domingo, 20 de julho de 2014

Continuação. 133 de n.

Enfatiotada em uma bata vermelha, a president Dilma Roussef recebeu na semana passada em Brasília e Fortaleza os chefes de estado da China, Rússia, Índia e Africa do Sul, com os quais formamos os BRICS – termo cunhado por um economista do Goldman Sachs – e se mostrou muito a vontade e, na medida do que é consegue sua alma atormentada, feliz.

O livro de Eclesiastes – Cohelet – começa assim (tradução de Adolpho Wasserman):
“As palavras de Cohelet, filho de David, rei em Jerusalém. Futilidade das futilidades, disse Kohelet, futilidade das futilidades, tudo é fútil. Que ganho o homem tem de toda sua labuta, que ele labuta sob o sol? Geração vem e geração vai e a terra permanece para sempre. O sol nasce e o sol se põe e ele anseia pelo lugar onde ele nasce. Ele vai em direção ao sul e retorna em direção ao norte; o vento vai em círculo e círculo e em seu círculo o vento retorna. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não enche; para o lugar em que os rios vão, ali eles vão de novo. Todas coisas labutam até a fadiga, mas o homem não deve expressá-las. O olho não está satisfeito com o que vê nem o ouvido com o ouve.  O que foi será, e o que foi feito será feito; e não há nada de novo sob o sol. Há algo do qual se diz: ‘Veja, isso é novo!’ Ele já existiu em idades antes de nós.”

Gosto muito dessa passagem da Bíblia. Pura poesia. Qualquer dia desses, espero escrever sobre os versículos que falam sobre a permanente insatisfação de olhos e ouvidos, mas por enquanto fiquemos com a novidade representada pela aliança formada pelos países emergentes com, mais recursos e entrelaçados – eis a razão da presidente Dilma – por uma visão de mundo materialista e histórico-dialética.

Algo parecido já teria acontecido antes?

O general Tucídides, sem nunca ter tido contato com o rei Salomão, escreveu sobre os terríveis acontecimentos que varreram a Grécia no 5º século antes da era comum e profetiza:
“Muitas coisas terríveis aconteceram às polis por conta do facciosismo” e, acrescenta, “tal como aconteceram, voltarão a acontecer enquanto a natureza humana for a mesma”.

Onde eu quero chegar?

A ostensiva movimentação diplomática da semana passada, que levou à criação de dois organismos financeiros, que pretendem, ao que parece, concorrer com os nascidos em Breton Woods, em muito se assemelha aos saracoteios das potências europeias antes da primeira guerra mundial, ou para ficar mais próximo de Tucídides dos fatos descritos por ele na guerra do Peloponeso.
Vou tentar sintetizar: depois de muitos anos de guerra, Esparta e Atenas celebraram a paz e formaram uma aliança para conservá-la. A aliança era problemática porque os modos de vida das duas cidades-estado eram muito diferentes e porque encontrava resistência dos parceiros das antigas alianças de cada uma delas: a liga do Peloponeso e a liga de Delos..
Convém me estender um pouco mais sobre a liga de Delos, denominada, com propriedade, por alguns historiadores de “Império Ateniense”. A liga nasceu da vitória sobre o imperador da Pérsia, começou como uma aliança defensiva na qual todos os estados membros forneciam homens e navios para compor uma frota que controlasse o mar Egeu e impedisse novos assaltos dos persas à Europa.
Tudo foi registrado em pedra, e a algumas delas foram lançadas ao mar a indicar a duração da aliança: enquanto as pedras não flutuassem, ou o mar secasse, a união daqueles estados seria inquebrantável.
Progressivamente as pólis foram optando por contribuir com recursos, em vez de homens e barcos, para a manutenção da marinha da liga; depois de alguns anos, das dezenas de estados que compunham a aliança, apenas Atenas e mais três outras ilhas possuíam marinhas próprias. Os tributos eram administrados por Atenas que, naturalmente, empregou parte deles em benefício próprio. Depois que mais água passou por baixo do moinho, os antigos aliados, agora tributários, de Atenas começaram a se rebelar e receberam apoio de Esparta e dos peloponésios incomodados que estavam com a ascensão de um poder rival no mundo grego.
A guerra estourou, durou muitos anos, mas foi interrompida pela paz a que me referi antes, conhecida como paz de Nícias, nome do líder ateniense que propugnava a interrupção do conflito, contra Alcibíades que queria aprofundá-lo. Hoje, os respectivos grupos  seriam designados  “pombas” e “falcões”.
Mas a trégua foi tumultuada, os parceiros das antigas alianças continuavam com suas agendas próprias que não coincidiam com a das pólis líderes de cada bloco – para não falar das facções extremistas que vimos existir dentro de Esparte e de Atenas.
A paz de Nícias converteu-se em um período de busca de novos parceiros que oferecessem a cada lado vantagens estratégicas quando o conflito, que se acreditava inevitável, recomeçasse. Esparta se aliou formalmente a Tebas e Atenas a Argos, rival histórica de Esparta, que se mantivera neutra até então. Não satisfeitas, Atenas e Argos pretenderam criar a sua própria liga do Peloponeso, atraindo Mantinea e Elea, cidades que pela posição geográfica, isolava Esparta de dois de seus principais aliados.

Tudo bem, tudo bem, tudo muito bonito, mas o que isso tem a ver com os Brics?

Depois que a guerra fria se exauriu, entramos em uma nova competição em que se formam, mais uma vez, dois blocos, à falta de nomes melhores, podemos chama-los de antiga aliança, formada por EUA, EU e Japão, e do outro lado temos os BRICS.
Tal como na Hélade de Tucídides, ambos os blocos estão longe de ser homogêneos, seus membros buscam agendas próprias, às vezes, conflitantes com as das potências líderes - no lado da antiga aliança, o papel de antagonista ridículo cabe à França - mas no que importa em termos econômicos e de segurança há uma afinidade que predomina entre os aliados.
Durante a era de paz, em que ainda vivemos, ambas as partes buscam amealhar recursos estratégicos e nisso reside a importância da América do Sul. Ao contrário do que alguns ingenuamente pensam, o BRICS não é uma aliança de iguais, como não era a liga de Delos, há um líder inquestionável sob quase todos os aspectos – exceto, por enquanto, o militar – esse líder é a República Popular da China. Nosso papel, nesse cenário, é o mesmo que desempenhamos desde que Pedro Álvares Cabral desembarcou nestas terras: fornecedores de  abundantes matérias primas. Selá.
No começo, tal como aconteceu no passado, quando, felizes, as aliadas de Atenas jogaram pedras ao mar, gravadas com os termos da aliança, tudo é promissor e belo, "amanhãs que cantam" nos esperam na próxima esquina.

Cuidado! Ensinam Salomão e Tucídides. O que aconteceu antes na história, não antecipa nada de bom no horizonte, não somos protagonistas nessa história, nossa posição é semelhante à de Mantinea no Peloponeso. Melhor nem falar sobre o que aconteceu em Mantinea...



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