domingo, 2 de março de 2014

Continuação. 6 de n.

BH

A Bahia goza de sabida primazia na questão “nascimento do Brasil”. Muito justa a honraria, afinal, foi lá que o Almirante Pedro, filho de Álvaro, natural de Belmonte-Portuga (1), aportou em 22 de abril de 1500; a primeira missa na nova terra foi celebrada na Bahia.
São Paulo, entretanto, poderia reclamar a primogenitura. Diriam os paulistas: “não está escrito que um certo brado retumbante de um povo heroico foi ouvido, em primeiro lugar, às margens plácidas do Ipiranga?
“Nesse caso” – argumentaria o Rio de Janeiro – “é forçoso reconhecer que D. Pedro estava apenas de passagem por São Paulo, o centro político e militar do novo país, em setembro de 1822, estava esplendidamente aconchegado na Baía de Guanabara”.
Trata-se de uma discussão aberta, claro, pessoalmente, estou entre os que acreditam que o Brasil nasceu no morro dos Guararapes. Tudo que antecedeu às batalhas refere-se à colônia; tudo o que veio depois, consequência inescapável do seu resultado.
Em duas ocasiões, brasileiros – praticamente sem apoio da metrópole – lutaram contra soldados das Sete Províncias Unidas e venceram. Mais tarde, Portugal, restaurado de sua união com Castela, recebeu intacta sua rica colônia, porém, desde Guararapes, uma pergunta ficou sem resposta: qual o papel do colonizador nesta terra?
A desproporção de potencialidades, quando se compara a pequenina nação europeia –  lutando dia a dia por sua própria independência -  com seu gigantesco domínio americano é autoevidente.
Possivelmente, o obscurantismo dos governos ultramarinos portugueses, cujos reflexos se estendem até o presente, tenha sido provocado pelo reconhecimento precoce da insustentabilidade do império. Uma coisa é certa, no morro dos Guararapes, os brasileiros escolheram uma língua, uma religião e um particular modo de vida.

As histórias que contarei em seguida estarão carregadas de licença poética, mas se assentam sobre um incontestável fundo de verdade, como não sou historiador profissional, desfruto dessa liberdade. 

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(1) Em Belmonte, já no século XX foi descoberta uma comunidade de criptojudeus que conseguiu escapar ilesa das perseguições da inquisição e teve sua judeidade reconhecida pelo rabinato de Israel. 

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