terça-feira, 8 de abril de 2014

Continuação. 64 de n.

Em meados de 1987, a aguerrida deputada Cristina Tavares do chamado PMDB autêntico, que D'us a tenha, compareceu à Faculdade de Engenharia da UFPE, para discutir com os futuros engenheiros a lei de reserva de mercado da informática. Pessoalmente, eu era um ardoroso defensor da legislação. 
Claro, o que poderia haver de mais quixotesco no mundo? Aquele bando de moleques, eu acreditava, lavaria a honra nacional. Mostraríamos às potências exploradoras que agora, no Brasil, havia vontade política para romper as amarras do subdesenvolvimento e trazer dignidade para nosso povo! 
Ridículo?  Não lembro de ter visto ninguém contestar a fanfarronice, exceto o velho Roberto Campos. 
Eu e  meus colegas  éramos potenciais beneficiários da lei, mas, falo por mim, esse detalhe inconveniente, vinha depois do orgulho de tornar o Brasil independente da tecnologia estrangeira. Além do mais, como uma lei apoiada pela absoluta maioria do espectro político, dos militares, à extrema esquerda, poderia ser nociva aos interesses do país? Só sendo mesmo muito "entreguista" como Bob Fields para não enxergar o óbvio. 
A lei não me livrou do desemprego no início de 1988. Durante esse período busquei contato com um conhecido que dirigia uma multinacional francesa  em São Paulo, mas a tentativa se revelou infrutífera,  "gam zu le tová!".   
Participei, então, de dois processos seletivos: um para o Grupo Gerdau no Recife e outro para o Hospital Sarah Kubitschek em Brasília. Falo mais do Sarah depois. 
Se ainda não ficou claro, é preciso dizer para não deixar dúvidas: minha situação era desesperadora. Formado há quatro meses e desempregado, que vergonha...a pior lembrança que guardo do período era a de passar algumas tardes assistindo ao programa de entrevista da TV Cultura, conduzido por Leda Nagle, por falta de algo melhor para fazer. 

