B’H
A viagem
Saímos de Brasília mais tarde do que eu gostaria. Com criança pequena sempre há muitos detalhes a serem verificados: mamadeira, fraldas, paninhos, muda de roupas; e problemas de última hora a serem resolvidos: "fez cocô? mas agora? Troca a fralda...".
Despachamos nossas poucas coisas de caminhão e seguimos de Brasília para Curitiba de Chevette. Assim foi o nosso êxodo.
Pagamos tudo com nosso próprio dinheiro, como não se tratava de uma movimentação de ofício, não recebemos qualquer auxílio da Administração Pública para a mudança.
Eu nunca tinha dirigido tanto na minha vida.
D. tinha nove meses, ainda mamava, e costumava dormir com o balanço do carro. Isso foi um alívio, que tornou a viagem menos difícil. Parávamos a cada três horas, para eu esticar as pernas, ir ao banheiro e descansar alguns minutos; mesmo assim, quando chegamos a S. José do Rio Preto, no noroeste de São Paulo, sonhei com a estrada.
Chegamos de tardezinha, a cidade é muito ajeitadinha, passamos na frente, vejam só, de uma clínica especializada em cirurgia de mãos! Nada mal para uma cidade do interior em 1992. Achamos um hotel moderno e confortável e pernoitamos nele.
“So far, so good”.
No dia seguinte, saímos mais tarde do que eu gostaria, de novo. Decidimos evitar as auto-estradas que iam até a capital, para fugir da péssima estrada que ligava (e ainda liga e ainda é péssima) São Paulo a Curitiba: a Régis Bitencourt, conhecida como "Rodovia da morte", com seu intensíssimo tráfego de caminhoneiros zumbis.
Por indicação do ex-pediatra de D, em Brasília cortamos caminho pelo interior de São Paulo e entramos no Paraná por Jacarezinho, no chamado "Norte Pioneiro", região mais atrasado do estado e por isso mesmo, com menor movimento de caminhões.
No meio do caminho, o indicador de temperatura do motor do Chevette começou a subir. Parei em um posto perto de José Bonifácio-SP, e completei o radiador, a situação melhorou um pouco, mas voltou a piorar. Não tínhamos alternativa; decidimos entrar em Marília-SP, uma cidade de porte razoável, e procurar uma oficina mecânica.
Graças a D’us tivemos muita sorte. Paramos em um posto de gasolina, que nos indicou uma oficina próxima. O dono da oficina que nos atendeu, era um senhor de meia idade que identificou o problema na hora:
- Precisa trocar a bomba d’água. Vou ver se tenho uma de chevette.
Enquanto ele procurava, o dia ia ficando mais quente, e a espera parecia durar uma eternidade. Na verdade, já passei por muitas eternidades assim, acho que o inferno dos ansiosos. Finalmente, ele voltou e disse:
- Não tenho, vou ter que pedir.
Que escolha nós tínhamos? Nenhuma, a não ser esperar. Passando bastante do meio-dia, a bomba finalmente chegou. Até aquele momento, só quem tinha almoçado era D...
Enquanto esperávamos, o dono da oficina aproveitou para filosofar:
-Às vezes, um atraso é bom, quem sabe o que vem pela frente?
Ele não sabia (e nem eu), mas ele acabara de verbalizar o conceito do “Gam zu le tovah”. Não sei de que transtornos escapamos, Baruch HaShem, mas encarar as coisas naqueles termos, na época, me ajudou a relaxar. Falamos ainda sobre a política, sobre a excessiva carga tributária do Brasil e resolvemos vários problemas que afligem o Conselho de Segurança da ONU. Finalmente a bomba chegou, foi trocada, eu paguei com cheque, nos despedimos e tudo correu bem dali em diante, Não sei como me recordo de tantos detalhes, sei apenas que hoje eu estou na meia idade...
Quando saímos da oficina, já passava das duas da tarde, estávamos azuis de fome, almoçamos em Marília mesmo, mas não lembro onde, nem o quê. Pegamos a estrada de novo e depois de mais uma eternidade, chegamos ao Paraná, fomos recebidos por uma patrulha da polícia rodoviária que nos abordou para dar dicas de segurança, aquilo pareceu o máximo para nós; a cara de um Brasil civilizado, com o qual nós não estávamos acostumados. Não sei se continua assim até hoje, acho que piorou.
Por causa do atraso em São Paulo, a noite nos apanhou ainda no norte do Paraná, lembro que pensei em esticar a jornada, mas S, insistiu que parássemos na primeira cidade que aparecesse e assim ficamos conhecendo Wenceslau Braz, cidade do Norrrte com o nome de um esquecido ex-presidente da República.
Encontramos um hotel moderno e bonito, como o de S. José, mas, para nosso desconsolo, estava lotado. Havia uma convenção de corretores imobiliários na cidade justamente naquele dia! Restou-nos ir para uma pensão, feia e mofada. De novo, não tínhamos alternativa: era aquilo ou a estrada. Decidimos ficar.
Eu estava exausto, e D. que dormira a viagem toda, justo naquela hora, estava super aceso, queria engatinhar pelo tapete mofado, ralhei com ele, que começou a chorar, não lembro do desfecho agora, acho que S passou a noite em claro brincando com o pestinha, quanto a mim, cai na cama e dormi como uma pedra, sonhei com linhas brancas ora contínuas, ora tracejadas...
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