Isabelle Huppert
continua bonita aos 60 anos; imagino que faça ióga, isso explicaria muito de
sua brilhante interpretação em “Uma relação delicada” (“Abus de faiblesse”). O
filme é tipicamente francês, logo, não é programa para quem não quer perder duas horas em uma sala
de cinema.
La Huppert interpreta
uma diretora de cinema que sofre um AVC e fica hemiplégica, Durante o seu
processo de recuperação assiste a uma entrevista na TV com um desses escroques
que de tempos em tempos – depois de sair da cadeia – escrevem livros contando
suas aventuras e ganham notoriedade tão grande, quanto passageira.
“Eu quero ele no
meu próximo filme!”, diz para seu assistente, que consegue marcar uma
entrevista da patroa com o pilantra.
O sujeito diz
que concorda em atuar se gostar do roteiro, a diretora então faz um resumo, mais
ou menos nos seguintes termos:
“É a história de
uma artista de cinema perseguida por paparazzi, que vai morar com o namorado no
minúsculo apartamento dele. Eles brigam, ela entra no banheiro enquanto ele
toma banho, ele bate com a cabeça dela e espalha sangue nos azulejos e nos ladrilhos.
Ela se deita em uma mesa e o desafia: ‘acabe o que você começou’. Ele a mata.
Os paparazzi passam a segui-lo.”
Pensei com meus
botões: por que os franceses – e por intermédio deles muitos outros inclusive
nós – nutrem tamanha fascinação pelo sórdido?
Enquanto o filme
corria monótono, não pude deixar de pensar na comédia americana “A família” (“The
Family”) com Robert de Niro e Miichelle Pfeifer que faz uma gozação, muito
justa, na minha opinião, com as predileções e cacoetes franceses, vistos pela
perspectiva americana, que, confesso, eu compartilho.
Em “A Família”,
De Niro faz o papel de um ex-capo da
Máfia que delatou seus antigos comparsas à Justiça e por isso precisa viver
escondido pelo programa de proteção de testemunhas da polícia. Para ficar bem
longe de NY, ele vai morar no interior da França – “La France profonde” – com a
família: La Pfeiffer e um casal de filhos. O filme explora, então, de modo
debochado, as diferenças culturais entre americanos e franceses.
O ponto mais
divertido é quando o capo é convidado a participar de um programa muito comum
na França: assistir a um filme e participar de um debate depois da sessão.
Contrariando a recomendação do policial responsável pela sua segurança ele
aceita o convite. E qual é o filme naquela noite?
“Scarface”
Na segunda parte
do programa, o responsável pelo evento, concede ao visitante estrangeiro o
privilégio de abrir os debates. O mafioso americano deita e rola, conta sua
história pessoal, sórdida naturalmente, para uma plateia de fascinados
franceses.
“Si c’est
méchant, c’est beau” parece ser o lema dos gauleses.
Depois do filme,
contei exatamente o que estou escrevendo aqui para S e acrescentei: “acho que como
vivem profundamente reprimidos pelo ‘politicamente correto’, os franceses de
hoje em dia, transferem suas perversões para esse tipo de arte.”
Não se passou nem
uma semana e o escritor português João Pereira Coutinho parece me dar razão. Olhem
o que ele escreveu em sua coluna semanal na Folha de São Paulo:
“(...) é o mundo
da União Europeia com seus regulamentos absurdos e suas absurdas intromissões
na liberdade individual – a respeito do sal, gorduras, açúcares, bebidas
energéticas, exercício físico, exposição solar e qualquer manifestação de vida
que seja um desvio da cartilha dos fanáticos”.
Tudo bem, tudo
isso é sociologia de botequim, ou de blog, mas não recomendo a ninguém assistir
ao filme de Mme. Huppert.
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