sábado, 9 de agosto de 2014

Continuação. 145 de n.

Liguei mais de uma vez para o Banco Central aqui em Curitiba para saber quando sairia o gabarito das provas ou o resultado do concurso; incomodei muitas vezes minha futura colega de RH, mais de uma vez por semana.

Um dia ele me disse: "amanhã o gabarito será afixado na entrado do Banco às 13h00".

 Mal consegui almoçar naquele dia. Como se diz aqui no Paraná, parecia que ia dar meia-noite, e não dava uma da tarde. Com um atraso de alguns minutos em relação ao horário marcado, meus futuros colegas de BACEN penduraram com durex o tão esperado gabarito na vidraça que ficava na entrada do prédio da Rua Mal. Deodoro. Uma dezena de ansiosos se acotovelava na frente da fachada tentando copiar o resultado. Alguém, então, avisou que, no saguão do prédio, havia cópias do caderno de perguntas à disposição dos interessados.

Corri lá para pegar um, É mais fácil conferir o resultado com o caderno de respostas na mão, até porque, naquele concurso, não tinha sido permitido ficar com as perguntas e leva-las para casa depois do exame.

Quando voltei à vitrina para terminar de anotar as respostas do gabarito, uma moça que provavelmente não ouvira o aviso, me viu e com uma cara de desconfiança  mortal e perguntou: “Onde v. conseguiu isso?!?” Implícita em seu tom de voz e expressão facial estava a acusação: “Teve xunxo* nesse concurso, como é que essa cara está com o caderno de respostas se era proibido sair com ele da prova?!?” Seu semblante somente desanuviou quando apontei com o queixo – pois estava com as duas mãos ocupadas – o lugar onde pegara a cópia das questões.

Esse é um traço triste do Brasil, um pais onde, não sem razão, há um clima de desconfiança permanente no ar. Acho que tem a ver com o fato de a malandragem ser socialmente aceita e até mesmo respeitada. Muitas vezes na vida, me deparei com olhares maliciosos como o daquela moça, ora insinuando satisfeitos terem auferido alguma vantagem graças à esperteza, ora, ao contraio, acusando o interlocutor de tê-lo feito. Somos maliciosos. Somos não, porque, no que me diz respeito, sou um crédulo contumaz, que se disfarça de esperto para não passar vergonha, mas devo dizer que isso não costuma funcionar, os malandros têm um sexto sentido que lhes permite identificar o otário e passar-lhe a perna.

Há um ditado carioca que reza: “É moralmente errado deixar o otário com o próprio dinheiro”. S não gosta quando eu faço essa piada, mas a verdade é que o carioca típico tem mais medo de ser chamado de otário, do que de fdp.

A propósito, a moça desconfiada não passou no concurso...

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* Gíria paranaense que significa tramoia, trapaça, velhacaria,

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