quarta-feira, 23 de abril de 2014

Continuação. 78 de n.

Duas lembranças extras sobre minha nova vida em Brasília.

Entrei em exercício no Hospital Sara Kubitschek no dia 01 de março de 1990, uma quinta feira. Fernando Collor de Mello tomaria posse na presidência da república dali a duas semanas. Logo nos primeiros dias no hospital, lembro de estar conversando com a secretária do Laboratório de Movimento no restaurante dos funcionários durante o almoço, quando, do nada, ela disse:
- No dia quinze vai ser feriado, vou aproveitar para...
Interrompi e perguntei: - Feriado por quê?
- A posse do collorido, ora.
- Já está confirmado?
- Ainda não, mas vai ser. 


Eu ainda raciocinava como um brasileiro comum, a secretária, S,, como brasiliense. 

Claro que ela estava certa, No dia 15 de março de 1990, Brasília parou para assistir ao coroamento do homem que dois anos mais tarde, por bons e maus motivos, seria enxotado do palácio do planalto em um inédito processo de impeachment
Por que claro? Porque a cidade, foi construída para concentrar o poder, exaltá-lo e oferecer-lhe meios de ação.  Despojadas de máscaras e adereços, as posses de cada novo presidente, de acordo com a liturgia pagã do estado, correspondem ao nascimento do Messias. 
Ainda iria me deparar com essa peculiaridade de Brasília em outras ocasiões.

Por enquanto, vamos ao Segundo episódio. Devo confessar, antes de tudo, que se trata de uma história que ouvi contar e que não me dei ao trabalho de confirmar, mas, como vocês verão, para ela cabe com perfeição o ditado: "se non è vero, è ben trovato".


Pensem no aeroporto de Brasília - hoje chamado Juscelino Kubitschek - na hora da chegada de um voo internacional. Na mesma hora se forma uma fila enorme no lugar onde auditores-fiscais da Receita Federal selecionam os viajantes que terão suas bagagens inspecionadas. 

Reza a lenda que um deputado aproximou-se do fiscal de plantão e pediu para ser o primeiro a passar pela vistoria, porque, afinal, era deputado.
O auditor lhe respondeu:
- Perfeitamente, excelência, pode ficar do meu lado aqui na frente.
Em seguida, virando-se para os demais passageiros, disse em voz alta:
- Pessoal, pessoal! Atenção! O deputado aqui está pedindo para passar na frente de todos, o que vocês acham?

Dias depois, o Inspetor, chefe da aduana do aeroporto (ou teria sido o próprio secretário), recebeu uma carta da câmara dos deputados protestando com a atitude da autoridade fiscal e exigindo que fossem tomadas as medidas disciplinares cabíveis. 

Consta que, depois disso, o fiscal foi deslocado da bancada do aeroporto, para um serviço burocrático interno...

Nenhum comentário:

Postar um comentário