Em dezembro de 1994, eu e mais dois colegas do Bacen decidimos estudar para o concurso da Receita Federal. Nossos salários no banco eram ainda muito menores que os dos “sauros”, apesar de fazermos as mesmas coisas, às vezes com mais qualidade. As negociações do sindicato com a direção da autarquia para eliminar o fosso, porém, não avançavam, ao contrário, as propostas que vazavam aumentavam ainda mais distância entre os antigos e os novos.
Decidimos reunir material: apostilas, livros, vídeos, fitas, o que houvesse no mercado; fazer um cronograma de estudos; e criar uma rede de troca de informações.
- O Jornal dos concursos diz que o edital vai sair em Janeiro. – insistia o sempre afobado L.
- Então a prova deve ser em fevereiro. – concluía E calmamente.
E tinha motivos para não se estressar, fora o primeiro colocado no nosso concurso e já havia estudado para aquele concurso anteriormente, pode-se dizer até que ele passara, quer dizer, fizera uma pontuação acima da mínima necessária, mas não o suficiente para ser nomeado Auditor-Fiscal.
Eu estava preocupado.
- Tenho dois problemas: vou ter que começar praticamente do zero e ainda terei que fazer minha mudança agora em dezembro.
Combinamos então começar devagar naquele fim de ano, parar para as festas e começar com carga máxima em janeiro de 1995.
- Se precisar de ajuda para a mudança pode ligar para mim. – prontificou-se L.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Continuação. 150 de n.
A pior coisa que pode acontecer a quem mora em imóvel alugado é o proprietário recusar-se a renovar o contrato de aluguel quando ele chega ao fim.S e eu passamos por isso 3 vezes. A primeira delas 30 meses depois de nossa chegada a Curitiba, àquela altura já estávamos com nossa vida organizada no bairro da Água Verde e precisamos sair correndo à procura de um novo apartamento.
S, meu ex-sócio, com quem mantive um relacionamento cordial mesmo depois do fim do empreendimento, fez a seguinte proposta para nós: substituí-lo como inquilino no apartamento em que morava na Praça Alfredo Andersen no Champagnat, mas estava para receber as chaves de outro apartamento que comprara na planta; a entrega estava prevista para dali a dois meses, o que nos deixava com alguma folga para fazer a mudança. Falamos com o proprietário que concordou em alterar o contrato e dispensar o fiador.
Eu já estava trabalhando no Banco Central, aproveitei para procurar uma escola para D nas imediações do apartamento de S e achei uma muito boa: Roda do Tempo. Sem perder tempo, corri e fiz a matrícula.
O leitor já deve estar adivinhando, o que aconteceu depois...
Não deu certo.
A construtora atrasou a entrega do apartamento de S, ele não pode se mudar e nós ficamos na chuva, metaforicamente falando. A menos de um mês do fim do nosso contrato, em um domingo, fui até uma imobiliária pegar as chaves de um apartamento anunciado no jornal que ficava no Edifício N. Sra. Auxiliadora, na Rua Desembargador Otávio do Amaral.
Era um apartamento menor do que o nosso na Água Verde, mas estava muito bem decorado e conservado: armários em todos os cômodos, pintura nova e a localização era muito mais chic. A primeira impressão foi tão boa que D não queria voltar para o apartamento velho.
O proprietário era funcionário do Banco do Brasil, ele morara ali alguns anos até ter-se mudado para o interior do Paraná.
Apesar de ser um pouco mais caro e menor do que aquele em que estávamos, por conta da Roda do Tempo, fechamos o contrato. Um colega do Banco foi meu fiador, fizemos a mudança perto do natal de 1994. Naquele ano, passamos as festas de fim de ano na casa de M, no bairro das mercês que ficava pertinho de onde nós passamos a morar.
E assim D foi estudar na escola cujo lema era: “Sou da Roda e sou feliz, sou dono do meu nariz”.
domingo, 17 de agosto de 2014
Continuação. 149 de n.
Meu encanto com o Banco Central durou três meses, foi o tempo necessário para que eu conhecesse o estado das coisas na instituição. Em 1994, o Banco estava há 15 anos sem promover concursos e usando artifícios para corrigir o salário dos empregados. O truque era mexer na tabela de cargos e salários de modo a aumentar os valores para quem estava no topo e diminuir na mesma medida na base, de tal modo que o ponto médio permanecesse inalterado – com um detalhe: não havia ninguém na base.
Quando a autarquia finalmente percebeu que precisava reforçar seus quadros, tinha sido criado um fosso salarial a separar antigos e novatos, mais ou menos do mesmo tamanho que o da Receita Federal. Os colegas antigos eram legais e solidários, mas não tinham poder para modificar a situação que dependia de negociações difíceis entre o nosso sindicato e o governo, para piorar as coisas, aquele era um momento de ajuste das contas públicas. De brincadeira, eles nos chamaram de “fraldinhas” enquanto nós os chamávamos de “sauros”, no momento em que escrevo, muitos daqueles fraldinhas já têm mais tempo de Banco que os antigos sauros.
Antes porém de eu decidir voltar a estudar para concursos, o Delegado do Banco Central em Curitiba, Jackson Pitombo, convidou todos os "fraldinhas" para uma conversa em seu gabinete; ele queria saber o que nós estávamos achando da casa, sugestões, críticas, essas coisas. Peguei carona na cola de uma colega, AR*, que ficara lotada em uma área que não era do seu interesse e, com muito tato, para não contrariar os colegas do meu setor, disse que eu também gostaria de mudar, porque, afinal, fizera concurso para o Banco Central para trabalhar em alguma de suas áreas fim e não na manutenção predial, com todo respeito. O Delegado tomou nota de tudo, dali a uma semana eu seria lotado no NUODI.
Não, não é núcleo do ódio, como as más línguas falavam nos corredores, mas Núcleo de Operações Bancárias e da Dívida Pública.
Esse foi o lugar onde passei a maior parte do meu tempo no Banco e posso dizer que fui feliz.
-----------
* AR ela fazia questão de ser chamada pelos dois nomes....
