quarta-feira, 30 de julho de 2014

Continuação. 139 de n.

Eu não tinha a menor chance de passar no concurso da Receita de março de 1994. Se alguém disser que passou sem estudar, pode apostar que está mentindo, mas um mês e meio de estudo também não é suficiente quando nunca se estudou contabilidade e direito na vida. 

Mas...havia o que comemorar. Aquele concurso foi marcado por alguns problemas: muitas questões anuladas, suspeita de cola (fila) eletrônica na cidade de Santos, em São Paulo. No frigir dos ovos, meu desempenho foi razoável, um convite a dobrar a aposta.

Meu raciocínio foi seguinte: contabilidade – depois que as convenções são entendidas – não é difícil para quem fez cinco disciplinas de cálculo na faculdade de Engenharia Elétrica, o mesmo, pode ser dito para estatística e matemática financeira.
Português e inglês não eram problema tampouco, para um cdf que sempre se saíra bem nessas matérias desde os tempos do cursinho.

Uma ressalva, as provas de português da ESAF – órgão responsável pelos concursos da Receita Federal  - costumam ser bem difíceis. Vejamos uma questão clássica, de que me recordo.

Qual o sujeito da oração: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas, de um povo heróico, o brado retumbante”?

: - )

Colocando na ordem convencional, temos: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico. Assim fica mais fácil, não?

E quanto ao Direito? Bom, eu comecei pelo Direito Tributário, que é, como posso dizer?, na época, eu chamaria “lógico”, mas, hoje, não me parece um termo apropriado, fiquemos, então, com “prático”. Rapidamente, elaborei diagramas – engenheiros são bons nisso – que me ajudaram a memorizar todo o conteúdo da matéria.
Fiz o mesmo para as demais matérias. 
Constitucional? Rol de regras de estrutura do estado e de princípios humanistas bem-intencionados. Administrativo? É bom conhecer, atém mesmo para o dia a dia.
E fui por aí afora, racionalizando meu afastamento cada vez mais definitivo das ciências exatas e imersão, progressivamente mais profundo, no mundo da arte jurídica. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

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Continuação. 138 de n.

Frei Luca Pacioli, que viveu na segunda metade do século XV e começo do século XVI, foi um bem-aventurado, afinal, quantos homens fundaram uma ciência –  a contabilidade – e, ao mesmo tempo, gozam do privilégio de uma de suas obras ter sido ilustrada por ninguém menos que Leonardo da Vinci? 
Pois bem, o método das partidas dobradas, inventado pelo franciscano Luca, permitiu aos empreendedores de sua época registrar com rigor e simplicidade o comportamento do patrimônio das sociedades comerciais, novidade que começava a florescer e prosperar na Itália da Renascença.
Em essência, as coisas não mudaram muito desde então, um novo interessado, porém, foi atraído pelos sinais de riqueza: o Fisco, representado no Brasil, como muito acerto por um leão. 
Assim como a abundância de caça atrai predadores, indícios de afluência chamam a atenção do estado. Não é por outro motivo que os concursos para fiscais exigem um sólido conhecimento de contabilidade; para mim, e para todos os iniciantes, porém, causa profunda estranheza aprender que, quando uma quantia ingressa na conta bancária de uma pessoa jurídica, ocorre um "débito" e, ao contrário, quando sai dinheiro dessa conta, tem-se um "crédito".
Não pretendo, aqui, ensinar contabilidade para você leitor assustado, registro apenas que se trata de mera convenção, semelhante a que, no mundo inteiro, engenheiros e eletricistas empregam em seus circuitos elétricos. Isso mesmo, para estabelecer o sentido da corrente elétrica, o  técnico “faz de conta” que os prótons estão se deslocando, quando sabe, há muito tempo, que se dá exatamente o contrário. Em ambos os casos, o resultado é obtido, a despeito da convenção.
Haveria explicações para os dois fenômenos e talvez coubesse uma discussão filosófica a respeito do tema, mas não agora. Por enquanto, digo que por um mês e meio, entre fevereiro e março de 1994, eu me preparei com apostilas e com o livro de Osni Moura Ribeiro para o concurso AFTN - MARÇO de 1994.
As provas ocorreram na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, no Prado Velho em Curitiba, próxima do lugar onde agora estou trabalhando, 20 anos depois.

domingo, 27 de julho de 2014

Continuação. 137 de n.

