sexta-feira, 20 de junho de 2014

Continuação. 122 de n.

Curitiba era uma pequena e pacata capital de um próspero, mas pouco lembrado, estado do sul do Brasil, que teve a felicidade de crescer organizadamente a partir dos anos 90, justo no momento em que chegamos na cidade. Acompanhamos da nossa janela as mudanças por que passou, algumas boas, outras não, como em tudo na vida. No que importa – buscávamos tranquilidade e independência – ela nos atendeu com seu jeito frio e indiferente.
S nunca tinha estado na cidade, eu passara por aqui durante uma excursão, em um bonito dia de verão em 1980, e guardei uma boa impressão do que vi. Em 1992, a administração do urbanista Jaime Lerner implantou uma série de inovações que colocaram Curitiba no noticiário como a capital com a melhor qualidade de vida do Brasil; merecem ser lembrados: o jardim botânico, a rua 24 horas, as estações-tubo do ligeirinho, a ópera de arame e sei lá que outras. Isso tudo e mais a nossa necessidade de um lugar neutro para criar D, nos trouxe tão para o sul.
Não tínhamos, brrrr!, ideia do frio que iríamos enfrentar. Situada a mais de oitocentos metros de altitude, Curitiba é a capital mais fria do Brasil, muito mais fria do que Florianópolis ou Porto Alegre que, apesar de estarem mais ao sul, encontram-se no nível do mar. Além disso, é destinatária de toda umidade que sobe da Serra do Mar e se precipita bem aqui sobre nós; às vezes, ficamos quinze dias sem ver a cor do céu. O clima é tão errático que os curitibanos costumam dizer que passamos pelas quatro estações no mesmo dia. Eles estão certos.
Os curitibanos são tidos como pessoas de cara fechada; o que, claro, não é inteiramente verdade, muitas vezes, é fruto tão-somente de timidez, que compartilho e aprecio. A verdade é que a cidade foi povoada por distintas colônias de povos que conviviam mal nos seus países de origem: poloneses, alemães, italianos e judeus; ou que são naturalmente reservados como os japoneses.
Quando estive em Curitiba pela primeira vez, a cidade tinha uns trezentos mil habitantes, enquanto o Recife já tinha um milhão - a grande metrópole do sul era Porto Alegre - desde então, Curitiba se igualou a ambas, em população, e superou as duas em segurança, fluidez do trânsito e qualidade dos serviços públicos.
No frigir dos ovos, acho que fizemos a escolha certa. S, nasceria em Curitiba, 6 anos depois.


Nesta época de copa do mundo, consigo identificar quatro tipos de comportamentos, conforme as pessoas gostem ou não gostem de futebol, e gostem ou não gostem de pajelança, digo, festança. Há nuances em cada caso, naturalmente, mas acho que não fica mal descrever o quadro assim: há um grupo minoritário, no qual me incluo, que gosta de futebol, mas não da pajelança que o envolve, especialmente em uma copa jogada no Brasil. Há ainda os que não gostam nem de futebol, nem de pajelança, S está aqui e por causa disso foi acusada de falta de patriotismo por uma colega do Hospital de Clínicas. O grupo mais numeroso, certamente, é o das pessoas que não acompanham ou não gostam de futebol, mas adoram a farra nacionalista que se repete a cada quatro anos e, por fim, há o contingente, igualmente grande, dos que gostam das duas coisas. Copa após copa, minha turma vai minguando, junto com a perda de encanto do futebol, o que me aproxima mais e mais do grupo de S...

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