segunda-feira, 12 de maio de 2014

Continuação. 94 de n.

No dia seguinte, na hora marcada, eu e Dr. A nos encontramos com a representante do Itamaraty e seguimos para o NIH.
É fato notório que nas relações internacionais vigora o princípio da reciprocidade. Mais ou menos como em um jogo de xadrez; se um jogador move um peão, o outro responde com outro peão, mas se move um bispo, provoca a entrada em cena de outro bispo, cavalo ou torre. No caso da minha inglória missão de intercâmbio de tecnologia, a presença do Itamaraty atraiu o Departamento de Estado dos EUA e o resultado foi vexaminoso para nós.
Eu não tive oportunidade de falar porque a disputa não dizia respeito a tecnologia. A reunião foi rápida, apresentadas as partes e expostos os interesses, o diplomata americano, demonstrando desenvoltura e preparo, botou a nossa representante no bolso, e chegou a dizer algumas verdades desagradáveis ao orgulho tupiniquim. "In a nutshell": o NIH não seria autorizado a celebrar acordos com o Sarah,  ele disse, porque o Brasil não garantia os direitos de propriedade intelectual de estrangeiros e por esse motivo, não podia ser considerado um parceiro confiável.
O fato é o espectro da reserva de mercado de informática ainda pairava sobre nós, vivíamos em uma zona cinzenta do ponto de vista jurídico e francamente hostil a empreendimentos estrangeiros. Claro que um acordo naquele ambiente  não podia prosperar.
Olhando, com um certo distanciamento, entregamos ótimas oportunidades de mão beijada para a China, que apesar de serem até mais piratas do que nós, recebiam os investimentos de qualquer lugar do mundo com tapete vermelho e banda de música.

A primeira parte da minha missão, portanto, não foi bem sucedida, sem que pudesse interferir para alterar o quadro. Devo confessar que, em alguns momentos, tive vontade de interromper a mocinha do Itamaraty e quixotescamente defender o meu país, teria sido impróprio, inócuo, arriscado, em termos profissionais, e ridículo. O momento mais embaraçoso aconteceu quando o representante dos EUA se excedeu na linguagem e disse que: "se por acaso o acordo fosse assinado, nada impediria o Brasil de “cheat o parceiro” Ops! Diplomaticamente, "cheat” pode significar “iludir”, mas com mais freqüência se traduz por “trapacear”. Achei que a nossa attachée deveria ter protestado, mas ela permaneceu muda, e ficou por isso mesmo.

Arrumamos as malas, eu e Dr. A, e rumamos para o Canadá.

Antes de falar sobre a apresentação do trabalho em solo canadense preciso contar uma história inusitada que aconteceu nesse trecho da viagem.

O Dr. Campos da Paz colecionava armas e antes de viajarmos pediu ao Dr. A que comprasse para ele um determinado tipo de munição que seria facilmente encontrado nos EUA, pelo menos era isso que ele acreditava.
Demonstrando um fidelidade canina, o Dr. A, passou boa parte do nosso tempo livre visitando lojas de armas atrás da danada da munição e nada. Ninguém chega a número 2 em uma instituição como o Sarah sem se comportar assim; resultado: mal tivemos tempo de visitar o Museu Smithsoniano e tirar uma foto na entrada da Casa Branca. Por fim, na quarta ou quinta tentativa ele encontrou as munições e comprou logo uma meia dúzia de caixas.
Mas o pior ainda estava por vir, ao ingressar no Canadá, o Dr. A respondeu negativamente à pergunta sobre armamentos e munições no questionário distribuído pelas aeromoças e entregues na Imigração.
Fiquei vendo a hora de ele ser detido e eu também, como cúmplice.

Hoje, certamente, teríamos tido problemas, mas em 1991,  ninguém perguntou nada, nem no Canadá, nem no retorno a Brasília.

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