B`H
Acho que hesitei em contar essa história porque não queria parecer rancoroso ou melancólico, mas devo reconhecer, para ser inteiramente sincero, que fiquei com muita raiva depois de meu segundo fracasso em uma seleção de mestrado e, por  muito mais tempo ainda, remoí ilusões a respeito da vida, de como teria sido ela, caso aquele resultado tivesse sido diferente. Em resumo, neguei completamente o "Gam Zu le Tová.
Experiências bem mais recentes, porém, me convenceram que aquele foi, com certeza, o melhor desfecho, apesar de injusto.
A seleção para o curso de mestrado da faculdade administração da ufpr naquele ano era composta de duas fases: a primeira consistia em um exame escrito que envolvia soluções de situações fictícias, lógica e tradução; a segunda, uma entrevista.
Eram mais de 100 candidatos e 10 ou 12 vagas, não lembro exatamente agora. O certo é que fiquei em quinto lugar na primeira fase, sem ter feito nenhuma preparação e sem ser um "nativo" da área, o que me parecia (e parece ainda hoje)  um ponto favorável, mas que seria, na verdade, o meu calcanhar de Aquiles.
Estávamos no final de 1993, e eu me considerava pre-selecionado, afinal reunia todas as condições para fazer o curso: ficara em quinto lugar na primeira fase da seleção, tinha experiência administrativa prévia graças ao curso de formação que recebera da Açonorte, tinha um projeto razoável – algo como avaliar programas de qualidade na administração pública -, poderia garantir que faria o curso em regime de dedicação exclusiva, por não precisaria registrar o ponto no Hospital,  e, por fim, dispensaria uma bolsa de estudos, que poderia ser aproveitada por outro candidato. Acho que não havia bolsas para todos, naquele primeiro ano.
Com esse espírito, fui para a entrevista que aconteceu na semana antes do natal. Pela segunda vez, passei pela experiência de participar de uma formalidade, de uma pantomima. Os entrevistadores não demonstravam o menor interesse de ouvir o que eu estava dizendo, parecia um sketch do Monte Python: enquanto eu falava animadamente sobre meu projeto, um dos membros da banca  virava para o outro e começava a falar sobre o churrasco que pretendia fazer no quintal no fim de semana,
Não fui selecionado.
Pior, passei a semana entre o natal e o ano-novo esperando uma chamada que nunca aconteceu. Cheguei a me iludir pensando que, talvez, fosse por causa do recesso universitário, que eles me ligariam no começo de 1994...
No primeiro dia útil do ano novo, fui até a faculdade de administração que fica bem perto do HC e falei com a secretária do curso. Ela me atendeu muito solícita e solidária, pelo menos assim me pareceu. Sem consultar nenhum registro, disse que eu ficara como "suplente", quer dizer, que poderia ser chamado em caso de desistência.
Vendo meu abatimento, sem que eu lhe perguntasse, acrescentou: o critério de seleção adotado naquele ano, que era o primeiro, foi favorecer os candidatos que já eram professores de faculdades de administração, mas que ainda não eram nem mesmo pós-graduados.
Acho que ela imaginou que isso me consolaria, na verdade, fiquei ainda mais irritado, “Ora bolas! Se eu concorro e fico na frente dos caras, mesmo sem ser da área, eles deviam mais é ser demitidos a bem do serviço público, e não premiados com o mestrado”, desabafei.
O certo é que naquele início de 1994, minha situação era delicada. Fracassara na minha primeira atividade empresarial, fora recusado no mestrado, permanecia atolado no HC com um salário baixo – estávamos em plena confusão do governo Itamar antes do Plano Real – e tinha um filho pequeno para criar.
Parece que foi ontem, mas faz vinte anos.
Sucumbi então ao canto dos concursos. Em fevereiro, meu cunhado me mandou do Rio, pelo correio, o livro “Contabilidade Fácil”, de Osni Moura Ribeiro, e disse que havia um concurso aberto para fiscal da Receita Federal em março daquele ano. Passou então por telefone as dicas de como eu deveria me inscrever.
Eu me sentia emparedado, mas ou menos nessa época, me envolvi em um acidente com uma moto, graças a D’us nada de grave aconteceu, mas eu me recordo de chegar em casa naquela tarde, vencido, sem forças, fracassado e de S precisar de muita paciência e amor para me reanimar.
Foram tempos sombrios, por isso hesitei, acho, em dar continuidade à história.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Continuação. 136 de n.