Quando a autarquia finalmente percebeu que precisava reforçar seus quadros, tinha sido criado um fosso salarial a separar antigos e novatos, mais ou menos do mesmo tamanho que o da Receita Federal. Os colegas antigos eram legais e solidários, mas não tinham poder para modificar a situação que dependia de negociações difíceis entre o nosso sindicato e o governo, para piorar as coisas, aquele era um momento de ajuste das contas públicas. De brincadeira, eles nos chamaram de “fraldinhas” enquanto nós os chamávamos de “sauros”, no momento em que escrevo, muitos daqueles fraldinhas já têm mais tempo de Banco que os antigos sauros.
Antes porém de eu decidir voltar a estudar para concursos, o Delegado do Banco Central em Curitiba, Jackson Pitombo, convidou todos os "fraldinhas" para uma conversa em seu gabinete; ele queria saber o que nós estávamos achando da casa, sugestões, críticas, essas coisas. Peguei carona na cola de uma colega, AR*, que ficara lotada em uma área que não era do seu interesse e, com muito tato, para não contrariar os colegas do meu setor, disse que eu também gostaria de mudar, porque, afinal, fizera concurso para o Banco Central para trabalhar em alguma de suas áreas fim e não na manutenção predial, com todo respeito. O Delegado tomou nota de tudo, dali a uma semana eu seria lotado no NUODI.
Não, não é núcleo do ódio, como as más línguas falavam nos corredores, mas Núcleo de Operações Bancárias e da Dívida Pública.
Esse foi o lugar onde passei a maior parte do meu tempo no Banco e posso dizer que fui feliz.
-----------
* AR ela fazia questão de ser chamada pelos dois nomes....
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Continuação. 148 de n.
Não sou socialista e estou preocupado com os avanços da esquerda gramsciana* Brasil, mas fiquei muito triste com a morte de Eduardo Campos. Não o conhecia direito, descobri que era um homem de família e que tinha senso de humor, sinais de integridade e inteligência, qualidades raras em políticos e ausentes nos demais postulantes ao cargo de presidente da república.
Fiquei espantado também com o fato de que, há bem pouco tempo eu escrevi sobre a relação entre a História e a vida da multidão de anônimos, a morte trágica de Eduardo Campos é, claramente, um desses momentos de perplexidade, dor e reflexão. Sela.
O neto de Miguel Arraes tinha a minha idade, como disse, nunca o encontrei pessoalmente, pelo menos não que eu me lembre, talvez tenhamos frequentado os mesmos lugares, afinal nos anos oitenta eu era um ativo militante de esquerda.
Em 1986, participei da campanha de seu avô ao governo do estado de Pernambuco, foi uma luta épica! Duas décadas antes, o ex-governador havia sido apeado do poder pelo movimento militar de 1964; em vez de aderir à nova ordem ou fugir, permaneceu no Palácio do Campo das Princesas onde foi preso e depois exilado para a Argélia. Fazê-lo retornar ao cargo ungido pelo voto era uma questão de honra para os homens de boa vontade, pelo menos era assim que eu pensava e penso ainda hoje.
Simbolicamente, seu adversário era um usineiro, José Múcio Monteiro**, o que tornava a vitória de Arraes, mais necessária e por isso mesmo mais histórica.
As primeiras pesquisas de opinião indicavam um embate difícil, como era costumeiro em Pernambuco. Arraes ganhava no Recife e na Zona da Mata, Múcio, no Agreste e no Sertão. Faltava pouco mais de um ano para eu me formar em Engenharia e a UFPE era uma arena de lutas, debatia ferozmente contra quem quer que anunciasse o voto no usineiro.
Um belo dia, perdi aula para, junto com A, um colega de curso, fazer “porta-a-porta” na região metropolitana. No horário combinado, um ônibus foi colocado à disposição dos militantes, que recebiam adesivos e santinhos, eram levados até alguma localidade próxima do Recife – no nosso caso Moreno – e faziam campanha em cada casa, porta por porta. O trabalho não foi difícil, a maior parte das pessoas, de imediato, declarava o voto em Arraes e permitia que nós pregássemos os adesivos ou estendêssemos as faixas com os dizeres: “Ele está voltando”.
Alguns poucos as recusavam. Exaltado, contrariando as instruções que tinha sido dadas no ônibus, eu quase discuti com uma eleitora do candidato adversário...
Não ganhei um centavo pelo meu empenho, nem um sanduíche, tudo que fiz foi por convicção, fiz Política, portanto, e fui bem sucedido: Miguel Arraes ganhou aquela eleição com uma folga inédita de 300.000 votos!
Seu segundo governo, porém, foi muito ruim, por muitos fatores que não caberia aqui explicar. Quando me mudei do Recife para Brasília estava muito decepcionado com os resultados de minha ação direta.
Não sei se votaria em Eduardo Campos, não tenho a mínima simpatia pelo autoritarismo verde da candidata a vice-presidente de sua chapa e provável substituta, mas lastimo sinceramente a morte do politico e do pai de família. Eduardo Campos tinha a minha idade.
-/-
*Relativo a António Gramsci, político e escritor comunista italiano que, depois de ver fracassar uma tentativa de tomar o poder pelo PCI e de ter sido preso pelo regime de Benito Mussolini, pôs-se a especular sobre o porquê de a revolução ter sido bem sucedida na Rússia czarista e fracassado na Itália. Em uma brevíssima síntese chegou a seguinte conclusão: a sociedade russa era uma sociedade fechada, na qual havia apenas uma fonte de poder – o Kremlin – que, uma vez conquistado pelos revolucionários em uma guerra de movimento, deixava o país à mercê dos vitoriosos. A Itália – e as outras democracias ocidentais – eram sociedades abertas, em que há diversas fontes de poder: o estado, a Igreja, a imprensa etc. Para empalmar o poder nessas circunstâncias, entende Gramsci, é preciso empreender uma guerra de posições, na qual postos chaves precisam ser ocupados paulatinamente e usados para modificar as crenças mais arraigadas da sociedade, até que, no fim das contas, todos passem a se agir e pensar do modo determinado pelo partido revolucionário que, assim, colherá a vitória sem fazer nenhum esforço.
