segunda-feira, 2 de junho de 2014

Continuação. 110 de n.

Uma pausa para uma ligeira crítica cinematográfica

Para um filme chapa-branca “Getúlio” não é ruim.
É relativamente contido nos elogios a Vargas e não demoniza, além do esperado, a UDN e Carlos Lacerda. A produção é conservadora, não se arrisca na ficção, permanece o tempo todo com os dois pés firmemente fincados na verdade oficial. Os atores não param de recitar manchetes.
Sua principal derrapagem é involuntária e, por isso mesmo, engraçada e sintomática.
Logo no início do filme, o diretor faz um inventário de realizações do protagonista: industrialização, direitos trabalhistas e, claro, Petrobras, uma das patrocinadora do filme... Logo em seguida, ouve-se a voz de Tony Ramos – excelente na caracterização do ex-presidente – dizer: “não me arrependo de nada, tudo que fiz foi para o bem do povo”, talvez não exatamente com essas palavras.
A ideia era louvar a grandeza da figura histórica de Getúlio Vargas, ironicamente, contudo, boa parte das “conquistas” arroladas pelos roteiristas e produtores, certamente todos homens e mulheres progressistas, foram fruto da fase fascista de Vargas.
O equívoco é fruto de ignorância combinada com automatismo, elementos corriqueiros do pensamento de esquerda no Brasil contemporâneo. Posso até adivinhar o esquema que produziu a abertura do filme:  “tudo que é voltado para o povo, é de esquerda”, e, como corolário, “se é de direita, é contra o povo”.

Nada mais falso.

Entre 1930 e 1945, quando cunhou o bordão: ‘trabalhadoooores do Brasillll...”, Vargas era um perfeito caudilho fascista, como seus pares da Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Hungria ou Argentina. Todos eles adotaram medidas populistas de defesa dos trabalhadores que lhes granjeou enorme e genuína popularidade.

O fascismo, porém, conforme se ensina nas escolas, situa-se na extrema direita do espectro político.

Como é possível, então, o Vargas fascista ter sido, ao mesmo tempo, de extrema-direita e a favor do povo? O filme, é claro, não enverada por estrada tão tortuosa, afinal é  show biz, apesar de por aqui nós confundirmos entretenimento com cultura.

Pessoalmente, prefiro a classificação proposta por Friedrich von Hayek, para quem a velha distinção entre “gauche” e “droite” não corresponde à realidade política dos séculos XX e XXI. Durante a segunda guerra mundial, afirma o economista austríaco, foi necessário acomodar Stalin na aliança que derrotou os nazistas, apesar das profundas diferenças entre o comunismo soviético e a democracia representativa ocidental. E, mais do que isso, das inúmeras semelhanças entre o nacional-socialismo alemão e o bolchevismo russo – de fato, no início da guerra, Hitler e Stalin firmaram um pacto de não agressão, e, na ocasião, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Joachim von Ribentrop, em visita oficial a Moscou disse que se sentia tão confortável entre os camaradas comunistas, como se estivesse no meio dos nazistas da velha guarda.
Von Hayek propõe então um novo corte metodológico: de um lado, ele diz, estariam os intervencionistas, esses acreditam que o estado deve se imiscuir na vida dos cidadãos para protegê-los e dar-lhes uma vida melhor, enquanto no outro extremo, ficariam os não-intervencionistas que não acreditam em contos de fadas.

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