B’H
Permanecer ou deixar o Sarah era também uma questão moral.
Não há como negar – e isso já ficou dito antes – que nossa primeira preocupação era manter nossos empregos, o que pode não parecer lá muito meritório, mas não deixa de ser compreensível, quando lembramos que a economia brasileira, em 1992, estava assolada por inflação e desemprego crônicos.
Mas havia também uma discordância moral profunda e surda relacionada com o ambiente de trabalho no hospital. Na época, não saberia conceitua-la. Hoje, eu diria que que o que nos incomodava no Sarah era o velho cancro patrimonialista da administração pública brasileira, um patrimonialismo generoso, reconheço, mas ainda assim patrimonialismo.
De acordo com ao projeto chancelado pelo Legislativo, os donos do hospital ofereceriam serviços gratuitos, custeados, é claro, pelo Erário, em troca de completa liberdade de gestão, fiscalizados apenas pelo TCU. [Risos.]
Colocando a questão nesses termos, pode parecer que estou querendo me gabar, não acho que esteja, porque, no frigir dos ovos, era algo além de minha escolha ou de S, logo, não se pode dizer que sejamos dignos de algum mérito quanto a isso.
No meu caso, acho até que é atávico. Já conto a história. Durante minha viagem a Monteiro, conheci uma prima, M, que logo em seguida, no carnaval deste ano, veio passear em Curitiba e se encontrou comigo, S, D e S.
M também se tornou minha amiga no Facebook. Dei uma olhada na página dela na internet e lá havia uma recomendação para assistir a um vídeo do Conselho Regional de Medicina da Paraíba.
O objetivo do vídeo, assim como o deste blog, é preservar a memória dos médicos paraibanos. O pai de M é médico e primo de meu avô, Oscar Feitosa Neves, infelizmente não o conheci pessoalmente quando estive em Monteiro, a história dele é muito bonita e eu me permito resumi-la aqui, porque me ajuda, vejam só, a explicar nossa escolha de 1992.
Ele conta que perdeu o pai bem cedo, porque não havia por perto quem soubesse fazer uma sangria, decidiu, então, ainda criança, fazer medicina; foi para o Recife, estudou no colégio Salesiano, passou no vestibular e realizou seu sonho. Depois de formado, decidiu voltar para o interior da Paraíba e, a despeito de convites para ingressar na política, estabeleceu-se como o único médio de Sumé, cidade vizinha a Monteiro. A ausência de recursos humanos na época era tamanha que ele teve que ensinar as moças mais jeitosas do lugar os rudimentos da enfermagem. Atendia gente de toda região, fazia muitos partos, inclusive um raríssimo parto de trigêmeos naturais.
Casou-se, sua esposa engravidou e ele decidiu fazer o parto lá mesmo no interior da Paraíba, porque considerou que não era correto fazer diferente. Suas 3 filhas nasceram no mesmo lugar onde ele atendia suas pacientes.
É a isso que me refiro. Não era correto ficar no Sarah. Ponto.
Muito mais recentemente, D passou um ano nos EUA, seu primeiro contato no exterior foi com a Universidade do Estado da Pensilvânia, uma universidade excelente, mas graças ao seu “score” no TOEFL talvez pudesse ir para outra escola ainda mais renomada. Como havia dado sua palavra à PSU...
É genético e é também uma Mitzvah!
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