** José Múcio Monteiro bem mais tarde aderiu ao PT, foi ministro do governo Lula da Silva e indicado pelo ex-presidente para o Tribunal de Contas da União, onde se empenha, no momento, para acobertar escândalos envolvendo a Petrobrás e a direção do partido do governo. Apesar de tudo, votei certo em 1986.
Fiquei espantado também com o fato de que, há bem pouco tempo eu escrevi sobre a relação entre a História e a vida da multidão de anônimos, a morte trágica de Eduardo Campos é, claramente, um desses momentos de perplexidade, dor e reflexão. Sela.
O neto de Miguel Arraes tinha a minha idade, como disse, nunca o encontrei pessoalmente, pelo menos não que eu me lembre, talvez tenhamos frequentado os mesmos lugares, afinal nos anos oitenta eu era um ativo militante de esquerda.
Em 1986, participei da campanha de seu avô ao governo do estado de Pernambuco, foi uma luta épica! Duas décadas antes, o ex-governador havia sido apeado do poder pelo movimento militar de 1964; em vez de aderir à nova ordem ou fugir, permaneceu no Palácio do Campo das Princesas onde foi preso e depois exilado para a Argélia. Fazê-lo retornar ao cargo ungido pelo voto era uma questão de honra para os homens de boa vontade, pelo menos era assim que eu pensava e penso ainda hoje.
Simbolicamente, seu adversário era um usineiro, José Múcio Monteiro**, o que tornava a vitória de Arraes, mais necessária e por isso mesmo mais histórica.
As primeiras pesquisas de opinião indicavam um embate difícil, como era costumeiro em Pernambuco. Arraes ganhava no Recife e na Zona da Mata, Múcio, no Agreste e no Sertão. Faltava pouco mais de um ano para eu me formar em Engenharia e a UFPE era uma arena de lutas, debatia ferozmente contra quem quer que anunciasse o voto no usineiro.
Um belo dia, perdi aula para, junto com A, um colega de curso, fazer “porta-a-porta” na região metropolitana. No horário combinado, um ônibus foi colocado à disposição dos militantes, que recebiam adesivos e santinhos, eram levados até alguma localidade próxima do Recife – no nosso caso Moreno – e faziam campanha em cada casa, porta por porta. O trabalho não foi difícil, a maior parte das pessoas, de imediato, declarava o voto em Arraes e permitia que nós pregássemos os adesivos ou estendêssemos as faixas com os dizeres: “Ele está voltando”.
Alguns poucos as recusavam. Exaltado, contrariando as instruções que tinha sido dadas no ônibus, eu quase discuti com uma eleitora do candidato adversário...
Não ganhei um centavo pelo meu empenho, nem um sanduíche, tudo que fiz foi por convicção, fiz Política, portanto, e fui bem sucedido: Miguel Arraes ganhou aquela eleição com uma folga inédita de 300.000 votos!
Seu segundo governo, porém, foi muito ruim, por muitos fatores que não caberia aqui explicar. Quando me mudei do Recife para Brasília estava muito decepcionado com os resultados de minha ação direta.
Não sei se votaria em Eduardo Campos, não tenho a mínima simpatia pelo autoritarismo verde da candidata a vice-presidente de sua chapa e provável substituta, mas lastimo sinceramente a morte do politico e do pai de família. Eduardo Campos tinha a minha idade.
-/-
*Relativo a António Gramsci, político e escritor comunista italiano que, depois de ver fracassar uma tentativa de tomar o poder pelo PCI e de ter sido preso pelo regime de Benito Mussolini, pôs-se a especular sobre o porquê de a revolução ter sido bem sucedida na Rússia czarista e fracassado na Itália. Em uma brevíssima síntese chegou a seguinte conclusão: a sociedade russa era uma sociedade fechada, na qual havia apenas uma fonte de poder – o Kremlin – que, uma vez conquistado pelos revolucionários em uma guerra de movimento, deixava o país à mercê dos vitoriosos. A Itália – e as outras democracias ocidentais – eram sociedades abertas, em que há diversas fontes de poder: o estado, a Igreja, a imprensa etc. Para empalmar o poder nessas circunstâncias, entende Gramsci, é preciso empreender uma guerra de posições, na qual postos chaves precisam ser ocupados paulatinamente e usados para modificar as crenças mais arraigadas da sociedade, até que, no fim das contas, todos passem a se agir e pensar do modo determinado pelo partido revolucionário que, assim, colherá a vitória sem fazer nenhum esforço.
** José Múcio Monteiro bem mais tarde aderiu ao PT, foi ministro do governo Lula da Silva e indicado pelo ex-presidente para o Tribunal de Contas da União, onde se empenha, no momento, para acobertar escândalos envolvendo a Petrobrás e a direção do partido do governo. Apesar de tudo, votei certo em 1986.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Continuação. 147 de n.
- Ah! V. é engenheiro? Então acho que ficará mais bem localizado no setor que cuida de manutenção predial...
Foi com essas palavras nada animadoras que comecei a trabalhar no Banco Central do Brasil. Que engenheiro sou eu? Então foi para isso que saí da pesquisa médica no Sarah, para cuidar de lâmpadas queimadas em um edifício velho na Rua Marechal Deodoro? E o salário... Bom, o salário, apesar de todo charme do novo emprego, permaneceu praticamente o mesmo, baixo.
Mas eu era um otimista inveterado, achava que o salário iria subir, afinal o Banco Central era um órgão de elite, acreditava também que o tipo de trabalho no Banco iria, como não?, tornar-se interessante. Logo na primeira semana, conheci um colega de trabalho, L, que tentou me convencer a fazer o já anunciado concurso da Receita Federal, o segundo daquele ano.
Declinei.
– Acho que posso fazer carreira aqui no Bacen – respondi – e não acho que conseguiria me preparar para um concurso tão difícil em tão pouco tempo.