Talvez não fique evidente, mas essas histórias todas são exercícios de recordação e de expressão.
Memorabilia para os netos, depuração para mim mesmo, que preciso,dia após dia, escolher os temas, o grau de exposição pessoal a ser impresso, o tamanho da continuação, o enfoque, a profundidade e o estilo,
Talvez, um dia eu as organize, complemente, corrija os erros, retire as redundâncias e, quem sabe?, publique um livro, por enquanto, vou apenas assentando uma ao lado da outra para levantar uma cidadela ao redor do passado e convertê-lo em tradição.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Continuação. 135 de n.

Fomos no fim de semana passado assistir a um filme intitulado "O palácio francês", uma comédia sobre o funcionamento do ministério de relação exteriores da França. Não recomendo a ninguém perder duas horas de entretenimento para assistir a exíguos quinze minutos de humor, fora o valor dos ingressos e da pipoca. Sinto-me, então, livre para falar um pouco mais sobre a história.
Tudo gira em torno da caricatura de um ministro de relações exteriores de um governo de direita na França (possivelmente Dominique de Villepin) e se passa em um magnífico palácio em Paris, possivelmente do tempo da Monarquia. O ator que faz o ministro ridículo entra em cena uma dezena de vezes sempre para repetir a mesma piada: atazanar a vida de sua equipe de assessores com caprichos e superficialidades. É uma espécie de Inspetor Clouseau da diplomacia.

Há mais alguns aspectos ridículos no filme, que não sei se era intenção da produção exibir. Em primeiro lugar, a quantidade de "aspones"*  que orbita em torno do fanfarrão às custas dos contribuintes franceses, para fazer parecer que o país ainda exerce algum protagonismo no mundo, quando na verdade é uma cultura à beira da extinção.
Em segundo lugar, a presença permanente de intelectuais amigos do poder que aproveitam a futilidade do personagem caricaturizado para viajar pelo mundo às custas do erário.
Por fim, e esse talvez seja o ponto mais irônico, a assessora de assuntos africanos do ministério é vivida por Julie Gayet, amante do Presidente socialista François Hollande, que arruinou o casamento dele a poderosa jornalista Valérie Trierweiller.


Devo dizer, que, em escala muito mais reduzida, claro, tive oportunidade mais tarde de participar de reuniões de executivos do serviço público, que, mesmo não sendo franceses, estavam mais preocupados com o corte dos paletós do que sobre a real necessidade de sua presença na folha do estado. Não que os franceses façam caso disso também...

--//--
* "Assessor de p* nenhuma".

Continuação. 134 de n.

Os símbolos são muito importantes nas relações internacionais, Tucídides conta que nos albores da Guerra do Peloponeso, Atenas celebrarou uma aliança defensiva com Corcira, inimiga de Corinto, aliada de Esparta.

Os atenienses não queriam afrontar Esparta, mas não podiam se dar ao luxo de ver Corcira derrotada por Corinto, correndo o risco de a esquadra dos vencidos se somar com a dos vencedores e sobrepujar, em número, a força naval de Atenas.

