O concurso para o Hospital Sarah Kubischek cobrava praticamente todo conteúdo do curso de engenharia, ou pelo menos da parte do curso que realmente importa, descontados os penduricalhos criados sob encomenda pelo Ministério da Educação para os sindicatos de professores, sem compromisso com as necessidades de formação dos alunos ou com a qualidade dos cursos.
Se não estivesse desempregado não teria conseguido vencer todo programa: circuitos elétricos, eletrônicas digital e analógica, sistemas de controle e telecomunicações, um mundo de coisas. Havia ainda um item inusitado: uma edição específica de uma revista técnica de informática, em inglês, sem indicação da matéria que interessava ao examinador.
O que fazer? Como ter acesso à danada da revista?
Agora não lembro como, mas descobri que o departamento de Física da UFPE – conhecido simplesmente como a Física – assinava a revista; corri, então, até a biblioteca deles e pedi para consultá-la ali mesmo.
Acho que não existe mais esse tipo de publicação em papel hoje em dia. A revista misturava uma quantidade imensa de propaganda, com matérias de interesse informativo ou científico, além de colunas de “experts-marqueteiros”.
Com o exemplar nas mãos, surgia um novo problema: que assunto teria interessado tanto ao hospital a ponto de ter sido incluído no edital do concurso? Folheei a revista de fio a pavio, passeando pelo labirinto de siglas que tentava impedir o meu avanço: RISC, CISC (que D’us o tenha), ASCII etc.
Passados alguns minutos: eureka! só podia ser aquela matéria. Era uma história sobre a corrida espacial e de como o desenvolvimento de ferramentas matemáticas de processamento digital de imagens permitiu aos EUA baterem a URSS e chegarem em primeiro lugar à lua.
Dois dias depois, estava em Salvador.
A prova foi cansativa, tive que escrever umas 20 páginas de cálculos, diagramas e..., claro, responder a uma questão sobre processamento de imagens na qual reproduzi quase literalmente o conteúdo da Byte – esse era o nome da revista. Fiquei até com medo que achassem que eu tinha "filado"*
Na saída da prova, G me deu carona de volta pra casa: “Como foi de prova?”, perguntou.
“Não sei dizer” – respondi – “só sei que escrevi muito...”
Dois anos mais tarde, estava trabalhando no laboratório de estudo do movimento [humano] do Hospital Sarah Kubitschek em Brasília-DF.
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* o mesmo que colado, nos demais estados do Brasil.
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