A diferença de salário entre a Receita e o Banco Central era realmente tentadora: 4 para 1; mas eu tinha relaxado depois da prova de maio e, realmente, achava que valia a pena tentar fazer carreira no Banco.
– Quem sabe adiante eu não faço um mestrado em economia?
Na segunda feira depois das provas, L chega ao trabalho todo abatido:
– Que naba!
Aquele concurso, em setembro de 1994, é considerado por muitos o mais difícil de todos os tempos da Receita Federal, tanto assim que sobraram vagas não preenchidas. Vagas essas que seriam dois anos mais tarde oferecidas no meu concurso. Quis o Eterno que eu fosse poupado da decepção de vir a ser reprovado pela segunda vez em um concurso para fiscal.
Conheci também, nesse começo de Banco, um colega, engenheiro veterano, P, que queria ver o mar pegar fogo para comer peixe frito. Ficava o dia inteiro batendo papo, era um desses cariocas que se exilam em Curitiba mas continuam com a alma no calçadão da avenida Atlântica. O papo era legal, mas eu me sentia incomodado por não estar fazendo nada. A verdade é que não havia muito o que fazer por ali. Decepcionante para quem acreditava que iria participar de decisões macroeconômicas que ajudariam a melhorar o país...
Muitos perfeitos idiotas latino-americanos compartilham a crença em manivelas mágicas, operadas por agentes públicos. O Banco Central é a sala de controle, uma delas, onde estão os manches das taxas de juros, das taxas de câmbio, etc. Colocá-las nas posições corretas produziriam crescimento econômico e justiça social, essas palavras encantadas.
Foi com essas palavras nada animadoras que comecei a trabalhar no Banco Central do Brasil. Que engenheiro sou eu? Então foi para isso que saí da pesquisa médica no Sarah, para cuidar de lâmpadas queimadas em um edifício velho na Rua Marechal Deodoro? E o salário... Bom, o salário, apesar de todo charme do novo emprego, permaneceu praticamente o mesmo, baixo.
Mas eu era um otimista inveterado, achava que o salário iria subir, afinal o Banco Central era um órgão de elite, acreditava também que o tipo de trabalho no Banco iria, como não?, tornar-se interessante. Logo na primeira semana, conheci um colega de trabalho, L, que tentou me convencer a fazer o já anunciado concurso da Receita Federal, o segundo daquele ano.
Declinei.
– Acho que posso fazer carreira aqui no Bacen – respondi – e não acho que conseguiria me preparar para um concurso tão difícil em tão pouco tempo.
A diferença de salário entre a Receita e o Banco Central era realmente tentadora: 4 para 1; mas eu tinha relaxado depois da prova de maio e, realmente, achava que valia a pena tentar fazer carreira no Banco.
– Quem sabe adiante eu não faço um mestrado em economia?
Na segunda feira depois das provas, L chega ao trabalho todo abatido:
– Que naba!
Aquele concurso, em setembro de 1994, é considerado por muitos o mais difícil de todos os tempos da Receita Federal, tanto assim que sobraram vagas não preenchidas. Vagas essas que seriam dois anos mais tarde oferecidas no meu concurso. Quis o Eterno que eu fosse poupado da decepção de vir a ser reprovado pela segunda vez em um concurso para fiscal.
Conheci também, nesse começo de Banco, um colega, engenheiro veterano, P, que queria ver o mar pegar fogo para comer peixe frito. Ficava o dia inteiro batendo papo, era um desses cariocas que se exilam em Curitiba mas continuam com a alma no calçadão da avenida Atlântica. O papo era legal, mas eu me sentia incomodado por não estar fazendo nada. A verdade é que não havia muito o que fazer por ali. Decepcionante para quem acreditava que iria participar de decisões macroeconômicas que ajudariam a melhorar o país...
Muitos perfeitos idiotas latino-americanos compartilham a crença em manivelas mágicas, operadas por agentes públicos. O Banco Central é a sala de controle, uma delas, onde estão os manches das taxas de juros, das taxas de câmbio, etc. Colocá-las nas posições corretas produziriam crescimento econômico e justiça social, essas palavras encantadas.
sábado, 9 de agosto de 2014
Continuação. 146 de n.
Depois de anotar as respostas, corri para uma lanchonete no shopping Itália que fica na outra esquina e avidamente comecei a conferir o resultado matéria por matéria. Acertei aproximadamente 71% das questões, nada mal para um mês de estudo, mas...seria suficiente para passar?
Sendo um nerd em estado de completa ansiedade, pus-me a fazer simulações estatísticas sobre quais teriam sido os possíveis resultados de meus concorrentes. Devo dizer que repeti esse comportamento muitas vezes no futuro.
Terminei de tomar meu guaraná e fui para casa para contar a S como tinha ido, na época não tínhamos celular. Ficamos, então, esperando a publicação do resultado, durante as próximas semanas voltei a incomodar regularmente com a minha futura do RH.
Passei em 5º lugar! Na minha frente ficaram dois concurseiros experientes, um doutor e um mestre em Economia. Fiquei muito feliz. Saímos para jantar como sempre fazemos em circunstâncias assim. B’H.
No HC minha posição era difícil, cada dia eu tinha menos o que fazer e estava sendo visto com desdém pelos colegas, em particular por um rapazinho, C, recém-formado em informática, que gostava de se exibir deixando claro para todos que manjava mais do que eu as últimas novidades tecnológicas. E era verdade, eu sentia cada vez menos atração pelo lufa-lufa do desenvolvimento de máquinas e aplicativos e queria, na mesma proporção, tornar-me mero cliente e dedicar-me a estudar coisas mais perenes. Depois que saiu o resultado, quando falei que ia sair do HC, o meu concorrente pode relaxar, agora ele ficava com o prêmio, espero que tenha feito bom proveito...
Sendo um nerd em estado de completa ansiedade, pus-me a fazer simulações estatísticas sobre quais teriam sido os possíveis resultados de meus concorrentes. Devo dizer que repeti esse comportamento muitas vezes no futuro.
