terça-feira, 27 de maio de 2014

Continuação. 106 de n.

- Peraí! Você não disse, que o sucesso profissional alcançado no Sarah só não era completo porque o salário estava defasado? Por que, então, vocês não aceitaram o aumento de 200% oferecido pelo Dr. Campos?

Essa é uma boa pergunta. 

Não sou de ficar remoendo lembranças tristes, quase não me recordo mais dos motivos que nos levaram a deixar Brasília em 1992. 

Vou pensar um pouco mais antes de responder, por enquanto, deixo registrado o trajeto de nosso êxodo.



segunda-feira, 26 de maio de 2014

Continuação. 105 de n.

Ortega y Gasset disse que só há duas formas de organização social: aristocracia ou barbárie.

O que vou contar agora, só vim a perceber dez anos depois dos acontecimentos; para tamanha miopia, só tenho a declarar duas coisas a meu favor:  eu estava no olho do furacão e não tinha recebido educação política suficiente para compreender o que estava em jogo.

Logo depois de a lei do novo Sarah ter sido publicado, foram nomeados os conselheiros que compuseram o primeiro conselho de administração da nova entidade. Na ocasião dei uma olhada nos nomes, os figurões de sempre: José Sarney, ex-presidente da república, Antônio Carlos Magalhães – ACM, ex-ministro das comunicações e ex-governador da Bahia; Jarbas Passarinho, coronel reformado, ministro da educação durante o regime militar e senador pelo estado do Pará, além de outro senador, por São Paulo, o segundo
em votos, eleito à sombra de Mário Covas, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso – FHC, além de outros a que não dei muita importância.

A lei  facultou aos servidores concursados do Sarah no momento da transição duas alternativas: deixar o regime jurídico único para ingressar na nova entidade como celetistas* com um aumento de 200% (!) nos vencimentos, ou serem redistribuídos para outros órgãos públicos.

200%,  eis o montante de nossas perdas salariais naqueles dois anos. A direção do Sarah, deliberadamente, deixou os salários dos servidores serem corroídos até o limite do insuportável pela inflação daquela fase do governo Collor, para  estimular a migração para a nova entidade no momento em que o aumento condicional de salário fosse oferecido. E, devo dizer, eles foram bem sucedidos no ardil, apesar de não na extensão que imaginaram. Muitos forasteiros, como nós, fizeram as contas e perceberam que retornando a suas cidades de origem  e livres do regime de dedicação exclusiva, seria possível combinar o melhor dos dois mundos: a estabilidade do serviço público, com uma remuneração menos sufocante.

Outros colegas, porém, saíram direto do auditório, onde o Dr. Campos da Paz anunciou as regras de transição,  para o departamento de pessoal e naquele dia mesmo pediram o desligamento do RJU.

Eu e S nos vimos em uma encruzilhada: deveríamos permanecer no Sarah ou sair, e nesse caso, ir para onde? Depois explico o porquê de nossa hesitação, que pode parecer paradoxal ao leitor atento, que se lembrar da história do chinês Li Ping.

O certo é que saímos do Sarah, vivemos muitas aventuras que serão contadas nas i-ésimas histórias que virão depois desta, se D'us quiser, viemos para Curitiba, passamos um ano em Belém do Pará e voltamos para Curitiba.

Exatamente dez anos depois, em 2001, já Auditor-Fiscal da Receita Federal e fazendo Direito na Universidade Federal do Paraná, fui escalado para participar de uma reunião em Brasília. Desde que deixara a capital em dia 24 de maio de 1992, nunca mais retornara. A propósito, depois de uma exaustiva viagem de Chevette, chegamos em Curitiba em um 26 de maio, como hoje, aniversário de minha cunhada R.

Aproveitei o horário do almoço do último dia da reunião para visitar o hospital queria rever alguns amigos, poucos, devo dizer, que optaram por ficar no novo Sarah; a grande maioria das pessoas com  quem nós nos dávamos optou dizer não à manipulação do Dr. Campos e saiu do órgão batendo a porta. Na época achei isso sintomático.

Voltando ao conselho de administração, o certo é que, para comemorar uma década da aprovação da lei nº 8.246 de 1991, naquele maio de 2001, o Sarah mandara fazer um painel no qual contava a história da instituição, nele estavam registrados os nomes dos primeiros conselheiros daquele distante 1991.

No momento em que li os nomes, talvez em razão do curso de Direito, tive um insight. “Como não percebi isso antes?”

Ali estavam pessoas de todas as extrações  políticas, a nata da aristocracia que governa o país e que, ainda no governo Collor, concebia e começava a implantar um modelo de administração pública que viria a ser paulatinamente implantado nos anos seguintes. Não me lembro de todos os nomes, mas os de que me recordo são suficientes para dar um ideia da extensão do empreendimento Sarah Kubitschek.

- Fernando Henrique Cardoso, FHC, em 1991, senador por São Paulo; em 2001, presidente da república e artífice do plano Real.
- Antonio Carlos Magalhães, ACM, em 1991, senador, ex-ministro da comunicações, ex-governador e vice-rei da Bahia; em 2001, todo-poderoso presidente do senado.
- José Sarney, “hay gobierno, soy a favor”.
- Carlos Átila, personagem hoje esquecida, em 1984, porta-voz do general Figueiredo, em 1991 ministro do tribunal de contas da união. Em seu gabinete, segundo Campos da Paz, foi redigida a Lei nº 8.246.
- Jarbas Passarinho, coronel reformado do Exército, representante do regime militar do parlamento, ex-ministro da educação, senador do estado do Pará, em 1991 e, se não me engano, ainda senador em 2001.

Esses nomes exceto pela dança das cadeiras não são tão impressionante quantos os que se seguem:

- Pedro Sampaio Malan, em 1991, “negociador da dívida externa do Brasil em Washington”, seja lá o que isso signifique; em 2001, o todo-poderoso ministro da fazenda e tecnicamente meu chefe.
- Plínio de Arruda Sampaio, em 1991, deputado pelo pt de São Paulo, em 2001, acho que ainda estava no pt; em 2010, desligado do partido dos trabalhadores, concorreu à presidência da república pelo partido socialismo e liberdade, psol, formado pela ala esquerda do pt, que não concordava com o desvio burguês do partido agora no governo...
- O dono do Correio Braziliense, principal jornal de Brasília, de cujo nome não me lembro.

Em tempo, o projeto de lei que, por fim, tornou-se a Lei nº 8.246 foi apresentado por um obscuro deputado paulista, um médico chamado Geraldo Alckmin, em 2001 vice-governador de São Paulo e mais tarde governador do estado e candidato do psdb à presidência da república, derrotado pelo presidente Lula da Silva em 2006.

Percebi, então, o quanto eu era ignorante em relação ao real funcionamento da república, se no dia anterior alguém me perguntasse: “você acredita que nos últimos 10 anos representantes de todas as correntes políticas brasileiras, indo de membros do regime militar ao pt,  têm-se reunindo regularmente, para disseminar, a despeito das rusgas eleitorais, o modelo de administração do Sarah?”, eu responderia na lata: “Imagina! A direita e a esquerda juntas? Sarney e Plínio de Arrudsa Sampaio? Impossível! Blá blá blá”.

Eu era muito idiota mesmo...

Olhando de novo os nomes, tive um estalo: “Esse aqui, que era senador, agora é presidente, esse outro,  desconhecido na época, agora é o ministro da fazenda, Sarney é Sarney, e o pt sempre fez parte do arranjo, apesar de posar como oposição”.

Lembrem-se, tudo isso aconteceu em 1991, muito antes de qualquer rumor sobre “impeachment”**. Discretamente aquele insuspeitado grupo de fidalgos se reunia no conselho do Sarah,  poucos anos depois, em 1995, o poder político formal caiu nas mãos de um dos membros da panela.

Depois da visita e do fim da reunião da Receita, voltei para o aeroporto, tinha uma tarefa por fazer da matéria História do Direito. O professor Ricardo Marcelo da Fonseca, com o propósito de refinar a formação intelectual dos futuros juristas, passou como atividade optativa fazer um comentário sobre algumas importantes obras da literatura universal.

Não preciso dizer que, cdf e fominha, li todos os livros indicados. Naquele mês o livro era As cidades invisíveis de Ítalo Calvino. Em brevíssimo resumo, a obra contém relatos surrealistas feitos por Marco Polo ao Khan da China sobre das cidades do império que ela visitara na condição de emissário do imperador. As narrativas eram entremeadas por diálogos entre o próprio Khan e o narrador. Em um desse diálogos que, por coincidência, eu tinha lido na véspera, o veneziano explica que a experiência de passar por uma cidade interferia com a impressão que ele guardaria da seguinte e que os próprios caminhos escolhidos eram decisivos para a compreensão de mundo.

