quarta-feira, 9 de abril de 2014

Continuação. 65 de n.

Em 1989, o Brasil elegeu o ex-governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, presidente da república. Collor foi o primeiro civil a chegar ao Palácio do Planalto por eleições diretas desde os anos 60 e também (juntamente  com Jânio Quadros) o político mais caricato a corporificar a profecia trágica de D. João VI.  Consta que no cais do Porto do Rio de Janeiro, no momento em que retornava para Lisboa, o rei de Portugal teria dito ao príncipe herdeiro: "Pedro, o Brasil brevemente se separará de Portugal, se assim for, põe a coroa sobre tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela". Com raras exceções todos os nossos presidentes foram aventureiros ou carbonários. A atual presidente é as duas coisas. 

Depois de trabalhar quase dois anos sem férias na Açonorte e de ter acumulado, como disse, uma pequena poupança, resolvi investi-la em um curso de inglês na Inglaterra. Como não havia libras esterlinas no Recife, tive que converter tudo que tinha em  dólares dos EUA - falando assim até parece que era muito - e, depois, gastar um pouco mais para reconverter a moeda americana no Reino Unido, paciência. 

Fui no inverno, entre janeiro e fevereiro de 1990, quando era mais barato e, pelo mesmo motivo, fiquei hospedado na casa de uma família britânica em Bournemouth na "Côte d'Azur" inglesa. A propósito, esse foi o meu primeiro contato com o "british sense of humour"; Bournemouth, de fato, tinha praias, mas compará-la à sua congênere francesa, exigia um razoável poder de imaginação.

O programa funcionava assim: pela manhã, eu tinha aulas regulares com professores graduados, e à tarde ficava livre para passear ou assistir a outras aulas com professores aprendizes. Claro que passei o dia inteiro na escola, mas tinha três boas razões para isso, em ordem de importância: 1) eu era fominha; 2) estava muito frio, pelo menos para um pernambucano; e "last but, by no means, least", 3) ficando na escola, eu gastava menos. Cada penny era contado, no fim da aventura, não restou quase nada, "gam zu le tová". 

A família que me hospedou em Bournemouth pertencia à classe média baixa britânica, não era a primeira vez que recebiam um estrangeiro na baixa estação, ganhavam, assim, abatimentos nas prestações de seu financiamento imobiliário - "mortgage", hipoteca em inglês, significa, me explicou meu anfitrião, "amarrado até a morte". Em 1990, os A. moravam em um sobrado confortável e desfrutavam de serviços que, no Brasil, não existiam, nem mesmo para os ricos. 


Mas...Tive outro insight enquanto estava morando com meus cordiais hospedeiros.



Como explicar? Em 1990, o mundo vivia a grande convulsão provocada pelo colapso da União Soviética. A Alemanha estava em processo de reunificação, os países que outrora compuseram o Império Austro-Húngaro, liberados do punho de ferro do exército vermelho, mais que depressa buscaram restabelecer seus antigos vínculos com a Mittleuropa". Estando tão perto do centro dos acontecimentos, eu queria acompanhar a cobertura dos fatos feita pelos excelentes jornais ingleses, os A., porém, assinavam um tabloide que dava mais destaque aos sapatos usados por Lady Di que às consequências da queda do muro de Berlim. 



Percebi então que a estreiteza de de horizontes independe dos recursos materiais à disposição do indivíduo. No Brasil, prosperava -  e ainda prospera - a crença, muito cara às esquerdas, de que é a pobreza material que impede a classe trabalhadora de apreciar e desfrutar dos bens da cultura. Em Bournemouth, verifiquei que essa hipótese pode ser falsa; os A. poderiam ler Milton, Chaucer ou Dostoievski, mas preferiam o "The Sun. Analogamente, o incremento de renda da classe C no Brasil não causou um revival de Pixinguinha, e sim a explosão do "funk".



Para concluir, por hoje, voltei ao Brasil quebrado e às vésperas de uma nova etapa na minha vida em Brasília. Desde 1990, o Recife tornou-se para mim apenas uma referência afetiva, nunca mais voltei a morar na minha cidade, a Veneza brasileira.  Ainda bem que gastei todo meu dinheiro no Reino Unido, porque o primeiro ato do novo presidente, como sabem, foi sequestrar toda a poupança nacional. Comigo não violão! No meu dinheiro o safado não encostou um dedo Eu o convertera em vivências.

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