção.)

        Em caso negativo.

-         A senhora não gostaria de conhecer a Massari, importadora de produtos de beleza, conhecida nacionalmente...

Não me lembro exatamente dos “scripts” planejados pelo cliente A, mas a ideia era basicamente essa: orientar o trabalho das vendedoras de telemarketing da Massari. As perguntas e respostas seriam concebidas pelo próprio senhor A, a quem cabia também definir a abrangência do contato. O programa também serviria, antes que eu me esqueça, como um controle de estoque.

Não quero que pareça mais sofisticado do que era na realidade, apesar de requerer muita memória dos computadores do hoje longínquo 1993; o que me incomodava, como já antecipei, é que eu rinha que fazer tudo sozinho. Assinamos um contrato, e eu me comprometi a apresentar um protótipo ao cliente para que ele avaliasse o caminho que estávamos seguindo. Há muitas histórias de programador que recebe a encomenda de um carrinho-de-mão e cria um trailer com GPS...

Passadas algumas semanas em que virei a noite, consegui fazer o protótipo ser apresentado. O senhor A gostou do que viu, fez algumas sugestões e estabelecemos de comum acordo um prazo para a entrega definitiva.
Arregacei as mangas e voltei ao trabalho, programava em casa, com o aquecedor ligado o tempo todo, durante aquele nosso segundo inverno em Curitiba. Meus dois sócios não digitaram uma linha de comentário. Para o bem ou para o mal posso dizer que fui o autor do programa.

E finalmente chegou o dia D, A decepção não podia ser maior, ele disse que desistira do negócio e que não ia levar adiante o projeto Massari.

-         Como é que é? Estou trabalhando neste projeto há mais de um mês!
-         As coisas mudam...
-         Mas nós temos um contrato
-         Execute..

Encurtando a história, depois de muita negociação e paciência, o sujeito pagou apenas uma fração do trabalho realizado. 
A sociedade se desfez e eu voltei à estaca zero em termos de horizonte profissional.

domingo, 13 de julho de 2014

Continuação. 130 de n.

Depois de uma ligeira parada para assistir à copa, ao aniversário de minha sogra no Rio (durante a copa) e para ler o material de um curso de processo administrativo fiscal ainda não concluído, volto a publicar histórias.

Além do vírus e da especificação da rede de microcomputadores não lembro mais o que eu fazia no HC, certamente não era grande coisa. Comecei, então, a a pensar em aproveitar uma parte do meu tempo livre para montar um negócio.

Eu e mais dois colegas, T e S, decidimos montar uma sociedade para desenvolver softwares. Bill Gates estava com os dias contados...

A distribuição dos trabalhos seria mais ou menos a seguinte: eu e T escreveríamos os programas, enquanto S, que era programador, mas tinha um grande talento para vendas, ficaria encarregado da distribuição.

Na prática, porém, funcionou assim: eu trabalhava, os outros dois assistiam.

Fechamos o primeiro contrato. Uma colega da Assessoria de Informática do HC nos indicou um parente de seu marido que  tinha umas ideias na cabeça. Era um árabe endinheirado, ele pretendia criar um programa com, digamos, "scripts" predefinidos que orientassem sua equipe de telemarketing quando ela atuasse, quer dizer, quando ligassem para infernizar as pessoas oferecendo produtos.

O nome da empresa seria Massari, que significa dinheiro em árabe, nosso cliente se regozijava, com razão, com a escolha do nome, atingia a três públicos, o nome soava familiar, não apenas para árabes,mas igualmente para japoneses e italianos. E a ideia também era boa: oferecer para vendedores, ainda, não qualificados roteiros, elaborados pelo turco, que era craque em vendas, que ajudasse a empurrar cosméticos para clientes escolhidas a partir de informações que ele guardava em segredo. Não sei como ele obtinha as informações do público alvo, os cosméticos certamente eram descaminhados do Paraguai.

O sujeito, A, era realmente bom de lábia, um vendedor nato, ninguém melhor do que ele para indicar o caminho das pedras, para as futuras vendedoras. Onde é que eu vi essa mesma ideia exposta recentemente? Claro, no filme O lobo de Wall Street.

