Depois de fotografar animais, Muybridge começar
a estudar o movimento humano. Meu trabalho era de certa maneira a continuação
do dele.
Fiz alguns rabiscos para tentar explicar o que
eu fazia no Hospital Sarah Kubitschek, vou deixar de lado a matemática mais complicada,
porque não teria cabimento ser tão minucioso em um blog como este, e também,
falando francamente, porque não me lembro de quase nada, depois de mais de 20 anos.
O primeiro esboço mostra como era a câmera
filmadora da Oxford Metrics em 1990. Era uma câmera comum cuja lente
era circundada por um anel de leds emissores de luz infravermelha.
Os pulsos de luz infravermelha eram emitidos em
uma frequência conhecida para atingir pequenas
marcas em forma de pastilha, muitos leves, feitas de plástico e revestidas por
um material refletor.
Os sinais refletidos por essas marcas eram capturados
pela lente da câmera, como se fosse um
radar.
Para os propósitos do Laboratório de Movimentos
do Sarah Kubitschek, as marcas eram coladas com fita durex dupla-face em diversas
articulações dos pacientes – tornozelos, joelhos etc – e em alguns pontos chave
para o estudo da caminhada – calcanhares e pontas do dois pés.
Dado que não era um procedimento invasivo, a
distribuição das marcas refletoras era feita por um servidor técnico, W, que
juntamente com S, a secretária, formavam minha equipe no laboratório.
O engenheiro-senior que me selecionou no concurso e me
antecedeu no cargo, passado pouco mais de um mês de minha chegada, tirou licença
do Hospital e foi para os EUA fazer um doutorado. Mais uma vez, tive que aprender tudo sozinho...
A figura abaixo mostra como ficava o paciente
com as marcas.
Depois que tudo estava pronto, as luzes da sala eram
reduzidas e o paciente caminhava em uma passarela com extensão aproximada de 4 metros.
A sala onde ficava o laboratório era bastante grande
e revestida de alcatifa para evitar reflexos indesejados.
Alcatifa?
Na minha cabeça todo munda sabia o
que era alcatifa, fora do Recife, só percebi que não era assim quando, certa
noite, saí bem tarde do Hospital e uma faxineira que estava passando um pano
úmido no piso do corredor bem na frente do laboratório, pediu que eu não trancasse a
porta para que ela pudesse passar o pano lá dentro também.
Expliquei que não precisava se incomodar, porque dentro
daquela sala tinha alcatifa.
Silêncio total de rádio.... Cara de absoluta incompreensão,
Parecia que eu tinha grego.
“Alcatifa”, repeti, pensando que talvez ela não tivesse ouvido direito. Mesmo resultado.
Só voltamos a nos comunicar de novo quando eu disse “carpete”. Ela então sorriu e anuiu com a cabeça.
Depois disso, fiz o teste várias vezes com quem não era do
Recife (e de João Pessoa) e descobri que ninguém no Brasil sabe o que “alcatifa’
significa.
A figura abaixo mostra a primeira parte do meu trabalho
no Sarah Kubistchek: a coleta de dados.
A segunda parte do trabalho era um pouco mais complicada.
Os dados fornecidos pelas câmeras era coletados
por um computador que as sincronizava e a partir deles calculava as posições de cada marca
durante a caminhada (que durava tipicamente alguns segundos) em relação a um
referencial fixo, a posição (0,0,0) que ficava no início da passarela do lado direito.
Não se assustem agora, mas esse dados compunham um rol de trincas, por unidade
de tempo, por câmera.
Algo mais ou menos assim: Câmera 1( t1: (x1,y1,z1), t2:
(x2,y2,z2) .. .tf(xf,yf,zf)); Câmera 2 (t1:(x1,y1,z1)...tf(xf,yf,zf))...Camera
6 (t1: (x1,y1,z1) ...tf(xf,yf,zf)).
A partir desse ponto, o programa, com
base em fórmulas simples de geometria espacial, calculava a trajetória das partículas refletidas
e com elas as variáveis de interesse para aplicação médica, e. g. a inclinação
do joelho.
Essa informação podia ser comparada com resultados padrão previamente tabelados pela literatura
médica – conforme pode ser visto no diagrama 1, da figura abaixo.
O programa da empresa inglesa era muito bom,
mas fornecia uma resposta com lacunas e ruídos como os representados no
diagrama 2.
A mim competia completar as lacunas provocadas por pontos cegos ao longo da marcha, por meio
de interpolações matemáticas, conforme está esboçado o diagrama 3 - essa era a parte
fácil.
O mais
complicado era realizar a filtragem do gráfico para eliminar os ruídos e chegar a um resultado final como o do diagrama 4, usando técnicas de matemática-discreta que eu não havia visto na UFPE. Recorri à biblioteca da UNB.
Deliberadamente fiz o diagrama 4 diferente do padrão médico do diagrama 1, para lembrar que as pessoas avaliadas no laboratório de movimento eram pacientes que sofriam de problemas ortopédicos; seus movimentos, portanto, não correspondiam à média tabulada.
Os dados que usávamos eram americanos, com o propósito de construir um padrão nacional, o
Doutor Aloísio Campos da Paz, o dono do Sarah Kubitschek, determinou que fossem feitas avaliações de pessoas
saudáveis.
Algumas fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais colaboraram e foram avaliadas no Laboratório de Movimento. Porém, S, minha S, se
recusou a participar porque disseram para ela que seria necessário desfilar de biquíni - o
que não era verdade.
Mas isso fica para depois.






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