domingo, 29 de junho de 2014

Continuação. 127 de n.

Eu e S estamos curtindo a série britânica Downton Abbey, em tempos de copa, foi o pedágio que tive que pagar para poder assistir ao maior número de jogos que eu conseguisse. Comecei a ver cos episódios om certa desconfiança, mas devo admitir fui contagiado pelo jeito com que a história é contada.
Os dois primeiros anos da série se passam nos anos imediatamente anteriores à primeira guerra mundial. O ritmo em que a trama se desenrola é semelhante ao dos romances de Jane Austen, a história de amor da protagonista faz referências claras à escritora, mas Downton, como a chamamos aqui em casa, é muito mais do que isso; a qualidade da produção se manifesta em cada detalhe de época, os atores são excelentes e o texto convida o espectador a entrar na vida dos personagens a despeito das diferenças tão evidentes e exasperantes de costumes que existem entre nós e eles, apesar de, em termos históricos, tudo ter acontecido ontem...
E assim chegamos ao que, a meu ver, é o ponto mais alto da produção, a história se presta a contar a História.
Downton Abbey é a moradia principal de Robert Crawley, conde de Grantham, situada ficticiamente em York no norte da Inglaterra. O conde mora no palácio com sua esposa americana, Cora, e três filhas casadoiras: Mary, Edith e Sybill. Eles são servidos por um exército de criados, chefiados por um mordomo e uma governanta, no começa é até difícil saber quem faz o quê, há garçons, valetes, camareiras, cozinheira e auxiliares.
Os empregados se levantam na presença do conde, se curvam à sua passagem e somente se referem aos patrões por “sua lordeza”, em tradução crua.
Mas cada personagem, independentemente do “rank”social, tem uma história, como na vida, todos sofrem e se alegram, os seus motivos de  seus pesares ou gozos podem parecer inusitados para nós apenas cem anos depois dos eventos, mas leva a pensar: mudamos em alguma coisa?
Um hospital moderno, com sua rígida hierarquia e seus protocolos, seria muito diferente da casa de um nobre britânico em 1912?  Em que exatamente a dedicação dos servos a seus senhores esmiuçada em Downton Abbey  se distingue do que a moderna administração apelidou de “vestir a camisa” de uma empresa?
Nos propósitos, poderíamos arriscar uma resposta. O hospital tem um fim meritório e as grandes corporações atendem às necessidade de milhões de pessoas, enquanto o condado servia apenas para o benefício de uma família.

A resposta, porém, não é tão simples, a nobreza na Inglaterra desempenhava funções sociais importantes, que não vou antecipar porque não quero furtar de ninguém o prazer de assistir à série. Só posso antecipar que a grande guerra viria a mudar tudo e parir a sociedade contemporânea na qual as pessoas se curvam a poderes desumanos e invisíveis.

Continuação. 126 de n.

Esta semana foi muito corrida, em parte por causa da copa do mundo, por isso não encontrei tempo para escrever, não por que faltassem histórias.
Já ia me esquecendo de dizer que nossa vinda para o HC foi resultado de uma decisão pessoal do diretor-geral, Dr. Osmar, que a tomou sem ouvir os futuros chefes daqueles dois forasteiros vindos de Brasília, origem que não recomenda a ninguém em Curitiba.
Caímos, então, de paraquedas no Serviço de Psicologia e na Assessoria de Informática.
Continua em vigor a proibição de S, para que eu conte suas aventurasno meio da tribo dos lacanianos, restrinjo-me então ao que aconteceu comigo na ASSINF.
Meu chefe, Dr. S, era um médico respeitado, que tinha como hobby os computadores, talvez por essa razão tenha sido indicado para chefiar a área que cuidava de todo processamento de dados do hospital. Ao contrário do Sarah, o HC era um hospital padrão: médicos sempre na chefia. Não quero com isso dizer que o Dr. S não estivesse capacitado para a função, em absoluto, na verdade, em muitos sentidos ele tinha até mais gosto pela informática do que eu.

De fato, os computadores nunca foram um paixão para mim, nem mesmo nos tempos da universidade, no Sarah, eles não passavam de uma ferramenta de trabalho, no HC, porém, tornavam-se o meu ganha-pão, mas era um casamento de conveniência que, assim, progressivamente, me afastava da área técnica para a de humanas. Tal como em Les feuilles mortes, entre mim e a engenharia:
(...) la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable

Les pas des amants désunis.   

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Continuação. 125 de n.

A área de informática do Hospital de Clínica/UFPR onde fiquei lotado quando cheguei a Curitiba cuidava tão-somente de registros administrativos e prontuários de pacientes, tinha pouco a ver com ambiente de desenvolvimento científico com o qual eu me acostumara no Sarah; aquele foi o primeiro ponto de inflexão destinado a converter o antigo engenheiro em auditor-fiscal; muitos outros viriam mais tarde.
Preciso fazer agora um esforço de arqueologia informática, para explicar o que acontecia no meu trabalho no tão próximo, mas ao mesmo tempo tão distante ano de 1992. No HC, e mundo afora, travava-se uma luta épica entre dois modelos de  processamento de dados e, de novo, sem saber, eu era um soldado na primeira linha do conflito.
De um lado, a poderosa IBM defendia o aprofundamento de seu modelo – já adotado pelo hospital – que consistia em computadores de grande porte, os “mainframes”, ligados a “terminais burros”, quer dizer, sem capacidade de processamento local. De tão ultrapassada essa solução, é difícil até mesmo descrever o seu funcionamento em 2014.
Como fazer?
Bom, estamos conversando a respeito de uma era anterior aos ícones acionados por cliques, popularizados pela Apple e pela MicroSoft, naqueles tempos, o usuário era obrigado a se comunicar com os computadores por  meio de comados escritos como: “c:\> copy *.doc d:” – quer dizer: “copie todos os arquivos com terminação em ‘.doc’ para  o disco ‘d’”.  Claro que os leigos se embananavam mesmo ppara executar tarefas simples e precisavam consultar especialistas, que viviam encastelados em CPDs – centros de processamento de dados – climatizados, comportando-se como vestais. Em uma entidade como o Hospital de Clínicas, havia um exército desses especialistas, eu era um deles.

Voltando ao ponto, os "terminais burros" de  letras verdes, que hoje somente podem ser vistos em filmes antigos de ficção científica, eram capazes de transmitir comandos específicos daquele tipo para um banco de dados situado no computador central, que devolvia a informação requerida na forma de texto para a tela do usuário, fosse o tempo de serviço de um enfermeiro ou o endereço de um paciente. 
Redatores de texto não estavam disponíveis nesses terminais, por isso ainda era necessário, em alguns casos, usar máquinas de escrever para redigir documentos. Havia microcomputadores, mas eram poucos e ultrapassados - graças de novo à lei de reserva de mercado -  e as impressoras além de poucas eram precárias. Impressoras “ a laser” eram vistas como um luxo desnecessário para um hospital público com escassos recursos financeiros – única coisa, diga-se, que permanece inalterada até hoje.

O modelo alternativo consistia em implantar uma rede de microcomputadores ligada ao computador de grande porte, que permitiria juntar o melhor dos dois mundos: acesso às informações do mainframe e capacidade de processamento local. Havia ainda vantagens adicionais como: flexibilidade na escolha dos microcomputadores, quer dizer, o fim do monopólio da IBM, maior quantidade e variedade de recursos disponíveis para os usuários e, “last but not least”, custos mais baixos a longo prazo.