O voo atrasou.

Subi até a área de lanchonetes do aeroporto, pedi um chop, e fiquei, sob o impressionante azul do céu de Brasília, pensando na escolha que fizera em 1991. Apesar de todas as dificuldades que enfrentamos achei que tinha tomado a direção certa.

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*Antes da constituição de 1988 e da Lei nº 8.112, de 1990, todos éramos regidos pela CLT.
**A entrevista de Pedro Collor, que levou à queda de seu irmão, somente foi publicada pela revista Veja uns dois meses depois de eu, S e D termos chegado a Curitiba.

domingo, 25 de maio de 2014

Continuação. 104 de n.

Antes de falar sobre a composição do conselho de administração do Sarah e de como eu apenar vim a perceber o que estava acontecendo,  10 anos depois, acho que vale a pena contar como foi a minha primeira visita ao Congresso Nacional.
Uma bela tarde, o Sarah Kubtischek fretou um ônibus e convidou os servidores que quisessem, a assistir nas galerias da câmara dos deputados à sessão na qual seria votado e aprovado o projeto de lei que culminaria com a criação do novo Sarah. Não era obrigatório ir, mas extremamente recomendável perante a direção, que todos aqueles que não estivessem atendendo pacientes naquela tarde, compusessem a claque que deveria pressionar os senhores deputados a votar a favor do projeto,.
S não podia ir porque tinha que ficar com D, eu pessoalmente apesar de achar detestável aquele tipo de cabresto em pleno 1991, aceitei acompanhar a manada porque, em primeiro lugar, ainda estava em estágio probatório e não podia me dar ao luxo de ser demitido do hospital naquele momento, mas igualmente, devo reconhecer, porque  queria conhecer o congresso; eu já morava em Brasília há quase dois anos e nunca fora ao parlamento.

Assim que cheguei à galeria, o presidente da casa, Ibsen Pinheiro, do pmdb,  chamou para encaminhar o voto de sua bancada o líder do mesmo pmdb, deputado Genebaldo Correa da Bahia, ambos hoje afastados da vida política - não sem motivo - pela máquina de destruir reputações mantida pelo partido dos trabalhadores.

O discurso de Correa foi muito breve, umas poucas palavras, seguidas do bordão: “eu recomendo que vote “sim”, senhor presidente!”. Naquele momento, os deputados do partido, dono da maior bancada da casa, de completamente alheios à discussão, só por um instante, passavam a se interessar em saber como deveriam votar – lembro-me de um, parecido com o Larry de Os três patetas que lia tranquilamente um jornal, quando Ibsen Pinheiro, apelidado de Ibsem Vergonha, pelos humoristas do Casseta & Planeta, anunciou o discurso do líder do pmdb, ele então espichou o pecoço por cima do diário, anuiu com a cabeça e retornou à leitura.

Seguiram-se os encaminhamentos da oposição. A deputada Jandira Feghalli, médica e deputada pelo pc do b do Rio de janeiro, partido, espantem-se, stalisnista, pronunciou um discurso violentíssimo no qual criticou o novo modelo de administração hospitalar. Segundo a deputada, a concepção do novo Sarah era privatista, e por isso prejudicial aos brasileiros humildes e, ainda por cima, gritava, esmurrando a tribuna: “aprovar o projeto, senhor presidente, significa admitir tacitamente que o Estado não é capaz de administrar a saúde pública, em oposição ao que dispõe a Constituição...!!!”.

Ninguém lhe deu bola, a decisão já estava tomada, o projeto foi aprovado por ampla maioria.

Curiosamente, neste 2014, o modelo de administração do Sarah está sendo copiado em todos os hospitais universitários federais por um governo apoiado pelo partido da ainda deputada Feghalli.

O Hospital de Clínicas da UFPR, onde S trabalha, por exemplo, está sendo emparedado com corte de recursos porque a direção da Universidade insiste em não transferir a administração para uma certa "Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares", entidade em tudo e por tudo semelhante à que toca o Sarah desde outubro de 1991.

Continuação. 103 de n.

Por que eu representei o conselho de administração do Sarah como uma panela?
Porque, antigamente, uma patota, uma turma, um grupo eram chamados de "panelas", e se as panelas fossem exclusivistas, "panelas fechadas"". Não encontrei termo melhor para descrever figurativamente o conselho do Sarah porque ele foi concebido assim, exclusivista e excludente desde o princípio.
Ao membros do conselho compete supervisionar o funcionamento do hospital, aprovar as suas contas, essas coisas, sempre de acordo, eis o ponto crítico, com a “filosofia” da instituição. Essa “filosofia”  consiste em um conjunto de doutrinas, nominalmente bonitas, advogadas pelo Dr. Campos da Paz, por exemplo: a) o serviço médico deve ser prestado gratuitamente, b) o hospital deve ser administrado como uma entidade privada; c) todo ensino de medicina no país deve ser repensado;  d) o corporativismo médico deve ser deixado de lado etc. Como qualquer programa político, fica melhor no papel que na prática.
Como já disse aqui, muitos anos antes, meu tio J colocou em cheque a sabença do seu colega Campos...

Os figurões escolhidos para o primeiro mandato no primeiro conselho, eram amigos, ou mais precisamente, aliados políticos de Campos, falarei mais deles adiante. Com o passar dos anos, o grupo seria renovado periodicamente, mas o ingresso na panela dependia de indicação dos conselheiros remanescentes. Esse mecanismo deve estar em funcionamento até hoje.

O Sarah tornou-se, de fato, um baronato vitalício e hereditário!

Como era esperado, Campos da Paz se perpetuou no poder, notem que estávamos em 1991, antes do impeachment de Fernando Collor de Mello, depois disso passaram pela presidência da república Itamar Franco,  FHC, por dois mandatos, Lula da Silva, por duas vezes, e agora dona Dilma, a presidenta-incompetenta.

Quando Campos, graciosamente, resolver se aposentar, ainda lhe será permitido escolher "o mais digno", para sucedê-lo no feudo. Em tempo, Dr. A, o número dois, com quem viajei aos EUA e ao Canadá, caiu em desgraça durante a transição e também saiu do hospital. Expurgos assim são tão comuns em regimes tirânicos que nem mereceria ser mencionado, exceto por uma frase, que o Dr. A me disse, um pouco antes de voltar para a Faculdade Paulista de Medicina: "todo ambiente de hospital é doentio", pura verdade.

Resta explicar porque precisei me corrigir quando disse que os conselheiros eram amigos do diretor-executivo. Isso  não é verdade, apesar de o termo "amigo" estar atualmente um pouco desvalorizado pela redes sociais, continua sendo, na minha opinião, um bem muito raro e precioso. Além disso, somente os homens de bem – “Mensch” em iídiche – têm amigos; políticos têm aliados, camaradas ou companheiros; bandidos têm comparsas; nobiliarcas têm súditos, jogadores, parceiros.

Duvido que Campos tenha algum amigo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Continuação. 102 de n.

A estrutura administrativa do novo Sarah.


Continuação. 101 de n.

Entre agosto e outubro de 1991, o Doutor Aloisio Campos da Paz operou nos bastidores de Brasília para recuperar o “statu quo” do seu feudo; ele podia ter-se conformado em ser apenas mais um administrador do Sistema Único da Saúde – SUS – submetido às regras do Regime Jurídico Único, Lei de licitações etc, mas isso não atendia a seu engenho político e a suas pretensões nobiliárquicas. Para melhor compreensão do personagem, basta que se diga que uma de suas blagues favoritas era: “estou muito satisfeito de cuidar das pernas do poder”.
Campos chegou ao comando do Sarah Kubitschek no governo do General Figueiredo e, até hojea, conviveu com 7 presidentes da república; não é algo que se possa subestimar e explica, de imediato, porque ele não podia admitir que um modelo mal-ajambrado de saúde pública o retirasse do comando de seu hospital.
Concebida no gabinete do Ministro do Tribunal de Contas Carlos Átila, ex-porta-voz de Figueiredo, a lei no. 8.246, de 1991 pinçou o Sarah Kubtischek* do meio da administração pública e o transformou em uma entidade “sui generis”, semelhante ao SESC ou SENAI.
A estrutura administrativa do novo Sarah se assemelha a de uma S/A: há um conselho de administração que delibera as políticas que nortearão a entidade e designa a diretoria executiva, que efetivamente conduz os negócios do órgão nos moldes de um hospital privado, independente, portanto, das limitações para contratar e demitir típicos do serviço público.
O Dr. Campos era, de novo, o dono do Hospital Sarah Kubitschek.
Por uma questão de justiça, devo registrar aqui que uma das regras de ouro estipuladas, e mantidas, pelo Sarah é a de prestar um atendimento médico gratuito e de qualidade para a população.
Quando contei essa história no Monteiro a meu primo G, que é médico, ele duvidou quando eu disse que nunca tinha notado indícios de corrupção durante o tempo em que permaneci no Sarah e, de fato, apesar dessa objeção, sempre plausível no Brasil, conservo minha impressão de que o ópio do Doutor Campos – e de muitos outros da mesma espécie que habitam o Planalto Central – é o poder. O poder pelo poder.
E o que mudou no Sarah com a nova lei?
Doravante, em vez de receber recursos por meio do Ministério da Saúde, o Sarah teria acesso direto ao Tesouro, por meio de um contrato de gestão e os administraria livremente, como eu disse, para atingir metas estabelecidas pelo poder público.
Em tese, não é uma má ideia.
Veremos, em seguida, como ela foi implementada.