Ainda hoje, 21 anos depois, tenho que tirar o chapéu para o turco.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Continuação. 129 de n.

Não, nada disso, eu não era um hacker em 1992.
Como sobrava tempo nos estudos para especificação da futura rede de computadores do hospital, fui atrás do que fazer. Trabalhar com bancos de dados administrativos (usando a linguagem SQL) estava fora de questão.
Descobri, então, que no laboratório do hospital, havia máquinas de exames de sangue cujos  resultados eram registrados em papeletas de impressoras embutidas nos próprios equipamentos. Os rolos de papel empregados eram fornecidos pela revendedora do equipamento juntamente com os reagentes usados para fazer os exames, era mais um insumo do processo. Não podia ser qualquer papel, claro, apenas um que era impresso termicamente e que custava os o;lhos da cara. O dinheiro que o hospital gastava nessa brincadeira não era pouco.

Descobri que a máquina enviava os dados para a sua impressora por meio de uma porta serial que bem podia ser ligada a um microcomputador; no próprio manual de funcionamento havia um comando esquecido por todos que permitia exportar os dados dos resultados desse jeito, que indicava o formato, os pinos do cabo etc. Além disso, no laboratório havia um micro que era usado para outras tarefas.

Bolei então o seguinte: por que não ligar a máquina de exames ao microcomputador por meio de um cabo serial (que eu mesmo soldei) e, para não deixar o micro inteiramente dedicado à impressão de dados,  instalar um programa que seria acionado apenas quando recebesse os resultados dos exames?

Quem usasse o micro poderia continuar a fazer o que estava acostumado, tarefas administrativas porque o meu vírus, quer dizer, o meu programa, depois de instalado, permanecia oculto, recebendo e armazenando os exames de sangue, e somente era acionado, para imprimir os resultados - em papel comum, A4 - quando interessava aos servidores do laboratório.


O meu vírus era benigno, mas voltando à minha atividade principal, a direção do hospital por fim decidiu não adotaria o modelo recomendado pela IBM – o de terminais burros – mas instalaria uma rede de microcomputadores no hospital, ligada ao computador de grande porte. De certa forma, foi uma vitória pessoal, apesar de eu ter apenas surfado a onda de momento do mundo da informática.

A IBM, diga-se, dispunha da solução adotada pelo HC:  micros + mainframe, mas não a estimulava, provavelmente por motivos comerciais, já que seu preço, como vim a descobrir mais tarde, durante a fase de licitação do projeto, era muito mais caro que o dos concorrentes.Atualmente, a companhia não atua mais nesse segmento, pode-se dizer que o HC/UFPR representou um front comercial, em que a solução corporativa da IBM foi fragorosamente derrotada, houve muitos outros e eu estava do lado certo.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Continuação. 128 de n.

A verdade é que ninguém sabia o que fazer comigo na Assessoria de Informática do HC em 1992. O setor se dedicava quase exclusivamente ao processamento de dados administrativos, empregando linguagens de alto nível ,enquanto eu estava acostumado a fazer pesquisa de natureza científica usando linguagens de baixo nível.
Não, isso não quer dizer que eu usava um vocabulário chulo.

: - )

Deixem-me explicar, meus netos, acho que certas coisas nunca mudam.
Sempre que um usuário liga um computador, a interação entre ele e a máquina passa por diversas camadas de processamento de informação, dedicadas a traduzir nossa linguagem humana, imprecisa, redundante e bela, na linguagem da máquina, precisa, mas feia e tediosa.
Há páginas e páginas de trabalhos filosóficos, linguísticos e, claro, de informática que tratam da matéria, mas não é o caso de explorar tudo isso aqui, basta dizer que para um computador ser um objeto útil para o homem comum é preciso que programas de alto nível, i. e., que usam linguagens semelhantes ao português, traduzam as necessidades desse usuário em instruções apropriadas proferidas em linguagens de nível mais baixo, quer dizer, mais próximas da linguagem da máquina.