Eu me alistei entre os defensores da segunda alternativa.

domingo, 22 de junho de 2014

Continuação. 124 de n.

Tratado de Tordesilhas?



Não, trajeto de nossas mudanças...

Continuação. 123 de n.

Conheci meu futuro local de trabalho antes mesmo de entrar em exercício no cargo. Durante o período de trânsito entre Brasília para Curitiba, de 30 dias,  tive uma violenta crise de asma e entrei pela primeira vez no Hospital de Clínicas/UFPR como paciente.
O pouco de fôlego que eu ainda tinha se acabou na subida da escadaria do prédio central, tive de ir até a sala de nebulização com a ajuda de uma cadeira de rodas. Isso nunca tinha acontecido comigo antes, nem depois, graças a D’us; acho que foi por causa do choque térmico, saímos de Brasília debaixo de um frio tremendo, chegou a fazer 16 graus naquele maio de 1992, a temperatura mais baixa registrada para o período até então. Pensei com meus botões: “Curitiba, não deve ser muito pior do que isso.”

Estava redondamente enganado.

Quando chegamos a média era 9 graus com chuva;  a umidade invadia tudo e as casas não têm, até hoje, sistema de calefação. Sofremos muito no começo. S tinha banzo, queria o tempo todo voltar para o Rio, eu tive asma e D, anemia. Era difícil, até na hora de dormir, debaixo das cobertas, quando a gente se mexia, encontrava o lençol gelado.
Ficamos, como disse, três longas semanas na casa da família O, que D’us os abençoe, até conseguirmos nos mudar para um apartamento de três quartos no bairro da Água Verde. O aluguel que era cobrado lá era igual ao do nosso antigo cubículo de quarto-e-sala em Brasília. Pudemos dar um quarto para Daniel e montar um escritório no quarto remanescente.

Mas não tínhamos visto nada, o inverno ainda nem tinha começado.

Com os anos, nos acostumamos, mas no começo era muito ruim, ter que tirar D do berço quentinho e levá-lo para a creche com a temperatura na casa de um grau. Quando fazia sol, era ainda mais frio, apesar de menos desagradável. Essa luta contra os elementos durou, naquele ano, até outubro, eu já nem acreditava que poderia sair de casa sem casaco de novo. Onde estaria aquela Curitiba que conheci no verão de 1980?

Acho que estou escrevendo sobre isso hoje, porque o inverno está recomeçando e o frio nos cerca por todos os lados, limitando nossos movimentos de novo. Ano passado nevou, depois 29 anos. Não foi uma neeeve, assim de encher a boca, mas dá para dizer que vimos neve  no Brasil. A previsão para esse ano é ainda mais gelada.

Acho que minha mãe deve estar estranhando a mudança, mas infelizmente ela já não consegue se expressar com clareza, sempre que lhe pergunto se está com frio, ela diz que não, apesar das mãos geladas. Comprei um lençol térmico para ela que, pelo menos, faz com que a noite não seja insuportável.

Andei pensando em me mudar para uma cidade com um clima mais ameno, mas agora as crianças estão grande e nossa liberdade de movimento é muito menor. Fizemos....quantas mesmo? Quatro, quatro mudanças desde então, duas delas continentais.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Continuação. 122 de n.

Curitiba era uma pequena e pacata capital de um próspero, mas pouco lembrado, estado do sul do Brasil, que teve a felicidade de crescer organizadamente a partir dos anos 90, justo no momento em que chegamos na cidade. Acompanhamos da nossa janela as mudanças por que passou, algumas boas, outras não, como em tudo na vida. No que importa – buscávamos tranquilidade e independência – ela nos atendeu com seu jeito frio e indiferente.
S nunca tinha estado na cidade, eu passara por aqui durante uma excursão, em um bonito dia de verão em 1980, e guardei uma boa impressão do que vi. Em 1992, a administração do urbanista Jaime Lerner implantou uma série de inovações que colocaram Curitiba no noticiário como a capital com a melhor qualidade de vida do Brasil; merecem ser lembrados: o jardim botânico, a rua 24 horas, as estações-tubo do ligeirinho, a ópera de arame e sei lá que outras. Isso tudo e mais a nossa necessidade de um lugar neutro para criar D, nos trouxe tão para o sul.
Não tínhamos, brrrr!, ideia do frio que iríamos enfrentar. Situada a mais de oitocentos metros de altitude, Curitiba é a capital mais fria do Brasil, muito mais fria do que Florianópolis ou Porto Alegre que, apesar de estarem mais ao sul, encontram-se no nível do mar. Além disso, é destinatária de toda umidade que sobe da Serra do Mar e se precipita bem aqui sobre nós; às vezes, ficamos quinze dias sem ver a cor do céu. O clima é tão errático que os curitibanos costumam dizer que passamos pelas quatro estações no mesmo dia. Eles estão certos.
Os curitibanos são tidos como pessoas de cara fechada; o que, claro, não é inteiramente verdade, muitas vezes, é fruto tão-somente de timidez, que compartilho e aprecio. A verdade é que a cidade foi povoada por distintas colônias de povos que conviviam mal nos seus países de origem: poloneses, alemães, italianos e judeus; ou que são naturalmente reservados como os japoneses.
Quando estive em Curitiba pela primeira vez, a cidade tinha uns trezentos mil habitantes, enquanto o Recife já tinha um milhão - a grande metrópole do sul era Porto Alegre - desde então, Curitiba se igualou a ambas, em população, e superou as duas em segurança, fluidez do trânsito e qualidade dos serviços públicos.
No frigir dos ovos, acho que fizemos a escolha certa. S, nasceria em Curitiba, 6 anos depois.


Nesta época de copa do mundo, consigo identificar quatro tipos de comportamentos, conforme as pessoas gostem ou não gostem de futebol, e gostem ou não gostem de pajelança, digo, festança. Há nuances em cada caso, naturalmente, mas acho que não fica mal descrever o quadro assim: há um grupo minoritário, no qual me incluo, que gosta de futebol, mas não da pajelança que o envolve, especialmente em uma copa jogada no Brasil. Há ainda os que não gostam nem de futebol, nem de pajelança, S está aqui e por causa disso foi acusada de falta de patriotismo por uma colega do Hospital de Clínicas. O grupo mais numeroso, certamente, é o das pessoas que não acompanham ou não gostam de futebol, mas adoram a farra nacionalista que se repete a cada quatro anos e, por fim, há o contingente, igualmente grande, dos que gostam das duas coisas. Copa após copa, minha turma vai minguando, junto com a perda de encanto do futebol, o que me aproxima mais e mais do grupo de S...

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Continuação. 121 de n.

