domingo, 11 de maio de 2014

Continuação. 92 de n.

1991 foi um grande ano! Eu e S nos casamos, representei o Brasil em Washington, apresentei um trabalho em uma feira científica em Montreal e D nasceu.

Conheci S em uma aula de anatomia no Sarah em 1990. Sim, tive que fazer um curso de anatomia, com "peças" autênticas, decorar as inervações e onde os músculos se ligavam aos ossos etc. Ela fazia outro curso - neuroanatomia - durante um intervalo, tentei puxar conversa, mas ela não me deu a menor bola.
Hoje ela diz estava muito preocupada com uma prova prova que ia fazer e nem se lembra de minha "cantada" desajeitada,  nós dois estávamos em estágio probatório no Sarah. Ops, já ia esquecendo da proibição.

Onde eu estava? Sim! Nas viagens de 1991. Tenho que reconhecer que o Doutor Aloísio Campos da Paz, titular desse baronato vitalício e hereditário chamado Sarah Kubitschek, é um homem arrojado, duas décadas atrás, ele tentava, ao mesmo tempo, fazer parcerias com o Irã, como contei no post anterior, e com os EUA!

O Sarah Kubtischek enviou uma missão aos EUA formada pelo médico número 2 do hospital, Dr. A, e por mim, com o propósito de estabelecer um convênio de cooperação tecnológica. Nosso destino era o departamento de ortopedia do National Institutes of Health - NIH - instituição sediada em Washington-DC.

Posso dizer que, naquele momento, alcancei de um modo completamente inesperado para mim apenas três anos antes, o ápice de meu sucesso profissional como engenheiro. Minha carreira, porém, iria sofrer em breve uma grande de curso, mas isso fica para depois, por ora, falarei da viagem.

Deixei S, grávida e por pouco não vi D nascer.  Menos de uma semana depois de voltar ao Brasil ganhamos D, no dia 6 de agosto de 1991.

Minha missão tinha dois objetivos: em primeiro lugar estabelecer, como eu disse, os termos de um acordo de cooperação, troca de experiências e de tecnologias com o NIH;  e, em segundo lugar apresentar, em Montreal, no Canadá, um trabalho que realizei no Sarah, em parceria com um médico, Dr. B, sobre "respiração paradoxal em pacientes com lesão medular", usando as ferramentas do Laboratório de Movimento, não se preocupem, não vou aborrecê-los falando sobre os resultados do estudo.

Viajei com passaporte de serviço, azul, em uma época em que todos os passaportes eram verdes. Curiosamente, apesar de não ser mais o esquerdista que fora, ainda trazia estampado no rosto, alguns dos traços que identificam os perfeitos idiotas latino-americanos; em particular, a barba e o olhar revoltado; eu era um produto do meu tempo, por mais que tentasse levantar a cabeça e olhar o que acontecia fora da caverna...

Pouco antes de embarcar para os EUA, a poderosa ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello, executora do sequestro de todos os recursos particulares do Brasil, derrotada por sua própria incompetência, foi substituída no cargo pelo embaixador do Brasil em Washington Marcílio Marques Moreira, esse detalhe depois se revelará importante na história.

Desembarcamos em Nova Iorque, Dr. A e eu, e de lá fizemos conexão para Washington-DC. Ficamos hospedados em Bethesda, uma cidade vizinha à capital federal americana, situada no estado de Maryland, de onde, todos os dias, íamos de carro, um Ford Taurus, até o NIH. Fazia um calor infernal, cerca de 40 graus, e era úmido e abafado como Manaus, sair ao ar livre era desagradável, passávamos a maior parte do tempo em lugares com ar-condicionado.

Os contatos técnicos com a equipe designada pelo NIH para nos recepcionar - formada também por um médico e por um engenheiro - pareceram promissores, mas os americanos deixaram claro desde o início que não poderiam formalizar qualquer acordo sem uma autorização expressa do governo Bush.

O Dr. A, ligou, então, para o Doutor Campos em Brasilia, e ele nos orientou a procurar o Itamaraty. Prontamente, fomos até a embaixada no dia seguinte, sem GPS, recorrendo apenas a mapas de papel - como explicar o significado de papel para meus bisnetos? Era uma técnica de registrar informações inventada pelos egípcios, dois mil anos antes da era comum, aperfeiçoada mais tarde pelos chineses, e que foi  usada na terra até o início do século XXI.

A sugestão do Dr. Campos mostrou-se um tiro n'água.

A embaixada do Brasil no país mais rico do mundo e, na época, nosso maior parceiro comercial , deveria ser, eu acreditava, extremamente bem aparelhado, funcionando como um relógio, qual o quê? Por uma questão de justiça, é preciso dizer que, em Brasília,  o Sarah atendia até os pacientes anônimos com  mais atenção e eficiência do que a que recebemos do Itamaraty.

As dificuldades começaram na portaria: os interfones não estavam funcionando. O prédio, apesar de bonito, era mal aparelhado. Devido à nomeação recente de Marcílio Marques Moreira para o Ministério da Economia, a embaixada estava sob o comando de um interino, embaixador Joaquim Brasil, acho que era esse o nome, ele parecia um Ernest Hemingway não exatamente pelo talento literário. Pareceu ficar surpreso com nossa presença, chamou então uma assessora e a orientou a marcar uma reunião oficial com o NIH.

A dona era muito bonita e perfumada, mas não posso dizer que sua atuação produtiva para nossos propósitos. Para concluir por hoje, notei desanimado que o computador e o redator de texto que ela usava eram, para dizer o mínimo, obsoletos...





Nenhum comentário:

Postar um comentário