quinta-feira, 5 de junho de 2014

Continuação. 112 de n.

Isabelle Huppert continua bonita aos 60 anos; imagino que faça ióga, isso explicaria muito de sua brilhante interpretação em “Uma relação delicada” (“Abus de faiblesse”). O filme é tipicamente francês, logo, não é programa para quem não quer perder duas horas em uma sala de cinema.
La Huppert interpreta uma diretora de cinema que sofre um AVC e fica hemiplégica, Durante o seu processo de recuperação assiste a uma entrevista na TV com um desses escroques que de tempos em tempos – depois de sair da cadeia – escrevem livros contando suas aventuras e ganham notoriedade tão grande, quanto passageira.
“Eu quero ele no meu próximo filme!”, diz para seu assistente, que consegue marcar uma entrevista da patroa com o pilantra.
O sujeito diz que concorda em atuar se gostar do roteiro, a diretora então faz um resumo, mais ou menos nos seguintes termos:
“É a história de uma artista de cinema perseguida por paparazzi, que vai morar com o namorado no minúsculo apartamento dele. Eles brigam, ela entra no banheiro enquanto ele toma banho, ele bate com a cabeça dela e espalha sangue nos azulejos e nos ladrilhos. Ela se deita em uma mesa e o desafia: ‘acabe o que você começou’. Ele a mata. Os paparazzi passam a segui-lo.”

Pensei com meus botões: por que os franceses – e por intermédio deles muitos outros inclusive nós – nutrem tamanha fascinação pelo sórdido?
Enquanto o filme corria monótono, não pude deixar de pensar na comédia americana “A família” (“The Family”) com Robert de Niro e Miichelle Pfeifer que faz uma gozação, muito justa, na minha opinião, com as predileções e cacoetes franceses, vistos pela perspectiva americana, que, confesso, eu compartilho.
Em “A Família”, De Niro faz o papel de um ex-capo da Máfia que delatou seus antigos comparsas à Justiça e por isso precisa viver escondido pelo programa de proteção de testemunhas da polícia. Para ficar bem longe de NY, ele vai morar no interior da França – “La France profonde” – com a família: La Pfeiffer e um casal de filhos. O filme explora, então, de modo debochado, as diferenças culturais entre americanos e franceses.
O ponto mais divertido é quando o capo é convidado a participar de um programa muito comum na França: assistir a um filme e participar de um debate depois da sessão. Contrariando a recomendação do policial responsável pela sua segurança ele aceita o convite. E qual é o filme naquela noite?
“Scarface”
Na segunda parte do programa, o responsável pelo evento, concede ao visitante estrangeiro o privilégio de abrir os debates. O mafioso americano deita e rola, conta sua história pessoal, sórdida naturalmente, para uma plateia de fascinados franceses.

“Si c’est méchant, c’est beau” parece ser o lema dos gauleses.

Depois do filme, contei exatamente o que estou escrevendo aqui para S e acrescentei: “acho que como vivem profundamente reprimidos pelo ‘politicamente correto’, os franceses de hoje em dia, transferem suas perversões para esse tipo de arte.”

Não se passou nem uma semana e o escritor português João Pereira Coutinho parece me dar razão. Olhem o que ele escreveu em sua coluna semanal na Folha de São Paulo:
“(...) é o mundo da União Europeia com seus regulamentos absurdos e suas absurdas intromissões na liberdade individual – a respeito do sal, gorduras, açúcares, bebidas energéticas, exercício físico, exposição solar e qualquer manifestação de vida que seja um desvio da cartilha dos fanáticos”.


Tudo bem, tudo isso é sociologia de botequim, ou de blog, mas não recomendo a ninguém assistir ao filme de Mme. Huppert.

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