Assisti ao jogo EUA X Gana com D que, depois de passar um ano na Pennsylvania, decidiu adotar o americano como seu segundo time.  No futebol, os ianques são "underdogs". Foi um jogo tenso, de limitada técnica. Com 30s de bola rolando, Dempsey fez um bonito gol para os americanos, que a partir daí, perseguidos pela sorte e por (mais) uma arbitragem leniente, começaram a sofrer sucessivas baixas no elenco: primeiro, Altidore com um estiramento na coxa, depois Dempsey, vítima de uma pernada desleal no rosto que o obrigou jogar com um algodão enfiado no nariz e, por fim, dois zagueiros contundidos, um deles substituído ainda no intervalo.
O time de Gana, favorecido pela sorte, foi tomando conta do jogo e só não conseguiu empatar mais cedo por preciosismo de seus jogadores e pela abnegação com que os americanos, acuados, se entregavam com gana, com o perdão do trocadilho, à defesa do magro 1X 0.
Finalmente, faltando uns 15 minutos para o fim da partida, saiu o gol de empate.
-Eles vão virar. - sentenciei.
Mal sabia que Sobrenatural de Almeida estava assistindo ao jogo em Natal.
A poucos minutos do apito final, em uma escaramuça perto da linha de fundo, um jogador ganense que protegia a bola, esperando por um tiro de meta, enrosca-se com um americano e tem a infelicidade de tocar por último na bola - com o calcanhar - e ceder o escanteio.
Tirando o gol relânpago, aquele escanteio foi o único lance agudo dos EUA em toda partida.
O escanteio é cobrado, e quem sobe sozinho para cabeçear e fazer o gol decisivo do jogo?
Ora quem? O zagueiro que entrou no intervalo.
Nu? EUA 2 X 1 Gana.

O futebol é fascinante, e esse lance é apenas mais um exemplo de muitos, porque é o único esporte que copia a vida e permite que o acaso, decida a parada a favor do mais fraco.
O que nos leva à tormetosa questão: estamos no comando de nossas vidas, como a cultura da auto-ajuda quer fazer crer?
Estou entre os que acham que não...

terça-feira, 17 de junho de 2014

Continuação. 120 de n.

Brasil x México

Foi um bom jogo. Truncado, parelho, um espetáculo mais de tensão que de beleza, como é a regra no futebol de hoje, para desalento e perplexidade de quem só assiste a jogos na Copa do Mundo e só se interessa pelo resultado.
É certo que  o goleiro do México, Ochoa, foi o melhor em campo, mas não sei se essa Seleção, sem a dose de confiança extra proporcionada por jogar em casa, iria muito longe em qualquer outro torneio.
Por enquanto é só uma intuição, mas temo pela integridade emocional desses rapazes, caso eles se vejam perdendo e não recebam uma mãozinha providencial da arbitragem;  cada um deles parece se ver como um heróis escolhido pelas Parcas para lavar a honra da Mãe-Pátria.
Ao contrário dos alemães que realizaram uma copa impecável em 2006 e se limitaram, com sucesso, a receber bem os estrangeiros, nós estamos oferecendo um copa precária, em lugares impróprios para a prática do esporte, quando menos pelo horário dos jogos, e fazemos questão de nos gabarmos de sermos os melhores, em uma mistura de recalque, megalomania e ignorâcia.

Com isso quero dizer que acho uma grande falta de educação cantar a horrível: "eu sô brasilêêêro, com muito orgulho, com muito amor" nas partidas de outras seleções.
Sem contar que é um música baixo-astral. Vai caind e caindo e caindo, até se afundar em um baixo irrecuperável:
"Eu
      Sô
           Brasilêêêro
                          Com..."

Orgulho de quê mesmo?
A propósito, a "hubris" é a semente da tragédia.

Até aqui, as duas jogadas que mais me chamaram atenção nesta copa não aconteceram em jogos do Brasil; ambas aconteceram nos últimos minutos das partidas,  a primeira sacralizou a honra, a segunda, o acaso.

No jogo Suíça e Equador, depois de um rebote da defesa, um jogador suíço dominou a bola na sua intermediária e começou uma arrancada improvável na direção do gol adversário. Eis que na altura do meio de campo sofreu uma falta mais frequente no rugby do que no futebol. Todos os jogadores não abençoados com o dom do heroísmo, rolariam pelo gramado aguardando pelo apito final, mas não o nosso suíço, ele se levantou como um raio e continuou sua corrida rumo à memória perpétua do futebol.
Deu mais uns passos com abola,  tocou na esquerda para um companheiro que cruzou para um terceiro fazer o gol decisivo.
Ninguém se lembrará no futuro do segundo gol do Brasil contra a Croácia, o feito de Mehrani, porém, deveria ser ensinado nas escolas;
- Veja como deve se comportar um homem, meu filho!

Depois falo sobre o segundo gol dos EUA no jogo contra Gana, agora, estou quase bateria.
     

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Continuação. 119 de n.

Antes que me esqueça, meus netos, deixe-me registrar para vocês alguns descalabros perpetrados pela FIFA no século XX, se é que ainda vai haver futebol e federações quando vocês lerem essas anotações tão avulsas quanto inúteis.
Não, não vou tratar de erros de arbitragem, que sempre podem ser atribuídos à falibilidade humana, mas sim às intervenções da cúpula do futebol e de governos nos resultados das copas, seja por ação direta, seja por omissão criminosa.
Em 1962, o maior jogador do Brasil naquela copa, Mané Garrinha, foi expulso na semifinal contra o Chile e, apesar de ser proibido o jogador expulso atuar na partida seguinte, a FIFA em conluio com a CBD (antecessora da CBF) absolveu o gênio das pernas tortas a tempo de ele jogar a final. Resultado: Brasil bicampeão do mundo. “A copa do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa...”.
Já em 1978, foi a vez de a Argentina ser beneficiada pelo regulamento da FIFA, que lhe permitia jogar por último em cada rodada, sabendo, de antemão, dos resultados dos adversários e, assim, de quantos gols precisava para se classificar. Na última partida antes da final, a AFA (a CBF argentina) comprou meia seleção do Peru e lhe aplicou uma extravagante goleada de 6 a 0, classificando-se, claro, para a decisão.
Vocês me perguntam se a FIFA promoveu alguma investigação para apurar a possibilidade de ter havido favorecimento ao time da casa?
Não, meus pequenos, de um lado havia a ditadura militar argentina, que só terminou depois de levar o pais a derrota militar vergonhosa diante dos britânicos nas Ilhas Falklands, e, do outro, a FIFA, então sob o comando do belga-brasileiro João Havelange.
Era impossível um investigação honesta vir a ser conduzida por promotores tão suspeitos. Resultado: Argentina, enfim, campeã do mundo.

Um breve parêntese: na época, quando se perguntava aos argentinos por que, mesmo tendo revelado tantos grandes jogadores para o futebol mundial, o país nunca tinha sido campeão mundial, os hermanos faziam troça e respondiam: “se você tem um argentino no time, você tem um bom time; se você tem dois argentinos em um time, você tem um grande time; mas se você põe três argentinos em um time, aí você não tem mais time nenhum”.
Fillol, Ardiles, Kempes, Passarela e Tarantini, comandados por César Menotti e sob as bênçãos do General Videla e de João Havelange quebraram a maldição, sacrificando a liisura..


Para não falar da até hoje inexplicada e conveniente convulsão de Ronaldo Nazário na véspera da final de 1998, contra a França em Paris que conferiu aos fundadores da FIFA seu primeiro título mundial.

domingo, 15 de junho de 2014

Continuação. 118 de n.