A Assembléia ateniense decidiu enviar um flotilha modesta comandada por um “strategos” chamado Lacedemônio*, algo como "Capitão Esparta", com o propósito de apaziguar os rivais. O símbolo, queria indicar o seguinte: não queremos atrito com vocês, estamos aqui apenas para desempatar o jogo em favor de Corcira, caso seja necessário.

A intervenção de Atenas contra os coríntios, foi decisiva, e como resultado provocou uma inimizade insuperável entre as duas cidades-estado que continuaria durante toda a guerra, mas parece ter sido interpretada corretamente pelos espartanos. Um dos reis de Esparta se opôs àquela guerra que, entendia, será deixada para nossos filhos.

Em outra ocasião, o exército de Esparta teve oportunidade de esmagar o de Argos, então aliada de Atenas, mas se conteve. Teria sido um sinal de que era necessário arrefecer a belicosidade do conflito?

As indumentárias vermelhas da chefe de Estado do Brasil nas reuniões de cúpula dos BRICS em Fortaleza não é um detalhe que possa passar despercebido, alardeia para os que querem ver o novo alinhamento do país, não mais membro da aliança ocidental, mas sim da nova liga recém articulada.

Toda mudança de lado dessa espécie, porém, é muito arriscada, e já era assim desde os tempos de Tucídides. Perder um estado representa um golpe duplo para uma aliança, porque ela se enfraquece, ao mesmo tempo em que a rival aumenta seu poder. No caso do Brasil, há ainda a agravante de geografia e demografia colocar a reboque do país todo a parte sul do continente americano com seus vastíssimos recursos naturais.

Acho que o céu não permanecerá azul no horizonte por muito tempo.

--//--
* Um referência à Lacedemônia, ou Lacônia, região do Peloponeso onde se erguia Esparta e de onde vem a expressão lacônico.Havia simpatizantes de Esparta em Atenas, assim como em todo mundo grego.

domingo, 20 de julho de 2014

Continuação. 133 de n.

Enfatiotada em uma bata vermelha, a president Dilma Roussef recebeu na semana passada em Brasília e Fortaleza os chefes de estado da China, Rússia, Índia e Africa do Sul, com os quais formamos os BRICS – termo cunhado por um economista do Goldman Sachs – e se mostrou muito a vontade e, na medida do que é consegue sua alma atormentada, feliz.

O livro de Eclesiastes – Cohelet – começa assim (tradução de Adolpho Wasserman):
“As palavras de Cohelet, filho de David, rei em Jerusalém. Futilidade das futilidades, disse Kohelet, futilidade das futilidades, tudo é fútil. Que ganho o homem tem de toda sua labuta, que ele labuta sob o sol? Geração vem e geração vai e a terra permanece para sempre. O sol nasce e o sol se põe e ele anseia pelo lugar onde ele nasce. Ele vai em direção ao sul e retorna em direção ao norte; o vento vai em círculo e círculo e em seu círculo o vento retorna. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não enche; para o lugar em que os rios vão, ali eles vão de novo. Todas coisas labutam até a fadiga, mas o homem não deve expressá-las. O olho não está satisfeito com o que vê nem o ouvido com o ouve.  O que foi será, e o que foi feito será feito; e não há nada de novo sob o sol. Há algo do qual se diz: ‘Veja, isso é novo!’ Ele já existiu em idades antes de nós.”

Gosto muito dessa passagem da Bíblia. Pura poesia. Qualquer dia desses, espero escrever sobre os versículos que falam sobre a permanente insatisfação de olhos e ouvidos, mas por enquanto fiquemos com a novidade representada pela aliança formada pelos países emergentes com, mais recursos e entrelaçados – eis a razão da presidente Dilma – por uma visão de mundo materialista e histórico-dialética.

Algo parecido já teria acontecido antes?

