B`H
Retomando o fio da história, minha temporada na Açonorte pode ser dividida em dois períodos: programa de "trainee" e automação.
Na primeira fase, ouvi, em mais de uma ocasião, os executivos do Grupo Gerdau se queixarem da dificuldade de recrutar profissionais capacitados na Região Nordeste. Lembro de me sentir pessoalmente ofendido com os comentários; com o tempo, infelizmente, fui descobrindo a justiça das reclamações. Se em 2014, o "apagão" de mão de obra, provocado pela situação de pleno-emprego, obriga as empresas a contratar a raspa do tacho no mercado de trabalho; em 1988, a dificuldade de seleção de quadros enfrentada pela Açonorte, em meio ao grande desemprego reinante, depõe a favor do padrão de qualidade dos gaúchos.
Posso dizer que fiz um MBA de primeira dez anos antes do boom desse mercado no Brasil.
Participei de simulações de reuniões negociais gravadas (em áudio e vídeo) seguidas da análise do desempenho dos negociadores. Descobri que minha inclinação natural é por soluções do tipo "ganha-ganha", pode parecer politicamente correto, mas as corporações, na vera, dão mais valor a executivos com traços de Átila, o huno. De fato, uma das minhas colegas de programa revelou esse perfil, na sua vez de negociar, ela ficou até com as calças da outra parte; não por acaso, foi a primeira da turma a ser promovida....
De todos os cursos do programa, porém, o meu preferido foi o de Marketing, ministrado pelo Prof. Celso Grisi da Universidade de São Paulo.
Aprendi, pela primeira vez, a perceber a mercadoria embutida em cada coisa do dia a dia, do Bombril a Roberto Carlos e Chico Buarque de Holanda. É engraçado como muitas vezes aspectos evidentes da realidade permanecem invisíveis às nossas retinas; a propaganda se encarrega dessa mágica quando necessária.
Grisi analisou entre outros o produto "Roberto Carlos", disse que não falaria nada a respeito do concorrente - "Chico Buarque" - para não induzir no público, nós!, o interesse de experimentar uma dose.
"Tudo", ele disse, "roupas, linguagem, comportamento e até as cores de cada produto são estudados e testados antes de ele chegar aos consumidores".
"Prestem atenção" - acrescenta - "nas primeiras letras das músicas de Roberto Carlos", E cantarola escandindo os versos: "eu-só-que-ro-que-vo-cê-mea-que-ça-nes-sin-ver-no,
e-que-tu-do-mais-vá-pro-in-fer-no!"
"Só palavra curtas, rebeldia, imagens simples. O público alvo é jovem com hormônios saindo pelas orelhas. Quando esses jovens se transformam nos tiozões e balzaquianas de classe média, o produto se adapta para satisfazê-los com coisas como:" - cantarola de novo -
"Vou cavalgar por toda noite em uma estrada colorida,
usar meus beijos como açoite e a minha mão mais atrevida".
"Sutil? Para quê? Esse mercado não precisa de sutilezas".
E ia por aí a fora.
Eram tempos em que, sendo jovem, tudo parecia ao alcance das mãos, meu lado Quixote tinha como certo que eu me tornaria um grande CEO...
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