terça-feira, 22 de abril de 2014

Continuação. 77 de n.

Além da chuva de granizo, outra  experiência marcante do meu início de Brasília foi uma discussão que tive com um desconhecido em uma agência de correios perto do Sarah. 
Lembro de ter caminhado no sol do meio-dia para enviar umas cartas e uns postais para o Recife, quando cheguei na agência havia uma fila grande e uns poucos guichês abertos. Mal tinha acabado de entrar  e de escolher o guichê com a fila menor  - na época não havia “fila única” -, quando uma nova caixa foi aberta bem do meu lado e o funcionário fez sinal para que eu me aproximasse. 
Distraído, cheguei no balcão. 
Pra quê? 
Um sujeito que estava em outra fila, pôs-se a esbravejar, dizendo eu tinha desrespeitado a ordem de chegada, blá blá blá...
Tentei explicar que não tinha tido essa intenção, mas naquela altura o balconista já tinha pegado as minhas cartas e não era mais possível voltar atrás. O sujeito continuou a gritar, devo ter respondido qualquer coisa, ele foi finalmente atendido na sua própria fila e tudo ficou por isso mesmo.
Somente alguns meses depois percebi porque o sujeito ficou tão revoltado. A verdade 
é que Brasília é uma cidade nobiliárquica. Os figurões – parlamentares, juízes e promotores, principalmente, mas também ministros, secretários e outros burocratas de alto escalão do poder executivo – ordinariamente furam filas e usufruem de privilégios derivados do mero exercício do cargo. 
Isso é um fato comum principalmente em aeroportos e restaurantes. A plebe rude se sente lesada, mas em uma cidade que existe pelo e para o poder, não há muito o que fazer, sem ouvir o clássico: "Sá cum quem?"* 
Na agência dos correios, o que o esquentadinho não suportou foi que eu, um comum,  passasse na sua frente. 
Isso não! 
Automaticamente, passei para outra categoria a dos que merecem a interpelação: “Quem esse cara pensa que é?"
Passaríamos por um grande progresso civilizacional se fizéssemos a segunda pergunta não apenas a cidadãos do mesmo rank social, mas principalmente aos nobiliarcas da república.
Recentemente, no governo Lula da Silva, foi criado um Conselho de notáveis, denominado Conselho de Desenvolvimento Enconômico e Social. O órgão foi apelidado Conselhão pela imprensa. Poucos notaram que a melhor designação para o estrupício seria ConDES, no Brasil, esses "nobres" nunca se destacaram por qualquer capacidade especial, exceto sugar o erário.

A meu favor, no caso dos Correios, devo dizer que não furei a fila por mal, ou por pretensão, mas porque sou um cabeça de vento mesmo

Quem sabe, no futuro, meus netos, para quem agora escrevo estas memórias, perguntem:
- O que são estas tais de cartas de que o vovô Alfredo vive falando?
Pacientes, D ou S talvez respondam:

- Eram umas mensagens que as pessoas do século passado mandavam umas para as outras quando queriam dar notícias.
Depois de alguns segundos de silêncio, uma vozinha replicará:
- E por que elas não mandavam e-mails?

Dias desses recebi uma mensagem de minha nora, que ainda esta Austrália, sobre algumas obras literárias que não teriam existido se, na época, h
ouvesse telefone celular – foi isso ou algo do gênero. 

Nem cheguei a ler a postagem, pensei logo em Romeu e Julieta.

A tecnologia pode facilitar muito nossas visas, mas também pode destruir nossa cultura.

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* Sabe com quem [está falando]? Em mineirês, variante do português muito usada no Planalto Central.

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