Acho que hesitei em contar essa história porque não queria parecer rancoroso ou melancólico, mas devo reconhecer, para ser inteiramente sincero, que fiquei com muita raiva depois de meu segundo fracasso em uma seleção de mestrado e, por muito mais tempo ainda, remoí ilusões a respeito da vida, de como teria sido ela, caso aquele resultado tivesse sido diferente. Em resumo, neguei completamente o "Gam Zu le Tová.
Experiências bem mais recentes, porém, me convenceram que aquele foi, com certeza, o melhor desfecho, apesar de injusto.
A seleção para o curso de mestrado da faculdade administração da ufpr naquele ano era composta de duas fases: a primeira consistia em um exame escrito que envolvia soluções de situações fictícias, lógica e tradução; a segunda, uma entrevista.
Eram mais de 100 candidatos e 10 ou 12 vagas, não lembro exatamente agora. O certo é que fiquei em quinto lugar na primeira fase, sem ter feito nenhuma preparação e sem ser um "nativo" da área, o que me parecia (e parece ainda hoje) um ponto favorável, mas que seria, na verdade, o meu calcanhar de Aquiles.
Estávamos no final de 1993, e eu me considerava pre-selecionado, afinal reunia todas as condições para fazer o curso: ficara em quinto lugar na primeira fase da seleção, tinha experiência administrativa prévia graças ao curso de formação que recebera da Açonorte, tinha um projeto razoável – algo como avaliar programas de qualidade na administração pública -, poderia garantir que faria o curso em regime de dedicação exclusiva, por não precisaria registrar o ponto no Hospital, e, por fim, dispensaria uma bolsa de estudos, que poderia ser aproveitada por outro candidato. Acho que não havia bolsas para todos, naquele primeiro ano.
Com esse espírito, fui para a entrevista que aconteceu na semana antes do natal. Pela segunda vez, passei pela experiência de participar de uma formalidade, de uma pantomima. Os entrevistadores não demonstravam o menor interesse de ouvir o que eu estava dizendo, parecia um sketch do Monte Python: enquanto eu falava animadamente sobre meu projeto, um dos membros da banca virava para o outro e começava a falar sobre o churrasco que pretendia fazer no quintal no fim de semana,
Não fui selecionado.
Pior, passei a semana entre o natal e o ano-novo esperando uma chamada que nunca aconteceu. Cheguei a me iludir pensando que, talvez, fosse por causa do recesso universitário, que eles me ligariam no começo de 1994...
No primeiro dia útil do ano novo, fui até a faculdade de administração que fica bem perto do HC e falei com a secretária do curso. Ela me atendeu muito solícita e solidária, pelo menos assim me pareceu. Sem consultar nenhum registro, disse que eu ficara como "suplente", quer dizer, que poderia ser chamado em caso de desistência.
Vendo meu abatimento, sem que eu lhe perguntasse, acrescentou: o critério de seleção adotado naquele ano, que era o primeiro, foi favorecer os candidatos que já eram professores de faculdades de administração, mas que ainda não eram nem mesmo pós-graduados.
Acho que ela imaginou que isso me consolaria, na verdade, fiquei ainda mais irritado, “Ora bolas! Se eu concorro e fico na frente dos caras, mesmo sem ser da área, eles deviam mais é ser demitidos a bem do serviço público, e não premiados com o mestrado”, desabafei.
O certo é que naquele início de 1994, minha situação era delicada. Fracassara na minha primeira atividade empresarial, fora recusado no mestrado, permanecia atolado no HC com um salário baixo – estávamos em plena confusão do governo Itamar antes do Plano Real – e tinha um filho pequeno para criar.
Parece que foi ontem, mas faz vinte anos.
Sucumbi então ao canto dos concursos. Em fevereiro, meu cunhado me mandou do Rio, pelo correio, o livro “Contabilidade Fácil”, de Osni Moura Ribeiro, e disse que havia um concurso aberto para fiscal da Receita Federal em março daquele ano. Passou então por telefone as dicas de como eu deveria me inscrever.
Eu me sentia emparedado, mas ou menos nessa época, me envolvi em um acidente com uma moto, graças a D’us nada de grave aconteceu, mas eu me recordo de chegar em casa naquela tarde, vencido, sem forças, fracassado e de S precisar de muita paciência e amor para me reanimar.
Foram tempos sombrios, por isso hesitei, acho, em dar continuidade à história.
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