B’H

A viagem

Saímos de Brasília mais tarde do que eu gostaria. Com criança pequena sempre há muitos detalhes a serem verificados: mamadeira, fraldas, paninhos, muda de roupas; e problemas de última hora a serem resolvidos: "fez cocô? mas agora? Troca a fralda...". 
Despachamos nossas poucas coisas de caminhão e seguimos de Brasília para Curitiba de Chevette. Assim foi o nosso êxodo.
Pagamos tudo com nosso próprio dinheiro, como não se tratava de uma movimentação de ofício, não recebemos qualquer auxílio da Administração Pública para a mudança. 

Eu nunca tinha dirigido tanto na minha vida. 

D. tinha nove meses, ainda mamava, e costumava dormir com o balanço do carro. Isso foi um alívio, que tornou a viagem menos difícil. Parávamos a cada três horas, para eu esticar as pernas, ir ao banheiro e descansar alguns minutos; mesmo assim, quando chegamos a S. José do Rio Preto, no noroeste de São Paulo, sonhei com a estrada.
Chegamos de tardezinha, a cidade é muito ajeitadinha, passamos na frente, vejam só, de uma clínica especializada em cirurgia de mãos! Nada mal para uma cidade do interior em 1992. Achamos um hotel moderno e confortável e pernoitamos nele.

“So far, so good”.

No dia seguinte, saímos mais tarde do que eu gostaria, de novo. Decidimos evitar as auto-estradas que iam até a capital, para fugir da péssima estrada que ligava (e ainda liga e ainda é péssima) São Paulo a Curitiba: a Régis Bitencourt, conhecida como "Rodovia da morte", com seu intensíssimo tráfego de caminhoneiros zumbis.

Por indicação do ex-pediatra de D, em Brasília cortamos caminho pelo interior de São Paulo e entramos no Paraná por Jacarezinho, no chamado "Norte Pioneiro", região mais atrasado do estado e por isso mesmo, com menor movimento de caminhões.
No meio do caminho, o indicador de temperatura do motor do Chevette começou a subir. Parei em um posto perto de José Bonifácio-SP, e completei o radiador, a situação melhorou um pouco, mas voltou a piorar. Não tínhamos alternativa; decidimos entrar em Marília-SP, uma cidade de porte razoável, e procurar uma oficina mecânica.
Graças a D’us tivemos muita sorte. Paramos em um posto de gasolina, que nos indicou uma oficina próxima. O dono da oficina que nos atendeu, era um senhor de meia idade que identificou o problema na hora:

- Precisa trocar a bomba d’água. Vou ver se tenho uma de chevette.

Enquanto ele procurava, o dia ia ficando mais quente, e a espera parecia durar uma eternidade. Na verdade, já passei por muitas eternidades assim, acho que o inferno dos ansiosos. Finalmente, ele voltou e disse:

- Não tenho, vou ter que pedir.

Que escolha nós tínhamos? Nenhuma, a não ser esperar. Passando bastante do meio-dia, a bomba finalmente chegou. Até aquele momento, só quem tinha almoçado era D...

Enquanto esperávamos, o dono da oficina aproveitou para filosofar:

-Às vezes, um atraso é bom, quem sabe o que vem pela frente?

Ele não sabia (e nem eu), mas ele acabara de verbalizar o conceito do “Gam zu le tovah”. Não sei de que transtornos escapamos, Baruch HaShem, mas encarar as coisas naqueles termos, na época, me ajudou a relaxar. Falamos ainda sobre a política, sobre a excessiva carga tributária do Brasil e resolvemos vários problemas que afligem o Conselho de Segurança da ONU. Finalmente a bomba chegou, foi trocada, eu paguei com cheque, nos despedimos e tudo correu bem dali em diante, Não sei como me recordo de tantos detalhes, sei apenas que hoje eu estou na meia idade...  

Quando saímos da oficina, já passava das duas da tarde, estávamos azuis de fome, almoçamos em Marília mesmo, mas não lembro onde, nem o quê. Pegamos a estrada de novo e depois de mais uma eternidade, chegamos ao Paraná,  fomos recebidos por uma patrulha da polícia rodoviária que nos abordou para dar dicas de segurança, aquilo pareceu o máximo para nós; a cara de um Brasil civilizado, com o qual nós não estávamos acostumados. Não sei se continua assim até hoje, acho que piorou.

Por causa do atraso em São Paulo, a noite nos apanhou ainda no norte do Paraná, lembro que pensei em esticar a jornada, mas S, insistiu que parássemos na primeira cidade que aparecesse e assim ficamos conhecendo Wenceslau Braz, cidade do Norrrte com o nome de um esquecido ex-presidente da República.

Encontramos um hotel moderno e bonito, como o de S. José, mas, para nosso desconsolo, estava lotado. Havia uma convenção de corretores imobiliários na cidade justamente naquele dia! Restou-nos ir para uma pensão, feia e mofada. De novo, não tínhamos alternativa: era aquilo ou a estrada. Decidimos ficar.

Eu estava exausto, e D. que dormira a viagem toda, justo naquela hora, estava super aceso, queria engatinhar pelo tapete mofado, ralhei com ele, que começou a chorar, não lembro do desfecho agora, acho que S passou a noite em claro brincando com o pestinha, quanto a mim, cai na cama e dormi como uma pedra, sonhei com linhas brancas ora contínuas, ora tracejadas...

Continuação. 117 de n.

Eu gosto de futebol. 
Gosto de assistir e de jogar. Nunca fui um craque, mas também não era perna-de-pau, mais de uma vez surpreendi companheiros e adversários que, com razão, me subestimaram.
- E não é que o cdf, quatro-olho sabe jogar bola?
Devo ter feito uma meia dúzia de jogadas realmente boas durante vida toda e fiz um único golaço, mas tudo isso foi no século passado, claro.

A copa do mundo do Brasil me deu um motivo para um minuto de pausa para reflexão. 

O país inteiro foi dispensado do serviço e, exceto os que não gostam de futebol, todo mundo se aboletou diante das telas de TV, para assistir ao jogo do Brasil.

O já esperado espetáculo do hino cantado à capela, emocionou milhões: os jogadores, o seleto público, narradores, comentaristas, repórteres, entrevistados.

Eu não me emocionei.

Para que não me tomem por insensível, confesso que até bem recentemente eu me arrepiava quando assistia a vídeo-tapes da copa de 70. Mas, confesso, que não senti nada quando jogadores e plateia continuaram a berrar: “ó pátria amada! Idolatrada! Salve! Salve!...Pátria amada! Brasil!!!”. Pareceu-me pura demonstração de chauvinismo.

Por que confundir o caríssimo e, sabemos todos, desonesto  evento comercial-esportivo com a pátria? Por quê?
Pior, por que, no Brasil, essa abstração só se manifesta de quatro em quatro anos a reboque do circo da FIFA? (Afora, claro, as paradas militares de sete de setembro que ano após ano murcham por falta de verbas, mas não é melhor assim?)
Como é que funciona no resto do mundo?

Não sei as respostas, mas gosto de especular, como sabem.

O que significa pátria, hoje em dia? E patriotismo? É saudável ser patriota, ou apenas "o último reduto dos canalhas"? 

Não seria o patriotismo um tipo peculiar de afinidade com o jeito de ser das gentes que brota sem que se possa dizer como?  Ou, ao contrário, seria algo a ser inculcado? 

Acho que ambas as coisas, e justamente por isso, esse sentimento, o patriotismo, tanto pode ser retribuído, tornando-se autêntico, ou repudiado, justa ou injustamente. Neste último caso, ao apátrida cabe acomodar-se, rebelar-se ou pegar o seu matulão e mudar de paragens.

