Não, nada disso, eu não era um hacker em 1992.
Como sobrava tempo nos estudos para especificação da futura rede de computadores do hospital, fui atrás do que fazer. Trabalhar com bancos de dados administrativos (usando a linguagem SQL) estava fora de questão.
Descobri, então, que no laboratório do hospital, havia máquinas de exames de sangue cujos resultados eram registrados em papeletas de impressoras embutidas nos próprios equipamentos. Os rolos de papel empregados eram fornecidos pela revendedora do equipamento juntamente com os reagentes usados para fazer os exames, era mais um insumo do processo. Não podia ser qualquer papel, claro, apenas um que era impresso termicamente e que custava os o;lhos da cara. O dinheiro que o hospital gastava nessa brincadeira não era pouco.
Descobri que a máquina enviava os dados para a sua impressora por meio de uma porta serial que bem podia ser ligada a um microcomputador; no próprio manual de funcionamento havia um comando esquecido por todos que permitia exportar os dados dos resultados desse jeito, que indicava o formato, os pinos do cabo etc. Além disso, no laboratório havia um micro que era usado para outras tarefas.
Bolei então o seguinte: por que não ligar a máquina de exames ao microcomputador por meio de um cabo serial (que eu mesmo soldei) e, para não deixar o micro inteiramente dedicado à impressão de dados, instalar um programa que seria acionado apenas quando recebesse os resultados dos exames?
Quem usasse o micro poderia continuar a fazer o que estava acostumado, tarefas administrativas porque o meu vírus, quer dizer, o meu programa, depois de instalado, permanecia oculto, recebendo e armazenando os exames de sangue, e somente era acionado, para imprimir os resultados - em papel comum, A4 - quando interessava aos servidores do laboratório.
O meu vírus era benigno, mas voltando à minha atividade principal, a direção do hospital por fim decidiu não adotaria o modelo recomendado pela IBM – o de terminais burros – mas instalaria uma rede de microcomputadores no hospital, ligada ao computador de grande porte. De certa forma, foi uma vitória pessoal, apesar de eu ter apenas surfado a onda de momento do mundo da informática.
A IBM, diga-se, dispunha da solução adotada pelo HC: micros + mainframe, mas não a estimulava, provavelmente por motivos comerciais, já que seu preço, como vim a descobrir mais tarde, durante a fase de licitação do projeto, era muito mais caro que o dos concorrentes.Atualmente, a companhia não atua mais nesse segmento, pode-se dizer que o HC/UFPR representou um front comercial, em que a solução corporativa da IBM foi fragorosamente derrotada, houve muitos outros e eu estava do lado certo.
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