Terminei de tomar meu guaraná e fui para casa para contar a S como tinha ido, na época não tínhamos celular. Ficamos, então, esperando a publicação do resultado, durante as próximas semanas voltei a incomodar regularmente com a minha futura do RH.
Passei em 5º lugar! Na minha frente ficaram dois concurseiros experientes, um doutor e um mestre em Economia. Fiquei muito feliz. Saímos para jantar como sempre fazemos em circunstâncias assim. B’H.
No HC minha posição era difícil, cada dia eu tinha menos o que fazer e estava sendo visto com desdém pelos colegas, em particular por um rapazinho, C, recém-formado em informática, que gostava de se exibir deixando claro para todos que manjava mais do que eu as últimas novidades tecnológicas. E era verdade, eu sentia cada vez menos atração pelo lufa-lufa do desenvolvimento de máquinas e aplicativos e queria, na mesma proporção, tornar-me mero cliente e dedicar-me a estudar coisas mais perenes. Depois que saiu o resultado, quando falei que ia sair do HC, o meu concorrente pode relaxar, agora ele ficava com o prêmio, espero que tenha feito bom proveito...
Continuação. 145 de n.
Liguei mais de uma vez para o Banco Central aqui em Curitiba para saber quando sairia o gabarito das provas ou o resultado do concurso; incomodei muitas vezes minha futura colega de RH, mais de uma vez por semana.
Um dia ele me disse: "amanhã o gabarito será afixado na entrado do Banco às 13h00".
Mal consegui almoçar naquele dia. Como se diz aqui no Paraná, parecia que ia dar meia-noite, e não dava uma da tarde. Com um atraso de alguns minutos em relação ao horário marcado, meus futuros colegas de BACEN penduraram com durex o tão esperado gabarito na vidraça que ficava na entrada do prédio da Rua Mal. Deodoro. Uma dezena de ansiosos se acotovelava na frente da fachada tentando copiar o resultado. Alguém, então, avisou que, no saguão do prédio, havia cópias do caderno de perguntas à disposição dos interessados.
Corri lá para pegar um, É mais fácil conferir o resultado com o caderno de respostas na mão, até porque, naquele concurso, não tinha sido permitido ficar com as perguntas e leva-las para casa depois do exame.
Quando voltei à vitrina para terminar de anotar as respostas do gabarito, uma moça que provavelmente não ouvira o aviso, me viu e com uma cara de desconfiança mortal e perguntou: “Onde v. conseguiu isso?!?” Implícita em seu tom de voz e expressão facial estava a acusação: “Teve xunxo* nesse concurso, como é que essa cara está com o caderno de respostas se era proibido sair com ele da prova?!?” Seu semblante somente desanuviou quando apontei com o queixo – pois estava com as duas mãos ocupadas – o lugar onde pegara a cópia das questões.
Esse é um traço triste do Brasil, um pais onde, não sem razão, há um clima de desconfiança permanente no ar. Acho que tem a ver com o fato de a malandragem ser socialmente aceita e até mesmo respeitada. Muitas vezes na vida, me deparei com olhares maliciosos como o daquela moça, ora insinuando satisfeitos terem auferido alguma vantagem graças à esperteza, ora, ao contraio, acusando o interlocutor de tê-lo feito. Somos maliciosos. Somos não, porque, no que me diz respeito, sou um crédulo contumaz, que se disfarça de esperto para não passar vergonha, mas devo dizer que isso não costuma funcionar, os malandros têm um sexto sentido que lhes permite identificar o otário e passar-lhe a perna.
Há um ditado carioca que reza: “É moralmente errado deixar o otário com o próprio dinheiro”. S não gosta quando eu faço essa piada, mas a verdade é que o carioca típico tem mais medo de ser chamado de otário, do que de fdp.
A propósito, a moça desconfiada não passou no concurso...
---
* Gíria paranaense que significa tramoia, trapaça, velhacaria,
Um dia ele me disse: "amanhã o gabarito será afixado na entrado do Banco às 13h00".
Mal consegui almoçar naquele dia. Como se diz aqui no Paraná, parecia que ia dar meia-noite, e não dava uma da tarde. Com um atraso de alguns minutos em relação ao horário marcado, meus futuros colegas de BACEN penduraram com durex o tão esperado gabarito na vidraça que ficava na entrada do prédio da Rua Mal. Deodoro. Uma dezena de ansiosos se acotovelava na frente da fachada tentando copiar o resultado. Alguém, então, avisou que, no saguão do prédio, havia cópias do caderno de perguntas à disposição dos interessados.
Corri lá para pegar um, É mais fácil conferir o resultado com o caderno de respostas na mão, até porque, naquele concurso, não tinha sido permitido ficar com as perguntas e leva-las para casa depois do exame.
Quando voltei à vitrina para terminar de anotar as respostas do gabarito, uma moça que provavelmente não ouvira o aviso, me viu e com uma cara de desconfiança mortal e perguntou: “Onde v. conseguiu isso?!?” Implícita em seu tom de voz e expressão facial estava a acusação: “Teve xunxo* nesse concurso, como é que essa cara está com o caderno de respostas se era proibido sair com ele da prova?!?” Seu semblante somente desanuviou quando apontei com o queixo – pois estava com as duas mãos ocupadas – o lugar onde pegara a cópia das questões.
Esse é um traço triste do Brasil, um pais onde, não sem razão, há um clima de desconfiança permanente no ar. Acho que tem a ver com o fato de a malandragem ser socialmente aceita e até mesmo respeitada. Muitas vezes na vida, me deparei com olhares maliciosos como o daquela moça, ora insinuando satisfeitos terem auferido alguma vantagem graças à esperteza, ora, ao contraio, acusando o interlocutor de tê-lo feito. Somos maliciosos. Somos não, porque, no que me diz respeito, sou um crédulo contumaz, que se disfarça de esperto para não passar vergonha, mas devo dizer que isso não costuma funcionar, os malandros têm um sexto sentido que lhes permite identificar o otário e passar-lhe a perna.
