Se permanecêssemos, teríamos assegurados um salário bom para uma cidade cara e uma promessa - eis o primeiro ponto problemático - de que não passaríamos por um novo achatamento agora que o hospital era, de novo, um baronato do Doutor Campos.
Qual era o problema? O ponto é que sempre fui avesso a bajulação, a "amostragem", como se diz na minha terra. Como explicar o que é amostragem? Exibicionismo, vaidade, fatuidade, tudo,que que faz o mundinho de Brasilia girar.
Sim, porque, no Hospital Sarah Kubitschek, por trás de todo discurso populista sobe "atendimento público, gratuito e de qualidade", o que imperava, para os empregados, era uma administração ao mesmo tempo tirânica e fútil.
Tirânica, porque se imiscuía na vida particular dos empregados, sob pretexto de verificar se o compromisso da “dedicação exclusiva” estava sendo obedecido. Fútil, porque muitas vezes essas exigências visavam apenas mostrar quem estava no comando.
Pior , além de fútil, falsa e submissa às vontades dos poderosos da corte; certa ocasião, uma parente do ex-presidente Sarney quebrou a perna, o hospital mobilizou céus e terras para atendê-la prontamente. Filas foram furadas, médicos convocados fora do horário de plantão, tudo para atender, gratuitamente, “la famiglia”.
Subserviente e solícito para com os políticos, exigente e insensível para com os subordinados, com exceção, claro, dos puxa-sacos mais desinibidos e dedicados, eis a receita de administração Campos da Paz; e, por uma questão de justiça. devo dizer que, tão ruins são os demais hospitais públicos e tão difícil é a vida em Brasília para os que, como nós, não participam de uma panela, que tudo somado e subtraído, de fato, o Sarah é um dos melhores hospitais públicos do país.
E tudo isso servia para complicar ainda mais a nossa vida. Explica nossa hesitação – logo notada pela direção – e, ao mesmo tempo, tornava difícil tomar uma decisão
Fui chamado a conversar com o Dr. Campos, ele queria saber o porquê de eu e S ainda não termos aderido ao novo-Sarah, inventei uma desculpa e ele fingiu aceitar.
A verdade é que, agora, com D recém-nascido, nós não podíamos nos dar ao luxo de estarmos, os dois, subordinados a uma “prima-dona” afeita a estrelismos para deleite próprio ou para atender os muitos patifes que ocupavam e ocupam ainda hoje os mais altos postos da república. Sim, leitor amigo, o sistema político brasileiro e a cidade de Brasília favorecem a ascensão de tipos inescrupulosos, mentirosos, sem-caráter, pelo menos neste século.
A gota d`água que resolveu o problema para mim, aconteceu durante uma reunião administrativa ordinária. Lá pelas tantas, enquanto se discutia os investimentos em tecnologia que, agora, graças à nova lei estarvam livres das travas da licitação...Epa! Pensando melhor, acho que meu primo G, está coberto de razão.
Mas voltando ao ponto, agora que novos equipamentos seriam comprados, um dos políticos mais próximos de Campos (e de ACM) me perguntou transversalmente o que eu achava do setor de informática do hospital.
Respondi que não era minha área e não sabia o que dizer.
Ele queria que eu avaliasse o trabalho do colega que chefiava o setor, e insistiu: “deixando a ética de lado, o que você acha do W...”.
Repeti a resposta: "infelizmente, não conheço o setor de informática do hospital".
A reunião prosseguiu e não se falou mais sobre aquele assunto. Quando cheguei em casa, disse a S: “Não podemos ficar, se eu continuar por aqui ou ganho uma úlcera, ou vou para o olho da rua”. Sim, porque conforme eu venho contando até agora, eu caíra nas graças da patota do Doutor Campos, só havia uma possibilidade para mim, depois disso: "cair em desgraça".
A alternativa: jogar o jogo, estava fora de cogitação. Não gosto das artimanhas, fofocas e ardis próprios dos ambientes palacianos, nunca fiquei confortável em Brasília, eu era apenas um técnico, na época, sem nenhuma consciência da realidade política na qual eu estava metido, afinal, ainda era, como já disse, um perfeito idiota latino-americano.
Restava-me, então, pedir o boné, bater as sandálias, conformar-me com a segurança oferecida pelo emprego público, mas longe de Brasília.
Para onde iríamos? Eis a nova fonte de angústia que enfrentamos naquele maio de 1992.
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