O ano de 1995 chegou como uma maré que enche,
carregando todos os minuto de minha vida na direção das provas, cada nova
edição do Jornal dos Concursos – JC para os concurseiros – estampava uma
manchete alarmante: “Edital da Receita Federal em Fevereiro”. Aproveitei o
carnaval para estudar.
Veio março: “Receita Federal – Edital pronto”. Eu
estudava de sábado a sábado, domingo descansava, lia o jornal, às vezes saia
para passear com S e D, quando não estava chovendo, assistia a um joguinho de
futebol à tarde e ao Manhattan Connection à noite. Segunda-feira começava tudo
de novo. Não se esqueçam que eu continuava trabalhando no Banco Central.
Abril, enfim, e com ele a notícia previsível: “Fontes
do Ministério da Fazenda asseguram: Edital da Receita em maio”. Passei os
feriados das páscoa católica estudando.
Para encurtar a história, não houve concurso no ano de
1995, mas eu não sabia disso, claro e continuava estudando as muitas matérias
das provas do concurso para Auditor-Fiscal: Direitos Tributário, Civil, Penal,
Comercial, Constitucional e Administrativo, Contabilidade, Português, Inglês,
Matemática Financeira, Estatística e
Economia.
Não havia bons cursinhos em Curitiba naquela
época, resolvemos, meus colegas e eu,
beber na fonte, trazer material da cidade que tinha tradição em aprovar
candidatos: o Rio de Janeiro. Isso era um fato, inquestionável, acho que se
devia ao passado de capital do Império e da República, muitas pessoas tinha
parentes no serviço público e cogitavam ingressar nas carreiras típicas de
estado que eram as normalmente mais bem remuneradas.
Pedíamos as apostilas pelo correio, recebíamos por
Sedex, fazíamos cópias (sim, preciso confessar esse pecado), repartíamos entre
nós e estudávamos por conta própria, mantendo uma lista de emails, onde
compartilhávamos dúvidas e dicas. O grupo foi crescendo durante o ano e chegou
a ter uma dezena de colegas.
Meu dia passava cronometrado:
- 7h00 – Acordar, tomar banho, tomar café
- 7h30-11h00 – Estudar
- 11h00-12h00 – Almoçar, levar D para a Roda do Tempo, ir para o Bacen
- 12h00-18h00 – Expediente no Banco (saco!).
- 18h00-18h30 – Pegar D na Roda (as tias reclamavam se
eu me atrasasse)
- 18h30-19h30 – Jantar
- 19h30-20h30 – Exígua pausa para jantar e curtir a
família
- 20h30-23h00 – Estudar, principalmente fazer questões
de provas anteriores.
- 23h00-07h00
– Dormir, quando não tinha insônia...
O problema é que a cabeça estava cansada, mas o corpo
não, porque eu levava uma vida muito sedentária, naquela época. Para não
incomodar S, eu me levantava e
ia, pé ante pé, para a sala, ligava a TV e ficava vendo documentários.
Assisti a coisas
do arco da velha, de jacarés da Flórida ao vulcão Krakatoa, lembro do conteúdo
de alguns deles até hoje.