quinta-feira, 1 de maio de 2014

Continuação. 84 de n.

BH

Voltando à análise literária das Escrituras, aprendi com o Pe. Arenhoevel que é possível aplicar os métodos de cotejamento e investigação próprios dos textos literários aos relatos bíblicos, abstraindo o conteúdo religioso da matéria estudada.
Esse tipo de abordagem pode seguir três orientações distintas.
A primeira, profundamente religiosa, busca conhecer os fundamentos da própria fé, naturalmente, é a adotada por  Arenhoevel.
Há uma segunda corrente, não-religiosa, estritamente dedicada aos aspectos históricos, literários, filosóficos e sociológicos da Escritura que é tratada com o respeito devido a um dos pilares da cultura ocidental. Como exemplo dessa segunda vertente, recomendo o curso da Profa. Christine Hayes da Universidade de Yale que pode ser assistido no endereço: http://oyc.yale.edu/religious-studies/rlst-145.
Infelizmente, por fim, alguns movimentos ateístas valem-se dos resultados da análise literária para desmerecer e, in extremis, refutar as religiões abrâmicas, ou pelo menos duas delas, pois, falta-lhes coragem para enfrentar o Alcorão e desafiar a ira dos aiatolás.

Segundo Arenhoevel, a moderna crítica literária começou com um médico da corte de um rei da França... Já digo nome dele...
(...)
Ops! Acho que emprestei o livro e não o recebi de volta.
Que seja feito bom uso dele.
Vou ter que puxar pela memória.

Bom...um rei francês que gozava de boa saúde, tinha um médico na sua corte, que, liberado do trabalho, dedicou-se ao estudo da Bíblia nas línguas em que foram originalmente escritas: hebraico, aramaico e grego antigos.

(Devo confessar aqui que invejo a sorte desse doutor).

Ele constatou, então, ainda no Gênesis que o relato bíblico, quando lido no original, refere-se ao Eterno usando vocábulos diferentes, ora E`ohim, ora A’onai, e, algumas vezes, A’onai-E’ohim.
A Cabalah desde muitos séculos antes oferecia explicações para essa diversidade, mas o médico da corte não conhecia a mística judaica. Continuando, então, em seus estudos, ele fez uma descoberta que o deixou impressionado: se, por acaso, saltasse uma parte do texto em que o nome de D`us é grafado da forma X para a próxima passagem em que essa forma volta a aparecer, deixando de lado as passagens intermediárias nas quais o Nome (HaShem) é escrito nas outras formas, surpreendentemente, a história se encaixava com perfeição e continuava como se não houvesse sido interrompida, por outro relato.
Além disso, o mesmo podia ser dito para cada uma das grafias X, Y ou Z.
O pesquisador propôs, então, a seguinte hipótese: os textos bíblicos foram preservados, de início, oralmente e somente começaram a ser compilados na forma escrita com o advento da monarquia davídica por volta do ano 1.000 AEC, quando uma burocracia estável pode dedicar-se à tarefa de consolidá-los na forma que chegou até nós.
Os compiladores – homens piedosos – depararam-se, porém, com dois problemas: em muitos casos havia mais de uma versão para as histórias sagradas, e, de outra parte, havia histórias  que só eram contadas em uma das tradições.
Como organizá-las com coerência? Poderiam descartar uma versão em prol de outra?  Do mesmo modo, se uma narrativa não estivesse confirmada por duas fontes poderia ser deixada para trás?
Quem conhece o espírito judaico sabe que tais alternativas eram impensáveis.
A solução foi mesclar as histórias, por isso algumas delas se repetem e, pelo mesmo motivo, há diferentes nomes para o Eterno, indicando a procedência da fonte.
Essa hipótese é hoje amplamente aceita pelos estudiosos, mesmo os religiosos, mas vista com desconfiança por muitos fiéis, e completamente rejeitada por outros.
Pessoalmente, acredito que vale a pena conhecer a teoria, apesar de eu não saber como integrá-la à ortodoxia religiosa, sem ser forçado, de modo indesejado, a arbitrar a arbitrar entre as passagens que devem ser seguidas literalmente, das que deve ser entendidas como alegoria ou figura de linguagem.
Continuando a história.
A língua e os registros arqueológicos também oferecem pistas sobre o período histórico em que os textos foram consolidados. O Pe. Arenhoevel chega a mencionar uma hipótese de formação da língua hebraica antiga.
Se bem me lembro, os patriarcas falavam o aramaico, a língua franca do mundo semítico que se estendia da Caldéia a Canaã, por isso os compiladores fazem a referência a Labão, irmão de Rebeca, como o arameu.
O hebraico antigo surgiu quando Israel, voltando do Egito, conquistou Canaã (a Terra Prometida por HaShem), o  novo idioma é resultado da mistura das línguas nativas com a língua do conquistador. Foi nessa língua que o texto bíblico foi consolidado.
Com a obliteração do reino do norte, seguida da destruição do reino do sul, e do cativeiro na Babilônia, aconteceu, segundo Arenhoevel, um fenômeno curioso: os judeus cativos adotaram o aramaico como língua do dia a dia e preservaram o hebraico como língua estritamente litúrgica, voltavam assim a falar a língua dos Patriarcas.
O hebraico permaneceu como língua exclusivamente religiosa mesmo depois do fim do cativeiro e da reconstrução do segundo templo em Jerusalém
O aramaico era, portanto, a língua falada pelos judeus da Judéia e da Samaria no início da Era Comum. Era a primeira língua de Jesus de Nazaré.
Por outro lado, as elites locais falavam, além do aramaico, a língua universal do leste do Mediterrâneo desde os tempos de Alexandre da Macedônia: o grego; esse fio o idioma em que foram escritas as Epístolas de Paulo e os Evangelhos cristãos.
Até os dias de hoje, judeus muito ortodoxos se negam a falar hebraico fora das sinagogas e yeshivot (escolas religiosas), continuam falando, conforme sua origiem, o iídiche, o ladino, o inglês, o russo ou o árabe, apesar de o hebraico moderno ter sido escolhido – contra a vontade daqueles hassidim - .a língua oficial do Estado de Israel.

O livro do Pe. Arenhoevel explicava ainda como os textos bíblicos foram organizados, e como deveriam ser lidos com mais proveito. 
Isso foi essencial para mim.

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