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*Na verdade a Fundação das Pioneiras Sociais, mas para simplificar farei sempre referência ao Hospital que era a joia da coroa da Fundação.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Continuação. 100 de n.

D, nasceu no mesmo dia em que virtualmente acabou a 2ª guerra mundial com a trágica explosão da bomba atômica em Hiroshima; seis anos depois, S nasceu justamente no dia em que as tropas alemãs invadiram a Polônia e assim desencadearam a guerra, que, a propósito, durou seis anos.
Não costumo dar valor absoluto a essas coincidências, mas às vezes gosto de pensar que foi como se tivéssemos feito o tempo retroceder e, assim, mitigássemos o grande horror do século XX,  dando continuidade a História.


domingo, 18 de maio de 2014

Continuação. 99 de n.

B`H

D, no dia em que v nasceu o sol parou sobre Brasília, o céu ficou mais azul, os pássaros cantaram felizes, as pessoas sorriram de alegria, em toda parte eu vi brotar a felicidade.
A sua chegada marcou a vitória improvável da vida sobre as tantas possibilidades de solidão, desentendimento e morte.
Não havia esperança de que v estivesse entre nós 50 anos antes na Polônia, ou há 25 anos no Recife ou apenas 2 anos antes ali mesmo no coração do Brasil; mas nós tínhamos um encontro marcado com v desde o início dos tempos.
Inseguros, inexperientes, impressionados, arregalávamos os olhos, abríamos a boca e pensávamos: onde antes não havia nada, agora estava D, um milagre!
Eu e S fomos abençoados com a sua presença, com seu riso, com seu choro também, com cada gesto seu, com seu olhar e com seu espanto, dia a dia. E é assim até hoje, Baruch HaShem!
Levantar todos os dias de manhã, doravante, para mim, que nunca tive pai, seria ao mesmo tempo motivo de mais felicidade e de mais responsabilidade.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Continuação. 97 de n.

As notícias sobre minha realização profissional foram um pouco precipitadas.

Tudo bem, depois de um começo difícil,  eu conseguira, com o apoio da Providência Divina, trabalhar como engenheiro em um laboratório moderno – “único do hemisfério sul” – que me oferecia recursos de primeira  etc, etc e, claro, etc. Trabalhei com afinco e, acredito, não haver decepcionado a direção do Hospital, pelo menos não ainda. Cheguei a resultados gratificantes e logrei emplacar um "paper" em um congresso internacional. Alcancei uma posição que poderia parecer invejável, mas, em casa, eu e S, grávidos, enfrentávamos um situação econômica muito, muito difícil, e isso tem a ver com a ministra Zélia Cardoso de Mello, a quem me referi antes.
O plano Collor, capitaneado pela ministra, soçobrou mais rapidamente do que os seus mentores heterodoxos imaginavam; tão logo cessaram os efeitos da anestesia imposta pelo congelamento de preços combinado com o sequestro dos ativos financeiros da população – o maior da história em tempo de paz – a inflação retornou enlouquecida.
Naquele ambiente econômico caótico, policiais federais, auditores-fiscais e servidores do legislativo e do judiciário, combinando negociações com pressões diversas, lograram arrancar do governo reajustes indexados de vencimentos que amenizavam o “arrocho salarial” - nome que se dava na época à corrosão dos salários pela inflação.
O diretor do Sarah Kubitschek inequivocamente dispunha de poder e de influência suficientes para beneficiar com medida semelhante o corpo técnico do Hospital; seus planos, porém, eram muito diferentes, como contarei mais em outros posts.
Por ora, convém adiantar que a constituição de 1988 impôs severas restrições ao jeito Campos da Paz de administrar a coisa pública; por alguns meses, ele deixou de ser o dono do Sarah Kubitschek e tornou-se apenas mais um gestor lotado em Brasília. A nova carta constitucional, ainda em vigor, junto com  outras invencionices, criou um regime jurídico único  - RJU - que passaria a disciplinar as relações de trabalho entre os entes e os agentes públicos, fossem esses ocupantes de carreiras típicas de estado, como militares e diplomatas, fossem ascensoristas do congresso nacional, ou engenheiros e psicólogas de hospital.
Em outubro de 1990, foi publicada a Lei nº 8.112 que deu eficácia àquele dispositivo constitucional e lançou todos os empregados ainda regidos pela CLT*, inclusive eu e S, compulsoriamente, no RJU.
Naquele 11 de dezembro, eu me tornei, de direito, um funcionário público. Não me orgulho disso. O novo arranjo constitucional, doravante, garantiria a todos os servidores públicos estabilidade no cargo depois de três anos de efetivo exercício, além de outras vantagens que tiveram o condão de tornar a máquina pública brasileira ainda mais lenta e descompromissada do que secularmente fora.
Outro efeito indesejado foi provocar um aumento considerável da despesa pública que tornou a redução da folha da união uma necessidade imperiosa para todos os ministros da fazenda responsáveis que sucederam Zélia Cardoso de Mello.
Naquele contexto, voltar do Canadá trazendo fraldas descartáveis não foi uma excentricidade, pelo menos para pais absolutamente inexperientes e sem auxílio da família como éramos S e eu.
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*Consolidação da Leis do Trabalho, lei geral de trabalho no Brasil, inspirada na “Carta Del Lavoro” de Benito Mussolini.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Continuação. 96 de n.

Antes de continuar, para que as histórias fiquem bem encaixadas, gostaria de contar uma anedota sobre um sábio chinês, vamos chama-lo de Li Ping, que ouvi, ou li, não lembro mais onde.

Li Ping era um dedicado estudioso de todas as ciências de seu tempo; reconhecido e respeitado por seus colegas, vivia, porém, em profunda pobreza. Um dia, o grande Khan ouviu dizer que, em sua corte, vivia aquele homem de tão grandes qualidades e decidiu  convidá-lo a visitar o palácio imperial.
Li Ping, apesar de não ser um homem mundano, não pode deixar de perceber a oportunidade de mitigar a miséria que o afligia, desenhou, então, o mapa astrológico do Khan, vestiu-se com a sua única roupa de sair e foi até a cidade proibida*.
O grande Khan recebeu Li Ping com distinção na grande sala de expediente, acompanhado por seus muitos acólitos e conselheiros. O Imperador apreciou bastante as interpretações psicológicas dadas por Li Ping ao seu horóscopo e disse:
- De fato! Este homem é brilhante! Concedo-lhe a honraria de poder frequentar a corte!
Li Ping voltou para casa, feliz, mas com a mesma fome que sentia antes, não lhe serviram  nem um petisco durante a visita.
Algumas semanas depois, como sua situação só piorasse, Li PIng volta ao palácio e presenteia o grande Khan com um teorema matemático que acabara de demonstrar.
O imperador agradeceu a homenagem e decretou:
- Saibam todos que a partir de hoje concedo a este homem, Li Ping, a grande honraria de poder usar dois botões em sua túnica!
Li Ping se curvou agradecido, mas voltou para casa com a mesma fome de sempre.
Com o estômago a roncar, desesperado, dois dias depois, Li Ping retorna ao palácio e consegue uma entrevista com o Khan, perante o qual diz abertamente:
- Majestade, quando entrei no palácio, ouvi dois cachorros da matilha imperial conversando, um disse para o outro:  “Está vendo ali o grande sábio Li Ping? Sabia que ele está passando fome?”
Espantadíssimo, o Khan se levantou e fez mais um pronunciamento:
- Este homem é realmente um portento! Ele é capaz de entender até mesmo o que dizem os animais! Concedo-lhe agora a honraria máxima de poder deixar a barbicha crescer até altura do umbigo!
Todos aplaudiram a generosidade do grande Khan. Tonto de fome, Li Ping curvou-se agradecido e, mais uma vez, voltou para casa de mãos abanando.
Uma semana depois, o grande sábio Li Ping, frequentador dileto da corte, digno de usar dois botões na túnica e de deixar a barba crescer até a barriga, morreu de fome.