No novo destino, porém, a história irá se repetir, posso falar com a experiência de quem mudou muitas vezes de lugar e nunca se sentiu propriamente em casa.

Esse sentimento de ternura pode se manifestar diante de uma comida – bolo de rolo, no meu caso -, ou de uma paisagem, uma canção e, por que não?, de um esporte.

Então, acho que é certamente melhor, sentir um arrepio na espinha ao ver uma jogada genial, como o quarto gol do capitão Carlos Alberto na final contra a Itália no estádio Asteca, do que em uma parada de passo-de-ganso.

O que teria mudado, então, para que a copa do mundo da FIFA se tornasse indiferente para mim?

Começa com o próprio nome, antigamente era só Copa do Mundo. O fato de hoje ser qualquer coisa FIFA - poderia ser copa do mundo Allianz-FIFA, ou copa do mundo Sony-FIFA - começa a explicar meu desencanto.
Para ir direto ao assuntode uns tempos pra cá, o aspecto comercial do negócio passou a sobrepujar tanto o esportivo que os torneios se tornaram tão emocionantes quanto uma feira de gado nelore ou de equipamentos agrícolas. Não, não sou ingênuo de pensar que “no meu tempo” as copas era organizadas e jogadas apenas por amor. Mas deve haver em tudo um "modus in rebus", sempre.

Há muitas histórias sinistras na História das Copas, sobre as quais, talvez, eu fale mais adiante, mas o espetáculo, na minha opinião, até muito recentemente ainda preponderava, havia algo de ingênuo, de improvisado, de amador, como deve ser, enfim, uma atividade lúdica, mas que é insustentável em um negócio.
Hoje eu me divirto mais assistindo aos piores momentos do campeonato australiano - a ruindade dos branquelos semi-profissionais é realmente hilária - do que a maior parte dos jogos a vera organizados por dona FIFA, com seus árbitros e professores. 

Ninguém pode se surpreender com o resultado do envolvimento das grandes corporações no negócio. O futebol, nessas condições, é um produto que deve maximizar a satisfação do público, ainda que ao custo de ser adocicado, e, se necessário, passando por cima da lisura do resultado. Por isso Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique tentam conquistar novos torcedores na  China, por isso entre uma final de campeonato continental em que participava o Goiás, um clube médio, com prestigio apenas em seu estado, e uma partida sem importância do Curíntia, a Rede Globo transmite a segunda para todo país.

Eis as razão da quebra do encanto. Eu não canto o hino nacional quando compro um iogurte Nestlé, porque deveria antes de uma partida de futebol?

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Em tempo, a FIFA pagou impostos na Alemanha, no Japão, na Coréia do Sul e na África do Sul, mas não no Brasil, onde foi agraciada com uma isenção total de tributos. Dizem que esse é o preço da 6ª. estrela. Por que duvidar? Afinal, os sujeitos aceitam e pagam propinas para escolher as sedes, aceitam e pagam propinas ao vistorias os estádio, por que pensar que, em determinado momento, iriam dizer: "receber dinheiro para escolher a sede tudo bem, mas mexer no resultado? Isso não! Isso é sagrado para nós!".

E outra coisa, o não-pênalti apitado pelo árbitro japonês em cima de Fred foi escandaloso e isso me pôs diante de outra perplexidade: ouvi muita gente dizer: “não foi pênalti, mas...”.
Hã?! 
Como: “mas...”?
As mesmas pessoas que, sou capaz de apostar, certamente criticariam a corrupção, o tráfico de drogas ou a exploração de menores, com a maior desfaçatez dizem: “não foi pênalti, mas...”.
Essa lógica, talvez não percebam, é a mesma do clássico: “rouba, mas faz”. 
Prefiro não ganhar assim, o que me afasta ainda mais do futebol, como é produzido hoje em dia.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Continuação. 116 de n.

Por que Curitiba? 

Não é difícil, mas é doloroso, explicar os motivos 20 anos depois. 
Acontece que S é judia e eu não, ou, pelo menos, achava que não era. 
Resultado: nosso casamento nunca foi aceito por Sansão, o que bastava para o excluir o Rio de Janeiro de nossos planos. Por outro lado, minha mãe e S nunca se deram bem, por culpa, é preciso reconhecer, de minha “yidiche mame”, por esse motivo o Recife também estava descartado. 
Não podíamos permanecer em Brasília, afinal desistir do Sarah significou abrir mão de qualquer esperança de melhoria salarial e, mais grave do que isso, ver nossos salários serem esmagados pela inflação e pelo custo de vida da capital. 


Precisávamos achar um lugar para ir. 


Conhecemos muitos paranaenses no Sarah que prestaram o concurso motivados pela promessa de que seria construído um hospital em Curitiba.  Como já antecipei isso em outro post, os locais que receberiam hospitais da futura rede Sarah – na verdade, já havia hospitais em BH e no Rio mesmo antes da aprovação da Lei nº 8.246/91 – foram escolhidos para atender aos interesses políticos dos padrinhos de Campos da Paz: Sarney e ACM, e, de um novo amigo de conveniência,  o ministro da Saúde de Collor de Mello, Alceni Guerra, ex-prefeito de Pato Branco-PR. 

Objetivamente, a história foi a seguinte: um colega farmacêutico, O, nos colocou em contato com o Dr. Osmar Martins, diretor do Hospital de Clínicas da UFPR, que aceitou nossos pedidos de redistribuição e, assim, viemos morar na cidade dos pinhões*

Subjetivamente, ainda é muito cedo para avaliar.

 
* Para quem não sabe, a palavra Curitiba, vem de Corê-Etuba que significa pinhal, ou muito pinhão em tupi-guarani.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Continuação. 115 de n.

Quando eu pensava que já tinha esgotado o assunto Sarah Kubitschek neste minúsculo espaço virtual, eis que dois fatos não digitais me obrigam a escrever um epílogo.

Na última página da revista Veja desta semana, na coluna de Roberto Pompeu de Toledo, há uma matéria laudatória sobre Lúcia Braga, ao que parece a herdeira do Dr. Campos da Paz no Sarah. Refratário aos médicos, Campos, agora recolhido a uma espécie de Papado Emérito, ungiu uma baronesa como sua sucessora.

Lucinha entrou no hospital como musicóloga, depois chefiou o setor de Psicologia, foi chefe imediata de S, e chegou mesmo a tentar convencê-la a permanecer no Hospital. S gostava dela, mas eu não suportava mais a convivência com o entourage de Campos da Paz e tinha certeza que não havia possibilidade de uma solução híbrida, com Sarah, no Hospital e eu em outro lugar em Brasília. Certamente, ela seria demitida em represália, este era o estilo do Campos, este é o estilo de Brasília.

Eu gostava de Roberto Pompeu de Toledo, é um cronista de grande talento, o preferido de 9 entre 10 bancas de vestibular, assino a revista porque S vai fazer vestibular este ano. Em mais de uma ocasião, eu o vi criticar os grande males da política brasileira representados pelo o patrimonialismo, pelo coronelismo, pela falta de zelo com a coisa pública etc. 

A figura quintessencial desses males, Toledo já salientou em uma ou outra crônica, é o ex-presidente José Sarney, mas ele poderia igualmente ter-se referido a ACM, ou Jáder Barbalho.

