domingo, 2 de março de 2014

Continuação. 12 de n

BH

Um novo assovio e o cão corre em direção ao seu dono, abanando o rabo e buscando aprovação com olhos suplicantes, distraído o homem lhe faz uma carícia na cabeça, o animal treme de satisfação.
Voltando-se para os prisioneiros, pergunta-lhes,com algo parecido com um sorriso no rosto: 
– Sois crentes da fé reformada? 
– “Ja” (1). – Responde um holandês.
– Não, meu capitão, somos judeus das Províncias Unidas, íamos de Mauritstadt para Amsterdã quando fomos sequestrados pelos espanhóis. – Disse, em francês, Manoel Franc.
A simpatia inicial se dissipou, agora, com o sol mais alto, o bucaneiro põe-se a apurar o resultado da expedição: uma vintena de espanhóis mortos contra nenhum dos seus. Um galeão espanhol afundado. Dois navios neerlandeses severamente avariados. A vila fora saqueada na véspera, os poucos habitantes que escaparam da investida noturna, correram para se refugiar no mato. Essa era, para ele, a perfeita definição de “sucesso”.
Em seguida, dá ordens de embarque a seus homens, e, voltando-se para os libertos determina:
– Os fieis em Cristo são bem vindos a bordo, os demais permanecem em terra.
– Não cometais tamanha injustiça, meu capitão! – exclamou Franc – Se aqui permanecermos, quando os espanhóis retornarem darão cabo de todos nós, homens mulheres e crianças. Podemos pagar-vos, desde já, um sinal pelo deslocamento e pela estada, quando chegarmos a nosso destino, nossos patrícios saberão ser generosos para convosco.
O francês deu de ombros.
Tomado de grande aflição, Franc faz nova tentativa: – “Êtes vous um homme de foi, mon captaine?” (2)
O francês, ele mesmo um foragido, hesita por um segundo e, naquele instante, revela uma centelha de humanidade. Aproveitando o ensejo, Franc continua:
– Vede, meu senhor, tenho comigo um Saltério (3), nele, meu povo ora é exaltado, ora repreendido, escolhei uma página ao acaso e deixemos que a Palavra indique o Justo no nosso caso. 

A ideia lhe ocorrera subitamente, a expôs de um só fôlego, em seguida, acrescentou: – “Está em castelhano, posso traduzir-vos ou podeis requerer a alguém de vossa confiança que o faça.”
O francês fez um sinal com a cabeça indicando que não seria necessário.
Manoel Franc tira do bolso do casaco um livro miúdo e com uma mesura o entrega ao capitão, este sorteia uma página e o devolve.
E Franc, então, lê:
“Ao mestre do canto, sobre Machalat, um Maskil (4) de David.
Os insensatos dizem em seu coração: ‘Deus não existe”.
Eles se corromperam e desprezaram a Justiça.
Não há entre eles quem pratique o bem.
Dos céus, o Eterno perscruta os homens para verificar se alguém se preocupa em buscar a Deus.
Mas todos se contagiaram com a depravação e não há um sequer que pratique o bem.
Acaso não se apercebem de seus erros os iníquos que devoram meu povo como se fora pão e que, e que não invocam a Deus?
Serão atingidos por um terror como nunca houve antes, pois o Eterno espalhará os ossos dos que te sitiaram, ó Jerusalém.
Ele os humilhará e os tornará objeto de desprezo.
Que de Tsion venha logo a salvação de Israel.
Quando o Eterno fizer retornar Seu povo, Jacob exultará e Israel se rejubilará.(5)
A praia ficou em silêncio, homens e aves emudeceram, até o mar se aquietou e as ondas silenciaram.

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(1) Sim em holandês.
(2) Sois um homem de fé, meu capitão?

(3) Livro dos Salmos.
(4) Formas musicadas dos Salmos que, infelizmente, foram perdidas.
(5) Salmo 53.

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