Moral da história: Minha parte em dinheiro!

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*Sede do governo imperial na China

terça-feira, 13 de maio de 2014

Continuação. 95 de n.

Toronto, no fim de julho, foi a cidade mais bonita que eu já visitei. Seu lago tranqüilo rebrilhava no sol suave de primavera, não fazia calor, nem frio, nem uma nuvem no céu. Barcos elegantes descansavam no cais ao lado de prédios suntuosos e bonitos, que conviviam harmoniosamente com construções históricas. Cada folha de cada árvore e de cada gramado parecia ter alcançado o ápice da verditude naquela manhã, mas era possível suspeitar que ficariam ainda mais exuberantes, discretamente exuberantes, no dia seguinte. Infelizmente não fiquei para conferir.

É ainda hoje para mim o paradigma de cidade de primeiro mundo. Eu conhecia Londres e Balt-Wash*, depois estive em Nova Iorque e na Filadélfia, nenhuma delas, porém, se mostrou tão reluzente e perfeita como Toronto, como uma irretocável modelo sueca ou norueguesa. Ao menos na primavera...

Montreal é um lugar mais comum, uma greve de lixeiros, devo adiantar, interfere ainda hoje com qualquer avaliação que venha a fazer da cidade. Os gramados não eram tão bem cuidados, as pessoas nas ruas não eram tão elegantes, ao contrário, nunca tinha visto tanta gente com cabelos esquisitos, nem em Londres. Cheguei a comentar com o Dr. A que devia estar acontecendo, além do nosso, outro congresso de desajustados naqueles dias. Pensando bem, os francófonos do Québec cercados de anglo-saxões por todos os lados não tinham como deixar de ser estranhos.
Foi em Montreal, porém, que tive uma experiência muito agradável: eu estudara francês quando ainda estava na UFPE, por dois anos mais ou menos, meu interesse, na época, era conseguir uma bolsa de estudos para um mestrado na França.
A essas alturas, leitor, você já sabe que esse foi mais um projeto fracassado deste pobre cavaleiro de triste figura. O idioma de Molière nunca me foi útil em termos profissionais, pelo menos até, muito tempo depois, eu conhecer a obra do Prof. Michel Villey, e voltar a pensar em mestrado em Paris, mas não nos adiantemos, por enquanto.

- "C’est ça fragile?" – Perguntou o taxista, apontando para a caixa onde estavam os fôlderes e o resto do material que eu iria apresentar no congresso.
- "Non, ce n'est pas fragile, seulement de papiers" - respondi.
- O que ele disse? Perguntou, Dr. A.

Percebi, inesperadamente, que conseguia compreender o que os nativos falavam! Mesmo depois de uns cinco anos sem contato com a língua. Não que fosse necessário, em Montreal todos falam inglês, até por medo, dizem, do francês dos anglófonos, mas essa constatação foi a melhor parte da viagem.

A apresentação do trabalho foi tranquila, tive sorte de não ser estraçalhado, como vi outros participantes serem. Sim, é preciso que se diga: não notei em momento algum o compadrio típico das nossas bandas, por lá vigora uma ética rigorosa que não permite o florescimento de abobrinhas. não chamei muita atenção tampouco...

Uma nota final relativa a compras.

Enquanto Dr. A aproveitou o que sobrava das diárias internacionais para comprar uma porção de equipamentos eletrônicos e roupas nos Malls que visitamos durante a viagem, minha lista de compras era bem diferente. Exceto por uma ou outra lembrancinha, voltei ao Brasil com dois metros de fraldas descartáveis!
Graças a D’us não tive problemas nem com as companhias aéreas, nem com a aduana. Só uns risinhos aqui e acolá. Em 1991, a diferença de preços entre as fraldas canadenses e as nacionais, para não falar na qualidade, era de 16 vezes!


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* Conurbação formada por Baltimore e Washington: Balt-Wash.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Continuação. 94 de n.

No dia seguinte, na hora marcada, eu e Dr. A nos encontramos com a representante do Itamaraty e seguimos para o NIH.
É fato notório que nas relações internacionais vigora o princípio da reciprocidade. Mais ou menos como em um jogo de xadrez; se um jogador move um peão, o outro responde com outro peão, mas se move um bispo, provoca a entrada em cena de outro bispo, cavalo ou torre. No caso da minha inglória missão de intercâmbio de tecnologia, a presença do Itamaraty atraiu o Departamento de Estado dos EUA e o resultado foi vexaminoso para nós.
Eu não tive oportunidade de falar porque a disputa não dizia respeito a tecnologia. A reunião foi rápida, apresentadas as partes e expostos os interesses, o diplomata americano, demonstrando desenvoltura e preparo, botou a nossa representante no bolso, e chegou a dizer algumas verdades desagradáveis ao orgulho tupiniquim. "In a nutshell": o NIH não seria autorizado a celebrar acordos com o Sarah,  ele disse, porque o Brasil não garantia os direitos de propriedade intelectual de estrangeiros e por esse motivo, não podia ser considerado um parceiro confiável.
O fato é o espectro da reserva de mercado de informática ainda pairava sobre nós, vivíamos em uma zona cinzenta do ponto de vista jurídico e francamente hostil a empreendimentos estrangeiros. Claro que um acordo naquele ambiente  não podia prosperar.
Olhando, com um certo distanciamento, entregamos ótimas oportunidades de mão beijada para a China, que apesar de serem até mais piratas do que nós, recebiam os investimentos de qualquer lugar do mundo com tapete vermelho e banda de música.

A primeira parte da minha missão, portanto, não foi bem sucedida, sem que pudesse interferir para alterar o quadro. Devo confessar que, em alguns momentos, tive vontade de interromper a mocinha do Itamaraty e quixotescamente defender o meu país, teria sido impróprio, inócuo, arriscado, em termos profissionais, e ridículo. O momento mais embaraçoso aconteceu quando o representante dos EUA se excedeu na linguagem e disse que: "se por acaso o acordo fosse assinado, nada impediria o Brasil de “cheat o parceiro” Ops! Diplomaticamente, "cheat” pode significar “iludir”, mas com mais freqüência se traduz por “trapacear”. Achei que a nossa attachée deveria ter protestado, mas ela permaneceu muda, e ficou por isso mesmo.

Arrumamos as malas, eu e Dr. A, e rumamos para o Canadá.

Antes de falar sobre a apresentação do trabalho em solo canadense preciso contar uma história inusitada que aconteceu nesse trecho da viagem.

O Dr. Campos da Paz colecionava armas e antes de viajarmos pediu ao Dr. A que comprasse para ele um determinado tipo de munição que seria facilmente encontrado nos EUA, pelo menos era isso que ele acreditava.
Demonstrando um fidelidade canina, o Dr. A, passou boa parte do nosso tempo livre visitando lojas de armas atrás da danada da munição e nada. Ninguém chega a número 2 em uma instituição como o Sarah sem se comportar assim; resultado: mal tivemos tempo de visitar o Museu Smithsoniano e tirar uma foto na entrada da Casa Branca. Por fim, na quarta ou quinta tentativa ele encontrou as munições e comprou logo uma meia dúzia de caixas.
Mas o pior ainda estava por vir, ao ingressar no Canadá, o Dr. A respondeu negativamente à pergunta sobre armamentos e munições no questionário distribuído pelas aeromoças e entregues na Imigração.
Fiquei vendo a hora de ele ser detido e eu também, como cúmplice.

Hoje, certamente, teríamos tido problemas, mas em 1991,  ninguém perguntou nada, nem no Canadá, nem no retorno a Brasília.

domingo, 11 de maio de 2014

Continuação. 93 de n.

Foto do passaporte de serviço com que entrei nos EUA e no Canadá.
O retrato de um perfeito idiota latino-americano.


Continuação. 92 de n.

1991 foi um grande ano! Eu e S nos casamos, representei o Brasil em Washington, apresentei um trabalho em uma feira científica em Montreal e D nasceu.

Conheci S em uma aula de anatomia no Sarah em 1990. Sim, tive que fazer um curso de anatomia, com "peças" autênticas, decorar as inervações e onde os músculos se ligavam aos ossos etc. Ela fazia outro curso - neuroanatomia - durante um intervalo, tentei puxar conversa, mas ela não me deu a menor bola.
Hoje ela diz estava muito preocupada com uma prova prova que ia fazer e nem se lembra de minha "cantada" desajeitada,  nós dois estávamos em estágio probatório no Sarah. Ops, já ia esquecendo da proibição.

