quinta-feira, 22 de maio de 2014

Continuação. 101 de n.

Entre agosto e outubro de 1991, o Doutor Aloisio Campos da Paz operou nos bastidores de Brasília para recuperar o “statu quo” do seu feudo; ele podia ter-se conformado em ser apenas mais um administrador do Sistema Único da Saúde – SUS – submetido às regras do Regime Jurídico Único, Lei de licitações etc, mas isso não atendia a seu engenho político e a suas pretensões nobiliárquicas. Para melhor compreensão do personagem, basta que se diga que uma de suas blagues favoritas era: “estou muito satisfeito de cuidar das pernas do poder”.
Campos chegou ao comando do Sarah Kubitschek no governo do General Figueiredo e, até hojea, conviveu com 7 presidentes da república; não é algo que se possa subestimar e explica, de imediato, porque ele não podia admitir que um modelo mal-ajambrado de saúde pública o retirasse do comando de seu hospital.
Concebida no gabinete do Ministro do Tribunal de Contas Carlos Átila, ex-porta-voz de Figueiredo, a lei no. 8.246, de 1991 pinçou o Sarah Kubtischek* do meio da administração pública e o transformou em uma entidade “sui generis”, semelhante ao SESC ou SENAI.
A estrutura administrativa do novo Sarah se assemelha a de uma S/A: há um conselho de administração que delibera as políticas que nortearão a entidade e designa a diretoria executiva, que efetivamente conduz os negócios do órgão nos moldes de um hospital privado, independente, portanto, das limitações para contratar e demitir típicos do serviço público.
O Dr. Campos era, de novo, o dono do Hospital Sarah Kubitschek.
Por uma questão de justiça, devo registrar aqui que uma das regras de ouro estipuladas, e mantidas, pelo Sarah é a de prestar um atendimento médico gratuito e de qualidade para a população.
Quando contei essa história no Monteiro a meu primo G, que é médico, ele duvidou quando eu disse que nunca tinha notado indícios de corrupção durante o tempo em que permaneci no Sarah e, de fato, apesar dessa objeção, sempre plausível no Brasil, conservo minha impressão de que o ópio do Doutor Campos – e de muitos outros da mesma espécie que habitam o Planalto Central – é o poder. O poder pelo poder.
E o que mudou no Sarah com a nova lei?
Doravante, em vez de receber recursos por meio do Ministério da Saúde, o Sarah teria acesso direto ao Tesouro, por meio de um contrato de gestão e os administraria livremente, como eu disse, para atingir metas estabelecidas pelo poder público.
Em tese, não é uma má ideia.
Veremos, em seguida, como ela foi implementada.

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*Na verdade a Fundação das Pioneiras Sociais, mas para simplificar farei sempre referência ao Hospital que era a joia da coroa da Fundação.

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