Eu já tinha trabalhado com processamento de dados administrativos em um estágio que fiz na UNISYS e que larguei na esperança de fazer um mestrado, como já contei em outro post. Na minha opinião, poucas coisas relevantes podem ser tão enfadonhas; são as galés do mundo corporativo.

O doutor S, chefe da Assinf, me escalou, então, para fazer parte da comissão que analisava a ampliação da rede de terminais do hospital. E lá fui eu estudar as opções aplicáveis, com as respectivas especificações e preços.
Era mais interessante do que pode parecer e, além disso, me deixava com algum tempo livre, que eu aproveitei - já que estava em um hospital - para criar um vírus...

domingo, 29 de junho de 2014

Continuação. 127 de n.

Eu e S estamos curtindo a série britânica Downton Abbey, em tempos de copa, foi o pedágio que tive que pagar para poder assistir ao maior número de jogos que eu conseguisse. Comecei a ver cos episódios om certa desconfiança, mas devo admitir fui contagiado pelo jeito com que a história é contada.
Os dois primeiros anos da série se passam nos anos imediatamente anteriores à primeira guerra mundial. O ritmo em que a trama se desenrola é semelhante ao dos romances de Jane Austen, a história de amor da protagonista faz referências claras à escritora, mas Downton, como a chamamos aqui em casa, é muito mais do que isso; a qualidade da produção se manifesta em cada detalhe de época, os atores são excelentes e o texto convida o espectador a entrar na vida dos personagens a despeito das diferenças tão evidentes e exasperantes de costumes que existem entre nós e eles, apesar de, em termos históricos, tudo ter acontecido ontem...
E assim chegamos ao que, a meu ver, é o ponto mais alto da produção, a história se presta a contar a História.
Downton Abbey é a moradia principal de Robert Crawley, conde de Grantham, situada ficticiamente em York no norte da Inglaterra. O conde mora no palácio com sua esposa americana, Cora, e três filhas casadoiras: Mary, Edith e Sybill. Eles são servidos por um exército de criados, chefiados por um mordomo e uma governanta, no começa é até difícil saber quem faz o quê, há garçons, valetes, camareiras, cozinheira e auxiliares.
Os empregados se levantam na presença do conde, se curvam à sua passagem e somente se referem aos patrões por “sua lordeza”, em tradução crua.
Mas cada personagem, independentemente do “rank”social, tem uma história, como na vida, todos sofrem e se alegram, os seus motivos de  seus pesares ou gozos podem parecer inusitados para nós apenas cem anos depois dos eventos, mas leva a pensar: mudamos em alguma coisa?
Um hospital moderno, com sua rígida hierarquia e seus protocolos, seria muito diferente da casa de um nobre britânico em 1912?  Em que exatamente a dedicação dos servos a seus senhores esmiuçada em Downton Abbey  se distingue do que a moderna administração apelidou de “vestir a camisa” de uma empresa?
Nos propósitos, poderíamos arriscar uma resposta. O hospital tem um fim meritório e as grandes corporações atendem às necessidade de milhões de pessoas, enquanto o condado servia apenas para o benefício de uma família.

A resposta, porém, não é tão simples, a nobreza na Inglaterra desempenhava funções sociais importantes, que não vou antecipar porque não quero furtar de ninguém o prazer de assistir à série. Só posso antecipar que a grande guerra viria a mudar tudo e parir a sociedade contemporânea na qual as pessoas se curvam a poderes desumanos e invisíveis.

Continuação. 126 de n.

Esta semana foi muito corrida, em parte por causa da copa do mundo, por isso não encontrei tempo para escrever, não por que faltassem histórias.
Já ia me esquecendo de dizer que nossa vinda para o HC foi resultado de uma decisão pessoal do diretor-geral, Dr. Osmar, que a tomou sem ouvir os futuros chefes daqueles dois forasteiros vindos de Brasília, origem que não recomenda a ninguém em Curitiba.
Caímos, então, de paraquedas no Serviço de Psicologia e na Assessoria de Informática.
Continua em vigor a proibição de S, para que eu conte suas aventurasno meio da tribo dos lacanianos, restrinjo-me então ao que aconteceu comigo na ASSINF.
Meu chefe, Dr. S, era um médico respeitado, que tinha como hobby os computadores, talvez por essa razão tenha sido indicado para chefiar a área que cuidava de todo processamento de dados do hospital. Ao contrário do Sarah, o HC era um hospital padrão: médicos sempre na chefia. Não quero com isso dizer que o Dr. S não estivesse capacitado para a função, em absoluto, na verdade, em muitos sentidos ele tinha até mais gosto pela informática do que eu.