Onde eu estava? Sim! Nas viagens de 1991. Tenho que reconhecer que o Doutor Aloísio Campos da Paz, titular desse baronato vitalício e hereditário chamado Sarah Kubitschek, é um homem arrojado, duas décadas atrás, ele tentava, ao mesmo tempo, fazer parcerias com o Irã, como contei no post anterior, e com os EUA!

O Sarah Kubtischek enviou uma missão aos EUA formada pelo médico número 2 do hospital, Dr. A, e por mim, com o propósito de estabelecer um convênio de cooperação tecnológica. Nosso destino era o departamento de ortopedia do National Institutes of Health - NIH - instituição sediada em Washington-DC.

Posso dizer que, naquele momento, alcancei de um modo completamente inesperado para mim apenas três anos antes, o ápice de meu sucesso profissional como engenheiro. Minha carreira, porém, iria sofrer em breve uma grande de curso, mas isso fica para depois, por ora, falarei da viagem.

Deixei S, grávida e por pouco não vi D nascer.  Menos de uma semana depois de voltar ao Brasil ganhamos D, no dia 6 de agosto de 1991.

Minha missão tinha dois objetivos: em primeiro lugar estabelecer, como eu disse, os termos de um acordo de cooperação, troca de experiências e de tecnologias com o NIH;  e, em segundo lugar apresentar, em Montreal, no Canadá, um trabalho que realizei no Sarah, em parceria com um médico, Dr. B, sobre "respiração paradoxal em pacientes com lesão medular", usando as ferramentas do Laboratório de Movimento, não se preocupem, não vou aborrecê-los falando sobre os resultados do estudo.

Viajei com passaporte de serviço, azul, em uma época em que todos os passaportes eram verdes. Curiosamente, apesar de não ser mais o esquerdista que fora, ainda trazia estampado no rosto, alguns dos traços que identificam os perfeitos idiotas latino-americanos; em particular, a barba e o olhar revoltado; eu era um produto do meu tempo, por mais que tentasse levantar a cabeça e olhar o que acontecia fora da caverna...

Pouco antes de embarcar para os EUA, a poderosa ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello, executora do sequestro de todos os recursos particulares do Brasil, derrotada por sua própria incompetência, foi substituída no cargo pelo embaixador do Brasil em Washington Marcílio Marques Moreira, esse detalhe depois se revelará importante na história.

Desembarcamos em Nova Iorque, Dr. A e eu, e de lá fizemos conexão para Washington-DC. Ficamos hospedados em Bethesda, uma cidade vizinha à capital federal americana, situada no estado de Maryland, de onde, todos os dias, íamos de carro, um Ford Taurus, até o NIH. Fazia um calor infernal, cerca de 40 graus, e era úmido e abafado como Manaus, sair ao ar livre era desagradável, passávamos a maior parte do tempo em lugares com ar-condicionado.

Os contatos técnicos com a equipe designada pelo NIH para nos recepcionar - formada também por um médico e por um engenheiro - pareceram promissores, mas os americanos deixaram claro desde o início que não poderiam formalizar qualquer acordo sem uma autorização expressa do governo Bush.

O Dr. A, ligou, então, para o Doutor Campos em Brasilia, e ele nos orientou a procurar o Itamaraty. Prontamente, fomos até a embaixada no dia seguinte, sem GPS, recorrendo apenas a mapas de papel - como explicar o significado de papel para meus bisnetos? Era uma técnica de registrar informações inventada pelos egípcios, dois mil anos antes da era comum, aperfeiçoada mais tarde pelos chineses, e que foi  usada na terra até o início do século XXI.

A sugestão do Dr. Campos mostrou-se um tiro n'água.

A embaixada do Brasil no país mais rico do mundo e, na época, nosso maior parceiro comercial , deveria ser, eu acreditava, extremamente bem aparelhado, funcionando como um relógio, qual o quê? Por uma questão de justiça, é preciso dizer que, em Brasília,  o Sarah atendia até os pacientes anônimos com  mais atenção e eficiência do que a que recebemos do Itamaraty.

As dificuldades começaram na portaria: os interfones não estavam funcionando. O prédio, apesar de bonito, era mal aparelhado. Devido à nomeação recente de Marcílio Marques Moreira para o Ministério da Economia, a embaixada estava sob o comando de um interino, embaixador Joaquim Brasil, acho que era esse o nome, ele parecia um Ernest Hemingway não exatamente pelo talento literário. Pareceu ficar surpreso com nossa presença, chamou então uma assessora e a orientou a marcar uma reunião oficial com o NIH.

A dona era muito bonita e perfumada, mas não posso dizer que sua atuação produtiva para nossos propósitos. Para concluir por hoje, notei desanimado que o computador e o redator de texto que ela usava eram, para dizer o mínimo, obsoletos...





Continuação. 91 de n.

O que Fernando Collor de Mello, Zico a primeira-dama dos EUA, Barbara Bush, e a representação diplomática do Irã no Brasil, em 1991, têm em comum?
Simples, todos me visitaram no Laboratório de Movimento do Sarah Kubitschek .
Do ex-presidente cassado não tenho muito a dizer, acompanhado de uma entourage de repórteres e puxa-sacos, ele apenas passou pelo laboratório em visita de pura marquetagem. Por um dever de urbanidade, tive que apertar a mão do patife.
Alguns meses depois, Zico, ministro dos esportes de Collor - ele deve detestar carregar isso no seu currículo - também visitou o laboratório. Foi muito simpático, fez perguntas e me deu uma ideia: e se usássemos a tecnologia da Oxford Metrics para treinar atletas, por exemplo, a bater faltas tão bem quanto ele ou Nelinho? Muito depois, quando já estava em Curitiba, assisti a uma reportagem que mostrava um centro esportivo que fazia exatamente o que eu pensara, mas aplicado à natação.
No Sarah, contudo, naquela época, um projeto assim não teria chances de prosperar, porque o Hospital fazia muita questão de alardear ser um ente público, que se dedicava exclusivamente a prestar serviço gratuito e de qualidade à população, isso também era marketing.
Brasília é marketing.

A ex-primeira Dama Barbara Bush, que veio ao Brasil acompanhando o presidente George Bush, pai, deixou em mim uma impressão muito positiva, ouviu com interesse a explicação sobre o funcionamento do laboratório feita em um inglês macarrônico pelo próprio Campos da Paz e estava acompanhada por menos gente que Collor. Para quem não conhece, Barbara Bush é uma aristocrata que não pinta os cabelos brancos e se parece muito com uma querida amiga da Sinagoga do Beit Chabad, S.
Mais curiosa e sintomática foi a visita dos representantes da República Islâmica do Irã.
Os iranianos, como se sabe, lutaram uma guerra cruenta com o Iraque nos anos 80, que deixou muitos veteranos de guerra mutilados, mas, em razão do isolamento internacional do país, angariado pelo regime fanático e filo-terrorista, estavam desprovidos de meios para fornecer atendimento ortopédico adequado a esses pacientes.
Resolveu garimpá-lo no Brasil e o Dr. Campos da Paz farejou aí uma boa oportunidade, visitou Teerã e recebeu diplomatas do Irã no Hospital Sarah em Brasília. Eram dois barbudinhos metidos em batas abotoadas até o pescoço. Eles ouviam toda explicação sobre o Laboratório sem demonstrar muito interesse, até que...

Corria o ano de 1991, os EUA lideraram uma grande força internacional que expulsou Saddan Hussein do Kwait, com o aval da ONU; em uma tentativa desesperada de agregar o mundo islâmico contra a aliança internacional, o ditador iraquiano disparou mísseis contra Israel, esperando que uma reação israelense lhe desse o pretexto de que precisava para se autoproclamar califa. Só quem endossou sua loucura, foi o não menos lunático lider palestino Yasser Arafat.
A iniciativa, graças a D'us fracassou, porque os EUA levaram a Eretz Israel um, então, novíssimo  sistema de defesa anti-aérea que usava mísseis chamados Patriot. A ideia era detectar os mísseis inimigos no ar, valendo-se de ondas eletromagnéticas, e abatê-los - com os Patriots - antes que tocassem o solo.

Voltando aos iranianos, eles ouviam toda aquela história sobre capturar as posições das marcas postas nas articulações dos pacientes quase bocejando, até que o Dr. Campos da Paz lhes disse que aquela era, em essência, a mesma tecnologia usada pelos mísseis Patriot.

Nesse momento, quase dava para ouvir um Plim! Na cabeça dos barbudinhos.

Os olhos dos diplomatas brilharam, passaram a mãos nas câmera, quiseram ver a sala dos computadores...

Essa é a mesma gente que afirma querer desenvolver energia nuclear para fins pacíficos.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Continuação. 90 de n.

