domingo, 13 de abril de 2014

Continuação. 68 de n.

Passei!
No concurso do Sarah e na seleção da Açonorte.
Depois de 4 meses desempregado, eu agora tinha um emprego garantido e a perspectiva de outro. Nada mal para um período sombrio da história da economia brasileira: o final do governo de José Sarney*, que coincidiu com o da elaboração da constituição em vigor.
Foi um período de descalabro: a corrupção e o despreparo técnico campeavam nas administrações federal e estaduais - o que mudou muito pouco, diga-se, desde então. A direita, ou melhor, os coronéis encastelados no poder desde a colônia, exercia o clientelismo cínica e, agora, democraticamente. Estranha direita esta nossa que depende do estado para sobreviver.  À esquerda, em 1988, havia quem defendesse, com desassombro, o modelo de sociedade adotado na Albânia de Enver Roxha.
A insegurança jurídica era completa, muitos dispositivos propostos perante a assembleia nacional constituinte, aberta ou sub-repticiamente, implicavam a adoção de um regime socialista no Brasil. Os coronéis reagiram à hegemonia da esquerda nos meios culturais e formaram um bloco parlamentar - o Centrão - imediatamente execrado pela imprensa e pelos intelectuais orgânicos posicionados na academia e no show business. Aderir ao consenso esquerdista  era praticamente inevitável para pessoas de classe média, inclusive eu mesmo, um autêntico idiota latino-americano. O Centrão, registre-se, logrou capinar as propostas "progressistas" mais radicais, as subliminares, porém, foram todas incorporadas ao novo ordenamento jurídico.
Naquele ambiente, não havia investimentos e sem eles, empregos para engenheiros. O Brasil, no fim do século passado, desperdiçou uma geração inteira de pessoas com formação técnica rigorosa. Nos 25 anos seguintes, encontrei muitos engenheiros sacrificados no altar de nosso caos político e espargidos em postos do Banco Central e da Receita Federal. Muitos colegas permaneceram na universidade, outros, mais felizes, emigraram. Nas chamadas décadas perdidas, os engenheiros deixaram de ser profissionais liberais e se tornaram assalariados, isso também não mudou nada**.
Comecei no novo emprego no dia 02 de maio de 1988, naquele momento minha maior preocupação era com uma infeliz coincidência de datas: calhou de o Sarah agendar uma entrevista, que consistia na segunda fase do concurso, para uma sexta-feira dali a duas semanas, ou seja, depois de eu já ter começado a trabalhar na Açonorte. Seria péssimo, naquelas circunstâncias, faltar ao trabalho já nos primeiros dias e, para piorar, naquela semana, e nas dez semanas seguintes, eu estava matriculado em um curso de formação, como disse, com o qual a companhia gastou muito dinheiro.
Por uma questão de consciência devo reconhecer que tenho uma dívida pessoal para com o presidente Sarney. Justamente naquele ano, a presidência da república decretou feriado na sexta-feira, 13 de maio de 1988, em homenagem ao centenário da abolição da escravatura no Brasil.
Claro, o Sarah já sabia do feriado quando programou as entrevistas, mas eu não sabia! Tive que montar uma operação de guerra, que consumiu muito do meu primeiro salário, assim, na quinta-feira à noite, saí do trabalho, no distrito industrial do Curado, diretamente para o Aeroporto dos Guararapes de onde segui para Distrito Federal, lá chegando pernoitei no Hotel das Nações, fui entrevistado no Hospital na manhã seguinte e à tarde já estava voltando para o Recife.
No dia 02 de novembro de 2011 - dia de finados - o Hotel  das Nações foi implodido como parte dos preparativos de Brasília para receber a copa do mundo fifa de 2014.
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*Os nomes de pessoas públicas, e.g. Sarney, serão expressos com todas as letras neste blog.
** Rigorosamente falando os engenheiros não são profissionais liberais, i. e., aqueles que são livres para trabalhar e cobrar quando e quanto quiserem pelo exercício de seus ofícios. Na Idade Média, a educação formal abrangia duas etapas fundamentais o Trivium (Lógica, Gramática e Retórica) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) e, para os que resolvessem e pudessem seguir adiante, havia apenas três cursos superiores disponíveis que formavam profissionais liberais: Medicina, Direito e Teologia, os quais conferiam aos graduados o título de doutor, por isso, médicos e advogados são tratados assim até hoje. Os engenheiros, diferentemente, eram formados nas corporações de ofício - a maçonaria é a mais conhecida delas - por isso nunca foram propriamente doutores. Em tempo, devo essa síntese, ao brilhante, e saudoso, professor José Monir Nasser, que D'us o tenha. Outra coisa pouco sabida é que as poucas pessoas formadas no Medievo não provinham dos estratos superiores da sociedade - que se dedicavam exclusivamente às armas - mas àqueles indivíduos que demonstravam aptidão - vocação talvez fosse mais apropriado - para o saber.

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