Há um ditado carioca que reza: “É moralmente errado deixar o otário com o próprio dinheiro”. S não gosta quando eu faço essa piada, mas a verdade é que o carioca típico tem mais medo de ser chamado de otário, do que de fdp.
A propósito, a moça desconfiada não passou no concurso...
---
* Gíria paranaense que significa tramoia, trapaça, velhacaria,
Continuação. 144 de n.
“Onde você estava quando...?” Essa é a deixa para cada um de nós refletir sobre sua conexão com a História. O evento pode até nem ser tão importante assim, quer dizer, não vir a ter, no futuro, a dimensão histórica que os contemporâneos lhe atribuem e varia de lugar para lugar e de geração para geração.
“Onde você estava quando Neil Armstrong e Buzz (Lightyear) Aldrin pisaran na lua?”
“Onde você estava JFK foi assassinado?”
"Onde você estava no 11 de setembro?"
“Onde v. estava quando o muro de Berlim caiu?”
Para os católicos, cada sucessão papal é per se um divisor de águas. Às vezes, súbito como foi o caso do brevíssimo João Paulo I, às vezes leva um quarto de século como foi o caso do longo reinado de seu sucessor. Bento XVI surpreendeu o mundo e não menos espantosa foi a eleição do cardeal argentino Jorge Bergoglio.
No Brasil, a geração de minha mãe ficou chocada com o suicídio de Getúlio de Vargas. Na minha primeira juventude, os eventos mais lamentados foram a rejeição da emenda Dante de Oliveira que restabelecia as eleições diretas para presidente da república nos estertores do regime militar, seguido pela morte do presidente eleito Tancredo Neves alguns dias antes da posse.
Lembro de acompanhar a cerimônia fúnebre pela televisão e de ficar espantado com um jovem soldado trajado com o uniforme de gala dos dragões da independência que chorava convulsivamente durante o cortejo.
“Por quê?”, pensei.
Tancredo, político de gabinete, avô do candidato tucano na eleição deste ano, nunca foi um político carismático e popular, seu principal talento sempre foi o de articular alianças, que, afinal, lhe renderam a presidência arrancada pela foice do destino.
“Por que chorava o soldado?” Lembrando, agora, acho que sei a resposta: aquele soldado era maranhense e conhecia melhor do que todos o sucessor de Tancredo.
Outro fato marcante para minha geração, foi a morte do piloto Ayrton Senna na corrida de Ímola em 01/05/1994. Eu gosto de fórmula 1, mas detesto a idolatria, ainda mais quando o sucesso do ídolo se deve a fatores conjunturais evidentes que os fãs, hipnotizados, não conseguem discernir. Nas corridas de automóveis, as vitórias, que “traziam alegrias às manhãs de domingo”, dependiam muito mais do carro do que do condutor; os verdadeiros heróis eram (e continuam sendo) os engenheiros e os mecânicos.
Provavelmente, um “nerd” gordo e estrábico, ao inventar um parafuso mais leve, pode ter sido mais decisivo para as equipes do que os glamourosos homens de macacão. Para mim, isso é cristalino, basta ver o que aconteceu recentemente quando um bom piloto, com um carro excepcional, sagrou-se tetracampeão, apesar do unânime reconhecimento de que o melhor volante nas pistas na última década estava nas mãos de Fernando Alonso.
Mas me desviei do assunto.
Onde eu estava no dia 01/05/1994, quase vinte anos atrás?
Voltando de ônibus de uma aula no cursinho Diapar, onde eu me preparava para o concurso do Banco Central.
Naquele domingo, eu resolvera ir de ônibus até o Centro para ver se valia a pena deixar o carro na garagem em um dia de pouco movimento. A aula, se não me engano, foi de Direito Comercial, com o prof. Leal, um curitibano “bon vivant” apaixonado pelo Rio de Janeiro. Quando peguei o ônibus de volta, a consternação estava estampada na cara das pessoas, alguns cochichavam, outros olhavam perdidos para o horizonte. Perguntei a um passageiro: “o que aconteceu?”
Assim que cheguei em casa, liguei a televisão, S não gosta de corridas, Senna já tinha sido levado para o hospital, a morte ainda não tinha sido confirmada.
Fiquei triste com a morte do jovem piloto, mas não mortificado. Nos dias seguintes, enquanto cenas de dor e fr desespero popular eram exibidas o tempo todo na televisão, nos jornais e nas revistas, eu iniciei o “sprint” para o meu segundo concurso jurídico-econômico.
domingo, 3 de agosto de 2014
Continuação. 143 de n.
Nesses dias sagrentos é difícil falar sobre a Guerra entre Israel e o Hamas sem ferir suscetibilidades ou parecer preconceituoso, qualquer que seja a causa que se defenda.
No Brasil, por ignorância genuína ou antissemitismo envergonhado, o mais fácil é dizer-se indiferente aos lados e manifestar preocupação apenas com os pobres civis mortos, tantas crianças, mas sempre concluindo com o chavão tão solene, quanto vazio de sentido: “Israel usa de força desproporcional”.
Quando se retorque perguntando o que seria, então, “proporcional”, o que recebe em troca é um balançar de cabeça desarticulado, um honesto “não sei” ou, o que é mais frequente, o silêncio.
Mesmo que discute de modo articulado a favor dos palestinos, sempre salta o fato incontornável de que o Hamas é um agrupamento terrorista, de fanáticos que mentalmente vivem nos tempos de Maomé e que sonham com a restauração do califado da Andaluzia à Índia.
De outro lado, da parte que eu julgo moralmente superior no conflito, deixo isso claro desde já, não consegui uma explicação convincente, até hoje, de como seria possível construir, antes da chegada do Messias, um estado que fosse, ao mesmo tempo, único – nas terras que a Judéia e a Galileia -, judaico e democrático. Só há lugar para duas de três alternativas.
No que diz respeito ao Brasil, preocupo-me com o que diz o Gênese 12-3.
