- Ah! V. é engenheiro? Então acho que ficará mais bem localizado no setor que cuida de manutenção predial...
Foi com essas palavras nada animadoras que comecei a trabalhar no Banco Central do Brasil. Que engenheiro sou eu? Então foi para isso que saí da pesquisa médica no Sarah, para cuidar de lâmpadas queimadas em um edifício velho na Rua Marechal Deodoro? E o salário... Bom, o salário, apesar de todo charme do novo emprego, permaneceu praticamente o mesmo, baixo.
Mas eu era um otimista inveterado, achava que o salário iria subir, afinal o Banco Central era um órgão de elite, acreditava também que o tipo de trabalho no Banco iria, como não?, tornar-se interessante. Logo na primeira semana, conheci um colega de trabalho, L, que tentou me convencer a fazer o já anunciado concurso da Receita Federal, o segundo daquele ano.
Declinei.
– Acho que posso fazer carreira aqui no Bacen – respondi – e não acho que conseguiria me preparar para um concurso tão difícil em tão pouco tempo.
A diferença de salário entre a Receita e o Banco Central era realmente tentadora: 4 para 1; mas eu tinha relaxado depois da prova de maio e, realmente, achava que valia a pena tentar fazer carreira no Banco.
– Quem sabe adiante eu não faço um mestrado em economia?
Na segunda feira depois das provas, L chega ao trabalho todo abatido:
– Que naba!
Aquele concurso, em setembro de 1994, é considerado por muitos o mais difícil de todos os tempos da Receita Federal, tanto assim que sobraram vagas não preenchidas. Vagas essas que seriam dois anos mais tarde oferecidas no meu concurso. Quis o Eterno que eu fosse poupado da decepção de vir a ser reprovado pela segunda vez em um concurso para fiscal.
Conheci também, nesse começo de Banco, um colega, engenheiro veterano, P, que queria ver o mar pegar fogo para comer peixe frito. Ficava o dia inteiro batendo papo, era um desses cariocas que se exilam em Curitiba mas continuam com a alma no calçadão da avenida Atlântica. O papo era legal, mas eu me sentia incomodado por não estar fazendo nada. A verdade é que não havia muito o que fazer por ali. Decepcionante para quem acreditava que iria participar de decisões macroeconômicas que ajudariam a melhorar o país...
Muitos perfeitos idiotas latino-americanos compartilham a crença em manivelas mágicas, operadas por agentes públicos. O Banco Central é a sala de controle, uma delas, onde estão os manches das taxas de juros, das taxas de câmbio, etc. Colocá-las nas posições corretas produziriam crescimento econômico e justiça social, essas palavras encantadas.
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