Uma bela tarde, o Sarah Kubtischek fretou um ônibus e convidou os servidores que quisessem, a assistir nas galerias da câmara dos deputados à sessão na qual seria votado e aprovado o projeto de lei que culminaria com a criação do novo Sarah. Não era obrigatório ir, mas extremamente recomendável perante a direção, que todos aqueles que não estivessem atendendo pacientes naquela tarde, compusessem a claque que deveria pressionar os senhores deputados a votar a favor do projeto,.
S não podia ir porque tinha que ficar com D, eu pessoalmente apesar de achar detestável aquele tipo de cabresto em pleno 1991, aceitei acompanhar a manada porque, em primeiro lugar, ainda estava em estágio probatório e não podia me dar ao luxo de ser demitido do hospital naquele momento, mas igualmente, devo reconhecer, porque queria conhecer o congresso; eu já morava em Brasília há quase dois anos e nunca fora ao parlamento.
Assim que cheguei à galeria, o presidente da casa, Ibsen Pinheiro, do pmdb, chamou para encaminhar o voto de sua bancada o líder do mesmo pmdb, deputado Genebaldo Correa da Bahia, ambos hoje afastados da vida política - não sem motivo - pela máquina de destruir reputações mantida pelo partido dos trabalhadores.
O discurso de Correa foi muito breve, umas poucas palavras, seguidas do bordão: “eu recomendo que vote “sim”, senhor presidente!”. Naquele momento, os deputados do partido, dono da maior bancada da casa, de completamente alheios à discussão, só por um instante, passavam a se interessar em saber como deveriam votar – lembro-me de um, parecido com o Larry de Os três patetas que lia tranquilamente um jornal, quando Ibsen Pinheiro, apelidado de Ibsem Vergonha, pelos humoristas do Casseta & Planeta, anunciou o discurso do líder do pmdb, ele então espichou o pecoço por cima do diário, anuiu com a cabeça e retornou à leitura.
Seguiram-se os encaminhamentos da oposição. A deputada Jandira Feghalli, médica e deputada pelo pc do b do Rio de janeiro, partido, espantem-se, stalisnista, pronunciou um discurso violentíssimo no qual criticou o novo modelo de administração hospitalar. Segundo a deputada, a concepção do novo Sarah era privatista, e por isso prejudicial aos brasileiros humildes e, ainda por cima, gritava, esmurrando a tribuna: “aprovar o projeto, senhor presidente, significa admitir tacitamente que o Estado não é capaz de administrar a saúde pública, em oposição ao que dispõe a Constituição...!!!”.
Ninguém lhe deu bola, a decisão já estava tomada, o projeto foi aprovado por ampla maioria.
Curiosamente, neste 2014, o modelo de administração do Sarah está sendo copiado em todos os hospitais universitários federais por um governo apoiado pelo partido da ainda deputada Feghalli.
O Hospital de Clínicas da UFPR, onde S trabalha, por exemplo, está sendo emparedado com corte de recursos porque a direção da Universidade insiste em não transferir a administração para uma certa "Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares", entidade em tudo e por tudo semelhante à que toca o Sarah desde outubro de 1991.
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