Depois de ler a coluna desta semana, fiquei pensando com meus botões será que ele sabe que Sarney é um dos padrinhos de Campos da Paz? 

Será que ele sabe que há um hospital Sarah em São Luís, em homenagem a Sarney? E que há outro em Salvador, em reverência a ACM? Que haveria um em Curitiba – e, em parte, por isso nós estamos aqui hoje – em atenção ao ex-ministro da saúde, o paranaense Alceni Guerra? Em tempo, Alceni caiu em desgraça e o projeto do Sarah-Curitiba foi para a geladeira.

O próprio motivo pelo qual ele escreve sobre Lucinha é porque ela teria recusado uma proposta milionária para criar um hospital à Sarah no Catar. Isso não me surpreende tanto, pois todos sabemos que a vida não é fácil para uma mulher em um país islâmico, mesmo sendo uma convidada de honra de uma das esposas do xeque absolutista que governa o emirado.

O que  mais me chamou atenção, foi saber que os contatos entre o Sarah e o Islã, desde os tempos em que a representação diplomática do Irã, visitou o laboratório de movimento onde eu trabalhava, persiste duas décadas depois.

Por quê?

Não sei a resposta, mas não me parece nada edificante.

O segundo fato real que me levou a escrever este epílogo, foi ter me metido involuntariamente no meio de uma manifestação contra a implantação do modelo Sarah no Hospital de Clínicas da UFPR.

Diante da resistência da comunidade acadêmica à ideia, como contei no post anterior, mas pressionado pelo Ministério da Educação ou será o da Saúde, não importa, o diretor do HC, em tempo relâmpago, marcou uma reunião surpresa do conselho universitário para tratar do assunto, imaginem, na sede dos Correios!

Acontece que a notícia vazou, o local da reunião, foi descoberto e uma massa de manifestantes se aboletou na porta dos sede dos Correios na Rua João Negrão, por onde eu tenho de passar todos os dias para chegar à Delegacia de Julgamento.


O Sarah me persegue, pensei...

domingo, 8 de junho de 2014

Continuação. 114 de n.

Para provar que eu não estava mentindo.

A dialética marxista permite defender uma tese e o seu contrário, sempre que no entender dos guias iluminados do partido, isso seja conveniente para fazer avançar o processo revolucionário.
Não existe essa coisa chamada de moral burguesa.

Agora o modelo do Sarah é defendido pelo partido do poder, que enfrenta resistências dentro das próprias hostes esquerdistas. Os opositores não alcançaram o aspecto positivo do modelo: permitir ao partido gerir recursos públicos, livres das amarras da fiscalização pública criada pela democracia burguesa.

Vejam só:


Comunidade da UFPR barra privatização do HC em sessão do Conselho Universitário

Publicado: junho 5, 2014 em Sem categoria
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A retirada de 17 conselheiros – três docentes, cinco técnicos administrativos e nove estudantes – foi o real motivo para a não realização da sessão do Conselho Universitário (COUN) da UFPR, convocada para ontem, terça-feira (4), no prédio da Procuradoria Federal do Ministério Público (Marechal Deodoro).
A saída desses integrantes da comunidade universitária inviabilizou a sessão, já que não houve quórum mínimo necessário, mesmo com a presença de 45 conselheiros, que já haviam entrado no prédio antes do início do protesto da comunidade universitária.
A reunião, convocada pelo reitor Zaki Akel Sobrinho, tinha como pauta a votação da proposta da Reitoria, de adesão à EBSERH – Empresa Brasileira de Serviços Hospitares. Se aprovada, a Empresa assumiria a gestão do Hospital de Clínicas.
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A ebserh é a instituição copiada do modelo do Sarah que deve, mais dia, menos dia, assumir o controle de todos os hospitais universitários federais do país.

A propósito, está marcado para amanhã um ato público contra a "privatização" do Sarah, digo, do HC/UFPR...

Continuação. 113 de n.

Curitiba

Nunca poderemos ser suficientemente gratos à família O, que nos acolheu em sua própria casa, no bairro das Mercês, quando chegamos em Curitiba.
M. tinha sido colega de quarto de S em Brasília. 
Paranaense, ela já tinha desistido do Sarah e voltado para Curitiba antes de a Lei n. 8.248/91 ter sido aprovada. Quando soube que nós seríamos distribuídos para Curitiba, convidou a S, a mim e ao pequeno D, então com 9 meses, a ficar na casa de sua família, até encontrarmos um apartamento para alugar. 
O que era para ser uma estada de dois ou três dias, para nosso desconforto, durou três semanas. Apesar de os aluguéis em Curitiba serem baratos, quando comparados com os de Brasília, faltava-nos um fiador.
Finalmente, o marido de outra ex-colega do Sarah, que também não esperara pelas peripécias do Dr. Campos da Paz e voltara ainda antes para Curitiba, mesmo sem nos conhecer, aceitou noos afiançar.
D, que tem o mesmo nome que o nosso D., é um grande empresário em São  José dos  Pinhais, cidade da região metropolitana de Curitiba e para com ele também temos uma eterna dívida de gratidão.

Mas, antes de continuar a história, cabe uma pergunta: por que Curitiba? O que um pernambucano, uma carioca e um pequeno brasiliense, sem qualquer experiência anterior com o frio, vieram fazer nessa cidade remota, desconhecida, arredia e nevoenta?

Antes de continuar precisaremos voltar um pouco mais no tempo.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Continuação. 112 de n.

Isabelle Huppert continua bonita aos 60 anos; imagino que faça ióga, isso explicaria muito de sua brilhante interpretação em “Uma relação delicada” (“Abus de faiblesse”). O filme é tipicamente francês, logo, não é programa para quem não quer perder duas horas em uma sala de cinema.
La Huppert interpreta uma diretora de cinema que sofre um AVC e fica hemiplégica, Durante o seu processo de recuperação assiste a uma entrevista na TV com um desses escroques que de tempos em tempos – depois de sair da cadeia – escrevem livros contando suas aventuras e ganham notoriedade tão grande, quanto passageira.
“Eu quero ele no meu próximo filme!”, diz para seu assistente, que consegue marcar uma entrevista da patroa com o pilantra.
O sujeito diz que concorda em atuar se gostar do roteiro, a diretora então faz um resumo, mais ou menos nos seguintes termos:
“É a história de uma artista de cinema perseguida por paparazzi, que vai morar com o namorado no minúsculo apartamento dele. Eles brigam, ela entra no banheiro enquanto ele toma banho, ele bate com a cabeça dela e espalha sangue nos azulejos e nos ladrilhos. Ela se deita em uma mesa e o desafia: ‘acabe o que você começou’. Ele a mata. Os paparazzi passam a segui-lo.”

