quinta-feira, 10 de abril de 2014

Continuação. 66 de n.

A carta

Antes de voltar para o Brasil, eu tinha direito a uma parada em Paris e a uma esticada de alguns dias na cidade, mas naquele ano, por acaso, todos os voos Paris-Rio, durante os dias que me restavam de férias, estavam lotados, tive então que voltar para casa mais cedo partindo diretamente de Londres. 

Gam zu le tová! 

Quando cheguei ao Recife, encontrei uma carta esperando por mim - a carta! Era de Brasília, do Hospital Sarah Kubitschek, me convocado a tomar posse imediatamente no cargo de Engenheiro. Já nem me lembrava mais desse concurso, fazia tanto tempo, eu tinha prestado na mesma época em que participei do processo seletivo da Açonorte, a União levou dois anos para concluir o que a iniciativa privada fizera em 3 meses. Agora eu tinha que escolher: Açonorte ou Sarah? Recife ou Brasília? O conforto da casa da mamãe ou morar sozinho? 

Não foi uma decisão fácil. Eu não era mais um moleque, tinha 25 anos e mal acabara de ser promovido na Açonorte. Deixaria para trás alguns projetos de automação industrial para os quais  estava escalado. Ficava acanhado de deixar a empresa na mão; por outro lado, a vaga para a qual eu concorrera no Sarah Kubistchek era tentadora;  lá, eu trabalharia com processamento de imagens, uma área absolutamente nova em 1990; além do mais, enquanto no Recife eu ganhava 20.000.000,00 de unidades monetárias por mês, em Brasília, passaria a receber a 40.000.000,00. 

Chega a ser ridículo lembrar esses números. Não vale a pena  fazer uma conta precisa, mas estimo que corresponderiam, hoje, a algo como R$ 2.500,00 e R$ 5.000 respectivamente. 

Decidi ir. Comuniquei a meus chefes, dois gaúchos: S e B. Um deles me disse na lata: "Bá, mas tu tem que ir, tchê!". Foi uma das atitudes mais honestas que presenciei no campo profissional. Tenho muitas histórias a contar do Sarah, algumas delas sobre o próprio concurso, por hora, basta dizer que em Brasília conhei S, minha colega de concurso, e comecei a construir minha família. 

Valeu a pena deixar de conhecer Paris. 

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