De fato, os computadores nunca foram um paixão para mim, nem mesmo nos tempos da universidade, no Sarah, eles não passavam de uma ferramenta de trabalho, no HC, porém, tornavam-se o meu ganha-pão, mas era um casamento de conveniência que, assim, progressivamente, me afastava da área técnica para a de humanas. Tal como em Les feuilles mortes, entre mim e a engenharia:
(...) la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable

Les pas des amants désunis.   

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Continuação. 125 de n.

A área de informática do Hospital de Clínica/UFPR onde fiquei lotado quando cheguei a Curitiba cuidava tão-somente de registros administrativos e prontuários de pacientes, tinha pouco a ver com ambiente de desenvolvimento científico com o qual eu me acostumara no Sarah; aquele foi o primeiro ponto de inflexão destinado a converter o antigo engenheiro em auditor-fiscal; muitos outros viriam mais tarde.
Preciso fazer agora um esforço de arqueologia informática, para explicar o que acontecia no meu trabalho no tão próximo, mas ao mesmo tempo tão distante ano de 1992. No HC, e mundo afora, travava-se uma luta épica entre dois modelos de  processamento de dados e, de novo, sem saber, eu era um soldado na primeira linha do conflito.
De um lado, a poderosa IBM defendia o aprofundamento de seu modelo – já adotado pelo hospital – que consistia em computadores de grande porte, os “mainframes”, ligados a “terminais burros”, quer dizer, sem capacidade de processamento local. De tão ultrapassada essa solução, é difícil até mesmo descrever o seu funcionamento em 2014.
Como fazer?
Bom, estamos conversando a respeito de uma era anterior aos ícones acionados por cliques, popularizados pela Apple e pela MicroSoft, naqueles tempos, o usuário era obrigado a se comunicar com os computadores por  meio de comados escritos como: “c:\> copy *.doc d:” – quer dizer: “copie todos os arquivos com terminação em ‘.doc’ para  o disco ‘d’”.  Claro que os leigos se embananavam mesmo ppara executar tarefas simples e precisavam consultar especialistas, que viviam encastelados em CPDs – centros de processamento de dados – climatizados, comportando-se como vestais. Em uma entidade como o Hospital de Clínicas, havia um exército desses especialistas, eu era um deles.

Voltando ao ponto, os "terminais burros" de  letras verdes, que hoje somente podem ser vistos em filmes antigos de ficção científica, eram capazes de transmitir comandos específicos daquele tipo para um banco de dados situado no computador central, que devolvia a informação requerida na forma de texto para a tela do usuário, fosse o tempo de serviço de um enfermeiro ou o endereço de um paciente. 
Redatores de texto não estavam disponíveis nesses terminais, por isso ainda era necessário, em alguns casos, usar máquinas de escrever para redigir documentos. Havia microcomputadores, mas eram poucos e ultrapassados - graças de novo à lei de reserva de mercado -  e as impressoras além de poucas eram precárias. Impressoras “ a laser” eram vistas como um luxo desnecessário para um hospital público com escassos recursos financeiros – única coisa, diga-se, que permanece inalterada até hoje.

O modelo alternativo consistia em implantar uma rede de microcomputadores ligada ao computador de grande porte, que permitiria juntar o melhor dos dois mundos: acesso às informações do mainframe e capacidade de processamento local. Havia ainda vantagens adicionais como: flexibilidade na escolha dos microcomputadores, quer dizer, o fim do monopólio da IBM, maior quantidade e variedade de recursos disponíveis para os usuários e, “last but not least”, custos mais baixos a longo prazo.


Eu me alistei entre os defensores da segunda alternativa.