O general Tucídides, sem nunca ter tido contato com o rei Salomão, escreveu sobre os terríveis acontecimentos que varreram a Grécia no 5º século antes da era comum e profetiza:
“Muitas coisas terríveis aconteceram às polis por conta do facciosismo” e, acrescenta, “tal como aconteceram, voltarão a acontecer enquanto a natureza humana for a mesma”.

Onde eu quero chegar?

A ostensiva movimentação diplomática da semana passada, que levou à criação de dois organismos financeiros, que pretendem, ao que parece, concorrer com os nascidos em Breton Woods, em muito se assemelha aos saracoteios das potências europeias antes da primeira guerra mundial, ou para ficar mais próximo de Tucídides dos fatos descritos por ele na guerra do Peloponeso.
Vou tentar sintetizar: depois de muitos anos de guerra, Esparta e Atenas celebraram a paz e formaram uma aliança para conservá-la. A aliança era problemática porque os modos de vida das duas cidades-estado eram muito diferentes e porque encontrava resistência dos parceiros das antigas alianças de cada uma delas: a liga do Peloponeso e a liga de Delos..
Convém me estender um pouco mais sobre a liga de Delos, denominada, com propriedade, por alguns historiadores de “Império Ateniense”. A liga nasceu da vitória sobre o imperador da Pérsia, começou como uma aliança defensiva na qual todos os estados membros forneciam homens e navios para compor uma frota que controlasse o mar Egeu e impedisse novos assaltos dos persas à Europa.
Tudo foi registrado em pedra, e a algumas delas foram lançadas ao mar a indicar a duração da aliança: enquanto as pedras não flutuassem, ou o mar secasse, a união daqueles estados seria inquebrantável.
Progressivamente as pólis foram optando por contribuir com recursos, em vez de homens e barcos, para a manutenção da marinha da liga; depois de alguns anos, das dezenas de estados que compunham a aliança, apenas Atenas e mais três outras ilhas possuíam marinhas próprias. Os tributos eram administrados por Atenas que, naturalmente, empregou parte deles em benefício próprio. Depois que mais água passou por baixo do moinho, os antigos aliados, agora tributários, de Atenas começaram a se rebelar e receberam apoio de Esparta e dos peloponésios incomodados que estavam com a ascensão de um poder rival no mundo grego.
A guerra estourou, durou muitos anos, mas foi interrompida pela paz a que me referi antes, conhecida como paz de Nícias, nome do líder ateniense que propugnava a interrupção do conflito, contra Alcibíades que queria aprofundá-lo. Hoje, os respectivos grupos  seriam designados  “pombas” e “falcões”.
Mas a trégua foi tumultuada, os parceiros das antigas alianças continuavam com suas agendas próprias que não coincidiam com a das pólis líderes de cada bloco – para não falar das facções extremistas que vimos existir dentro de Esparte e de Atenas.
A paz de Nícias converteu-se em um período de busca de novos parceiros que oferecessem a cada lado vantagens estratégicas quando o conflito, que se acreditava inevitável, recomeçasse. Esparta se aliou formalmente a Tebas e Atenas a Argos, rival histórica de Esparta, que se mantivera neutra até então. Não satisfeitas, Atenas e Argos pretenderam criar a sua própria liga do Peloponeso, atraindo Mantinea e Elea, cidades que pela posição geográfica, isolava Esparta de dois de seus principais aliados.

Tudo bem, tudo bem, tudo muito bonito, mas o que isso tem a ver com os Brics?