Pensei com meus botões: por que os franceses – e por intermédio deles muitos outros inclusive nós – nutrem tamanha fascinação pelo sórdido?
Enquanto o filme corria monótono, não pude deixar de pensar na comédia americana “A família” (“The Family”) com Robert de Niro e Miichelle Pfeifer que faz uma gozação, muito justa, na minha opinião, com as predileções e cacoetes franceses, vistos pela perspectiva americana, que, confesso, eu compartilho.
Em “A Família”, De Niro faz o papel de um ex-capo da Máfia que delatou seus antigos comparsas à Justiça e por isso precisa viver escondido pelo programa de proteção de testemunhas da polícia. Para ficar bem longe de NY, ele vai morar no interior da França – “La France profonde” – com a família: La Pfeiffer e um casal de filhos. O filme explora, então, de modo debochado, as diferenças culturais entre americanos e franceses.
O ponto mais divertido é quando o capo é convidado a participar de um programa muito comum na França: assistir a um filme e participar de um debate depois da sessão. Contrariando a recomendação do policial responsável pela sua segurança ele aceita o convite. E qual é o filme naquela noite?
“Scarface”
Na segunda parte do programa, o responsável pelo evento, concede ao visitante estrangeiro o privilégio de abrir os debates. O mafioso americano deita e rola, conta sua história pessoal, sórdida naturalmente, para uma plateia de fascinados franceses.

“Si c’est méchant, c’est beau” parece ser o lema dos gauleses.

Depois do filme, contei exatamente o que estou escrevendo aqui para S e acrescentei: “acho que como vivem profundamente reprimidos pelo ‘politicamente correto’, os franceses de hoje em dia, transferem suas perversões para esse tipo de arte.”

Não se passou nem uma semana e o escritor português João Pereira Coutinho parece me dar razão. Olhem o que ele escreveu em sua coluna semanal na Folha de São Paulo:
“(...) é o mundo da União Europeia com seus regulamentos absurdos e suas absurdas intromissões na liberdade individual – a respeito do sal, gorduras, açúcares, bebidas energéticas, exercício físico, exposição solar e qualquer manifestação de vida que seja um desvio da cartilha dos fanáticos”.


Tudo bem, tudo isso é sociologia de botequim, ou de blog, mas não recomendo a ninguém assistir ao filme de Mme. Huppert.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Continuação. 111 de n.

Lembrei de mais duas coisas a respeito do filme Getúlio, uma boa e uma ruim.
Primeiro a ruim.
Já havia dito que o filme é ridiculamente esquemático, mas não expliquei o porquê, para fazê-lo preciso falar de uma  série de TV exibida pela Rede Globo uns cinco anos atrás chamada "Som e Fúria", inspirada em uma congênere canadense: "Slings and Arrows". As duas giram em torno da obra de Shakespeare.
Talvez eu fale mais a respeito delas aqui qualquer dia desses.
Por ora, é suficiente dizer que em um dos episódio, o diretor de teatro louco propôs que a atriz que interpretava Lady MacBeth (Andrea Beltrão), em cena, desse um banho no seu marido (Daniel Dantas). A ideia por trás do disparate era mostrar o "lado humano" de MacBeth.
No Filme Getúlio, o recurso original escolhido pelo diretor do filme para humanizar o ex-presidente foi... fazer Tony Ramos tomar banho.

Agora a boa.
O filme exibe discretamente a corrupção da "famiglia" Vargas: as aventuras italianas de um dos filhos do ex-presidente, e, em particular, uma fala na qual Getúlio desabafa com Alzirinha que nos quinze anos em que esteve no poder, muita gente lhe pediu favores, nunca pelo bem do país.
Ok, eles foram honestos, mas será que perceberam que foi uma confissão de culpa do ex-presidente?

Amanhã, pretendo falar, se sair cedo do jantar de Shavuot, falar sobre o filme francês: "Uma relação delicada" ("Abus de faiblesse") um filme aborrecidamente francês, com Mme. Isabelle Huppert.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Continuação. 110 de n.

Uma pausa para uma ligeira crítica cinematográfica

Para um filme chapa-branca “Getúlio” não é ruim.
É relativamente contido nos elogios a Vargas e não demoniza, além do esperado, a UDN e Carlos Lacerda. A produção é conservadora, não se arrisca na ficção, permanece o tempo todo com os dois pés firmemente fincados na verdade oficial. Os atores não param de recitar manchetes.
Sua principal derrapagem é involuntária e, por isso mesmo, engraçada e sintomática.
Logo no início do filme, o diretor faz um inventário de realizações do protagonista: industrialização, direitos trabalhistas e, claro, Petrobras, uma das patrocinadora do filme... Logo em seguida, ouve-se a voz de Tony Ramos – excelente na caracterização do ex-presidente – dizer: “não me arrependo de nada, tudo que fiz foi para o bem do povo”, talvez não exatamente com essas palavras.
A ideia era louvar a grandeza da figura histórica de Getúlio Vargas, ironicamente, contudo, boa parte das “conquistas” arroladas pelos roteiristas e produtores, certamente todos homens e mulheres progressistas, foram fruto da fase fascista de Vargas.
O equívoco é fruto de ignorância combinada com automatismo, elementos corriqueiros do pensamento de esquerda no Brasil contemporâneo. Posso até adivinhar o esquema que produziu a abertura do filme:  “tudo que é voltado para o povo, é de esquerda”, e, como corolário, “se é de direita, é contra o povo”.

Nada mais falso.

Entre 1930 e 1945, quando cunhou o bordão: ‘trabalhadoooores do Brasillll...”, Vargas era um perfeito caudilho fascista, como seus pares da Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Hungria ou Argentina. Todos eles adotaram medidas populistas de defesa dos trabalhadores que lhes granjeou enorme e genuína popularidade.

O fascismo, porém, conforme se ensina nas escolas, situa-se na extrema direita do espectro político.

Como é possível, então, o Vargas fascista ter sido, ao mesmo tempo, de extrema-direita e a favor do povo? O filme, é claro, não enverada por estrada tão tortuosa, afinal é  show biz, apesar de por aqui nós confundirmos entretenimento com cultura.

Pessoalmente, prefiro a classificação proposta por Friedrich von Hayek, para quem a velha distinção entre “gauche” e “droite” não corresponde à realidade política dos séculos XX e XXI. Durante a segunda guerra mundial, afirma o economista austríaco, foi necessário acomodar Stalin na aliança que derrotou os nazistas, apesar das profundas diferenças entre o comunismo soviético e a democracia representativa ocidental. E, mais do que isso, das inúmeras semelhanças entre o nacional-socialismo alemão e o bolchevismo russo – de fato, no início da guerra, Hitler e Stalin firmaram um pacto de não agressão, e, na ocasião, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Joachim von Ribentrop, em visita oficial a Moscou disse que se sentia tão confortável entre os camaradas comunistas, como se estivesse no meio dos nazistas da velha guarda.
Von Hayek propõe então um novo corte metodológico: de um lado, ele diz, estariam os intervencionistas, esses acreditam que o estado deve se imiscuir na vida dos cidadãos para protegê-los e dar-lhes uma vida melhor, enquanto no outro extremo, ficariam os não-intervencionistas que não acreditam em contos de fadas.

domingo, 1 de junho de 2014

Monteiro-Sate College



Continuação. 109 de n.


B’H

Permanecer ou deixar o Sarah era também uma questão moral.

Não há como negar – e isso já ficou dito antes – que nossa primeira preocupação era manter nossos empregos, o que pode não parecer lá  muito meritório, mas não deixa de ser compreensível, quando lembramos que a economia brasileira, em 1992, estava assolada por inflação e desemprego crônicos.

Mas havia também uma discordância moral profunda e surda relacionada com o ambiente de trabalho no hospital. Na época, não saberia conceitua-la. Hoje, eu diria que que o que nos incomodava no Sarah era o velho cancro patrimonialista da administração pública brasileira, um patrimonialismo generoso, reconheço, mas ainda assim patrimonialismo.