Acabei de voltar de uma palestra sobre antissemitismo no Beit Chabad proferida pelo Rabino David Nesenoff.

A história dele é fascinante.

O Rabino contou que costumava pedir a pessoas com quem se encontrava que fizessem um breve comentário sobre Israel. Ele gravava então os comentários em seu celular e os postava na internet; em geral, se falava da beleza do país, de sua história, de Jerusalém ou de Massada.

Eis que, em 27 de maio de 2010, o filho do Rabino, então com 15 anos, foi convidado a participar do Dia da herança judaica na Casa Branca.. A família recebeu três convites, um para o garoto e dois, para os pais.

Todo serelepe o Rabino Nesenoff aproveitou a ocasião para tirar fotos dos salões e dos outros participantes da cerimônia, entre os quais o ex-presidente Bill Clinton. Na sala de imprensa, onde há uma tribuna com o brasão da presidência, ele tirou uma foto no lugar em que os presidentes costumam conceder entrevistas. Bem ali na sua frente, havia uma fileira de cadeiras onde os jornalistas se reúnem para fazer perguntas ao próprio presidente ou a seus porta-vozes.

Na primeira fila, bem no centro da sala, a menos de 2 metros da tribuna, havia uma cadeira reservada à jornalista Hellen Thomas, a mais antiga setorista da Casa Branca, ocupando o cargo desde o governo Eisenhower. A essa senhora cabia, por deferência, o direito de fazer a primeira pergunta e de concluir as entrevistas repetindo a fórmula: "thank you, mister president". Na sua cadeira, havia uma placa com seu nome; só ela desfrutava dessa distinção.

Ao vê-la o Rabino Nesenoff, perguntou-lhe:
- O que uma jornalista com 60 anos de experiência tem a dizer a um colega que começou há 60 segundos?
Ela respondeu: - Faça muitas perguntas.
Aproveitando a deixa, David Nesenoff lhe fez sua tradicional pergunta:
- Algum comentário sobre Israel?
A resposta o surpreendeu.
- Diga-lhes para saírem da Palestina.
- Oh! Esse é um mau comentário (....) E para onde eles deviam ir? - Pergunta o Rabino.
- Para casa.

O que levou a conversa, claro, à pergunta inevitável:
- E onde é a casa deles?
- Polônia, Alemanha.

Chocado com a explícita manifestação de antissemitismo o Rabino Nesenoff mostra a gravação ao editor de um jornal judaico de Nova York e ouve dele, uma resposta desanimadora:
- "No news". - Não há notícia aqui.

Por uma grande coincidência - para usar o codinome com que se esconde a providência divina - naquela mesma semana, ocorreu o episódio da flotilha turca enviada pelo grupo terrorista Hamas até a cidade de Gaza para desafiar o bloqueio naval imposto por Israel para impedir que armamentos chegassem ao território sob controle dos terroristas e fosse usado para desencadear atentados em território israelense.

A marinha de Israel, depois de recomendar que a flotilha mudasse de rumo, abordou o barco principal fazendo com que soldados desarmados descerem de helicópteros usando cordas. O objetivo da medida era assumir o comando da embarcação e redirecioná-la para um porto em Israel onde seria vistoriada. Os soldados foram recebidos no convés com bastões e barras de ferro e os que tombavam eram jogados no mar mediterrâneo. Para proteger seus camaradas os helicópteros abriram fogo contra os supostos pacifistas, atingindo alguns deles.

Era tudo que imprensa antissemita queria. No mundo inteiro, deu-se vazão ao viés anti-Israel, mostrando as forças de defesa israelenses como agressoras e os terroristas, mais uma vez, como vítimas. Apesar de as imagens mostrarem que a primeira agressão partiu dos palestinos. Na Casa Branca, a senhora Thomas perguntou ao Presidente o que seria feito contra mais essa ação violenta de Israel contra um grupo pacifista palestino.

Eis a oportunidade esperada.

Nesenoff postou o filme que fez com a jornalista numa sexta-feira, antes do início do Shabat ( a propósito quem quiser assistir ao vídeo pode encontrá-lo neste endereço:  http://m.youtube.com/watch?v=RQcQdWBqt14).

Naquele sábado mesmo, 70 mil pessoas assistiram ao filme (entre os quais provavelmente muitos judeus que não respeitaram o shabas), durante o fim de semana os números alcançaram a casa dos milhões. A caixa de correio eletrônico do Rabino ficou abarrotada de mensagens e ele passou a receber mensagens de todas as partes dos EUA. Tornou-se uma celebridade.

Uma das pessoas que lhe telefonou foi Ari Fleischer, que fora assessor de imprensa do ex-presidente Bush.
- O que eu faço? - Perguntou o Rabino ao experiente homem de imprensa.
- Encontre uma mensagem e aproveite o momento para transmiti-la, se você não o fizer, a imprensa vai fazer isso no seu lugar.

Mas que mensagem poderia ser? Pensou em pedir conselhos. Mas a quem? O seu filho lhe disse que depois da divulgação do vídeo qualquer pessoa do mundo, líder religioso, político ou artista,  atenderia a uma ligação dele. Decidiu ligar para Elie Wiesel celebre escritor judeu, sobrevivente de Auschwitz e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1986. Mas como conseguir o nome do senhor Wiesel? Em trinta segundos, o filho do rabino encontrou o número e o pôs na linha com o pai. Wiesel o aconselhou a procurar um rabino! E David Nesenoff aceitou o conselho.

Tenho que confessar que me distraí por um momento e não ouvi direito o nome do Rabino com quem ele Nesenoff conversou, mas a orientação que recebeu dele foi a seguinte, feita na forma de perguntas, como os rabinos gostam de fazer:
- Se v. deixa de ver um amigo por um ano, ele deixa de ser seu amigo?
- Não.
- E se for por 40 anos?
- Provavelmente não.
- E se fosse seu filho, que por alguma razão v. não visse por 40 ou 50 anos, ele deixaria de ser seu filho?
- Claro que não!
- Nós não somos amigos de Israel, somos b'nei Israel, filhos de Israel!

Nesenof  encontrou sua mensagem.

Alguns dias depois deu uma entrevista para a CNN, na qual respondeu o que, para ele, representava aquele episódio.
- O lar de todo judeu é Israel, nós somos filhos de Israel e nunca deixaremos de ser, porque esse vínculo não se deve à ONU, à declaração Balfour ou à vitória na guerra em 1948, a ligação entre Israel e o povo judeu é como um casamento indissolúvel oficiado por D'us.
- E sobre o antissemitismo, como desmascarar um antissemita?
- Sendo judeu, praticando o judaísmo, não simplesmente se sentindo judeu, mas praticando o judaísmo.


A pergunta sobre a flotilha turca foi a última de Helen Thomas na Casa Branca.

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PS Este texto está sendo postado sem revisão pelo adiantado da hora.







quarta-feira, 7 de maio de 2014

Continuação. 89 de n.

Outro resultado produzido pelo sistema da Oxford Metrics era um diagrama formado por linhas que ligavam as marcas e formavam um boneco que se comportava como o paciente.
Algo mais ou menos assim:




Onde t1, t2, ..., ti,...tn, são as imagens capturadas pelas câmera a uma taxa de 60 fotos por segundo.
Se passadas rapidamente, observem, um estudo de Muybridge, como  esse abaixo aqui abaixo.



Converte-se em um quadro cubista, com o Nu descendant un escalier de Marcel Duchamp.

No Laboratório de Movimento do Sarah, de fato, havia a cópia de um quadro cubista, não lembro qual, ao lado de um poster de Muybridge.

Os meus estudos em 1990 eram rudimentares perto do que se conseguiu posteriormente com o aprimoramento das técnicas de digitalização e da capacidade dos equipamentos.
Os novos usos, extrapolam o campo terapêutico e se estendem do treinamento de nadadores ao cinema.
O Smeagol foi construído assim...


terça-feira, 6 de maio de 2014

Continuação. 88 de n.

Depois de fotografar animais, Muybridge começar a estudar o movimento humano. Meu trabalho era de certa maneira a continuação do dele.


Fiz alguns rabiscos para tentar explicar o que eu fazia no Hospital Sarah Kubitschek, vou deixar de lado a matemática mais complicada, porque não teria cabimento ser tão minucioso em um blog como este, e também, falando francamente, porque não me lembro de quase nada, depois de mais de 20 anos.
O primeiro esboço mostra como era a câmera filmadora da Oxford Metrics em 1990. Era uma câmera comum cuja lente era circundada por um anel de leds emissores de luz infravermelha. 



Os pulsos de luz infravermelha eram emitidos em uma frequência conhecida para atingir pequenas marcas em forma de pastilha, muitos leves, feitas de plástico e revestidas por um material refletor.