Depois que a guerra fria se exauriu, entramos em uma nova competição em que se formam, mais uma vez, dois blocos, à falta de nomes melhores, podemos chama-los de antiga aliança, formada por EUA, EU e Japão, e do outro lado temos os BRICS.
Tal como na Hélade de Tucídides, ambos os blocos estão longe de ser homogêneos, seus membros buscam agendas próprias, às vezes, conflitantes com as das potências líderes - no lado da antiga aliança, o papel de antagonista ridículo cabe à França - mas no que importa em termos econômicos e de segurança há uma afinidade que predomina entre os aliados.
Durante a era de paz, em que ainda vivemos, ambas as partes buscam amealhar recursos estratégicos e nisso reside a importância da América do Sul. Ao contrário do que alguns ingenuamente pensam, o BRICS não é uma aliança de iguais, como não era a liga de Delos, há um líder inquestionável sob quase todos os aspectos – exceto, por enquanto, o militar – esse líder é a República Popular da China. Nosso papel, nesse cenário, é o mesmo que desempenhamos desde que Pedro Álvares Cabral desembarcou nestas terras: fornecedores de  abundantes matérias primas. Selá.
No começo, tal como aconteceu no passado, quando, felizes, as aliadas de Atenas jogaram pedras ao mar, gravadas com os termos da aliança, tudo é promissor e belo, "amanhãs que cantam" nos esperam na próxima esquina.

Cuidado! Ensinam Salomão e Tucídides. O que aconteceu antes na história, não antecipa nada de bom no horizonte, não somos protagonistas nessa história, nossa posição é semelhante à de Mantinea no Peloponeso. Melhor nem falar sobre o que aconteceu em Mantinea...



quinta-feira, 17 de julho de 2014

Continuação. 132 de n.

Minha premissa era a seguinte: o que eu realmente sei fazer com excelência é estudar. A conclusão, então, me parecia óbvia: voltar à atividade acadêmica. Contrariando esse raciocínio, meu cunhado, I, me sugeria prestar concurso para fiscal, mas naquele inverno de 2003, apesar de atolado em um mar de dificuldade para exercer a profissão - leia-se salários baixos - e recém saído de uma experiência empresarial mal sucedida, eu ainda considerava estudar Direito e Contabilidade uma espécie de traição aos anos que passei suando a camisa na faculdade de Engenharia.
A UFPR se encarregou de resolver o meu dilema ao abrir naquele ano a primeira turma do curso de mestrado em Administração. Era, sob qualquer ponto de vista, uma boa solução intermediária. Aquele mestrado era, ao mesmo tempo, uma atividade acadêmica, técnica (cum granum salis) e com uma perspectiva profissional interessante para o futuro, pelo menos era assim que eu pensava..
Digo mais, eu atendia a todos os requisitos do edital de seleção: tinha experiência anterior, graças ao bom curso que fizera na Açonorte - na época não cheguei a mencioná-la, mas minha recente experiência empresarial, ainda que fracassada, poderia ser encarada como um elemento a meu favor. Além do mais eu não precisaria de bolsa de estudos, porque continuaria a receber meu salário durante todo curso  e, não menos importante, estaria dispensado do trabalho para me dedicar exclusivamente aos estudos, porque essa era, afinal, a política de gestão de pessoas da universidade em relação aos servidores matriculados em cursos de pós-graduação.
Restava fazer uma prova e uma entrevista.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Continuação. 131 de n.

-         Bom dia, senhora XXXX, aqui é da Massari, importadora de cosméticos, a senhora gostaria de ouvir as novidades sobre a nossa promoção de linha para a pele?

Em caso afirmativo

-         A Massari é uma empresa de importação que oferece produtos importados de excelente qualidade para a suas clientes. No momento nossa promoção de

         (Clique nos produtos que estão em promoção.)

        Em caso negativo.

-         A senhora não gostaria de conhecer a Massari, importadora de produtos de beleza, conhecida nacionalmente...

Não me lembro exatamente dos “scripts” planejados pelo cliente A, mas a ideia era basicamente essa: orientar o trabalho das vendedoras de telemarketing da Massari. As perguntas e respostas seriam concebidas pelo próprio senhor A, a quem cabia também definir a abrangência do contato. O programa também serviria, antes que eu me esqueça, como um controle de estoque.

Não quero que pareça mais sofisticado do que era na realidade, apesar de requerer muita memória dos computadores do hoje longínquo 1993; o que me incomodava, como já antecipei, é que eu rinha que fazer tudo sozinho. Assinamos um contrato, e eu me comprometi a apresentar um protótipo ao cliente para que ele avaliasse o caminho que estávamos seguindo. Há muitas histórias de programador que recebe a encomenda de um carrinho-de-mão e cria um trailer com GPS...