De acordo com ao projeto chancelado pelo Legislativo, os donos do hospital ofereceriam serviços gratuitos, custeados, é claro, pelo Erário,  em troca de completa liberdade de gestão, fiscalizados apenas pelo TCU. [Risos.]

Colocando a questão nesses termos, pode parecer que estou querendo me gabar, não acho que esteja, porque, no frigir dos ovos, era algo além de minha escolha ou de S, logo, não se pode dizer que sejamos dignos de algum mérito quanto a isso.

No meu caso, acho até que é atávico. Já conto a história. Durante minha viagem a Monteiro, conheci uma prima, M, que logo em seguida, no carnaval deste ano, veio passear em Curitiba e se encontrou comigo, S, D e S.

M também se tornou minha amiga no Facebook. Dei uma olhada na página dela na internet e lá havia uma recomendação para assistir a um vídeo do Conselho Regional de Medicina da Paraíba.

O objetivo do vídeo, assim como o deste blog, é preservar a memória dos médicos paraibanos. O pai de M é médico e primo de meu avô, Oscar Feitosa Neves, infelizmente não o conheci pessoalmente quando estive em Monteiro, a  história dele é muito bonita e eu me permito resumi-la aqui, porque me ajuda, vejam só, a explicar nossa escolha de 1992.

Ele conta que perdeu o pai bem cedo, porque não havia por perto quem soubesse fazer uma sangria, decidiu, então, ainda criança, fazer medicina; foi para o Recife, estudou no colégio Salesiano, passou no vestibular e realizou seu sonho. Depois de formado, decidiu voltar para o interior da Paraíba e, a despeito de convites para ingressar na política, estabeleceu-se como o único médio de Sumé, cidade vizinha a Monteiro. A ausência de recursos humanos na época  era tamanha que ele teve que ensinar as moças mais jeitosas do lugar os rudimentos da enfermagem. Atendia gente de toda região, fazia muitos partos, inclusive um raríssimo parto de trigêmeos naturais.

Casou-se, sua esposa engravidou e ele decidiu fazer o parto lá mesmo no interior da Paraíba, porque considerou que não era correto fazer diferente.  Suas 3 filhas nasceram no mesmo lugar onde ele atendia suas pacientes.

É a isso que me refiro. Não era correto ficar no Sarah. Ponto.

Muito mais recentemente, D passou um ano nos EUA, seu primeiro contato no exterior foi com a Universidade do Estado da Pensilvânia, uma universidade excelente, mas graças ao seu “score” no TOEFL talvez  pudesse ir para  outra escola ainda mais renomada. Como havia dado  sua palavra à PSU...

É genético e é também uma Mitzvah!

Continuação. 108 de n.

Foi difícil decidir, em 1992, se nós ficaríamos no Sarah ou se deixaríamos o hospital, até por que a segunda hipótese implicava uma nova questão: ir para onde?
Se permanecêssemos, teríamos assegurados um salário bom para uma cidade cara e uma promessa - eis o primeiro ponto problemático - de que não passaríamos por um novo achatamento agora que o hospital era, de novo, um baronato do Doutor Campos.
Qual era o problema? O ponto é que sempre fui avesso a bajulação, a "amostragem", como se diz na minha terra. Como explicar o que é amostragem? Exibicionismo, vaidade, fatuidade, tudo,que que faz o mundinho de Brasilia girar.
 Sim, porque, no Hospital Sarah Kubitschek, por trás de todo discurso populista sobe "atendimento público, gratuito e de qualidade", o que imperava, para os empregados, era uma administração ao mesmo tempo tirânica e fútil.
Tirânica, porque se imiscuía na vida particular dos empregados, sob pretexto de verificar se o compromisso da “dedicação exclusiva” estava sendo obedecido. Fútil, porque muitas vezes essas exigências visavam apenas mostrar quem estava no comando.
Pior , além de fútil, falsa e submissa às vontades dos poderosos da corte; certa ocasião, uma parente do ex-presidente Sarney quebrou a perna, o hospital mobilizou céus e terras para atendê-la prontamente. Filas foram furadas, médicos convocados fora do horário de plantão, tudo para atender, gratuitamente, “la famiglia”.
Subserviente e solícito para com os políticos, exigente e insensível para com os subordinados, com exceção, claro, dos puxa-sacos mais desinibidos e dedicados, eis a receita de administração Campos da Paz;  e, por uma questão de justiça. devo dizer que, tão ruins são os demais hospitais públicos e tão difícil é a vida em Brasília para os que, como nós, não participam de uma panela, que tudo somado e subtraído, de fato, o Sarah é um dos melhores hospitais públicos do país.
E tudo isso servia para complicar ainda mais a nossa vida. Explica nossa hesitação – logo notada pela direção – e, ao mesmo tempo, tornava difícil tomar uma decisão
Fui chamado a conversar com o Dr. Campos, ele queria saber o porquê de eu e S ainda não termos aderido ao novo-Sarah, inventei uma desculpa e ele fingiu aceitar.
A verdade é que, agora, com D recém-nascido, nós não podíamos nos dar ao luxo de estarmos, os dois, subordinados a uma “prima-dona” afeita a estrelismos para deleite próprio ou para atender os muitos patifes que ocupavam e ocupam ainda hoje os mais altos postos da república. Sim, leitor amigo, o sistema político brasileiro e a cidade de Brasília favorecem a ascensão de tipos inescrupulosos, mentirosos, sem-caráter, pelo menos neste século.
A gota d`água que resolveu o problema para mim, aconteceu durante uma reunião administrativa ordinária. Lá pelas tantas, enquanto se discutia os investimentos em tecnologia que, agora, graças à nova lei estarvam livres das travas da licitação...Epa! Pensando melhor, acho que meu primo G, está coberto de razão.
Mas voltando ao ponto, agora que novos equipamentos seriam comprados, um dos políticos mais próximos de Campos (e de ACM) me perguntou transversalmente o que eu achava do setor de informática do hospital.
Respondi que não era minha área e não sabia o que dizer.
Ele queria que eu avaliasse o trabalho do colega que chefiava o setor, e insistiu: “deixando a ética de lado, o que você acha do W...”.
Repeti a resposta: "infelizmente, não conheço o setor de informática do hospital".
A reunião prosseguiu e não se falou mais sobre aquele assunto. Quando cheguei em casa, disse a S: “Não podemos ficar, se eu continuar por aqui ou ganho uma úlcera, ou vou para o olho da rua”. Sim, porque conforme eu venho contando até agora, eu caíra nas graças da patota do Doutor Campos, só havia uma possibilidade para mim, depois disso: "cair em desgraça".
A alternativa: jogar o jogo, estava fora de cogitação. Não gosto das artimanhas, fofocas e ardis próprios dos ambientes palacianos, nunca fiquei confortável em Brasília, eu era apenas um técnico, na época, sem nenhuma consciência da realidade política na qual eu estava metido, afinal, ainda era, como já disse, um perfeito idiota latino-americano.
Restava-me, então, pedir o boné, bater as sandálias, conformar-me com a segurança oferecida pelo emprego  público, mas longe de Brasília.
Para onde iríamos? Eis a nova fonte de angústia que enfrentamos naquele maio de 1992.