Os sinais refletidos por essas marcas eram capturados pela lente da câmera, como se fosse  um radar.




Para os propósitos do Laboratório de Movimentos do Sarah Kubitschek, as marcas eram coladas com fita durex dupla-face em diversas articulações dos pacientes – tornozelos, joelhos etc – e em alguns pontos chave para o estudo da caminhada – calcanhares e pontas do dois pés.
Dado que não era um procedimento invasivo, a distribuição das marcas refletoras era feita por um servidor técnico, W, que juntamente com S, a secretária, formavam minha equipe no laboratório.
O engenheiro-senior que me selecionou no concurso e me antecedeu no cargo, passado pouco mais de um mês de minha chegada, tirou licença do Hospital e foi para os EUA fazer um doutorado. Mais uma vez, tive que aprender tudo sozinho...

A figura abaixo mostra como ficava o paciente com as marcas.




Depois que tudo estava pronto, as luzes da sala eram reduzidas e o paciente caminhava em uma passarela com extensão aproximada de 4 metros.
A sala onde ficava o laboratório era bastante grande e revestida de alcatifa para evitar reflexos indesejados.

Alcatifa? 

Na minha cabeça todo munda sabia o que era alcatifa, fora do Recife, só percebi que não era assim quando, certa noite, saí bem tarde do Hospital e uma faxineira que estava passando um pano úmido no piso do corredor bem na frente do laboratório, pediu que eu não trancasse a porta para que ela pudesse passar o pano lá dentro também.
Expliquei que não precisava se incomodar, porque dentro daquela sala tinha alcatifa.

Silêncio total de rádio.... Cara de absoluta incompreensão, 

Parecia que eu tinha grego.

“Alcatifa”, repeti, pensando que talvez ela não tivesse ouvido direito. Mesmo resultado.

Só voltamos a nos comunicar de novo quando eu disse “carpete”. Ela então sorriu e anuiu com a cabeça.
Depois disso, fiz o teste várias vezes com quem não era do Recife (e de João Pessoa) e descobri que ninguém no Brasil sabe o que “alcatifa’ significa.


A figura abaixo mostra a primeira parte do meu trabalho no Sarah Kubistchek: a coleta de dados. 



A segunda parte do trabalho era um pouco mais complicada.
Os dados fornecidos pelas câmeras era coletados por um computador que as sincronizava e a partir deles calculava as posições de cada marca durante a caminhada (que durava tipicamente alguns segundos) em relação a um referencial fixo, a posição (0,0,0) que ficava no início da passarela do lado direito.
Não se assustem agora, mas esse dados compunham um rol de trincas, por unidade de tempo, por câmera.
Algo mais ou menos assim: Câmera 1( t1: (x1,y1,z1), t2: (x2,y2,z2) .. .tf(xf,yf,zf)); Câmera 2 (t1:(x1,y1,z1)...tf(xf,yf,zf))...Camera 6 (t1: (x1,y1,z1) ...tf(xf,yf,zf)).

A partir desse ponto, o programa, com base em fórmulas simples de geometria espacial, calculava a trajetória das partículas refletidas e com elas as variáveis de interesse para aplicação médica, e. g. a inclinação do joelho.
Essa informação podia ser comparada com resultados padrão previamente tabelados pela literatura médica – conforme pode ser visto no diagrama 1, da figura abaixo.
O programa da empresa inglesa era muito bom, mas fornecia uma resposta com lacunas e ruídos como os representados no diagrama 2.
A mim competia completar as lacunas provocadas por pontos cegos ao longo da marcha, por meio de interpolações matemáticas, conforme está esboçado o diagrama 3 - essa era a parte fácil. 

O mais complicado era realizar a filtragem do gráfico para eliminar os ruídos e chegar a um resultado final como o do diagrama 4, usando técnicas de matemática-discreta que eu não havia visto na UFPE. Recorri à biblioteca da UNB.


Deliberadamente fiz o diagrama 4 diferente do padrão médico do diagrama 1, para lembrar que as pessoas avaliadas no laboratório de movimento eram pacientes que sofriam de problemas ortopédicos; seus movimentos, portanto, não correspondiam à média tabulada.

Os dados que usávamos eram americanos, com o propósito de construir um padrão nacional, o Doutor Aloísio Campos da Paz, o dono do Sarah Kubitschek, determinou que fossem feitas avaliações de pessoas saudáveis.
Algumas fisioterapeutas  e terapeutas ocupacionais colaboraram e foram avaliadas no Laboratório de Movimento. Porém, S, minha S, se recusou a participar porque disseram para ela que seria necessário desfilar de biquíni - o que não era verdade. 
Mas isso fica para depois.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Continuação. 87 de n.

Para concluir a história das Escrituras, devo dizer que, de livro em livro, fui avançando, com apoio da teologia católica, até chegar ao Novo Testamento que eu conhecia razoavelmente bem. Confesso que pulei algumas partes, e. g., as genealogias, mas me detive com bastante cuidado nos meus favoritos: o Eclesiastes, atribuído ao Rei Salomão, e o Livro dos Salmos.
Penei, por outro lado, para entender o Livro de Jó, minto, não o entendo até hoje.

Como é insaciável, porém, a natureza humana...
Depois de ficar muito feliz com a descoberta dos.cursos on-line da Universidade de Yale, agora lastimo que eles sejam apenas introdutórios.
Por que isso agora?
Porque lemvrei que a Profa. Christine  Hayes, no curso introdutório de Bíblia Hebraica, ao qual me referi, comenta que Jó é, na sua opinião,  o ponto alto de toda Literatura Bíblica e dá a entender que oferece um curso avançado sobre ele, infelizmente, porém, ele não está disponível. Pena!

Agora vou falar um pouco sobre o laboratório de movimento do Sarah Kubitschek.

A ideia de usar imagens para estudar o movimento começou com uma aposta.
Um cavalo, quando galopa, chega a tirar as quatro patas do chão?
O fotógrafo inglês Eadweard Muybridge esclareceu a questão tirando fotos sucessivas de uma cavalgada e chegou ao seguinte resultado.





O ano era1877!

domingo, 4 de maio de 2014

Continuação. 86 de n.

Ontem, fomos assistir a um filme franco-italiano intitulado Um castelo na Itália.
Não é uma obra prima, mas não se pode dizer que seja um filme ruim. A história é plausível (exceto por uma uma coincidência montada sobre outra coincidência), os atores são bons, o ritmo é agradável e os cortes feitos pelo diretor nas tramas do enredo obrigam o espectador a juntar as pontas que ficaram soltas. Gosto disso.
Mas eu gostei mesmo foi de uma fala, posta na boca de um personagem que é ator. Ele reclama que está cansado de ser uma marionete e de dizer coisas que outros pensaram e escreveram.
Eu sempre disse isso! Atores são médiuns que encarnam vozes alheias. Basta ver como se comportam em entrevistas ou nas cerimônias de premiação em que aparecem sem as máscaras - suas ferramentas de trabalho. Ora são vazios, ora histriônicos, quase sempre interesseiros - fazendo propaganda de seus últimos trabalhos - e só muito raramente tão interessantes quanto os personagens que interpretam.
Só por esse reconhecimento, o filme, para mim, merece uma nota 8.
"Então não sou só eu que acha isso"- pensei.
S também percebeu: "o ator concordou com v".

O aspecto negativo é que presenciamos mais um caso explícito de falta de civilidade aqui em Curitiba: um casal sentado atrás de nós ficou o tempo todo da sessão falando em voz alta, pondo os pés na cadeira da frente, apesar das muitas reclamações:"Sh!" que não foram apenas nossas.

Quando as luzes se acenderam a estranheza aumentou ainda mais, o "casal" de selvagens era formado por um sujeito de meia idade - parecido até com o vizinho mal-encarado com quem quase briguei no elevador - e uma menina que parecia ser filha dele. Pode ser que estejamos enganados - devemos estar - mas parecia um caso flagrante de pedofilia. Não por acaso, durante o filme, a menina dizia:  "não estou entendendo..." e o seu, como dizer, parceiro lhe explicava em voz alta o que estava acontecendo sem se preocupar com o fato de estar incomodando todos os demais presentes.

Estamos assim no Brasil. Na sexta-feira, encontrei com dois colegas de trabalho e lhes contei do episódio do elevador, eles ficaram surpresos porque sabem que não sou de comprar briga à toa, um deles, em reforço contou que naquela mesma semana viu um carro avançar um sinal vermelho, quase na frente do escritório onde trabalha e quase atropelar um senhor idoso. A vítima reclamou e o motorista infrator, mais um brutamontes, em vez de se desculpar, parou o carro e pôs-se a gritar, chamando palavrões e a ameaçando o idoso.