Passadas algumas semanas em que virei a noite, consegui fazer o protótipo ser apresentado. O senhor A gostou do que viu, fez algumas sugestões e estabelecemos de comum acordo um prazo para a entrega definitiva.
Arregacei as mangas e voltei ao trabalho, programava em casa, com o aquecedor ligado o tempo todo, durante aquele nosso segundo inverno em Curitiba. Meus dois sócios não digitaram uma linha de comentário. Para o bem ou para o mal posso dizer que fui o autor do programa.

E finalmente chegou o dia D, A decepção não podia ser maior, ele disse que desistira do negócio e que não ia levar adiante o projeto Massari.

-         Como é que é? Estou trabalhando neste projeto há mais de um mês!
-         As coisas mudam...
-         Mas nós temos um contrato
-         Execute..

Encurtando a história, depois de muita negociação e paciência, o sujeito pagou apenas uma fração do trabalho realizado. 
A sociedade se desfez e eu voltei à estaca zero em termos de horizonte profissional.

domingo, 13 de julho de 2014

Continuação. 130 de n.

Depois de uma ligeira parada para assistir à copa, ao aniversário de minha sogra no Rio (durante a copa) e para ler o material de um curso de processo administrativo fiscal ainda não concluído, volto a publicar histórias.

Além do vírus e da especificação da rede de microcomputadores não lembro mais o que eu fazia no HC, certamente não era grande coisa. Comecei, então, a a pensar em aproveitar uma parte do meu tempo livre para montar um negócio.

Eu e mais dois colegas, T e S, decidimos montar uma sociedade para desenvolver softwares. Bill Gates estava com os dias contados...

A distribuição dos trabalhos seria mais ou menos a seguinte: eu e T escreveríamos os programas, enquanto S, que era programador, mas tinha um grande talento para vendas, ficaria encarregado da distribuição.

Na prática, porém, funcionou assim: eu trabalhava, os outros dois assistiam.

Fechamos o primeiro contrato. Uma colega da Assessoria de Informática do HC nos indicou um parente de seu marido que  tinha umas ideias na cabeça. Era um árabe endinheirado, ele pretendia criar um programa com, digamos, "scripts" predefinidos que orientassem sua equipe de telemarketing quando ela atuasse, quer dizer, quando ligassem para infernizar as pessoas oferecendo produtos.

O nome da empresa seria Massari, que significa dinheiro em árabe, nosso cliente se regozijava, com razão, com a escolha do nome, atingia a três públicos, o nome soava familiar, não apenas para árabes,mas igualmente para japoneses e italianos. E a ideia também era boa: oferecer para vendedores, ainda, não qualificados roteiros, elaborados pelo turco, que era craque em vendas, que ajudasse a empurrar cosméticos para clientes escolhidas a partir de informações que ele guardava em segredo. Não sei como ele obtinha as informações do público alvo, os cosméticos certamente eram descaminhados do Paraguai.

O sujeito, A, era realmente bom de lábia, um vendedor nato, ninguém melhor do que ele para indicar o caminho das pedras, para as futuras vendedoras. Onde é que eu vi essa mesma ideia exposta recentemente? Claro, no filme O lobo de Wall Street.

Ainda hoje, 21 anos depois, tenho que tirar o chapéu para o turco.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Continuação. 129 de n.

Não, nada disso, eu não era um hacker em 1992.
Como sobrava tempo nos estudos para especificação da futura rede de computadores do hospital, fui atrás do que fazer. Trabalhar com bancos de dados administrativos (usando a linguagem SQL) estava fora de questão.
Descobri, então, que no laboratório do hospital, havia máquinas de exames de sangue cujos  resultados eram registrados em papeletas de impressoras embutidas nos próprios equipamentos. Os rolos de papel empregados eram fornecidos pela revendedora do equipamento juntamente com os reagentes usados para fazer os exames, era mais um insumo do processo. Não podia ser qualquer papel, claro, apenas um que era impresso termicamente e que custava os o;lhos da cara. O dinheiro que o hospital gastava nessa brincadeira não era pouco.

