“Onde você estava quando...?” Essa é a deixa para cada um de nós refletir sobre sua conexão com a História. O evento pode até nem ser tão importante assim, quer dizer, não vir a ter, no futuro, a dimensão histórica que os contemporâneos lhe atribuem e varia de lugar para lugar e de geração para geração.
“Onde você estava quando Neil Armstrong e Buzz (Lightyear) Aldrin pisaran na lua?”
“Onde você estava JFK foi assassinado?”
"Onde você estava no 11 de setembro?"
“Onde v. estava quando o muro de Berlim caiu?”
Para os católicos, cada sucessão papal é per se um divisor de águas. Às vezes, súbito como foi o caso do brevíssimo João Paulo I, às vezes leva um quarto de século como foi o caso do longo reinado de seu sucessor. Bento XVI surpreendeu o mundo e não menos espantosa foi a eleição do cardeal argentino Jorge Bergoglio.
No Brasil, a geração de minha mãe ficou chocada com o suicídio de Getúlio de Vargas. Na minha primeira juventude, os eventos mais lamentados foram a rejeição da emenda Dante de Oliveira que restabelecia as eleições diretas para presidente da república nos estertores do regime militar, seguido pela morte do presidente eleito Tancredo Neves alguns dias antes da posse.
Lembro de acompanhar a cerimônia fúnebre pela televisão e de ficar espantado com um jovem soldado trajado com o uniforme de gala dos dragões da independência que chorava convulsivamente durante o cortejo.
“Por quê?”, pensei.
Tancredo, político de gabinete, avô do candidato tucano na eleição deste ano, nunca foi um político carismático e popular, seu principal talento sempre foi o de articular alianças, que, afinal, lhe renderam a presidência arrancada pela foice do destino.
“Por que chorava o soldado?” Lembrando, agora, acho que sei a resposta: aquele soldado era maranhense e conhecia melhor do que todos o sucessor de Tancredo.
Outro fato marcante para minha geração, foi a morte do piloto Ayrton Senna na corrida de Ímola em 01/05/1994. Eu gosto de fórmula 1, mas detesto a idolatria, ainda mais quando o sucesso do ídolo se deve a fatores conjunturais evidentes que os fãs, hipnotizados, não conseguem discernir. Nas corridas de automóveis, as vitórias, que “traziam alegrias às manhãs de domingo”, dependiam muito mais do carro do que do condutor; os verdadeiros heróis eram (e continuam sendo) os engenheiros e os mecânicos.
Provavelmente, um “nerd” gordo e estrábico, ao inventar um parafuso mais leve, pode ter sido mais decisivo para as equipes do que os glamourosos homens de macacão. Para mim, isso é cristalino, basta ver o que aconteceu recentemente quando um bom piloto, com um carro excepcional, sagrou-se tetracampeão, apesar do unânime reconhecimento de que o melhor volante nas pistas na última década estava nas mãos de Fernando Alonso.
Mas me desviei do assunto.
Onde eu estava no dia 01/05/1994, quase vinte anos atrás?
Voltando de ônibus de uma aula no cursinho Diapar, onde eu me preparava para o concurso do Banco Central.
Naquele domingo, eu resolvera ir de ônibus até o Centro para ver se valia a pena deixar o carro na garagem em um dia de pouco movimento. A aula, se não me engano, foi de Direito Comercial, com o prof. Leal, um curitibano “bon vivant” apaixonado pelo Rio de Janeiro. Quando peguei o ônibus de volta, a consternação estava estampada na cara das pessoas, alguns cochichavam, outros olhavam perdidos para o horizonte. Perguntei a um passageiro: “o que aconteceu?”
Assim que cheguei em casa, liguei a televisão, S não gosta de corridas, Senna já tinha sido levado para o hospital, a morte ainda não tinha sido confirmada.
Fiquei triste com a morte do jovem piloto, mas não mortificado. Nos dias seguintes, enquanto cenas de dor e fr desespero popular eram exibidas o tempo todo na televisão, nos jornais e nas revistas, eu iniciei o “sprint” para o meu segundo concurso jurídico-econômico.
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