Acabei de voltar de uma palestra sobre antissemitismo no Beit Chabad proferida pelo Rabino David Nesenoff.
A história dele é fascinante.
O Rabino contou que costumava pedir a pessoas com quem se encontrava que fizessem um breve comentário sobre Israel. Ele gravava então os comentários em seu celular e os postava na internet; em geral, se falava da beleza do país, de sua história, de Jerusalém ou de Massada.
Eis que, em 27 de maio de 2010, o filho do Rabino, então com 15 anos, foi convidado a participar do Dia da herança judaica na Casa Branca.. A família recebeu três convites, um para o garoto e dois, para os pais.
Todo serelepe o Rabino Nesenoff aproveitou a ocasião para tirar fotos dos salões e dos outros participantes da cerimônia, entre os quais o ex-presidente Bill Clinton. Na sala de imprensa, onde há uma tribuna com o brasão da presidência, ele tirou uma foto no lugar em que os presidentes costumam conceder entrevistas. Bem ali na sua frente, havia uma fileira de cadeiras onde os jornalistas se reúnem para fazer perguntas ao próprio presidente ou a seus porta-vozes.
Na primeira fila, bem no centro da sala, a menos de 2 metros da tribuna, havia uma cadeira reservada à jornalista Hellen Thomas, a mais antiga setorista da Casa Branca, ocupando o cargo desde o governo Eisenhower. A essa senhora cabia, por deferência, o direito de fazer a primeira pergunta e de concluir as entrevistas repetindo a fórmula: "thank you, mister president". Na sua cadeira, havia uma placa com seu nome; só ela desfrutava dessa distinção.
Ao vê-la o Rabino Nesenoff, perguntou-lhe:
- O que uma jornalista com 60 anos de experiência tem a dizer a um colega que começou há 60 segundos?
Ela respondeu: - Faça muitas perguntas.
Aproveitando a deixa, David Nesenoff lhe fez sua tradicional pergunta:
- Algum comentário sobre Israel?
A resposta o surpreendeu.
- Diga-lhes para saírem da Palestina.
- Oh! Esse é um mau comentário (....) E para onde eles deviam ir? - Pergunta o Rabino.
- Para casa.
O que levou a conversa, claro, à pergunta inevitável:
- E onde é a casa deles?
- Polônia, Alemanha.
Chocado com a explícita manifestação de antissemitismo o Rabino Nesenoff mostra a gravação ao editor de um jornal judaico de Nova York e ouve dele, uma resposta desanimadora:
- "No news". - Não há notícia aqui.
Por uma grande coincidência - para usar o codinome com que se esconde a providência divina - naquela mesma semana, ocorreu o episódio da flotilha turca enviada pelo grupo terrorista Hamas até a cidade de Gaza para desafiar o bloqueio naval imposto por Israel para impedir que armamentos chegassem ao território sob controle dos terroristas e fosse usado para desencadear atentados em território israelense.
A marinha de Israel, depois de recomendar que a flotilha mudasse de rumo, abordou o barco principal fazendo com que soldados desarmados descerem de helicópteros usando cordas. O objetivo da medida era assumir o comando da embarcação e redirecioná-la para um porto em Israel onde seria vistoriada. Os soldados foram recebidos no convés com bastões e barras de ferro e os que tombavam eram jogados no mar mediterrâneo. Para proteger seus camaradas os helicópteros abriram fogo contra os supostos pacifistas, atingindo alguns deles.
Era tudo que imprensa antissemita queria. No mundo inteiro, deu-se vazão ao viés anti-Israel, mostrando as forças de defesa israelenses como agressoras e os terroristas, mais uma vez, como vítimas. Apesar de as imagens mostrarem que a primeira agressão partiu dos palestinos. Na Casa Branca, a senhora Thomas perguntou ao Presidente o que seria feito contra mais essa ação violenta de Israel contra um grupo pacifista palestino.
Eis a oportunidade esperada.
Nesenoff postou o filme que fez com a jornalista numa sexta-feira, antes do início do Shabat ( a propósito quem quiser assistir ao vídeo pode encontrá-lo neste endereço: http://m.youtube.com/watch?v=RQcQdWBqt14).
Naquele sábado mesmo, 70 mil pessoas assistiram ao filme (entre os quais provavelmente muitos judeus que não respeitaram o shabas), durante o fim de semana os números alcançaram a casa dos milhões. A caixa de correio eletrônico do Rabino ficou abarrotada de mensagens e ele passou a receber mensagens de todas as partes dos EUA. Tornou-se uma celebridade.
Uma das pessoas que lhe telefonou foi Ari Fleischer, que fora assessor de imprensa do ex-presidente Bush.
- O que eu faço? - Perguntou o Rabino ao experiente homem de imprensa.
- Encontre uma mensagem e aproveite o momento para transmiti-la, se você não o fizer, a imprensa vai fazer isso no seu lugar.
Mas que mensagem poderia ser? Pensou em pedir conselhos. Mas a quem? O seu filho lhe disse que depois da divulgação do vídeo qualquer pessoa do mundo, líder religioso, político ou artista, atenderia a uma ligação dele. Decidiu ligar para Elie Wiesel celebre escritor judeu, sobrevivente de Auschwitz e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1986. Mas como conseguir o nome do senhor Wiesel? Em trinta segundos, o filho do rabino encontrou o número e o pôs na linha com o pai. Wiesel o aconselhou a procurar um rabino! E David Nesenoff aceitou o conselho.
Tenho que confessar que me distraí por um momento e não ouvi direito o nome do Rabino com quem ele Nesenoff conversou, mas a orientação que recebeu dele foi a seguinte, feita na forma de perguntas, como os rabinos gostam de fazer:
- Se v. deixa de ver um amigo por um ano, ele deixa de ser seu amigo?
- Não.
- E se for por 40 anos?
- Provavelmente não.
- E se fosse seu filho, que por alguma razão v. não visse por 40 ou 50 anos, ele deixaria de ser seu filho?
- Claro que não!
- Nós não somos amigos de Israel, somos b'nei Israel, filhos de Israel!
Nesenof encontrou sua mensagem.
Alguns dias depois deu uma entrevista para a CNN, na qual respondeu o que, para ele, representava aquele episódio.
- O lar de todo judeu é Israel, nós somos filhos de Israel e nunca deixaremos de ser, porque esse vínculo não se deve à ONU, à declaração Balfour ou à vitória na guerra em 1948, a ligação entre Israel e o povo judeu é como um casamento indissolúvel oficiado por D'us.
- E sobre o antissemitismo, como desmascarar um antissemita?
- Sendo judeu, praticando o judaísmo, não simplesmente se sentindo judeu, mas praticando o judaísmo.
A pergunta sobre a flotilha turca foi a última de Helen Thomas na Casa Branca.
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PS Este texto está sendo postado sem revisão pelo adiantado da hora.
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