quarta-feira, 16 de abril de 2014

Continuação. 71 de n.

Já notaram que a Páscoa cristã e Pessach, apesar de profundamente inter-relacionadas, não são bem compreendidas de parte a parte? Isto é, os judeus não conhecem a Páscoa e, para os cristãos, a Páscoa ofusca Pessach. 

"E por que deveria ser diferente?" - sempre se pode perguntar. Ainda que mais não seja - respondo eu - pelo prazer de se conhecer as duas histórias.

Vejam o meu caso. Quando eu ainda estava no ginásio, com uns 12 ou 13 anos, tive uma aula de Educação Moral e Cívica sobre os feriados nacionais. Ao comentar sobre a  Páscoa, a professora se estendeu um pouco mais sobre a Paixão de Cristo e fez uma breve referência à Páscoa Judaica. Eu conhecia a história de Moisés das aulas de catecismo e do filme de Charlton Heston, mas nunca, até aquele momento, tinha associado os dois eventos, curioso, perguntei: “Professora, por que os judeus estavam festejando a Páscoa se Jesus ainda não tinha sido crucificado e ressuscitado?”

Lembro de a professora ter titubeado um pouco antes de responder; no fim das contas, porém, ela deu a resposta certa: "os judeus festejam a liberdade por terem saído do Egito e atravessado o Mar Vermelho, enquanto os cristão comemoram a ressurreição de Jesus".

A sacralização do tempo

Muito tempo depois quando já morava em Brasília li, em um texto católico, a seguinte afirmação: os cristão aprenderam com os judeus a sacralizar o tempo.
O que é isso?  
No Sinal, o Eterno determinou a Israel que apartasse (sagrasse) alguns dias todo ano e os dedicasse à contemplação do Infinito, assim são por exemplo o Shabat e as festas de Pessach, Shavuot, Sucot e o Yom Kippur.

Os mandamentos (Mitzvot) de sacralização do tempo permitiram aos judeus preservar e praticar sua religião (religare) independentemente de onde estivessem nem um mundo hostil, ficavam, assim, livres do espaço. Guardar o tempo bastava. 

Notem que, apesar de Yerushalaim (Jerusalém) ser o centro indiscutível da fé judaica, nem sempre a Cidade Santa esteve ao alcance dos filhos de Israel. Com a sacralização do tempo era possível mantê-la no coração, por exemplo, ao se dizer com fé e esperança em Pessach: Le’shanah habah byerushalaim!” (O ano que vem em Jerusalém!”).

Pessach
A canção A Consagração de Moisés* narra, com concisão e precisão, a história do Êxodo. 

Reproduzi abaixo na língua original, o ladino, para dar o gostinho de ver como era a fala dos judeus de Sefarad, e, em seguida, a tradução para o português:

Mosé salió de Misraim, huyendo del rey Paróh 
se fue derecho a Midián y se encontró con Ytró.
Le dio a Sipora, su hija, porque era temiente a Dió,
Mosé paciendo el ganado que su suegro le entregó.
Mosé, paciendo el ganado, al monte Horeb entró,
viera ardir una zarza, la zarza no se quemó.
Mosé se cubrió sus ojos, temiendo ver a Dió,
oyó una voz que decia: -Mosé, Mosé, Mi siervo,
descálzate tus zapatos, que en lugar santo estás tú, 
te irás derecho a Misraim y dirás al rey Paróh
que te entregue las llaves de Mi pueblo el hebreo
y si no te las entregare castigarle quiera Yo,
con diez plagas que le mande, pa' que sepa quién soy Yo.
Hodu l'A’onai ki tov, ki le'olam hasdó
alabado sea Su nombre, porque siempre bien nos dió
en los cielos y en la tierra Su merced nunca falto.

Moisés saiu do Egito, fugindo do rei Faraó
Foi-se direto a Midiam e se encontrou com Jetro.
Lhe deu (Jetro) a Zípora, sua filha, porque era temente a D’us.
Moisés, apascentando o gado que seu sogro lhe entregou,
Moisés, apascentando o gado, no monte Horeb entrou.
Viu arder uma sarça, a sarça não se queimou,
Moisés cobriu os olhos, temendo ver a D’us.
Ouviu uma voz que dizia: Moisés, Moisés, meu servo,
Descalça teus sapatos, que em lugar santo estás tu.
Irás direto a Misraim (Egito) e dirás ao rei Faraó
Que te entregue as chaves do Meu povo, o Hebreu
E se não tas lhe entregar, castigar-lhe queira Eu
Com dez pragas que lhe mande para que saiba quem Eu sou.
Hodu l’A’onai ki tov, ki le’olam hasdó 
Louvado seja Seu nome, porque sempre bem nos deu
E nos céus e na terra Sua mercê nunca faltou.

Há diversas sutilezas na letra da canção que eu talvez explore qualquer dia desses, por ora, quero me ater à essência do Pessach: a liberdade.

Nós, modernos, acreditamos que a abolição jurídica da escravatura corresponde à sua extinção da vida social, e que, nos lugares onde ela persiste, o flagelo se deve ao fato de que a lex (pensando, agora, nas convenções da ONU que tratam da matéria) ainda não se tornou eficaz. 

Nenhuma ressalva a fazer sobre esse entendimento, exceto que ele é incompleto.

Já  ouvi críticas a Aristóteles porque o filósofo imputava a determinados homens e mulheres uma tendência intrínseca à escravidão. Costumamos, nessas momentos, pensar apenas nos aspectos legal, político e étnico da questão e, assim agindo, julgamos mal o estagirita, atribuindo-lhe uma indevida estreiteza de pensamento.

Aristóteles, porém, era mais agudo do que parece à primeira vista. Esquecemos que há formas não políticas de escravidão, muitas delas resistentes a todas as evoluções civilizacionais. 

Revendo a questão nesses termos, somos obrigados a conceder ao filósofo a possibilidade de ele estar fazendo referência ao fenômeno sob esse prisma, afinal, no exato momento em que escrevo, quanto homens e mulheres não estão escravizados a paixões, ao sexo, a drogas, à moda ou ao dinheiro? 

Na festa de Pessach somos chamados a perceber o Egito como as limitações que  nos escravizam, e a abertura do Mar Vermelho como  a intervenção do Eterno na História; não apenas naquela época, mas por todo tempo. 

Separemos um tempo para pensar a respeito.

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* A ouvi pela primeira vez canta para cantora Fortuna.

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