domingo, 2 de março de 2014

B'H. (1)

Minha história é longa e tortuosa, se o leitor quiser acompanhá-la, poderemos, no fim das contas, compartilhar questões fundamentais que - sabemos - constituem a matéria prima de uma vida bem analisada. 
Fico me perguntando: por onde começá-la e quando? Talvez por um episódio que aconteceu 5 dias atrás, e que espero não esquecer de mencionar mais tarde, porém, por uma questão de respeito à ordem da história, começo 3 mil anos antes, quando minha família - sim, essa é uma história de família - desembarcou em Sefarad (2), em uma embaixada do rei Shlomo (3).
Não! Isso seria recuar demais, vamos adiantar o relógio 2.000 anos e ver como ganhamos os "apellidos" (4) que hoje ostentamos. Estamos agora por volta do ano 1.000 da era comum, cavaleiros do norte da Europa tentavam tomar Eretz Yisrael (5) das mãos dos ismaelistas (6). Os invasores, de pele clara, ficaram conhecidos em torno do Grande Mar (7) como Franj ou Frandji (8), porque vinham principalmente de França.
Nessa época, vivíamos em Barcelona e, como éramos claros de rosto, na "Yudería" (9) passaram a nos chamar de Franch, quer dizer, Asquenaz (10). Sob pena de essa história se tornar tediosa, vamos dar outro salto, infelizmente agora, para uma ocasião dolorosa: o Tishá b'Av de 5253 (30 de julho de 1492), quando o edito medonho dos reis católicos nos obrigou a deixar tudo que tínhamos para trás e a seguirmos para o estrangeiro.
Nos muitos séculos que se seguiram, as chaves das portas das casas de onde saímos - que tomamos o cuidado de fechar bem fechadas - eram guardadas de par com a esperança de um dia retornamos à terra que nos acolheu por 2.500 anos. Essas chaves eram deixadas com herança, geração após geração, e constituíram nosso bem mais precioso. Infelizmente as da minha família se perderam nas atribulações do último século.
Caminhamos, fomos para Lisboa, passando por Finisterre (11), onde talvez tenhamos sido contaminados pela curiosidade de saber o que Hashem teria reservado para nós do outro lado do mar oceano, muito se diz, afinal, que Cristobal Colón (12) era um de nossos patrícios... Depois de uma recepção acolhedora na Lusitânia, a fúria antijudia se alastrou também por aquela terra - por influência das coroas unidas do país vizinho - e, assim, mais uma vez, nos mudamos, dessa feita para o norte, para terras asquenazes, chegamos a Amsterdã, nas Repúblicas Unidas (13).
Eis que um belo dia, repleto de esperanças, tivemos oportunidade de voltar a terras ladinas (14), voltar a escutar nas ruas a nossa língua em vez dos idiomas barbáricos que faziam doer nossos ouvidos; já estávamos, então, há duas gerações nos Países Baixos.
Cabe perguntar, e como foi isso?
Aconteceu de os Batavos (15) capturarem um entreposto português de açúcar na América do Sul e de lá fundarem uma cidade que, em homenagem a um de seus líderes, chamaram-na de Mauritstadt - Cidade Maurícia. Até hoje, em um museu construído sobre as fundações da sinagoga que deixamos para trás (16), há uma placa com o nome de um de meus "mayores" (17), um certo "señor" Manoel Franc. 

Hoje, o nome dessa cidade é Recife, voltaremos a falar dela.

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(1) Abreviação de Bendito seja o Eterno, em Hebraico.
(2) Nome hebraico da Espanha.
(3) Rei Salomão.
(4) Nome de família em espanhol.
(5) Terra de Israel.
(6) Árabes ou mais genericamente muçulmanos.
(7) Mar mediterrâneo.
(8) Cruzados.
(9) Bairro judeu.
(10) Referentes aos judeus do norte da Europa, os judeus espanhóis são conhecidos como sefaraditas ou sefaradim.
(11) Nome romano da Galícia na Espanha, literalmente "o fim da terra", é o ponto mais ocidental do continente europeu.
(12) Cristóvão Colombo.
(13) Países Baixos.
(14) Ladino é o dialeto falado pelos judeus sefaraditas, consiste em uma mistura de castelhano, catalão e português do século XVI, com árabe e hebraico.
(15) Natural dos Países Baixos.
(16) A primeira sinagoga das Américas TsurYisrael (O rochedo de Israel) na antiga Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus no Recife antigo.
(17) Antepassados em espanhol. 

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