domingo, 15 de junho de 2014

Continuação. 117 de n.

Eu gosto de futebol. 
Gosto de assistir e de jogar. Nunca fui um craque, mas também não era perna-de-pau, mais de uma vez surpreendi companheiros e adversários que, com razão, me subestimaram.
- E não é que o cdf, quatro-olho sabe jogar bola?
Devo ter feito uma meia dúzia de jogadas realmente boas durante vida toda e fiz um único golaço, mas tudo isso foi no século passado, claro.

A copa do mundo do Brasil me deu um motivo para um minuto de pausa para reflexão. 

O país inteiro foi dispensado do serviço e, exceto os que não gostam de futebol, todo mundo se aboletou diante das telas de TV, para assistir ao jogo do Brasil.

O já esperado espetáculo do hino cantado à capela, emocionou milhões: os jogadores, o seleto público, narradores, comentaristas, repórteres, entrevistados.

Eu não me emocionei.

Para que não me tomem por insensível, confesso que até bem recentemente eu me arrepiava quando assistia a vídeo-tapes da copa de 70. Mas, confesso, que não senti nada quando jogadores e plateia continuaram a berrar: “ó pátria amada! Idolatrada! Salve! Salve!...Pátria amada! Brasil!!!”. Pareceu-me pura demonstração de chauvinismo.

Por que confundir o caríssimo e, sabemos todos, desonesto  evento comercial-esportivo com a pátria? Por quê?
Pior, por que, no Brasil, essa abstração só se manifesta de quatro em quatro anos a reboque do circo da FIFA? (Afora, claro, as paradas militares de sete de setembro que ano após ano murcham por falta de verbas, mas não é melhor assim?)
Como é que funciona no resto do mundo?

Não sei as respostas, mas gosto de especular, como sabem.

O que significa pátria, hoje em dia? E patriotismo? É saudável ser patriota, ou apenas "o último reduto dos canalhas"? 

Não seria o patriotismo um tipo peculiar de afinidade com o jeito de ser das gentes que brota sem que se possa dizer como?  Ou, ao contrário, seria algo a ser inculcado? 

Acho que ambas as coisas, e justamente por isso, esse sentimento, o patriotismo, tanto pode ser retribuído, tornando-se autêntico, ou repudiado, justa ou injustamente. Neste último caso, ao apátrida cabe acomodar-se, rebelar-se ou pegar o seu matulão e mudar de paragens.

No novo destino, porém, a história irá se repetir, posso falar com a experiência de quem mudou muitas vezes de lugar e nunca se sentiu propriamente em casa.

Esse sentimento de ternura pode se manifestar diante de uma comida – bolo de rolo, no meu caso -, ou de uma paisagem, uma canção e, por que não?, de um esporte.

Então, acho que é certamente melhor, sentir um arrepio na espinha ao ver uma jogada genial, como o quarto gol do capitão Carlos Alberto na final contra a Itália no estádio Asteca, do que em uma parada de passo-de-ganso.

O que teria mudado, então, para que a copa do mundo da FIFA se tornasse indiferente para mim?

Começa com o próprio nome, antigamente era só Copa do Mundo. O fato de hoje ser qualquer coisa FIFA - poderia ser copa do mundo Allianz-FIFA, ou copa do mundo Sony-FIFA - começa a explicar meu desencanto.
Para ir direto ao assuntode uns tempos pra cá, o aspecto comercial do negócio passou a sobrepujar tanto o esportivo que os torneios se tornaram tão emocionantes quanto uma feira de gado nelore ou de equipamentos agrícolas. Não, não sou ingênuo de pensar que “no meu tempo” as copas era organizadas e jogadas apenas por amor. Mas deve haver em tudo um "modus in rebus", sempre.

Há muitas histórias sinistras na História das Copas, sobre as quais, talvez, eu fale mais adiante, mas o espetáculo, na minha opinião, até muito recentemente ainda preponderava, havia algo de ingênuo, de improvisado, de amador, como deve ser, enfim, uma atividade lúdica, mas que é insustentável em um negócio.
Hoje eu me divirto mais assistindo aos piores momentos do campeonato australiano - a ruindade dos branquelos semi-profissionais é realmente hilária - do que a maior parte dos jogos a vera organizados por dona FIFA, com seus árbitros e professores. 

Ninguém pode se surpreender com o resultado do envolvimento das grandes corporações no negócio. O futebol, nessas condições, é um produto que deve maximizar a satisfação do público, ainda que ao custo de ser adocicado, e, se necessário, passando por cima da lisura do resultado. Por isso Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique tentam conquistar novos torcedores na  China, por isso entre uma final de campeonato continental em que participava o Goiás, um clube médio, com prestigio apenas em seu estado, e uma partida sem importância do Curíntia, a Rede Globo transmite a segunda para todo país.

Eis as razão da quebra do encanto. Eu não canto o hino nacional quando compro um iogurte Nestlé, porque deveria antes de uma partida de futebol?

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Em tempo, a FIFA pagou impostos na Alemanha, no Japão, na Coréia do Sul e na África do Sul, mas não no Brasil, onde foi agraciada com uma isenção total de tributos. Dizem que esse é o preço da 6ª. estrela. Por que duvidar? Afinal, os sujeitos aceitam e pagam propinas para escolher as sedes, aceitam e pagam propinas ao vistorias os estádio, por que pensar que, em determinado momento, iriam dizer: "receber dinheiro para escolher a sede tudo bem, mas mexer no resultado? Isso não! Isso é sagrado para nós!".

E outra coisa, o não-pênalti apitado pelo árbitro japonês em cima de Fred foi escandaloso e isso me pôs diante de outra perplexidade: ouvi muita gente dizer: “não foi pênalti, mas...”.
Hã?! 
Como: “mas...”?
As mesmas pessoas que, sou capaz de apostar, certamente criticariam a corrupção, o tráfico de drogas ou a exploração de menores, com a maior desfaçatez dizem: “não foi pênalti, mas...”.
Essa lógica, talvez não percebam, é a mesma do clássico: “rouba, mas faz”. 
Prefiro não ganhar assim, o que me afasta ainda mais do futebol, como é produzido hoje em dia.

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