No Brasil, por ignorância genuína ou antissemitismo envergonhado, o mais fácil é dizer-se indiferente aos lados e manifestar preocupação apenas com os pobres civis mortos, tantas crianças, mas sempre concluindo com o chavão tão solene, quanto vazio de sentido: “Israel usa de força desproporcional”.
Quando se retorque perguntando o que seria, então, “proporcional”, o que recebe em troca é um balançar de cabeça desarticulado, um honesto “não sei” ou, o que é mais frequente, o silêncio.
Mesmo que discute de modo articulado a favor dos palestinos, sempre salta o fato incontornável de que o Hamas é um agrupamento terrorista, de fanáticos que mentalmente vivem nos tempos de Maomé e que sonham com a restauração do califado da Andaluzia à Índia.
De outro lado, da parte que eu julgo moralmente superior no conflito, deixo isso claro desde já, não consegui uma explicação convincente, até hoje, de como seria possível construir, antes da chegada do Messias, um estado que fosse, ao mesmo tempo, único – nas terras que a Judéia e a Galileia -, judaico e democrático. Só há lugar para duas de três alternativas.
No que diz respeito ao Brasil, preocupo-me com o que diz o Gênese 12-3.
Continuação. 142 de n.
Comprei o JC, Jornal dos Concursos, fui direto à matéria que orientava como fazer a inscrição para o BACEN, para minha surpresa, o salário inicial era aproximadamente o mesmo que eu recebia como engenheiro do Hospital de Clínicas.
Otimista, como os sapos costumam ser, eu pensava: “esse é só o inicial, deve estar defasado e deve subir mais rapidamente que o das multidão de servidores dos quadros técnicos da União”, S concordou comigo.
Na mesma adição do jornal, havia um reclame...
Propaganda, anúncio, “ad”, tá bom?
De um cursinho preparatório para aquele concurso específico. Cursinho você sabe o que é, não sabe?
Ok.
Agora, eu preciso fazer um esclarecimento, ao contrário do Rio de Janeiro, não havia em Curitiba naquela época bons cursinhos e o único que havia se especializara em preparar os candidatos para o concurso da Receita. Desdenhava-se o Banco Central porque a diferença de salário entre os dois órgão do Ministério da Fazenda era muito grande: 1 para 4, a favor do fisco.
Não tinha importância, para quem estava começando como eu era até bom tentar a sorte em um concurso menos concorrido, decidimos, S e eu, que valia a penar ver como funcionava aquilo.
Fiz a matrícula, a secretária que me atendeu, lembro até hoje, tinha um ar enfastiado que parecia dizer: “V. acha mesmo que vai passar?”. Se fosse hoje (2014) seria o compadre Washington dizendo: “sabe de nada, inocente”...
As aulas eram à noite, de segunda a sexta, aos sábados, pela manhã e tarde, e nos domingos pela manhã. A razão de tanta pressa é que o concurso seria dali a um mês e pouco, em meados de maio.
Na época, S atendia pacientes em um consultório e não tínhamos com quem deixar D. Para complicar as coisas, ela não dirigia, então o pimpolho ia comigo para o curso, com um touca verde, e ficava desenhando, muito bem–comportado.
Foi ali, no Diapar, que não existe mais, que tive minhas primeiras aulas de direito, nas quais aprendi que dolo, se lê com a vogal aberta, como em Pernambuco, dólo e nunca dôlo...
Otimista, como os sapos costumam ser, eu pensava: “esse é só o inicial, deve estar defasado e deve subir mais rapidamente que o das multidão de servidores dos quadros técnicos da União”, S concordou comigo.
Na mesma adição do jornal, havia um reclame...
Propaganda, anúncio, “ad”, tá bom?
De um cursinho preparatório para aquele concurso específico. Cursinho você sabe o que é, não sabe?
Ok.
Agora, eu preciso fazer um esclarecimento, ao contrário do Rio de Janeiro, não havia em Curitiba naquela época bons cursinhos e o único que havia se especializara em preparar os candidatos para o concurso da Receita. Desdenhava-se o Banco Central porque a diferença de salário entre os dois órgão do Ministério da Fazenda era muito grande: 1 para 4, a favor do fisco.
Não tinha importância, para quem estava começando como eu era até bom tentar a sorte em um concurso menos concorrido, decidimos, S e eu, que valia a penar ver como funcionava aquilo.
Fiz a matrícula, a secretária que me atendeu, lembro até hoje, tinha um ar enfastiado que parecia dizer: “V. acha mesmo que vai passar?”. Se fosse hoje (2014) seria o compadre Washington dizendo: “sabe de nada, inocente”...
As aulas eram à noite, de segunda a sexta, aos sábados, pela manhã e tarde, e nos domingos pela manhã. A razão de tanta pressa é que o concurso seria dali a um mês e pouco, em meados de maio.
Na época, S atendia pacientes em um consultório e não tínhamos com quem deixar D. Para complicar as coisas, ela não dirigia, então o pimpolho ia comigo para o curso, com um touca verde, e ficava desenhando, muito bem–comportado.
Foi ali, no Diapar, que não existe mais, que tive minhas primeiras aulas de direito, nas quais aprendi que dolo, se lê com a vogal aberta, como em Pernambuco, dólo e nunca dôlo...
Continuação. 141 de n.
A banca de revistas hoje está meio abandonada, acho que ninguém mais lê tanta revista, as que restam se converteram em pontos de venda de balas, chicletes e chocolates baratos e cigarros, algumas das drogas lícitas desse começo de século XXI.
Continuação. 140 de n.
Uma semana ou duas depois da prova da Receita Federal, fui até o banco pegar um talão de cheques.
O que é um cheque?!?
Bom, cheque era um título de crédito muito usado no século XX, que permitia fazer compras sem usar dinheiro em papel. Isso!, Sem precisar daquelas notas de dinheiro que alguns velhos insistem em carregar ainda hoje para fazer seus pagamentos.
E pensar que o dinheiro já foi símbolo da nacionalidade... Na Europa os franceses se orgulhavam do “Franc”, assim como os alemães do “Deutschmark”... Possuir uma moeda forte era sinônimo de contar com uma entidade forte o bastante para emiti-la e, por extensão, com um estado nacional, algo a que se dava muita importância entre os séculos XVI e XX. Era tão importante quanto a bandeira ou o hino nacional.
