A área de
informática do Hospital de Clínica/UFPR onde fiquei lotado quando cheguei a Curitiba
cuidava tão-somente de registros administrativos e prontuários de pacientes, tinha
pouco a ver com ambiente de desenvolvimento científico com o qual eu me
acostumara no Sarah; aquele foi o primeiro ponto de inflexão destinado a
converter o antigo engenheiro em auditor-fiscal; muitos outros viriam mais
tarde.
Preciso fazer
agora um esforço de arqueologia informática, para explicar o que acontecia no meu
trabalho no tão próximo, mas ao mesmo tempo tão distante ano de 1992. No HC, e
mundo afora, travava-se uma luta épica entre dois modelos de processamento de dados e, de novo, sem saber,
eu era um soldado na primeira linha do conflito.
De um lado, a
poderosa IBM defendia o aprofundamento de seu modelo – já adotado pelo hospital
– que consistia em computadores de grande porte, os “mainframes”, ligados a “terminais
burros”, quer dizer, sem capacidade de processamento local. De tão ultrapassada essa solução,
é difícil até mesmo descrever o seu funcionamento em 2014.
Como fazer?
Bom, estamos conversando
a respeito de uma era anterior aos ícones acionados por cliques, popularizados
pela Apple e pela MicroSoft, naqueles tempos, o usuário era obrigado a se
comunicar com os computadores por meio
de comados escritos como: “c:\> copy *.doc d:” – quer dizer: “copie todos os
arquivos com terminação em ‘.doc’ para o
disco ‘d’”. Claro que os leigos se
embananavam mesmo ppara executar tarefas simples e precisavam consultar especialistas, que viviam encastelados em CPDs –
centros de processamento de dados – climatizados, comportando-se como vestais. Em uma entidade como o
Hospital de Clínicas, havia um exército desses especialistas, eu era um deles.
Voltando ao ponto, os "terminais burros" de letras verdes, que hoje somente podem
ser vistos em filmes antigos de ficção científica, eram capazes de transmitir comandos específicos daquele tipo para um banco de dados situado no computador central, que devolvia a informação requerida na forma de texto para a tela do usuário,
fosse o tempo de serviço de um enfermeiro ou o endereço de um paciente.
Redatores
de texto não estavam disponíveis nesses terminais, por isso ainda era necessário, em alguns casos, usar máquinas de escrever para redigir documentos. Havia microcomputadores, mas eram poucos e ultrapassados - graças de novo à lei de reserva de mercado - e as
impressoras além de poucas eram precárias. Impressoras “ a laser” eram vistas como
um luxo desnecessário para um hospital público com escassos recursos
financeiros – única coisa, diga-se, que permanece inalterada até hoje.
O modelo alternativo consistia em implantar
uma rede de microcomputadores ligada ao computador de grande porte, que
permitiria juntar o melhor dos dois mundos: acesso às informações do mainframe
e capacidade de processamento local. Havia ainda vantagens adicionais como: flexibilidade
na escolha dos microcomputadores, quer dizer, o fim do monopólio da IBM, maior
quantidade e variedade de recursos disponíveis para os usuários e, “last but
not least”, custos mais baixos a longo prazo.
Eu me alistei entre os defensores da
segunda alternativa.
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