A Açonorte

A seleção do Grupo Gerdau, do qual a Açonorte era parte, destinava-se a Trainees Administrativos. Não era exatamente o que eu queria fazer na vida, mas eu não estava em condições de escolher. Participei do processo, pareceu-me extremamente fácil, depois vim a saber de duas coisas que me fizeram ser selecionado, uma boa e a outra ruim. 
Como na piada, primeiro a boa. Soube pelo chefe de RH que eu ganhara a vaga durante uma entrevista em que saquei um bordão que inventei ainda na faculdade, era mais ou menos assim: "depois de 5 anos de engenharia, com os professores que tive, sinto-me capaz de aprender qualquer coisa". 
Não sei se os examinadores perceberam a ambiguidade da referência aos professores... 
O aspecto negativo do processo seletivo, não posso esconder, foi o fato de que naquela época, 1988, 75% dos pretendentes às vagas não souberam responder à pergunta: "Qual o nome do líder internacional que criou a Glasnost e a Perestroika?" Essa segunda informação foi dada aos selecionados - éramos 15 - pelo diretor do grupo no Nordeste quando nos recebeu, em maio de 2008, para desejar boas vindas e boa sorte. 
Selá.
Durante os três meses seguintes, fiz um curso de formação gerencial de excelente qualidade, a Açonorte, certamente, beneficiada por algum incentivo fiscal, investiu um bom dinheiro naquela equipe, tivemos aulas de marketing, negociação gerencial, contabilidade e outras tantas de que não me recordo agora. Os professores eram os melhores disponíveis no mercado, alguns eram trazidos da FEA da USP, para ministrar cursos que duravam, em média, uma semana. 
Mas eu não estava satisfeito - como é insaciável a natureza humana - agora eu queria, mais do que nunca, ser engenheiro. Tornar-me administrador parecia um desperdício dos 5 anos de faculdade. Eu não tinha sido inteiramente sincero com os selecionadores. Nunca se é em entrevistas de emprego. 
E havia cargos para engenheiros na siderúrgica! 
Tomei a iniciativa, então, de deixar claro para a gerência - como bom sapo que eu era  - que apesar de estar recebendo toda aquela formação administrativa, eu gostaria mesmo é de trabalhar na engenharia da fábrica. 
Corri o risco de ser mandado embora ali mesmo, mas tive sorte de isso não ter acontecido.
Eis que no dia 08 de agosto de 1988, o inesperado acontece. Um engenheiro da automação, contemporâneo de faculdade, veio a ser admitido em um programa de doutorado no exterior, sua saída da Açonorte abriu, para mim, uma vaga na engenharia, e mais especificamente na automação, a área com a qual eu mais me identifiquei durante o curso!
Há um ditado judaico que diz: "Ó Eterno dai-me uma pitada de sorte e joga-me no fundo do mar". Sentia-me como se o mar vermelho tivesse se aberto diante de mim. Em oito meses saíra da condição de desempregado para um raro cargo de automação no pequeno polo industrial do Recife. O  salário continuou o mesmo e não era muito, mas a satisfação de poder, enfim, apresentar-me como engenheiro, não nego, era enorme.
Foi aí que percebi a idiotice representada pela lei de reserva de mercado que eu tanto defendia. 
Em virtude das restrições a compra de equipamentos de primeira linha, o Grupo Gerdau fora forçado a desenvolver, na siderúrgica Cosigua do Rio de Janeiro, um controlador lógico programável com tecnologia própria, batizado Gerdautec. Fui mandado ao Rio por duas semanas para fazer um curso de metalurgia e outro de Gerdautec.
Antes de concluir a questão da lei de reserva de mercado, preciso fazer uma pausa, para contar duas brevíssimas histórias do professor de metalurgia que me impressionam ainda hoje. A primeira foi uma informação lamentável para mim. Ele disse: "quando eu me formei em engenharia, trinta anos atrás, engenheiro não pensava se ia comprar um apartamento, ele escolhia o bairro onde queria morar, não pensava se ia comprar um carro, mas o modelo que mais lhe agradava". Em 1988, recém-formado e recém-empregado minha situação era diferente e bem mais modesta; ainda morava com minha mãe e só assim conseguia fazer uma pequena poupança. Para compensar, a segunda é mais engraçada. Com uma franqueza insuperável, o professor, que também ensinava na UFMG, disse que os dois principais expoentes da engenharia eram o conde Édouard de la Cochambre e o barão Franz von der Chutz. Chegou a fazer um biografia fictícia para cada personagem. Há muito de verdade nisso, não apenas na engenharia, mas na vida.
Retomando o fio da meada, nem bem voltei para o Recife e uma balança de precisão da ABB - Asea Brown Boveri - a multinacional sueco-suíça, que não sei como a Açonorte fez para importar,  apresentou um defeito, como estava na garantia, foi acionada a assistência técnica. 24 horas depois, um técnico vindo de São Paulo chegou no meu acanhado laboratório, abriu o aparelho e tirou de dentro dele a placa com problema.
Para mim foi uma epifania.
Depois de lidar com as diversas placas do Gerdautec, ter diante de mim uma placa da ABB, foi como sair de um fusca (de fato, eu tinha um) e entrar em uma Ferrari. Pensei com meus botões: nunca vamos conseguir produzir uma coisa dessas sozinhos. Eu estava certo, dali a alguns anos a estupidez foi removida do ordenamento jurídico, não sem antes prejudicar profundamente a indústria nacional. 
Olhando retrospectivamente, fico pensando quantos investimentos feitos pelos EUA e pela Europa na China Comunista não poderiam ter sido canalizados para o Brasil, se não tivéssemos soberbamente nos excluído do mercado internacional de informática? Se não me engano, na época, a economia brasileira era maior que a chinesa. Acreditamos, bestamente,  que poderíamos inventar uma nova roda, melhor que a original.
Desculpe-me Roberto Campos, eu era um perfeito idiota latino-americano.

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