E não há o que se possa fazer, sem correr o risco de enfrentar coisa ainda pior.

Continuação. 85 de n.

Depois de aprender sobre a formação do texto bíblico e sobre algumas de suas nuances no livro do Padre Arenhoevel, eu me considerei pronto para recomeçar meus estudos. Decidi, então, recorrer a comentários específicos para cada um dos livros sagrados e, assim, voltei às Paulinas e comprei o Gênesis de Frederico Dattler membro da Sociedade do Verbo Divino – SVD.
Percebi que muitas de minhas perplexidades anteriores se deviam à ausência de uma educação filosófico-religiosa apurada e, em razão disso, à impossibilidade pessoal de compreender os detalhes sutis empregados pelos autores inspirados.
Imaginem, digo eu agora, a dificuldade de se explicar a presença e a intervenção do Infinito-Transcendente no cotidiano de criaturas finitas por meio da linguagem escrita. Isso é a Torah, assim ela deve ser percebida, estudada e amada.

Quando acabei o Gênesis, achei que seria interessante conhecer outras abordagens teológicas, pensando assim, para me ajudar a ler o livro seguinte, o Êxodo, comprei o comentário de apoio em uma editora evangélica cuja livraria ficava não muito distante do Sarah no Setor Comercial Sul.
Não gostei da mudança porém.
O comentarista, de cujo nome não me recordo mais, propunha uma interpretação literal da narrativa da saída do Egito, que reacendia as perplexidades que a abordagem católica me ajudara a superar.
Voltei mais uma vez às Paulinas e comprei o comentário ao Êxodo escrito pelo Professor Gianfranco Ravasi, formado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e pela Universidade Hebraica de Jerusalém.
Curiosamente, não me ocorreu na época procurar o entendimento judaico da Torah, li bastante sobre o que os judeus pensavam, dito por goym*, a explicação para isso é que o acesso a fontes judaicas não era, e continua não sendo, muito fácil e eu ainda não conhecia S.
S não era muito religiosa, devo dizer de imediato, tanto não era, que começamos a namorar, mas ela me inspirou muitas outras novas perspectivas de vida.
Também preciso dizer agora que ela me proibiu de contar histórias românticas neste blog, exceto para dizer o quanto ela é maravilhosa e que eu a amo.

Assim sendo, por enquanto, paro por aqui.

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* Goym = gentios, não-judeus ou, ao pé da letra, filhos de outras nações.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Continuação. 84 de n.

BH

Voltando à análise literária das Escrituras, aprendi com o Pe. Arenhoevel que é possível aplicar os métodos de cotejamento e investigação próprios dos textos literários aos relatos bíblicos, abstraindo o conteúdo religioso da matéria estudada.
Esse tipo de abordagem pode seguir três orientações distintas.
A primeira, profundamente religiosa, busca conhecer os fundamentos da própria fé, naturalmente, é a adotada por  Arenhoevel.
Há uma segunda corrente, não-religiosa, estritamente dedicada aos aspectos históricos, literários, filosóficos e sociológicos da Escritura que é tratada com o respeito devido a um dos pilares da cultura ocidental. Como exemplo dessa segunda vertente, recomendo o curso da Profa. Christine Hayes da Universidade de Yale que pode ser assistido no endereço: http://oyc.yale.edu/religious-studies/rlst-145.
Infelizmente, por fim, alguns movimentos ateístas valem-se dos resultados da análise literária para desmerecer e, in extremis, refutar as religiões abrâmicas, ou pelo menos duas delas, pois, falta-lhes coragem para enfrentar o Alcorão e desafiar a ira dos aiatolás.

Segundo Arenhoevel, a moderna crítica literária começou com um médico da corte de um rei da França... Já digo nome dele...
(...)
Ops! Acho que emprestei o livro e não o recebi de volta.
Que seja feito bom uso dele.
Vou ter que puxar pela memória.

Bom...um rei francês que gozava de boa saúde, tinha um médico na sua corte, que, liberado do trabalho, dedicou-se ao estudo da Bíblia nas línguas em que foram originalmente escritas: hebraico, aramaico e grego antigos.

(Devo confessar aqui que invejo a sorte desse doutor).

Ele constatou, então, ainda no Gênesis que o relato bíblico, quando lido no original, refere-se ao Eterno usando vocábulos diferentes, ora E`ohim, ora A’onai, e, algumas vezes, A’onai-E’ohim.
A Cabalah desde muitos séculos antes oferecia explicações para essa diversidade, mas o médico da corte não conhecia a mística judaica. Continuando, então, em seus estudos, ele fez uma descoberta que o deixou impressionado: se, por acaso, saltasse uma parte do texto em que o nome de D`us é grafado da forma X para a próxima passagem em que essa forma volta a aparecer, deixando de lado as passagens intermediárias nas quais o Nome (HaShem) é escrito nas outras formas, surpreendentemente, a história se encaixava com perfeição e continuava como se não houvesse sido interrompida, por outro relato.
Além disso, o mesmo podia ser dito para cada uma das grafias X, Y ou Z.
O pesquisador propôs, então, a seguinte hipótese: os textos bíblicos foram preservados, de início, oralmente e somente começaram a ser compilados na forma escrita com o advento da monarquia davídica por volta do ano 1.000 AEC, quando uma burocracia estável pode dedicar-se à tarefa de consolidá-los na forma que chegou até nós.
Os compiladores – homens piedosos – depararam-se, porém, com dois problemas: em muitos casos havia mais de uma versão para as histórias sagradas, e, de outra parte, havia histórias  que só eram contadas em uma das tradições.
Como organizá-las com coerência? Poderiam descartar uma versão em prol de outra?  Do mesmo modo, se uma narrativa não estivesse confirmada por duas fontes poderia ser deixada para trás?
Quem conhece o espírito judaico sabe que tais alternativas eram impensáveis.
A solução foi mesclar as histórias, por isso algumas delas se repetem e, pelo mesmo motivo, há diferentes nomes para o Eterno, indicando a procedência da fonte.
Essa hipótese é hoje amplamente aceita pelos estudiosos, mesmo os religiosos, mas vista com desconfiança por muitos fiéis, e completamente rejeitada por outros.
Pessoalmente, acredito que vale a pena conhecer a teoria, apesar de eu não saber como integrá-la à ortodoxia religiosa, sem ser forçado, de modo indesejado, a arbitrar a arbitrar entre as passagens que devem ser seguidas literalmente, das que deve ser entendidas como alegoria ou figura de linguagem.
Continuando a história.
A língua e os registros arqueológicos também oferecem pistas sobre o período histórico em que os textos foram consolidados. O Pe. Arenhoevel chega a mencionar uma hipótese de formação da língua hebraica antiga.
Se bem me lembro, os patriarcas falavam o aramaico, a língua franca do mundo semítico que se estendia da Caldéia a Canaã, por isso os compiladores fazem a referência a Labão, irmão de Rebeca, como o arameu.
O hebraico antigo surgiu quando Israel, voltando do Egito, conquistou Canaã (a Terra Prometida por HaShem), o  novo idioma é resultado da mistura das línguas nativas com a língua do conquistador. Foi nessa língua que o texto bíblico foi consolidado.
Com a obliteração do reino do norte, seguida da destruição do reino do sul, e do cativeiro na Babilônia, aconteceu, segundo Arenhoevel, um fenômeno curioso: os judeus cativos adotaram o aramaico como língua do dia a dia e preservaram o hebraico como língua estritamente litúrgica, voltavam assim a falar a língua dos Patriarcas.
O hebraico permaneceu como língua exclusivamente religiosa mesmo depois do fim do cativeiro e da reconstrução do segundo templo em Jerusalém
O aramaico era, portanto, a língua falada pelos judeus da Judéia e da Samaria no início da Era Comum. Era a primeira língua de Jesus de Nazaré.
Por outro lado, as elites locais falavam, além do aramaico, a língua universal do leste do Mediterrâneo desde os tempos de Alexandre da Macedônia: o grego; esse fio o idioma em que foram escritas as Epístolas de Paulo e os Evangelhos cristãos.
Até os dias de hoje, judeus muito ortodoxos se negam a falar hebraico fora das sinagogas e yeshivot (escolas religiosas), continuam falando, conforme sua origiem, o iídiche, o ladino, o inglês, o russo ou o árabe, apesar de o hebraico moderno ter sido escolhido – contra a vontade daqueles hassidim - .a língua oficial do Estado de Israel.

O livro do Pe. Arenhoevel explicava ainda como os textos bíblicos foram organizados, e como deveriam ser lidos com mais proveito. 
Isso foi essencial para mim.