terça-feira, 13 de maio de 2014

Continuação. 95 de n.

Toronto, no fim de julho, foi a cidade mais bonita que eu já visitei. Seu lago tranqüilo rebrilhava no sol suave de primavera, não fazia calor, nem frio, nem uma nuvem no céu. Barcos elegantes descansavam no cais ao lado de prédios suntuosos e bonitos, que conviviam harmoniosamente com construções históricas. Cada folha de cada árvore e de cada gramado parecia ter alcançado o ápice da verditude naquela manhã, mas era possível suspeitar que ficariam ainda mais exuberantes, discretamente exuberantes, no dia seguinte. Infelizmente não fiquei para conferir.

É ainda hoje para mim o paradigma de cidade de primeiro mundo. Eu conhecia Londres e Balt-Wash*, depois estive em Nova Iorque e na Filadélfia, nenhuma delas, porém, se mostrou tão reluzente e perfeita como Toronto, como uma irretocável modelo sueca ou norueguesa. Ao menos na primavera...

Montreal é um lugar mais comum, uma greve de lixeiros, devo adiantar, interfere ainda hoje com qualquer avaliação que venha a fazer da cidade. Os gramados não eram tão bem cuidados, as pessoas nas ruas não eram tão elegantes, ao contrário, nunca tinha visto tanta gente com cabelos esquisitos, nem em Londres. Cheguei a comentar com o Dr. A que devia estar acontecendo, além do nosso, outro congresso de desajustados naqueles dias. Pensando bem, os francófonos do Québec cercados de anglo-saxões por todos os lados não tinham como deixar de ser estranhos.
Foi em Montreal, porém, que tive uma experiência muito agradável: eu estudara francês quando ainda estava na UFPE, por dois anos mais ou menos, meu interesse, na época, era conseguir uma bolsa de estudos para um mestrado na França.
A essas alturas, leitor, você já sabe que esse foi mais um projeto fracassado deste pobre cavaleiro de triste figura. O idioma de Molière nunca me foi útil em termos profissionais, pelo menos até, muito tempo depois, eu conhecer a obra do Prof. Michel Villey, e voltar a pensar em mestrado em Paris, mas não nos adiantemos, por enquanto.

- "C’est ça fragile?" – Perguntou o taxista, apontando para a caixa onde estavam os fôlderes e o resto do material que eu iria apresentar no congresso.
- "Non, ce n'est pas fragile, seulement de papiers" - respondi.
- O que ele disse? Perguntou, Dr. A.

Percebi, inesperadamente, que conseguia compreender o que os nativos falavam! Mesmo depois de uns cinco anos sem contato com a língua. Não que fosse necessário, em Montreal todos falam inglês, até por medo, dizem, do francês dos anglófonos, mas essa constatação foi a melhor parte da viagem.

A apresentação do trabalho foi tranquila, tive sorte de não ser estraçalhado, como vi outros participantes serem. Sim, é preciso que se diga: não notei em momento algum o compadrio típico das nossas bandas, por lá vigora uma ética rigorosa que não permite o florescimento de abobrinhas. não chamei muita atenção tampouco...

Uma nota final relativa a compras.

Enquanto Dr. A aproveitou o que sobrava das diárias internacionais para comprar uma porção de equipamentos eletrônicos e roupas nos Malls que visitamos durante a viagem, minha lista de compras era bem diferente. Exceto por uma ou outra lembrancinha, voltei ao Brasil com dois metros de fraldas descartáveis!
Graças a D’us não tive problemas nem com as companhias aéreas, nem com a aduana. Só uns risinhos aqui e acolá. Em 1991, a diferença de preços entre as fraldas canadenses e as nacionais, para não falar na qualidade, era de 16 vezes!


----------

* Conurbação formada por Baltimore e Washington: Balt-Wash.

Nenhum comentário:

Postar um comentário