Não, não se escreve com xis, xeque com ‘x’ é um título dado a alguns líderes árabes, acho que é algo como “dom” em Portugal ou “sir” na Inglaterra, mas não tenho certeza. Xeque, com xis é também o nome dado ao lance decisivo no xadrez, quando um dos jogadores ataca o rei do adversário. Xadrez era um jogo...deixa prá lá!
Voltando ao começo, eu precisava de cheques para pagar as compras no supermercado ou para comprar, em algumas lojas, produtos de valores mais elevados. Para outras despesas era preciso usar dinheiro mesmo, por exemplo, para pagar o salário da empregada ou uma corrida de táxi. Ainda hoje é assim...
Só para lembrar, eu estava em abril de 1994, alguns meses antes de ser lançado o Plano Real que finalmente debelou a hiperinflação que assolava Brasil havia duas décadas, não por acaso, chamadas de “perdidas”. Qualquer compra semanal em um supermercado custava naquele tempo centenas de milhares de...de...qual era mesmo a moeda da época?
Não importa, o que interessa é que estava indo para a Caixa Econômica – onde sua bisavó Z trabalhou por muitos anos, até se aposentar – pegar um talão de cheques. Talão era um caderninho com dez ou vinte folhas de cheques em branco, que o correntista preenchia dizendo ao banco o quanto devia pagar ao portador, tecnicamente é o que se chama de odem de pagamento à vista, apesar de no Brasil termos inventado o "cheque predatado", mas voltemos ao ponto.Quando atravessei a rua General Carneiro, onde fica o Hospital de Clínicas, vi em uma banca de revistas uma manchete na qual se lia:
BANCO CENTRAL – INSCRIÇÕES ABERTAS.
Em um país que sofrera sucessivas catástrofes econômicas, o Banco Central era um órgão público de elite, que vivia o tempo todo nos noticiários, parecia uma cabine de comando que podia controlar o país inteiro, e, de fato, essa era - e talvez ainda seja - uma de suas pretensões.
Eu já aprendera que hospital é lugar para médicos – e paramédicos – e também que eu não servia para fazer mestrado, nem mesmo de administração, então por que não tentar uma vaga na autoridade monetária?
Esse é o título que o Banco Central gosta de ostentar e que remete aos tempos, no começo da idade moderna, em que os rei absolutistas suprimiram as moedas regionais e locais e obrigaram os súditos a aceitar apenas a moeda que eles próprios imprimiam. Hoje isso parece natural, mas nem sempre foi assim...
Estava prestes a dar meu segundo passo no mundo dos concursos.
O que é um cheque?!?
Bom, cheque era um título de crédito muito usado no século XX, que permitia fazer compras sem usar dinheiro em papel. Isso!, Sem precisar daquelas notas de dinheiro que alguns velhos insistem em carregar ainda hoje para fazer seus pagamentos.
E pensar que o dinheiro já foi símbolo da nacionalidade... Na Europa os franceses se orgulhavam do “Franc”, assim como os alemães do “Deutschmark”... Possuir uma moeda forte era sinônimo de contar com uma entidade forte o bastante para emiti-la e, por extensão, com um estado nacional, algo a que se dava muita importância entre os séculos XVI e XX. Era tão importante quanto a bandeira ou o hino nacional.
Não, não se escreve com xis, xeque com ‘x’ é um título dado a alguns líderes árabes, acho que é algo como “dom” em Portugal ou “sir” na Inglaterra, mas não tenho certeza. Xeque, com xis é também o nome dado ao lance decisivo no xadrez, quando um dos jogadores ataca o rei do adversário. Xadrez era um jogo...deixa prá lá!
Voltando ao começo, eu precisava de cheques para pagar as compras no supermercado ou para comprar, em algumas lojas, produtos de valores mais elevados. Para outras despesas era preciso usar dinheiro mesmo, por exemplo, para pagar o salário da empregada ou uma corrida de táxi. Ainda hoje é assim...
Só para lembrar, eu estava em abril de 1994, alguns meses antes de ser lançado o Plano Real que finalmente debelou a hiperinflação que assolava Brasil havia duas décadas, não por acaso, chamadas de “perdidas”. Qualquer compra semanal em um supermercado custava naquele tempo centenas de milhares de...de...qual era mesmo a moeda da época?
Não importa, o que interessa é que estava indo para a Caixa Econômica – onde sua bisavó Z trabalhou por muitos anos, até se aposentar – pegar um talão de cheques. Talão era um caderninho com dez ou vinte folhas de cheques em branco, que o correntista preenchia dizendo ao banco o quanto devia pagar ao portador, tecnicamente é o que se chama de odem de pagamento à vista, apesar de no Brasil termos inventado o "cheque predatado", mas voltemos ao ponto.Quando atravessei a rua General Carneiro, onde fica o Hospital de Clínicas, vi em uma banca de revistas uma manchete na qual se lia:
BANCO CENTRAL – INSCRIÇÕES ABERTAS.
Em um país que sofrera sucessivas catástrofes econômicas, o Banco Central era um órgão público de elite, que vivia o tempo todo nos noticiários, parecia uma cabine de comando que podia controlar o país inteiro, e, de fato, essa era - e talvez ainda seja - uma de suas pretensões.
Eu já aprendera que hospital é lugar para médicos – e paramédicos – e também que eu não servia para fazer mestrado, nem mesmo de administração, então por que não tentar uma vaga na autoridade monetária?
Esse é o título que o Banco Central gosta de ostentar e que remete aos tempos, no começo da idade moderna, em que os rei absolutistas suprimiram as moedas regionais e locais e obrigaram os súditos a aceitar apenas a moeda que eles próprios imprimiam. Hoje isso parece natural, mas nem sempre foi assim...
Estava prestes a dar meu segundo passo no mundo dos concursos.
Assinar:
Postagens (Atom)