Descobri que a máquina enviava os dados para a sua impressora por meio de uma porta serial que bem podia ser ligada a um microcomputador; no próprio manual de funcionamento havia um comando esquecido por todos que permitia exportar os dados dos resultados desse jeito, que indicava o formato, os pinos do cabo etc. Além disso, no laboratório havia um micro que era usado para outras tarefas.

Bolei então o seguinte: por que não ligar a máquina de exames ao microcomputador por meio de um cabo serial (que eu mesmo soldei) e, para não deixar o micro inteiramente dedicado à impressão de dados,  instalar um programa que seria acionado apenas quando recebesse os resultados dos exames?

Quem usasse o micro poderia continuar a fazer o que estava acostumado, tarefas administrativas porque o meu vírus, quer dizer, o meu programa, depois de instalado, permanecia oculto, recebendo e armazenando os exames de sangue, e somente era acionado, para imprimir os resultados - em papel comum, A4 - quando interessava aos servidores do laboratório.


O meu vírus era benigno, mas voltando à minha atividade principal, a direção do hospital por fim decidiu não adotaria o modelo recomendado pela IBM – o de terminais burros – mas instalaria uma rede de microcomputadores no hospital, ligada ao computador de grande porte. De certa forma, foi uma vitória pessoal, apesar de eu ter apenas surfado a onda de momento do mundo da informática.

A IBM, diga-se, dispunha da solução adotada pelo HC:  micros + mainframe, mas não a estimulava, provavelmente por motivos comerciais, já que seu preço, como vim a descobrir mais tarde, durante a fase de licitação do projeto, era muito mais caro que o dos concorrentes.Atualmente, a companhia não atua mais nesse segmento, pode-se dizer que o HC/UFPR representou um front comercial, em que a solução corporativa da IBM foi fragorosamente derrotada, houve muitos outros e eu estava do lado certo.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Continuação. 128 de n.

A verdade é que ninguém sabia o que fazer comigo na Assessoria de Informática do HC em 1992. O setor se dedicava quase exclusivamente ao processamento de dados administrativos, empregando linguagens de alto nível ,enquanto eu estava acostumado a fazer pesquisa de natureza científica usando linguagens de baixo nível.
Não, isso não quer dizer que eu usava um vocabulário chulo.

: - )

Deixem-me explicar, meus netos, acho que certas coisas nunca mudam.
Sempre que um usuário liga um computador, a interação entre ele e a máquina passa por diversas camadas de processamento de informação, dedicadas a traduzir nossa linguagem humana, imprecisa, redundante e bela, na linguagem da máquina, precisa, mas feia e tediosa.
Há páginas e páginas de trabalhos filosóficos, linguísticos e, claro, de informática que tratam da matéria, mas não é o caso de explorar tudo isso aqui, basta dizer que para um computador ser um objeto útil para o homem comum é preciso que programas de alto nível, i. e., que usam linguagens semelhantes ao português, traduzam as necessidades desse usuário em instruções apropriadas proferidas em linguagens de nível mais baixo, quer dizer, mais próximas da linguagem da máquina.

Eu já tinha trabalhado com processamento de dados administrativos em um estágio que fiz na UNISYS e que larguei na esperança de fazer um mestrado, como já contei em outro post. Na minha opinião, poucas coisas relevantes podem ser tão enfadonhas; são as galés do mundo corporativo.

O doutor S, chefe da Assinf, me escalou, então, para fazer parte da comissão que analisava a ampliação da rede de terminais do hospital. E lá fui eu estudar as opções aplicáveis, com as respectivas especificações e preços.
Era mais interessante do que pode parecer e, além disso, me deixava com algum tempo livre, que eu aproveitei - já que estava em um hospital - para criar um vírus...