quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Continuação. 148 de n.

Não sou socialista e estou preocupado com os avanços da esquerda gramsciana* Brasil,  mas fiquei muito triste com a morte de Eduardo Campos. Não o conhecia direito, descobri que era um homem de família e que tinha senso de humor, sinais de integridade e inteligência, qualidades raras em políticos e ausentes nos demais postulantes ao cargo de presidente da república.

Fiquei espantado também com o fato de que, há  bem pouco tempo eu escrevi sobre a relação entre a História e a vida da multidão de anônimos, a morte trágica de Eduardo Campos é, claramente, um desses momentos de perplexidade, dor e reflexão. Sela.

O neto de Miguel Arraes tinha a minha idade, como disse, nunca o encontrei pessoalmente, pelo menos não que eu me lembre, talvez tenhamos frequentado os mesmos lugares, afinal nos anos oitenta eu era um ativo militante de esquerda.
Em 1986, participei da campanha de seu avô ao governo do estado de Pernambuco, foi uma luta épica! Duas décadas antes, o ex-governador havia sido apeado do poder pelo movimento militar de 1964; em vez de aderir à nova ordem ou fugir, permaneceu no Palácio do Campo das Princesas onde foi preso e depois exilado para a Argélia. Fazê-lo retornar ao cargo ungido pelo voto era uma questão de honra para os homens de boa vontade, pelo menos era assim que eu pensava e penso ainda hoje.
Simbolicamente,  seu adversário era um usineiro, José Múcio Monteiro**, o que tornava a vitória de Arraes, mais necessária e por isso mesmo mais histórica.
As primeiras pesquisas de opinião indicavam um embate difícil, como era costumeiro em Pernambuco. Arraes ganhava no Recife e na Zona da Mata, Múcio, no Agreste e no Sertão. Faltava pouco mais de um ano para eu me formar em Engenharia e a UFPE era uma arena de lutas, debatia ferozmente contra quem quer que anunciasse o voto no usineiro.
Um belo dia, perdi aula para, junto com A, um colega de curso, fazer “porta-a-porta” na região metropolitana. No horário combinado, um ônibus foi colocado à disposição dos militantes, que recebiam adesivos e santinhos, eram levados até alguma localidade próxima do Recife – no nosso caso Moreno – e faziam campanha em cada casa, porta por porta. O trabalho não foi difícil, a maior parte das pessoas, de imediato, declarava o voto em Arraes e permitia que nós pregássemos os adesivos ou estendêssemos as faixas com os dizeres: “Ele está voltando”.
Alguns poucos as recusavam. Exaltado, contrariando as instruções que tinha sido dadas no ônibus, eu quase discuti com uma eleitora do candidato adversário...
Não ganhei um centavo pelo meu empenho, nem um sanduíche, tudo que fiz foi por convicção, fiz Política, portanto, e fui bem sucedido: Miguel Arraes ganhou aquela eleição com uma folga inédita de 300.000 votos!
Seu segundo governo, porém, foi muito ruim, por muitos fatores que não caberia aqui explicar. Quando me mudei do Recife para Brasília estava muito decepcionado com os resultados de minha ação direta.

Não sei se votaria em Eduardo Campos, não tenho a mínima simpatia pelo autoritarismo verde da candidata a vice-presidente de sua chapa e provável substituta, mas lastimo sinceramente a morte do politico e do pai de família. Eduardo Campos tinha a minha idade.

 -/-

*Relativo a António Gramsci, político e escritor comunista italiano que, depois de ver fracassar uma tentativa de tomar o poder pelo PCI e de ter sido preso pelo regime de Benito Mussolini, pôs-se a especular sobre o porquê de a revolução ter sido bem sucedida na Rússia czarista e fracassado na  Itália. Em uma brevíssima síntese chegou a seguinte conclusão: a sociedade russa era uma sociedade fechada, na qual havia apenas uma fonte de poder – o Kremlin – que, uma vez conquistado pelos revolucionários em uma guerra de movimento, deixava o país à mercê dos vitoriosos. A Itália – e as outras democracias ocidentais – eram sociedades abertas, em que há diversas fontes de poder: o estado, a Igreja, a imprensa etc. Para empalmar o poder nessas circunstâncias, entende Gramsci, é preciso empreender uma guerra de posições, na qual postos chaves precisam ser ocupados paulatinamente e usados para modificar as crenças mais arraigadas da sociedade, até que, no fim das contas, todos passem a se agir e pensar do modo determinado pelo partido revolucionário que, assim, colherá a vitória sem fazer nenhum esforço.

** José Múcio Monteiro bem mais tarde aderiu ao PT, foi ministro do governo Lula da Silva e indicado pelo ex-presidente para o Tribunal de Contas da União, onde se empenha, no momento, para acobertar escândalos envolvendo a Petrobrás e a direção do partido do governo. Apesar de tudo, votei certo em 1986.

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